A Sonda de Vineyard é um braço de mar que separa a ilha de Elizabeth e a parte sudoeste de Cape Cod da ilha de Martha´s Vineyard, ao largo do estado de Massachusetts, E.U.A.. Por terrenho, estes pescadores provavelmente alam a caça ao nascer do dia, no seu habitual dóri.
Os “smacks” eram barcos de pesca ingleses à vela cujo maior número se verificou durante o séc. XIX e se estenderam até à II Guerra Mundial. Grandes frotas destes barcos partiam de portos como Brixham, Grimsby ou Lowestoft. As suas velas eram normalmente de cor vermelha ocre, o que lhes dava uma imagem pitoresca a navegar. Muitos acabariam adaptados com motores a vapor após a guerra, mas nas últimas décadas alguns voltaram ao seu aspecto real, e funcionam hoje como embarcações de treino de vela.
“Ilhéu da Pontinha, Madeira, circa 1845” – George Schnery
A história deste rochedo de 178m2, 70 metros ao largo da ilha da Madeira, inicia-se em 1419, quando os capitães João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira, ao serviço de D. Henrique, fundeiam junto dele e nele controem degraus e um abrigo, que ainda hoje pode ser visto, o Forte de S. José. A história deste rochedo como país, tem início em 1903, quando o Rei D. Carlos I, antepassado de D. Renato Barros, I Príncipe da Pontinha, assinou uma Carta Régia (hoje guardada na Torre de Londres) que declara o território do rochedo onde se encontra o Forte de São José, como sendo soberano.
Desde que em 2007, D. Renato Barros anunciou a posse do mesmo, o assunto está a ser analizado pela comunidade internacional e Nações Unidas.
Esta belíssima foto publicitava o Dia do Pescador de Matosinhos, em 2007. É um perfeito exemplo para ilustrar a definição de “felicidade”. Provavelmente cada um de nós tem a sua definição para ela, mas muitos julgam que nascer e morrer descalço é obrigatóriamente uma vida infeliz. Viver na expectativa pode trazer tanta felicidade como viver na certeza, e o pescador certezas tem poucas.
Gostaria imenso de saber quem foi o autor desta foto.
Este museu situado em San Sebastian, no País Basco existe desde 1991 e tem por mote central actual a exposição “San Sebastian - Cidade Marítima”, expondo toda a história da cidade desde a presença romana até à actualidade. À margem da exposição, o museu mantém a sua actividade baseada nos propósitos para o qual foi criado, ou seja, o estudo e divulgação do património marítimo Basco.
Algumas das exposições temporárias apresentadas anteriormente foram por exemplo “Velhas Imagens Fotográficas do Litoral Basco”, “Arqueologia e Património Subaquático Basco” ou “As Embarcações Tradicionais Antes do Novo Milénio”, entre muitas outras. Várias destas exposições foram editadas e publicadas pelo museu.
Apresenta de igual modo programas educativos permanentes centrados nos motes de Artes de Pesca, Introdução ao Património Marítimo, As Rosas dos Ventos, A Caça à Baleia, entre outros. Situa-se na Casa-Torre do Consulado, um edifício com história junto às rampas do porto de San Sebastian (Donostia) datado de 1682 onde se fomentava o encontro de comerciantes, patrões e proprietários navais, bem como o melhoramento de portos e vias. Aquando das invasões Francesas de Napoleão, apoiado por Espanha, as tropas Anglo-Portuguesas em 1813 destruiriam vários edifícios na cidade incluindo o arquivo histórico local. Hoje o museu é o único edifício da época que sobreviveu e contém uma biblioteca com cerca de 3.000 livros, muitos deles centrados nos estudos Bascos.
Valerá por certo a pena a visita, para quem gosta de mar ou quer aprender sobre ele.
“Three-Master in Rough Sea, 1856” – Fitz Hugh Lane
Um dos motivos favoritos para vários artistas oriundos das costas da Nova Inglaterra (E.U.A.) era o mar, e neste caso o motivo do temporal e do homem nele envolvido. Curiosamente, embora não passe de uma representação, quem olha acaba sempre por tentar imaginar e perguntar-se o que terá acontecido ao navio.
«Foi num ambiente de muita emoção e alívio que os nove pescadores foram recebidos ontem ao final da tarde pelos familiares, em Caxinas, Vila do Conde, depois de terem sido resgatados pela Força Aérea a 300 quilómetros ao largo da Figueira da Foz, local onde o barco em que seguiam – o ‘Luís Fortunato’ – se afundou após ser levantado no ar por uma onda de seis metros.
'Meu filho, não voltes para o mar', disse, banhada em lágrimas, a mãe de um dos tripulantes da 'motora' que se partiu e foi ao fundo pouco depois das 23h00 de ontem, ao cair 'em falso' de uma onda com mais de seis metros.
A chegada às Caxinas do autocarro da Câmara do Montijo, em que os pescadores viajaram desde a base da Força Aérea, foi saudada por cerca de três dezenas de familiares que, ansiosamente, esperavam junto à Igreja do Senhor dos Navegantes.
'Isto foi um milagre muito grande. Quando soube da notícia desmaiei e só consegui sossegar quando ouvi a voz do meu filho ao telefone', disse ao CM Assunção Marques, mãe do pescador Bruno Marques.
Já Maria das Dores Fangueiro, mãe de outro pescador, Claudino Manuel, falou de 'um susto de morte', referindo que quando lhe chegou a notícia do naufrágio, pelas 06h30, 'a primeira coisa que me veio à cabeça foi que tinham morrido todos'.
'Felizmente Deus esteve do lado deles. Obrigado Senhor dos Navegantes', disse Maria das Dores, abraçando emocionada o filho.
O dono do barco, Manuel Fortunato, realçou que 'o importante é que ninguém tenha morrido'. 'Quero agradecer à Força Aérea, à Associação dos Pescadores, à Câmara de Vila do Conde e à tripulação do barco ‘Pereira e Moça’ [barco que prestou auxílio] porque a eles se deve a vida destes homens', disse.
Claudino Manuel, Bruno Marques, Francisco Xavier, António Tato, Carlos Manuel (mestre do barco), António Cascão, Vítor Vieira, Tiago Novo e Salvador Craveiro tiveram a sorte que poucos têm nestes casos. O barco foi ao fundo e conseguiram escapar ilesos. O presidente da Câmara de Vila do Conde, Mário de Almeida, falou de 'uma grande sorte, quase um milagre'.
PORMENORES
AGRADECIMENTO
Na missa das 18h30 de ontem, o pároco das Caxinas, padre Domingos Oliveira, que em 34 anos já sepultou 77 pescadores, agradeceu a Deus a boa sorte dos nove homens.
HABITUADOS À TRAGÉDIA
O povo das Caxinas já não estranha as más notícias e as mortes dos homens que vão para o mar. Desta vez, rejubilaram: os pescadores salvaram-se todos.
DUAS HORAS À PROCURA
O helicóptero da Força Aérea sobrevoou a zona do naufrágio durante mais de duas horas até detectar os pescadores.
NAVIO JAPONÊS SOCORRE SETE
Os dois primeiros homens foram resgatados pelas 05h45, depois do helicóptero da Força Aérea os ter procurado durante duas horas. Dado que o combustível estava a esgotar-se, tiveram de regressar ao Montijo, mas deram as coordenadas a um navio japonês que se encontrava na área e que recolheu do mar os restantes sete homens. Quando o segundo helicóptero chegou os sobreviventes foram resgatados pelo mesmo sistema que os anteriores: um recuperador-salvador desceu até eles e recolheu-os um por um por intermédio de um cabo de aço e de um colete. Chegaram ao Montijo, pelas 13h45.
'OPERAÇÃO COMPLEXA' DEVIDO AO MAU TEMPO
'Foi uma operação complexa', contou ao CM o piloto do primeiro helicóptero, capitão Marco Casquilho, que chegou ao local do naufrágio cerca das 05h45. 'Estava muito vento, na ordem dos 60 km/h, e a ondulação também era forte, com ondas de quatro metros e meio, e era ainda de noite, o que dificultou bastante o resgate', explicou. Foram estas condições as responsáveis pelo afastamento das duas balsas salva-vidas do local original do naufrágio.
O piloto lembra ainda que os dois homens que resgatou 'estavam muito abalados, mas bem de saúde, pois as balsas estavam bem equipadas'. O tenente-coronel António Moldão foi o segundo piloto a partir para o local do incidente, onde resgatou os restantes sete homens, já a bordo de um cargueiro japonês, mobilizado para o socorro.
Ontem, na Base Aérea nº 6, no Montijo, os nove pescadores foram recebidos pelo armador e por José Festas, presidente da Associação Pró-Maior Segurança dos Homens do Mar, que garantiu que foi 'a calma que tiveram e o facto de o navio estar muito bem equipado com dispositivos de segurança' que levou a que tivesse sobrevivido a mais de oito horas no mar.
Na base, os nove homens tomaram banho, vestiram roupas da Força Aérea, almoçaram, tiraram uma foto de grupo com os pilotos, e seguiram de imediato viagem para Vila do Conde num autocarro.
UM MILHÃO DE EUROS AO FUNDO
O ‘Luís Fortunato’, com vinte metros de comprimento, saiu a primeira vez para o mar em meados de 1996 e naufragou a meio do chamado tempo útil de vida, que, neste tipo de embarcações, é de 25 anos.
Novo, custa 'para cima de um milhão de euros', diz o mestre José Festas, da Associação dos Pescadores das Caxinas.
No rol de prejuízos, há ainda a juntar as cerca de sete toneladas de pescado, na maioria espadarte, que seguiam nos porões.
A 'motora', como chamam os pescador a este tipo de embarcação, possuía todo o equipamento necessário para a pesca em alto-mar.»
Uma ruela na comunidade piscatória de Newlyn, na Cornualha, a ponta sudoeste de Inglaterra. O nome significa na língua local “baía da frota de barcos” e da vida com os barcos se desenvolveu. É pena não ser a cores, para ver a cor do barco estacionado em frente à porta.
Obra que imortalizou internacionalmente a pesca do bacalhau pelos pescadores de Portugal nos inícios dos anos 50, sobre ela já escrevi várias vezes, mas cá fica agora um pequeno artigo “oficial” sobre o livro. O autor, Alan Villiers, embarcou no “Argus” em Lisboa no princípio de 1950 para uma viagem de 5 meses a documentar todo o processo da campanha. Esta é a sua sinopse:
“A Campanha do Argus, de Alan Villiers, é um clássico da literatura marítima mundial. Numa escrita límpida e envolvente, este oficial da Armada australiana, presença assídua nas páginas do National Geographic Magazine do segundo pós-guerra como repórter das “coisas do mar”, escreveu uma narrativa de viagem de um dos mais belos veleiros da frota bacalhoeira portuguesa, o “Argus”. A convite de Pedro Teotónio Pereira, embaixador português em Washington, na Primavera de 1950 Villiers embarcou com os pescadores portugueses. Durante cinco longos meses, viu e registou a dureza da “faina maior” com o sentido de a documentar. Naquele tempo, a pesca do bacalhau por “homens de ferro em navios de madeira”, a mítica “frota branca”, era a última grande actividade económica que fazia uso da navegação à vela para viagens transoceânicas. Da viagem única que fez, de Lisboa aos bancos de pesca da Terra Nova, Villiers compôs um tríptico que correu mundo: um livro (com edição original em inglês, em 1951, e tradução portuguesa meses depois), um filme e um magnífico álbum de fotografias. A projecção internacional do livro foi tal que teve tradução em mais de uma dezena de línguas. Reeditá-lo a mais de cinquenta anos da primeira edição, com um preâmbulo contextualizador ilustrado com belas imagens e partindo de uma nova tradução do original, é um acontecimento cultural da maior importância. Além de um belo e minucioso memorial da pesca do bacalhau com dóris de um só homem, A Campanha do Argus permite entender os múltiplos significados deste património marítimo singular e desvendar a relação interessada do Estado Novo e do seu aparelho de propaganda com o drama épico da pesca do bacalhau”.
Curiosamente, a obra foi reeditada há um par de anos atrás por duas vezes. Por isso mostro ambas as capas, a 1ª a vermelho de 2005 e em 2006 foi lançada a 2ª a preto e branco (letras a ouro, como merece) com prefácio de Àlvaro Garrido, actual director do Museu Marítimo de Ílhavo. Adquiri a 2ª edição e em breve pegarei nele com o tempo suficiente para o ler “de enfiada”, pois uma obra e tema deste tipo não gosto de o ler “aos soluços”.
Deixo um possível link onde poderá ser adquirido, no entanto é o livro sobre a pesca do bacalhau mais fácil de comprar, pois é vendido por inúmeras livrarias.
Docas do porto de Baltimore, E.U.A. na década de 50 e os rebocadores efectuam manobras junto a um cargueiro. Uma imagem muito diferente do tempo de Baltimore, quando recebia os velozes “clippers” vindos de todo o mundo e enchiam a paisagem local com dezenas de mastros.
«Se houver algum lugar ao longo da costa Atlântica onde o mar é mais bruto que nos Baixios de Nantucket, então por certo ninguém lá quererá ir. Ao largo de Point Judith (pequeno cabo em Rhode Island, a nordeste de Nova Iorque, E.U.A.) é mau, mas Point Judith é um lago de Verão comparado com Nantucket. No entanto os velhos navegadores, que mais tarde escreveriam livros, não são de acreditar no seu todo. Quando afirmam que “o mar corria à altura de montanhas”, estão a exagerar. O mar nunca corre à altura de montanhas. Quando corre à altura do quebra-mar, as coisas já começam a tremer e se alguma vez fosse como montanhas, um navio mostraria toda a sua quilha. O velho marinheiro, tal como o velho residente que naquele canto viveu durante 47 anos é uma fraude.
Pode-se dizer que à pesca do bacalhau naquelas difíceis águas rasas de Nantucket, era costume levantar cedo pela manhã. Um homem que se encontre abaixo do convés em cima de uma tábua, com as roupas molhadas, fumegantes e de cheiro a peixe, com pequenos coágulos de sangue nos dedos e constantemente entre o dormido e a acordado para evitar que o navio o atire para fora da tábua, não pode, de modo algum “levantar-se”, no entanto estávamos sempre acima no convés às 3:30. Então a pesca teve início. Não é de supor que qualquer respeitável bacalhau esteja a pé àquela inconveniente hora. O peixe que apanhávamos àquela hora tão cedo devia ser aquele que estava de regresso a casa da noite anterior. Mas eles mordiam e o primeiro peixe era apanhado ao anzol.
Numa manhã, enquanto viviamos este prazeroso estado de incerteza sobre se no próximo minuto estaríamos de pés para o ar ou de cabeça para baixo, o vigía (havia sempre um vigía quando nos encontrávamos nos baixios) acordou-nos a todos apressado, tocando o sino de nevoeiro selváticamente e berrando furioso para o Capitão. Pusemo-nos todos acima do convés num minuto. O nevoeiro era tão espesso que não conseguíamos vislumbrar o vigía à proa, nós na popa a cerca de 12 metros. Não era uma daquelas névoas que se pode cortar com uma faca – era demasiado grossa para isso. Tinha-se de serrá-la em blocos. O Capitão pôs-nos a todos consternados. “Vem um vapor mesmo na nossa direcção!”, gritou ele. Encontrávamo-nos mesmo na rota dos vapores e o ouvido treinado do Capitão havia captado o som do grande assobio de nevoeiro de um deles, que mal se ouvia através da névoa. Era claro que da parte deles não conseguiriam ouvir o nosso pequeno sino de nevoeiro, que dez vezes mais alto pouco se ouviria.
O vigía manteve o sino a bater e dois da tripulação apressaram-se a trazer dos seus aposentos duas buzinas de latão, soprando-as bravejantes. O assobio chegava perto e mais perto. O vigía do vapor não nos conseguia ver até estar a uns 6 metros de nós e o navio a vapor não podia ser parado numa dúzia dessas distâncias. E o assobio chegava mais e mais perto. Um bote foi de imediato largado à água e dois tripulantes saltaram para dentro agarrarando nos remos, de modo a estar preparado em caso de acidente. Se o vapor embatesse na nossa pequenina escuna, iríamos com ela e só com muita sorte nos safaríamos. E alguns vapores têm o hábito pouco amigável de não pararem para ver se magoaram alguém. O nosso estado subiu dos 6º abaixo de zero para um valor mais confortável quando o navio-vapor assobiou duas vezes. Tal dizia-nos que havia ouvido os nossos sinais e que amavelmente passaria sem nos cortar em dois. Um minuto mais tarde uma grande mancha escura passava pelo nosso bombordo. Era o grande fantasma negro de um grande navio negro a surgir do nevoeiro e a desaparecer de novo nele antes que pudéssemos dizer quem era ou sequer em que direcção seguia.
Então os pescadores riram e diziam em brincadeira que se o navio nos tivesse embatido teria ele ido ao fundo. Era bom vê-los a rir; mas não se viam sorrisos antes do sinal de reconhecimento do navio.
Então a pesca teve início. Estava um mar tremendo e o pequeno barco saltava acima e abaixo ao lado da escuna, por vezes tão abaixo que mal o víamos e outras tão acima que vinha ao nível do convés. Todos nos pusemos nas nossas posições e preparamos para começar. “Hoje não vais ter nenhum pequeno-almoço”, disse o Capitão ao estranho connosco, à medida que remávamos para longe do navio, largando um pequeno rasto de anzóis iscados.
“Porque não?”
“Porque vais enjoar”.
E parecia realmente que sim. O barco sacudia acima e abaixo, pondo-se em todas as posições menos na horizontal e cobrindo-nos constantemente com o spray do mar. Perdemos a vista a tudo. Se um homem enjoa por não ter nada fixo no qual pôr a vista em cima, então o momento era chegado. Mas essa teoria é absurda. Um homem pode estar no convés de um navio ao largo de Sandy Hook (Connecticut) com a vista fixa em terra firme e enjoar. No entanto aguentámo-nos até chegarmos ao fim da linha do bacalhau. Então, como tínhamos de parar o barco, depressa entramos no rolar do mar e aí foi o pior. Enjoou então um tripulante, um dos homens de mais idade, que poisando o seu remo, descarregou as emoções.
Havia um estranho a bordo, um inexperiente que não distinguia um enfrechate duma adriça e não tinha a certeza sobre a diferença entre um brigue e uma barca, que havia sido atiçado e acautelado todos os dias e avisado que se iria abaixo “ao largo nos baixios”, ao qual haviam dito como lutar contra o enjoo, como deveria comer, comer e comer até entalar e de como a tripulação não teria tempo para cuidar dele se adoecesse; para este novato encharcado, sentado confortavelmente à proa, era bálsamo de Gilead (região de Israel) bem passado ver aquele velho marinheiro debruçar-se na amurada do barco a oferecer a ceia da noite anterior aos peixes. Em pouco tempo se recompôs, mas fora um verdadeiro caso de enjoo de mar.
Esta pescaria inicial era só um aperitivo antes do pequeno-almoço. 25 ou 30 peixes estavam na linha quando foi alada para dentro e a maioria era tão vivaça que foram postos no poço (poço com água no centro da escuna para manter o peixe vivo até terra). À chegada à escuna, o pequeno-almoço estava na mesa. Era o velho costume: bacalhau salgado, principalmente, “seleccionado” como eles dizem e cozinhado com leite e batatas. Nada fazia um destes cozinheiros dos barcos cozinhar um peixe fresco. Nada a não ser bacalhau salgado, que dá a um homem uma sede intolerável e sem água à medida para beber. A variedade requerida ao pequeno-almoço, contudo, não fazia grande diferença como seria de supôr. Um pequeno preconceito do cozinheiro em lavar as mãos ou pentear o cabelo era uma barreira efectiva a um apetite aberto. Não era o mês de lavagem da toalha de mesa e podiam encostá-la ao alto contra um canto sem problema.
O programa de cada dia de trabalho era começar a pescar bacalhau cerca das 4 da manhã até às 7. De seguida, pequeno-almoço; pescava-se até às 11 por bacalhau e alabote; jantar às 11; pescava-se bacalhau e alabote até às 5; ceia e pescava-se bacalhau até pouco depois do anoitecer. O bacalhau também morde depois do anoitecer, tal como de dia, mas os homens precisam de algum descanso, pois pescar ao bacalhau não é brincadeira. Normalmente 4 homens saíam num bote e 2 ficavam a bordo da escuna, parte em vigía, parte à pesca ao alabote. Apanhar alabote é melhor desporto que bacalhau. Não mordem tão depressa, pela mesma razão que ovelhas negras não comem tanto como as brancas; mas quando se apanha um, é em grande. O alabote dá uma forte luta e nunca é posto a bordo sem contenda. As beiras das amuradas da escuna estão cortadas em pequenos lanhos, como que entalhadas com uma faca, nos pontos onde a linha passava em luta com um alabote que tentava fugir.
É um dos truques preferidos dos pescadores quando têm um novato a bordo, atar um bacalhau à sua linha e às escondidas largá-lo borda fora. Um bacalhau escalado e salgado tem a mesma forma de um alabote e quase sempre um noviço é enganado. O truque foi levado a cabo, com grande sucesso com o reporter representante do Times (jornal). Um estranho é também provavelmente enganado pela sua chumbada, que pesa por vezes 3 a 3 quilos e meio e faz com que a linha pareça ter peixe pesado.
Numa certa 4ª feira de manhã, o vento estava “lindo e consideravelmente forte”, como dizia o vigía e o mar bastante bravo. Havia passado um temporal e a pequena escuna saltava e rolava tremendamente. O vento havia limpado a névoa e na claridade do Sol, podia ver-se a Ilha de Nantucket. Parecia desolada e árida, mas todos os sítios parecem desolados e áridos quando pela primeira vez vistos a partir do mar, pois só se consegue ver terra; as casas e árvores são demasiado pequenas para serem reconhecidas. Os homens acabavam de se preparar para sair no bote com a linha do bacalhau. O estranho também era suposto ir com eles. Mesmo vislumbrar o pequeno barco era difícil. Num momento estava a bater contra o costado da escuna e no outro estava a uma dúzia de jardas, na crista de uma onda que ameaçava levá-lo para longe da vista completamente.
“Sobe a bordo”, disse o Capitão ao estranho, que se perguntava a si mesmo como fazê-lo. Era fácil de dizer, mas algo difícil de levar a cabo. A única maneira era saltar para dentro, Requeria um bom cálculo, de modo a acertar no sítio certo do bote e no momento correcto. Acertar-lhe de lado podia fazê-lo virar-se; e saltar um segundo mais tarde podia estar o bote um pouco afastado e a voltar rapidamente acertando em quem saltasse na cabeça. Dois homens já estavam no barco com os remos e os outros 3 saltaram com sucesso, caindo a meio do barco em segurança. Duas horas mais tarde o barco continha perto de 60 bacalhaus, pesando pelo menos ¾ de tonelada. O peso dos 5 homens no barco fazia a sua carga chegar à tonelada, talvez mais. A navegar de regresso à escuna, abateu-se sobre eles um mar mexido, meteu água e afundava-se num ápice. Mas a catástrofe não era má de todo. O bom velho barco tinha em si madeira suficiente para flutuar com mais de uma tonelada de carga e quando a beirada chegou à linha de água, parou. Só precisava que lhe tirassem a água de dentro, um duro mas eficaz processo mas cedo voltou a flutuar. No total dos danos, 5 mergulhos em água gelada e uma dúzia de bacalhaus a flutuar.
Durante 10 noites e 11 dias estivemos ancorados nos baixios de Nantucket. Nesse tempo, “nós” apanhamos 1.450 bacalhaus e cerca de 60 alabotes. Ao fim da tarde do 11º dia, as duas âncoras foram içadas a bordo, as velas puxadas para cima e apontámos a proa em direcção a casa. Antes de escurecer estávamos a Oeste de Nantucket. O mesmo vento Leste que que durante tanto tempo nos havia mantido prisioneiros era agora o nosso melhor amigo. A viagem foi sempre a direito e sem paragens. Na alvorada do dia seguinte encontrávamo-nos a Oeste de Point Judith. Esquivámo-nos através das calotas brancas sem problema, passando Stonington, New London, Noank e várias vilas de Long Island. Uma prosaica meia-Lua olhava para nós nessa mesma noite quando atracávamos no Mercado de Fulton. A viagem terminava.
Tinhamos ao todo cerca de 18.800 quilos de peixe, 13.280 de bacalhau e 5.520 de alabote. Fora uma excepcional campanha. No mercado pagam cerca de 4 cents. por quilo de peixe, embora depois o vendam à comissão. O lucro total foi mais de $800 dólares, com os quais todas as despesas da viagem tinham de ser pagas e os donos do barco receberiam o restante.»
Publicado no “The New York Times”, 23 de Junho de 1878.
Nesta foto colorida artificialmente, pescadores descarregam bacalhau no areal em 1925. Situa-se em Percé, na Península de Gaspé, Quebec, Canadá, junto da costa Leste. Embora não tenha hoje mais de 3.500 habitantes é bastante conhecida e procurada por turistas devido ao grande rochedo no mar em frente.
“San Giorgio Maggiore, Venice” – Edward William Cooke
Embora não dê essa impressão a muitas pessoas, Veneza é uma cidade marítima, quase que a “flutuar” no Adriático. Tive o privilégio de a conhecer há 2 anos e ver ainda alguma da actividade piscatória, especialmente num par de ilhas em redor. A cidade em si sempre incluiu essa vertente, que se perdeu quando o turismo cresceu nestas últimas décadas. Numa cidade “aquática”, onde os barcos são o meio de transporte para tudo, não vi nenhum barco à vela, e esses encheram a cidade através dos séculos. Vi foi muito turismo de barco a motor desenfreado, a cortar constantemente as águas... e o silêncio de uma cidade que até nem tem carros.
Uma foto da barca “Wild Wave” em 1890, que permite admirar em doca seca as dimensões e forma destes navios. Foi construída em 1875 em Liverpool, Inglaterra, para uma companhia de Hobart, na ilha da Tasmânia (Austrália). Em 1923, em viagem de Melbourne para Adelaide, encontrou forte temporal e tentou abrigar-se na costa Norte da Tasmânia, aí fundeando. Mesmo assim, acabou por ser arrastada para a costa, onde naufragou. Toda a tripulação se salvou, passando as semanas seguintes e desmantelar o navio de tudo quanto tinha valor.
A pesca ao bacalhau à linha foi o método primordial utilizado desde há inúmeros séculos, fosse no Mar do Norte, fosse mais tarde na Terra Nova, no entanto essa mesma pesca desenvolvia-se com os pescadores posicionados junto às amuradas dos navios, de onde lançavam as linhas. Por volta do séc. XVIII aparece um novo método, no qual pequenos botes saíam do navio com um par de homens cada e os mesmos lançavam o seu aparelho de pesca onde melhor entendessem. Há quem diga que os portugueses “inventaram” o uso desses botes, os dóris, há quem afirme que foram os norte-americanos, enfim, a discussão do costume. Há pescadores portugueses que tratam os dóris por “douros”, associando-os aos barcos fluviais do rio Douro, de método de construção semelhante, possível origem deste hoje afamado bote. Mas barcos deste tipo, de fundo chato e igual construção, são usados milenarmente em vários rios da Europa e como tal, a discussão seria mais alongada. Certo é que o dóri é um barco de rio, adaptado à pesca do bacalhau.
A verdade é também que a tão famosa Frota Branca não seria a mesma e tão admirada, se os portugueses tivessem apostado fortemente nas artes das redes ou arrasto, como todos os outros países o fizeram desde os anos 30. Frota Branca é em grande parte sinónimo de enxames de “barquinhos” de velas coloridas, com um solitário pescador a enfrentar o mar aberto, num misto de bravura e obrigação, em duro labor. Polvilhavam todos os anos as águas do Atlântico Norte e todo o seu universo de campanha era diferente dos navios de outras artes. Diminuindo o seu número com o passar dos anos, só em 1974 acabaram esta arte de pesca.
Esta bem vermelha vela entroniza essa arte única da pesca à linha com dóris, e o papel fundamental desses “barquinhos” na memória que fica daqueles tempos, dezenas deles em cada navio, e no qual cada pescador traçava a sua rota.
Será nas Caxinas? Certamente que não, mas todos os elementos são familiares a muitos dos seus habitantes. Também eu fui pequeno marinheiro nos anos 80, com barcos feitos de lata, ou pedaços de tábuas das caixas do peixe, e de todos os brinquedos que tive, foram eles os mais especiais, porque os fazia de início com o meu pai e depois sózinho. Eram criações minhas e não havia brinquedo comprado numa loja que os superasse. Como foi divertido crescer daquela forma... entre Póvoa e Vila do Conde.
Tanto o pescador como o barco olham o mar de frente e um não existe sem o outro. A questão é perceber se o barco não passa de um objecto de trabalho, ou é o centro à volta do qual gira um pescador. Uma questão de filosofia, talvez, mas toda aquela amálgama de madeiras bem trabalhadas e unidas teve longa vida antes de ser cortada. É algo a meu ver que traz um contacto diferente com o mar, pois um barco em ferro... fibra... plástico, não tem os veios nem os nós da madeira para percorrer com os olhos, para conhecer como as rugas das mãos.
Esta é uma das curiosidades que tenho descoberto ao investigar a pesca do bacalhau por Americanos e Canadianos. O dóri, bote essencial à pesca à linha, segundo dizem originou parte do nome deste peixe no outro lado do Atlântico, "John Dory". Ora em Portugal, pelo menos nas Caxinas conhecêmo-lo por “peixe-galo” e sempre o apreciei lá em casa.
Fica a bonita gravura deste peixe que acaba por estar ligado ao bacalhau pelo nome e a algum pescador de dóris de nome John (digo eu). Curiosidades perdidas no passado.
Esta obra de imediato me faz recordar fotos antigas da Póvoa, de inícios do séc. XX, quando os banhistas a ela vinham veranear. Nessas fotos, várias vezes se pode ver a presença dos pescadores, que em tempos de transição (seriam totalmente “expulsos” dessas praias nos anos seguintes), aproveitavam o turismo para ganhar algum dinheiro extra, levando turistas nas suas catraias a dar uma volta de mar, ou usavam as suas catraias como plataforma para banhos mais ao largo. Hoje em dia, ao que parece, tal é impensável, e nem uma nesga de espaço restou, para a presença de um daqueles barcos no areal.
A “Companha” como Sistema Social”, é o título deste estudo de Knut Weibust, para o Museu Marítimo da Noruega, em 1958. Fica a dúvida se o estudo se centra somente na arte-xávega representada na foto da capa, ou vai mais além. É habitual as comunidades piscatórias terem sido estudadas pelo seu sistema social, hierarquias e formas de suporte. Normalmente vistas como “fechadas”, o comportamento dentro delas sempre se demarcou pelas diferenças ao resto do país. Numa estrutura social onde o sucesso de pesca farta era irmão do fracasso da invernia, ou destruição do peixe jovem, levada a cabo pela pesca de arrasto, o crime era quase inexistente e a fome mitigada internamente.
Barcos Tradicionais - Taxas portuárias 90% mais baratas.
“Portos de Galicia reduce un 90% as taxas para embarcacións tradicionais.
Como xa anunciara recentemente, Portos de Galicia rebaixa as taxas para as embarcacións tradicionais. Onte 30 de decembro publicouse no DOG a Lei de Orzamentos de Galicia para o 2010 que modifica a Lei 6/2003 de Taxas, etc. introducindo unha bonificación das taxas portuarias para as embarcacións tradicionais do 90%. Transcribimos a redacción final do artigo:
e) ´Nas concesións ou autorizacións de dominio público portuario outorgadas a entidades náuticas ou culturais sen ánimo de lucro para actividades de ensinanza da náutica deportiva ou de conservación ou recuperación de embarcacións tradicionais terá unha bonificación do 90% no que se refire exclusivamente a estas actividades, sempre que non sexan obxecto de explotación económica´.
Esta é unha excelente noticia pola que levamos traballando e agardando moito tempo.”
Comentário - , 01/01/2010 - 14:17.
Felicidades. Este año ha de ser, de una vez por todas, el año en el que las embarcaciones tradicionales tengan por fin el reconocimiento debido y el apoyo legal que merecen. No peco de exagerado, ni mucho menos, si os digo que este paso que habéis conseguido en Galicia es un paso histórico. El primero del año y que os ha costado años conseguirlo. Pero el primero, y estoy convencido que no será el único. Gracias a todos vosotros por tantos años de trabajo.
Josep-Anton
Comentário - , 03/01/2010 - 14:12.
Parabéns!
No entanto, acho que para além deste primeiro passo, agora dado pelas autoridades marítimas, deveriam era dar um outro (talvez na mesma percentagem de 90%), como subsídio a quantos com as suas Tradicionais Embarcações, preservam todo o magnífico património desse povo marinheiro.
Viva a Cultura Costeira
Albino Gomes
Vila do Conde
Cometo a ousadia de transcrever o artigo recente da Federação Galega pela Cultura Marítima e Fluvial, pois a batalha por eles ganha neste aspecto merece-o. É a partir de agora 90% mais barato ter um barco tradicional na Galiza, em taxas portuárias. Relembro por exemplo que (ao que sei), se eu pretender ter uma típica catraia poveira, até 6 metros de comprimento, amarrada na marina da Póvoa de Varzim, terei de pagar 575 Euros por ano. 90% mais barato seriam apenas 57,50 Euros/ano. Tendo a lancha do alto “Fé em Deus” cerca de 12 metros... pagará actualmente 2.100 Euros/ano, suponho. Esta diferença significa muito quando alguém decide mandar construír um barco típico da sua terra, o qual promove e muito a sua comunidade, directa ou indirectamente, algo que os munícipios teimam em não perceber e apoiar.
A Galiza continua a lutar e a ultrapassar dificuldades no reavivar da sua Cultura Costeira, mas o Norte de Portugal, antigo Sul da região galaica, de igual cultura e língua, não lhe segue o exemplo. Que a nova catraia em construção em Vila do Conde já aqui noticiada e revelada pelo amigo Albino Gomes (autor do 2.º comentário), ajude mais um bocadinho a abrir os olhos de população e autarquias, mas muito poucos são os “remadores” que vamos tendo.