“Seascape with Dories and Sailboats” – Alfred Thompson Bricher
Esta artista era fascinado pela fronteira entre o mar e a terra, pois elaborou dezenas de obras como esta, quase sempre em costas rochosas. Parte do título nesta, refere “dóris” na praia, o que é frequente no idioma inglês para pequenos botes. Para os portugueses, dóri, na forma que bem conhecemos, apenas tem ligação à pesca do bacalhau, mas antes desse tipo de botes, já o bacalhau se pescava fora do navio-mãe em skiffs por alturas do séc. XVII, com 3 ou 4 homens por cada barco.
Neste postal antigo, de novo se vê a importância dos pequenos dóris na economia local das ilhas de St. Pierre e Miquelon, Sul da Terranova. Eram autênticas frotas de dóris, que não precisavam de se afastar muito da costa para pescar bacalhau, o qual se reúne em bancos próximos da costa destas ilhas. É bonito ver tantas velas armadas, a lembrar o mesmo a bordo de bacalhoeiros portugueses durante as campanhas.
A primeira menção a ele vi-a num artigo recente do blog “Santa Maria Manuela”, e pouco depois era-me indicado por um “amigo”, a quem agradeço, pois foi o que bastou para escrever umas linhas sobre esta fantástica escuna. Trata-se da escuna “Elena” (site oficial), cujo texto abaixo descreve mais em pormenor e saliento a 3ª foto, onde é possível ver o ex-bacalhoeiro português “Santa Maria Manuela” (pela popa do “Elena”), ainda em trabalhos de completo restauro, nos mesmos estaleiros da Galiza onde este novo Elena” nasceu (foto 1).
Dificilmente se poderá afirmar que este foi “dinheiro mal gasto”, pois recriar fielmente a memória do mar também desta forma, merece o maior louvor. É sem dúvida uma embarcação de luxo, e quando vejo gente estrangeira a transformar parte das suas fortunas nisto, penso nas fortunas de muitos portugueses... . É que Portugal é(ra) um país de marinheiros, mas a última referência que tenho e conheço de um caso semelhante, é a da família d´Orey (também ligada à pesca do bacalhau) com o seu iate “Irma” (foto 4) no longínquo ano de 1919. E assim, seja rico seja pobre, nos afastamos do Mar clássico que nos engrandeceu.
A firma Pascoal & Filhos com os dois ex-bacalhoeiros de 1937 e 1939 que tem hoje em mãos, “Santa Maria Manuela” e “Argus”, julgo que percebe e bem este moderno mal português, procurando contrariá-lo. Quem lhes seguirá os passos?
«Há algo de indelével e evocativo nas grandes escunas de competição dos inícios do séc. XX. Construídos à mão pelos mais hábeis artesãos navais, numa era em que um yacht veloz era também um belíssimo yacht, o “Elena” era um dos mais rápidos quando foi lançado à água em 1911. Foi uma gloriosa prova para Morton Plant que, em 1910, comissionou o “Elena” com uma simples frase: “Construa-me uma escuna que ganhe!”. Nathanael Herreshoff fez-se ao desafio, melhorando o seu desenho do “Westward”, construído apenas um ano antes. O “Westward” era já um vencedor, mas Herreshoff estava convencido que poderia melhorar ainda mais o desenho.
Acima da linha-de-água, o “Westward” e o “Elena” eram idênticos. Abaixo, contudo, ao “Elena” foi dada uma quilha ligeiramente mais cheia, baixando o seu centro do lastro e melhorando a manobra a sotavento. Esta escuna foi lançada no ano seguinte e logo venceu as várias regatas contra a nata das escunas americanas de então, como o “Westward”. Dezassete anos mais tarde, surgiria a maior vitória de todas: a travessia do Atlântico.
Sendo uma história de ambição e sucesso desde as primeiras décadas do séc. XX, a narrativa encontra eco nos primeiros anos do séc. XXI. Foi no ano de 2002 que o “Eleonora” foi construído, numa fiel reprodução do “Westward”. O Eleonora já impressionou a fraternidade das regatas e é esperado que o “Elena” traga a rivalidade mas também a camaradagem que cruzou os oceanos nos anos 1920s e 30s.
Sob uma nuvem de 1.000 metros quadrados de vela branca e sobre um amplo convés em madeira de teca, está uma experiência de navegação à vela como poucas antes dele. Meticulosamente construído conforme o desenho original de 1910, o novo “Elena” corta através das ondas com a graça de tempos já idos. Contudo, este é um navio da idade moderna, com o mais recente equipamento de navegação e comunicação, sistemas de lazer e ar condicionado, que tornam a sua manobra serena, sem diluir a emoção da vela tradicional.
Este “Elena” moderno foi construído e lançado à água na Galiza em 2009, para um comprador inglês, com o casco em aço, segundo 320 planos desenhados à mão e fornecidos pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts, em Boston, E.U.A., bem como informações dos escritórios de design da família Herreshoff em Bristol, estado de Rhode Island.»
Algumas especificações do "Elena":
Tipo: A Class Racing Schooner
Designer: Nathaniel G. Herreshoff, 1911/2009
Arquitecto Naval: ACUBENS Naval Architects Madrid
Construtor: FACTORIA NAVAL DE MARIN Galicia, Spain
Comprimento total: 55.00 m, convés: 41.60 m, linha-de-água: 29.60 m
Boca: 8.14 m
Pontal: 5.20 m
Mastro Principal: Total acima de linha-de-água: 42 m
Área total de velame: 1.180 m2
Total Downwind: 1.800 m2
Tripulação: 8 em 5 cabines, passageiros: 10 em 5 cabines
Propulsão: motor MAN V12 D2482LE 600 cv @ 1.800 rpm
texto – adaptado / traduzido do site oficial do “Elena”.
fotos 1+2 - site oficial do “Elena” - ConceptWorks
foto 3 – Francisco Paião, blog Santa Maria Manuela
Uma praia em Nassau, onde provavelmente à sombra do penedo estará representado o autor da obra. A hoje capital das Bahamas, foi completamente incendiada pelos espanhóis em 1684 e mais tarde reconstruída, em 1695, recebendo o nome de Nassau em honra da Casa Holandesa de Orange-Nassau. Nestas ilhas desde sempre ligadas à pirataria, vários artistas retrataram as praias de Nassau, nas suas bem vivas cores tropicais.
Esta belíssima foto de Julho de 1913, mostra o pescador William Helgeson a zagaiar bacalhau em Pirate Cove, Popof Island, no Alaska. Ele foi um dos muitos emigrantes escandinavos que se fixaram na costa Oeste dos E.U.A., vários deles trabalhando na pesca do bacalhau. Dá a sensação que está a pescar no rio... ou não fosse este oceano “Pacífico”.
Descrevia-me há tempos o meu pai a altura em que começou a pescar junto com o avô nas Caxinas, numa pequena catraia, tinha ele 11 anos, isto cerca de 1959. Por essa altura, cada vez mais catraias tinham já abandonado a vela como propulsão principal, e utilizavam pequenos motores fora-de-borda. Era o caso da catraia do seu avô, de cerca de 5,5 metros de comprimento, de nome “Sagrada Família” – “Jesus, Maria, José” já adaptada com um motor fora-de-borda Evinrude, de 5,5 cv, côr azul claro. Após alguma investigação, presumo que seria o motor nas primeiras imagens, o Evinrude “Fisherman”, um dos de maior sucesso da marca.
Todas as imagens que aqui coloquei baseiam-se nos motores dos quais o meu pai se lembra, cerca de 1955-1965, os Evinrude, Johnson, Mercury e Gale. Mencionou-me também motores Lambretta, mas sobre eles não encontrei qualquer referência.
Também na pesca do bacalhau se usaram motores adaptados aos dóris, mas sobre este aspecto é mais difícil encontrar relatos ou fotos, e perceber como realmente estavam instalados nos dóris. Sei que seriam montados ao centro do bote.
Estou certo que alguns dos habituais comentadores se lembram destes motores, e seria excelente se pudessem descrever todos os motores dos quais se recordam, no maior detalhe possível, fosse na costa portuguesa, ou na pesca do bacalhau.
Quem sabe um dia não se compram algumas destas relíquias para o futuro Museu das Caxinas / Poça da Barca.
O “Wawona”, sobre o qual já escrevi anteriormente, foi construído nos estaleiros Bendixen, em Eureka, Califórnia, para o transporte de madeira em 1897. Por alturas de 1930 passaria para a pesca de bacalhau no Mar de Bering, Alaska. Aqui está a entrar em Port Blakely, estado de Washington.
Esta foto bastante antiga, mostra barcos de pesca denominados “schuit” varados na praia de Blankenberge, Bélgica. Esta comunidade situada na Flandres ocidental apresentava a mesma tradição naval que a Holanda, bem próxima, com os barcos de fundo chato e apoiados por 2 grandes lemes laterais, armando velas quadradas.
Já várias pessoas terão notado no que escrevo, que estou constantemente “a bater no ceguinho” no que respeita a barcos tradicionais, especialmente os do tipo poveiro, pois quase ninguém se interessa por reavivá-los, na rica tradição piscatória da qual fazem parte. Este reavivar significa primeiro que tudo construír de novo estes barcos, fomentar associativismo em torno deles, e usá-los em prol quer próprio, quer das comunidades que através deles ergueram casas, ruas e identidade nos areais de antigamente.
Ora há dias, o habitual comentador Albino Gomes revelou-me a melhor notícia desde que este blogue existe, no que respeita aos barcos do tipo poveiro, que tanto me fascinam: uma nova Catraia está a ser construída nos estaleiros Samuel & Filhos, em Vila do Conde.
Desde que a Lancha-do-Alto poveira “Fé em Deus” foi construída nos inícios dos anos 90, nada mais se fez por estes barcos na Póvoa de Varzim, cabendo o mérito em Vila do Conde à Associação dos Marinheiros da Armada com a recuperação da “Briosa” e “Baltasar”. Tudo o resto continua enterrado na memória de poveiros e caxineiros, que se lembram saudosamente dos seus antigos barcos, mas ninguém decide ir ao estaleiro encomendar um. Não será por certo por falta de dinheiro, pois carros topo de gama enchem as ruas das Caxinas desde há muitos anos. Acredito que a falta de informação será a maior causa, mas acima de tudo a falta de Exemplos. A lancha “Fé em Deus” passa a maior parte do ano “escondida” e é grande demais para convencer alguém a ter uma igual, actualmente.
Esta nova catraia pode finalmente ser o ponto de viragem, pois não chega a 6 metros de comprimento e com 3 ou 4 homens está a navegar. É muito importante que os poucos barcos de tipo poveiro que existem estivessem sempre bem visíveis em locais públicos, fosse um fim-de-semana aqui, outro ali, em ruas principais, em frente ao mar, etc. É preciso que as pessoas “tropeçem” neles, façam perguntas, e lhes seja explicado tudo sobre eles, de onde evoluíram, como são construídos, como navegavam, como armavam, etc. Só assim aumentará o interesse e futuras construções surgirão.
O comentário do Albino segue abaixo, pois não pode estar escondido por trás do artigo onde foi inserido, e que a foto acima começe a ganhar a côr que tanto merece, De uma vez por todas.
«Felizmente que hoje, a Associação dos Marinheiros da Armada, de Vila do Conde, da qual tive a honra de ser um dos principais fundadores, para além da catraia BRIOSA, tem neste momento em construção no Estaleiro do Samuel, uma nova Catraia com cerca de 5,80 m de comprimento. Registe-se que a partir da minha presidência naquela Associação Marinheira, em 2003, a BRIOSA, juntamente com a lancha poveira Fé em Deus, a catraia esposendense Stª Mª dos Anjos e a catraia vianesa Nª Srª da Agonia, têm participado em dezenas de Encontros de Embarcações Tradicionais em Portugal e Espanha. Anote-se ainda, que a Nª Srª da Agonia, propriedade da Associação de Barcos do Norte, é uma embarcação típica da nossa Vila Chã e recentemente descobrimos que foi construída por Benjamin Moreira, hoje Presidente da Junta da Freguesia. Portanto, embora isto esteja muito mal, de quando em vez lá vai havendo algumas excepções, por banda de uns tantos que teimam em remar contra a maré... . Al bino Gomes.»
Seria do maior interesse que se divulgassem os passos da construção da catraia, pelo menos com algumas fotos. Tão interessante como ver um barco na água, é vê-lo no estaleiro, a ganhar forma.
Imagem – filme “Ala-Arriba” – José Leitão de Barros, 1942.
“Istanbul, looking towards the Suleymaniye Mosque and the Golden Horn, circa 1890” - A.D. Blake
O Corno de Ouro é um ponto histórico no Bósforo que divide a cidade de Istambul, na Turquia e forma o soberbo porto natural, em forma de cimitarra, que abrigou ao longo dos séculos Gregos, Romanos, Bizantinos e Otomanos, entre outros. Foi várias vezes retratado por artistas e neste exemplo, vê-se ao longe a Mesquita de Süleymaniye, construída entre 1550-1557. A cúpula central tem 53 metros de altura e 26,5 de diâmetro, tendo sido a mais alta do Império Otomano medida a partir do nível do mar, mas ainda assim mais baixa que a de Hagia Sophia, a partir da sua base.
Harmoniosa imagem de duas catraias poveiras que autênticamente deslizam sobre o mar, graças ao seu casco bojudo e grande vela, qual potente motor. Estes barcos proporcionavam excelentes ocasiões de vela e navegação, algo que hoje só os poveiros e caxineiros na casa dos 60 anos experimentaram. É uma vergonha que isto tenha desaparecido destas comunidades, e de outras, como Vila Praia de Âncora, Esposende, Apúlia, Leixões, Leça, Buarcos, etc. Vergonha acima de tudo para os próprios habitantes, que permitiram o seu desaparecimento até hoje e salvo umas excepções, que pouco são usadas, ninguém mostra interesse na reconstrução destes barcos para recreio, os barcos que foram o ganha-pão dos seus pais, avós, bisavós... . Mas pode ser que “amanhã” as coisas começem a mudar.
imagem de: “Ala-Arriba” – José Leitão de Barros, 1942.
Mistério no afundamento da traineira “Manuel Eugénia”.
«O armador e mestre da traineira “Manuel Eugénia”, que afundou quando estava acostada no porto de pesca costeira domingo à noite (25-10-2009), conta retomar a faina “na próxima semana”.
A embarcação de 13 metros e 40 toneladas registada em Vila do Conde que se dedica à pesca do cerco ficou totalmente submersa pelas águas da Ria de Aveiro em circunstâncias ainda por apurar.
A Capitania do Porto de Aveiro abriu um inquérito para apurar as causas e eventuais responsabilidades, não tendo sido encontrados indícios de mão criminosa.
Na vistoria inicial, que terá seguimento com uma peritagem, não foram detectados danos visíveis ou outros indícios que explicassem o sucedido. Segue-se uma peritagem.
Ao que tudo indica, três elementos da tripulação que chegavam ao porto cerca das 21:40 para preparar a primeira saída ao mar depois do fim-de-semana depararam com o barco já a afundar.
O misterioso acidente acabou por causar apenas danos materiais que impedem, no imediato, o regresso à faina.
A água salgada avariou equipamentos eléctricos e electrónicos de navegação, para além de outros estragos. Na altura, a autoridade marítima activou meios para minimizar o foco de poluição na zona causado pelo derrame de gasóleo e óleos a bordo.
A traineira foi reposta a navegar ao final da manhã, tendo continuado durante a tarde as tarefas de limpeza e de trasfega de combustível.»
Esta obra mostra uma escuna de desenho considerado o mais famoso e provavelmente o mais belo das embarcações de Nathanael Herreshoff, o “Westward”. Em 2 de Junho de 1913, escrevia-se no New York Times: “A escuna de competição “Westward”, agora denominada “Hamburg II”, saíu vitoriosa na sua primeira regata, ontem no Mar do Norte, batendo barcos como o “Meteor” do Kaiser (alemão) ou o “Germania” de Herr von Kraupp. Foi a 1ª competição na qual entrou este yacht construído na América desde que foi adquirido por um grupo de entusiastas do Hamburg Yacht Club.
O “Westward” foi desenhado e construído pelos Herreshoff´s em Bristol, Rhode Island (E.U.A.) em 1910 e quase de imediato rumou à Europa para tomar parte em variadas regatas. Venceu todas as contendas, incluindo a Taça do Imperador Alemão. Esta escuna foi construída em aço, com 41,27 metros de comprimento, 8,17 de boca e 4,91 de pontal.»
Apenas por uma vez foi batida, nos anos 20, no estreito de Solent, Ilha de Wight, Grã-Bretanha.
Esta extraordinária perspectiva mostra o veleiro de transporte “Grace Harwar”, com bandeira da Finlândia, a navegar em 1929. A foto é da autoria de Alan Villiers e foi a bordo deste navio que o mesmo viu pela primeira vez pescadores do bacalhau portugueses a pescar nos Bancos, sózinhos em dóris, algo que o impressionou em alto mar. Em 1950 estaria em contacto com esses mesmos pescadores, registando para a eternidade uma "Campanha do Argus".
Durante quatro séculos, os marinheiros da Bretanha, no noroeste da França, andaram à pesca do bacalhau no Atlântico Norte. Foi uma actividade remunerada e certa, mas que atravessou periodos difíceis e conheceu bem os seus riscos e dramas.
Por mais bizarro que possa parecer, a práctica religiosa está estreitamente ligada à história Bretã da pesca ao bacalhau, pelo menos nos seus inícios, sendo que naquela altura não se gracejava com a abstinência alimentar imposta em certos dias pelos mandamentos da Igreja. Durante um ano, os dias a cumprir o jejum nunca eram menos de 150. Pode-se dizer que esta regra, proibindo o consumo de carne, causava na práctica, sérios problemas de nutrição na população, principalmente no interior do país, onde a presença de peixe do mar à mesa era rara. Assim, seriam os pescadores do Norte da Bretanha a darem início à satisfação das necessidades do mercado, quando descobriram a existência de Bancos de bacalhau nas regiões da Terra Nova entre a Islândia e o Canadá, aprendendo lá os métodos de conservação do peixe utilizados.
A pesca do bacalhau na Terra Nova trazia deste modo a felicidade às populações da Bretanha, para desgraça da água de salmoura que enchia os pequenos cursos de água e empestava o ar. Como tal, foi inevitável o choque entre os autóctones Canadianos e os nativos do Labrador que practicavam a caça ao lobo marinho nestes mesmos sectores. As querelas com os pescadores de Saint-Malo, Paimpol e Saint Brieuc tornavam-se por vezes em afrontas sangrentas. Chegou ao ponto de em 1610, os bacalhoeiros de Saint-Malo solicitarem a assistência de dois navios de guerra para assegurar a sua protecção e neste contexto o conflito armado que existia entre a França e a Inglaterra precisamente pela Terra Nova, reivindicando cada um deles a posse desta ilha. Nestes termos o armamento de navios bacalhoeiros Bretões continuou a desenvolver-se, quer para a costa do Canadá, quer para a vizinha Islândia. Um recenseamento de 1664 indicava que só em Saint-Malo 61 navios haviam sido equipados para a pesca do bacalhau.
Os outros portos “Islandeses” do Norte da Bretanha não lhe ficariam atrás. Paimpol, pela sua parte, possuia em finais do séc. XIX perto de uma centena de navios e o armamento proseguia sobre a Mancha. Contraditórias haviam sido as previsões do explorador de Saint-Malo Jacques Cartier, que em 1550 declarava que jamais veria na Bretanha navios de pesca de duzentas toneladas. Um século mais tarde Saint-Malo possuía sete navios da Terra Nova que ultrapassavam essa tonelagem e pouco antes da Revolução, a média dos navios bacalhoeiros andava nas 190 toneladas. No entanto, a segurança das tripulações não havia melhorado. Na Terra Nova, o navio largava a âncora nos profundos e os homens repartiam-se em grupos de 4 nos dóris que partiam à procura de bancos de peixe. Sobre mar vivo, o perigo era quase permanente, tanto para os pescadores agarrados às suas linhas como para o próprio veleiro. Durante os 83 anos da aventura dos homens de Paimpol na Islândia, 120 escunas jamais regressariam ao seu porto de abrigo e fariam cerca de 2.000 vítimas.
O recrutamento de marinheiros fazia-se aos seus 12, 13 anos. Pelo início do Inverno, os mestres de bacalhoeiros faziam a ronda aos albergues de campanha em busca de jovens camponeses desejosos de abandonar a terra na esperança de uma vida melhor. Para este fim, havia em Dezembro em Vieux-Bourg, próximo a Saint-Malo, uma feira anual onde, vindos de localidades vizinhas, se reuniam os candidatos ao embarque. Outros, reconhecidos pelo seu boné e camisas de lã, vinham por si sós tentar as suas chances pelas docas de Saint-Malo e Saint-Servan. O acordo era feito geralmente num bar próximo, selado com uma caneca de cidra ou um copo de licor e um pequeno avanço em géneros sobre o montante de peixe que seria apanhado. Muitas vezes, os contratos comportavam desvantagens que passavam despercebidas aos futuros marinheiros que não sabiam ler ou escrever. Em caso de naufrágio por exemplo, eram forçados a embarcar noutro navio sem compensação de salário.
Na gravura acima, pescadores de St. Pierre (no Sul da Terra Nova) aventuram-se com mau tempo a pescar nos ricos Bancos de bacalhau. É uma ilustração da autoria de Le Breton, publicada no livro “Voyage a Terre Neuve” em 1860.
Este arrastão a vapor inglês foi construído em 1934 e recebeu o nome do clube de futebol local, o Grimsby Town Football Club, ano em que fora promovido à primeira divisão. Isto sucedeu-se quando o presidente da companhia Consolidated Fisheries, prometeu que se a equipa subisse à 1ª divisão, o seu próximo novo arrastão receberia o nome do clube.
Pouco depois de ter regressado do serviço prestado na II Guerra Mundial, perdeu-se por encalhe em Hjoerleifs Hofdi, na Islândia, morrendo três dos seus tripulantes.
Numa das típicas escunas bacalhoeiras da Nova Escócia, Canadá, um pescador vai “zagaiando” peixe para bordo. Curioso o comum chapéu que nada parece relacionar-se com a pesca, mas que era frequentemente usado por estes pescadores da América do Norte. Até parece que abandonou o escritório, vestiu uma roupa de oleado e foi divertir-se nos horizontes largos do oceano, à pesca do bacalhau.
1966 e 1967 foram dois anos especiais no que respeita às memórias da Frota Branca portuguesa. Em 1966, Hector Lemieux realizava o curto mas intenso filme sobre a pesca do bacalhau a bordo do lugre-motor “Santa Maria Manuela”, filme esse intitulado “O Navio Branco” e sob a tutela da National Film Board do Canadá. Foi um trabalho que dois anos mais tarde seria galardoado no Festival Internacional de Filmes sobre Povos e Países, em La Spezia, Itália.
Em 1967 seria a vez de George Sluizer realizar um documentário para a National Geographic Society, desta vez a bordo do lugre-motor “José Alberto”, trabalho esse exibido pela primeira vez na CBS em Abril do ano seguinte.
Para além dos documentos em filme, muitos outros ficaram guardados em fotografia “no estrangeiro”, como no exemplo da foto, também de 1967 no porto de St. John´s, Terra Nova. Dos 4 navios na imagem, o navio-motor em aço “Senhora da Vida” foi construído em 1957 pelos Estaleiros Navais de Viana do Castelo para a companhia Bacalhau de Portugal, Lda. Em 1973 passou a arrastão de nome “Zodíaco” e terminaria os seus dias em 1991 por abate. Quanto ao navio-motor “São Jacinto”, sobre o qual várias pessoas já têm escrito, construído também em 1957 na Gafanha da Nazaré por Manuel Maria Bolais Mónica & Filhos, teve um fim trágico 4 anos após esta foto, por explosão na casa das máquinas, relacionada com trabalhos de manutenção. Vários homens morreram no acidente e tive oportunidade de ouvir a história na 1ª pessoa de um pescador a bordo na altura.
Era num detalhe, assim, a Frota Branca dos portugueses.
Esta obra mostra a vista a partir de nordeste de Long Island, ao largo de Nova Iorque, zona de elevado tráfego marítimo, bem conhecido do artista. O navio de maior porte é um navio-mercante a vapor e à vela, a navegar perpendicular ao vento, cortando o horizonte preenchido por várias escunas. Um lugre de dois mastros não era muito comum nestas paragens, embora fossem usados como salva-vidas ou para a pesca, sendo de fácil e rápida manobra, como se pode notar aqui a desviar-se da rota do grande mercante.
Esta é a capa de um álbum fotográfico de Wallace MacAskill publicado em 1987, com 128 páginas de fotos deslumbrantes todas a preto e branco. A curiosidade e emoção que este fotógrafo de inícios do séc. XX sentia pelos barcos e assuntos do mar da Nova Inglaterra, produziram das mais belas fotos de sempre das escunas de pesca daquela região Atlântica. A capa, corresponde sem dúvida ao conteúdo da obra.
Maria do Desterro é uma senhora poveira bem conhecida no meio cultural piscatório da Póvoa de Varzim. É também a irmã mais nova da minha avó materna, ou seja, é minha tia-avó.
Na sua já bela idade, pertence à geração poveira ainda da pesca tradicional, em barcos de boca aberta e à vela e são esses tempos que nos transmite desde há vários anos em eventos culturais, ora representando o dia-a-dia da pescaria poveira, ora narrando “contos dos velhos” que prendem a atenção de qualquer um, várias vezes na companhia do seu marido Caetano.
Pelo menos 12 desses contos estão disponíveis na internet, em vídeo, dentro do excelente projecto MemóriaMedia. Fica abaixo o link para um desses contos e a partir dele poderão aceder aos outros nessa página.
Que fantásticos eram aqueles tempos em que se receavam as sombras e os vultos nocturnos, em que o dia e a noite, os meses e as estações obedeciam a uma hierarquia de crenças que fortaleciam uma comunidade e a enriqueciam. Eram também ecos de um passado longínquo que porventura guardam respostas às origens do pescador poveiro, ecos esses que não descuravam por vezes, a presença enebriante (e inspiradora) de uma boa aguardente ou umas malgas de “rija”.
foto - Maria do Desterro, Noite dos Museus, 2007 - Câmara Municipal da Póvoa de Varzim.
“O Pai está a Chegar”, é o título da imagem que captura o momento da espera pelo barco que está próximo, nas costas da Nova Inglaterra. O pequeno rapaz está sentado à proa de um dóri, com outro próximo dele, botes perfeitamente comuns na América do Norte e tendo o artista crescido em Massachusetts, sempre esteve perto da vida marítima da região. Por estas alturas, Portugal procurava ressuscitar a sua pesca longínqua do bacalhau, depois de quase 300 anos de interregno.
As escunas de pesca com dóris dos Grandes Bancos “Alcala” e “Independence” durante as elininatórias da Regata dos Pescadores nos anos 20, ao largo de Halifax, Nova Escócia. Aquele rasto de espuma branca fala por si, quanto aos nós de velocidade.
Há dias, através de um comentário de David Luna de Carvalho, autor do muito interessante blog O Mar das Garrafas, tomei conhecimento de um filme de 1952 intitulado “The World in His Arms” (“O Mundo nos seus Braços”), com figuras principais Gregory Peck e Anthony Quinn. Por duas razões o filme me chamou à atenção: primeiro porque Anthony Quinn representa “O Português” e de seguida porque neste filme se encontra, considerada por muitos, uma das melhores sequências de veleiros de sempre, pela mão de Hollywood.
O resumo da história do filme, todo ele de cariz marítimo, pode ser lido no link acima (no título do filme) e quanto à referida sequência dos veleiros... realmente é arrepiante no melhor dos sentidos. O utilizador do Youtube “nebot1”, colocou essa sequência disponível, do filme em versão dobrada em espanhol (muito bem dobrada sem dúvida), intercalando-a com a “Canção do Mar” de Dulce Pontes, em homenagem ao “Português”.
As duas escunas utilizadas são as típicas escunas bacalhoeiras de pesca nos Bancos norte-americanas / canadianas, da costa Leste. Sendo que a história se passa em 1850, este design de escunas ainda não existia por essa altura, erro algo grosseiro, mas que tem de se aceitar devido à beleza da acção captada no filme. Supostamente também passando-se a história no Pacífico, as filmagens com os barcos foram todas na Nova Escócia, berço natural destas escunas.
Vale sem dúvida a pena os cerca de 9 minutos de filme de toda a sequência. E novamente se vê um exemplo do tipo de português utilizado por Hollywood. Obrigado ao David pela referência.
O título nesta obra deste artista espanhol, está em português, o que me leva a crer que a terá produzido, entre outras, nas suas andanças pelo Norte de Portugal. Definitivamente é uma imagem bastante marcante, especialmente para quem é “de fora” da comunidade piscatória. Cresci habituado a imagens destas, tornaram-se familiares e ainda hoje se podem ver em dias de tragédia no mar, por exemplo nas Caxinas, terra habituada a estas coisas.