«Há 75 anos, o bacalhoeiro integrou a frota nacional. Histórias do tempo em que a pesca era um assunto de fortuna ou de morte.
Quando ia para o mar, nunca dizia adeus. Sabia que podia não voltar. Podia morrer afogado, não encontrar o navio e perder--se no meio da neblina, ceder ao sono e ao cansaço na proa do dóri [bote] e deixar-se cair, mas dizia ‘até logo’ de todas as vezes que se despedia à porta de casa e embarcava no ‘Creoula’ a caminho dos bancos da Terra Nova e da Gronelândia, para mais seis meses de campanha na pesca do bacalhau.
José Santos Leites, natural de Caxinas, Vila do Conde, era contramestre no lugre de quatro mastros que durante 36 anos foi bacalhoeiro abençoado pelo regime do Estado Novo, num tempo em que a sina de muitos homens passava pela pesca e a das mulheres pela oração. "Iam à Nossa Senhora das Boas Novas pedir que a santa protegesse os maridos na pesca do bacalhau enquanto eles, no meio do oceano, passavam medos, solidão e fome, uma barbárie", recorda Rosa Maria, filha do caxineiro que começou como pescador no ‘Creoula’, no início da década de quarenta, e anos depois chegou a contramestre por ser "um pescador de primeira linha" [os que apanhavam mais peixe e que no fim da viagem recebiam o ‘mérito’]. José já cá não está para contar as histórias que o mar teceu, mas foi a idade que o levou, não a pesca.
"Ele contava que na altura da II Guerra Mundial tinham medo de serem atacados no meio do oceano, principalmente na Gronelândia, tinham o fantasmas das coisas que pairavam no mar." O medo não era em vão: o ‘Delães’ e o ‘Maria da Glória’, também lugres bacalhoeiros, foram bombardeados no meio do Atlântico em 1942 por submarinos alemães em tempo de guerra mundial.
VIDA DURA
O ‘Creoula’ provou pela primeira vez a água há 75 anos, numa cerimónia presidida pelo chefe de Estado, o general Carmona, ao mesmo tempo que o ‘Santa Maria Manuela’, seu gémeo em constituição e plano, mas a sua faina não foi sempre a mesma. Em 1973 fez a última campanha como bacalhoeiro e em 1979 foi comprado à Parceria-Geral de Pescarias pela Secretaria de Estado das Pescas que, vendo o casco conservado, o transformou em Navio de Treino de Mar. Mas o tempo do bacalhau – nos melhores anos chegou a carregar mais de 12 800 quintais [768 toneladas], mais do que a sua capacidade máxima – ficou para sempre entranhado nas redes daqueles que o viveram.
"Não há vida pior do que a de um pescador do bacalhau! Todos os anos um homem vem para este inferno no engodo de juntar uns patacos, a ver se fica em terra para sempre, se não volta mais (…) Volta mais um ano, mais outro, mais outro… Até cair de podre. Até que o mar o leve", escreveu Bernardo Santareno em ‘O Lugre’, homenagem aos pescadores "daquelas águas onde o dia nunca acaba e o sol brilha no meio da noite". O escritor acompanhou, enquanto médico, campanhas na pesca do bacalhau, o que influenciou a sua obra feita de histórias de mar.
José Picoito, natural da Fuseta, Olhão, entrou no ‘Creoula’ pela mão do pai, pescador e salgador que ali fez tantas campanhas quantas as que o navio conheceu. "Quem não queria ir à tropa fugia para o bacalhau, era a forma de escapar. Livrei-me dessa vida aos 27 anos, depois de oito campanhas de pesca." Em 1961, quando a guerra estalava em Angola, José batalhava no mar, uma dureza diferente.
"Dormíamos no rancho, dois em cada beliche. Havia beliches em cima, ao meio eem baixo. Tambémera aí que comíamos o jantar. Para nos lavarmos davam-nos uma caneca de água fria; aproveitávamos quando íamos a St. John’s buscar isco, ou quando tínhamos de atracar por causa dos ciclones, para nos lavarmos numa ribeira", lembra. "O navio tinha de poupar água doce para a comida por isso era racionada", explica Fernando Oliveira, quatro campanhas a bordo do ‘Creoula’ e 60 anos de idade.
"Arriava-se os botes por volta das cinco da manhã e depois era cada um por si, uma vida ingrata. Nesse tempo, da pesca à linha, o jantar era sempre bacalhau: umas vezes frito, outras vezes cozido, estava sempre na ementa. Vivíamos a pescá-lo e a comê-lo", conta o caxineiro que começou na infância à pesca da faneca com o avô e só aos 18 se virou para o bacalhau. "Nessa altura era um dos verdes", os estreantes. A primeira vez no dóri foi "terrível. Tinha mais medo do nevoeiro do que do mar, o nevoeiro era uma doença".
Por isso, optou por nunca se distanciar dos outros botes durante a jornada solitária no meio do nada. "Preferia apanhar menos peixe e não me perder ou acabar afogado, por isso nunca fui dos melhores. Por isso também nunca ganhei mais do que quatro ou cinco contos por campanha. Os homens de primeira linha – que tinham um motor para o dóri cedido pela companhia – chegavam a tirar mais 15 ou 20 contos, conseguiam comprar carros de 50 contos e muitos abateram as dívidas da casa assim."
Fernando era nessa altura solteiro, mas quem já tinha aliança entregava à mulher o dinheiro – conta Joaquim Sousa – mal poisava pé em terra.
"Houve um ano – lembra António São Marcos, agora comandante do ‘Santa Maria Manuela’ – que os comandantes dos navios foram condecorados com o Grau de Cavaleiro e alguns dos primeiras linhas com o Grau de Oficial da Ordem do Mérito Industrial", tal era a sua importância para o regime.
JORNADA LONGA
O retorno dos dóris ao navio era às sete, oito da noite. Uma jornada que podia durar 15 horas. "Para regressarmos chamavam-nos com umas sirenes, mas às vezes não ouvíamos. O almoço era comido no dóri, normalmente uma fatia de fiambre ou marmelada e uma conserva de atum ou sardinha", recorda Afonso Silva, de 58 anos, cuja primeira viagem no ‘Creoula’ foi também a última do bacalhoeiro português.
Os pescadores iam remando por ali, experimentando "com a zagaia até encontrar peixe. Quando isso acontecia largávamos os trolleys e esperávamos pelo menos uma hora até recolher as linhas"; uma sequência repetida até encher o bote. "Na fase da força do peixe quase não descansávamos. E quem apanhava vigia nesses dias nem dormia", diz Fernando sobre um "cansaço tão grande que às vezes se adormecia em cima da proa do bote, correndo o risco de cair". "Por isso, quando chegávamos ao navio descarregávamos o peixe e íamos logo jantar, tal era a fome. Só depois, pela noite dentro, é que arranjávamos o peixe", recorda Afonso.
Passavam-se horas de volta do bacalhau, uma sequência de procedimentos que tinham de ser feitos, desde o troteiro, ao garfeiro, ao salgador. António São Marcos lembra a azáfama a bordo e a sua função, "uma espécie de dona de casa do navio. De manhã, quando os homens saiam nos dóris, ficava a bordo a orientar a baldeação do navio, que era lavar os restos do trabalho da noite. Depois era alisar o sal e preparar o porão para a pesca desse dia. À noite, quando os homens voltavam, supervisionava o processamento do pescado", recorda António São Marcos.
"Só não aproveitávamos a parte óssea, do crânio, de resto aproveitávamos tudo, nada se estragava", lembra Fernando.
Nos dias em que "no conjunto de todos os dóris se pescava mais de 200 quintais [12 toneladas], o capitão punha música para acompanhar o trabalho de salgar e escalar o bacalhau. Eram normalmente discos de fado, mas às vezes também baladas", recorda o algarvio José. Joaquim Sousa, 72 anos, viu-se a caminho da terra prometida noutro bacalhoeiro, mas ouviu do pai, com 29 viagens no ‘Creoula’, as histórias que depois sentiu na pele.
"O meu pai tinha seis filhos, por isso aguentou todos aqueles anos esta vida dura, sem água, sem luz, uma solidão imensa. Era um alívio chegar a terra depois de tanto tempo a ver o mar. Mas enquanto o meu pai não se afastava muito dos outros botes, eu arriscava mais. Tive dias de andar onze milhas para apanhar o navio. Às tantas já não se via nada: víamos um pássaro e achávamos que estávamos a ver o navio, já era a cabeça a baralhar". No mar, como na guerra, "cada homem é um tubarão, havia uma rivalidade terrível entre os pescadores que apanhavam mais peixe. Essa foi uma herança maldita que veio de outro tempo, mais antigo".
A FÉ NA HORA DO MEDO
‘Levantai-vos rapaziada, filhos da Virgem Maria/ Vai um homem para o leme e dois para a vigia’ era o último verso dos Louvados, que todos os dias os pescadores repetiam antes da descida dos botes para mais uma jornada de pesca à linha. Diz o ditado ‘Se queres aprender a orar, entra no mar’ e era à fé que os pescadores se agarravam. "Eu sentava-me na escada que ia dar ao rancho e era dos que orava mais alto. Com a morte ali tão perto, era preciso agarrarmo-nos à esperança de que voltaríamos", lembra Fernando Oliveira.
‘Vamos arriar com Deus’ ordenava o capitão. As crenças estavam tão presentes nos homens do mar que "o bote número 13 ninguém queria", recorda José Picoito sobre o sorteio feito na viagem de ida. "Era o número do azar e os pescadores tinham muito medo de não regressar." José, hoje com 70 anos, perdeu colegas. "Eram da Nazaré e nunca mais os vimos. O navio esperou, esperou, mas não vieram." Joaquim também ouviu do pai essas histórias. "Foram engolidos pelo mar e não mais apareceram." "Não era uma vida fácil para ninguém, desde o comandante ao moço", lembra António São Marcos, que tinha então 22 anos. "Mas guardo muitas e boas recordações dessa viagem. Tenho uma memória romântica daquela campanha que fiz no ‘Creoula’, apesar das poucas condições que havia foi uma viagem memorável."
Para os pescadores os momentos felizes daquela época teciam-se menos das linhas de pesca e mais das discotecas de St. John’s. "Tínhamos uma roupa guardada para quando íamos a terra dançar. Aí esquecíamos tudo", lembra Afonso Silva, que se deixou tentar "pelas canadianas" que encontrava. José também teve uma namorada ou outra. "Mas amor a sério foi em terra, em Portugal."»
por Marta Martins Silva – CORREIO DA MANHÃ – 13-5-2012.
foto 3 - Capt. Harry Stone.
fotos 4,5 - António São Marcos.
«Sou neto de Navegadores,
Heróis, Lobos d´água, Senhores
Da Índia, d´Aquém e Além-Mar!»
António Nobre.
Imagem do filme: “Ala-Arriba” – José Leitão de Barros, 1942
Dois pescadores nazarenos cada qual com o seu foquim na mão, onde levavam a comida e porventura outros objectos, fateixas de 4 pontas ao ombro e nelas pendurado, um “saco” nitidamente uma pele de animal. O que não descobri ainda até hoje é para quê que serviam... .
No passado sábado decorreu a primeira saída oficial da lancha do alto poveira “Fé em Deus”, cujo mote foi o passeio oferecido a crianças de uma escola local. Foi também a minha primeira saída oficial a bordo desta emblemática embarcação como tripulante, e julgo que me senti tão criança como algumas das outras no concretizar do sonho.
Desde as 14 horas, que durante cerca de hora e meia a tripulação levou a cabo os trabalhos de aparelhagem, alguns deles a necessitar de bastante força e cuidado. Fosse o tirar do mastro e verga da água para dentro do barco, a colocação do enorme leme ou o içar da vela, tudo exige força e atenção. Aliás, tudo nesta embarcação é enorme e o pano (vela) é um portento visual admirável!
O mar estava calmo e o vento pouco permitia, mas a viagem durou cerca de uma hora e no regresso já poucos miúdos gritavam o “Ala Arriba” com o entusiasmo da partida, pois sentiram na cabeça e no estômago a realidade de um barco no mar.
Como em quase tudo na vida, é importante começar-se por baixo, ou pelo menos exigente, e foi isso que aconteceu no sábado. Viagens de 10-12 horas de mar, vento fresco e vagas de alguns metros serão o auge no decorrer das futuras viagens e consequente aprendizagem e experiência a bordo. Será aí que os relatos de jornadas heróicas dos antigos, terão reflexo tridimensional no presente, como já tiveram para vários tripulantes actuais.
O município da Póvoa da Varzim tem todo o mérito em manter a “Fé em Deus” no activo há já 20 anos, pois são imponentes as experiências de mar e vela que oferece. A memória dos antigos pescadores poveiros agradece e os seus descendentes têem a oportunidade de os relembrar, velejando.
foto de António Fangueiro.
Um sargaceiro de Aver-o-Mar, Póvoa de Varzim, numa imagem marcante daquela comunidade. Podem ver-se as tradicionais medas de sargaço, provavelmente imutadas durante séculos de relação entre a lavoura e o mar. Não passo por esta zona já há vários anos e dúvido que alguma delas ainda resista à (des)evolução dos tempos.
“Nazaré” – Maluda, 1976
Uma vista da Nazaré desde o alto do penhasco, na perspectiva desta artista portuguesa.
A inconfundível escarpa da Nazaré e mulheres da pesca local num habitual bate-língua.
foto de Artur Pastor.
Na parte Sul do porto da Póvoa de Varzim-Vila do Conde, continuam a aparecer barcos em trabalhos de reparações e na imagem podem ver-se dois dos últimos há cerca de um mês atrás, o "Miguel Alexandre", do Porto e o "Portugal Jovem", de Viana do Castelo. Sabe bem passar por aqui todos os dias e ver embarcações destas em seco, admirando-lhes todas as linhas. Faz lembrar os antigos estaleiros de Vila do Conde. Até aos anos 80 ainda se faziam barcos destes neste local. Agora... só reparações.
No próximo dia 26 de Maio irá decorrer num restaurante da Praia de Mira, um primeiro encontro a nível nacional de antigos Pescadores Bacalhoeiros.
Estará disponível uma sala para projecção de filmes e fotos das mais variadas embarcações da Pesca do Bacalhau.
O convite, é dirigido a pais, filhos, esposas e amigos simpatizantes. Os bilhetes estão à venda até dia 24 de Maio.
Esta, é uma excelente iniciativa que deveria repetir-se a partir de agora noutras zonas do país, pois do Minho ao Algarve saíam centenas de homens para o Atlântico Norte todos os anos.
Este cliché bastante antigo indica Vila do Conde, no entanto o barco não é usual no que conheço da Vila do Conde antiga, devido à matrícula. Caracteres tão grandes era usuais desde Leça até à Foz do Douro e nota-se ser PL365Y. PL referia-se a Porto Leixões. Que andaria pois a fazer um pequeno barco de Leixões em Vila do Conde? Julgo que esta foto é em Leça.
Uma belíssima imagem a transmitir toda a alma da região lagunar de Aveiro, onde os barcos eram grande parte da vida. Eram cantos e recantos sem fim por entre a “faina” do moliço e para muitos... não havia melhor forma de crescer.
«Lá fora o vento como um gato bufa e mia...
Ó pescadores, vai tão bravo o Mar!
Cautela... Orçai! Largai a escota! Avé Maria!
Cheia de Graça... Horror! Mortos! E a água tão fria!...
Que triste ver os Mortos a nadar!»
António Nobre.
Imagem do filme: “Ala-Arriba” – José Leitão de Barros, 1942
«Realiza-se no sábado, dia 28 de Abril pelas 21 horas, no novo “Memórias de uma Terra”, em Vila Chã, Vila do Conde, a primeira do que se pretende que seja um ciclo de palestras em torno do tema da Pesca. Esta, com a designação “Memórias de…Pesca do Bacalhau” contará com Felisberto Costa, o “Feliz”, antigo e conhecido pescador de Vila Chã.»
texto – blog Opera Associação Cultural.
Núcleo Expositivo “Memórias de uma Terra”
Travessa do Sol
4485-743 -Vila Chã, Vila do Conde.
Telf. 229 285 607
«Foi inaugurado em Vila Chã no passado sábado, 21 de Abril, o espaço museológico “Memórias de uma Terra”. Este pequeno núcleo é dedicado à pesca e aos pescadores desta freguesia, e conta com a réplica de uma Catraia de Vila Chã recentemente construída. O acervo é também constituído por uma mostra fotográfica, um conjunto de utensílios de pesca originais, assim como algumas réplicas, e ainda um dóri do bacalhau. Clique aqui para aceder ao panfleto da exposição.»
texto e imagem – blog Opera Associação Cultural.
Finalmente abre ao público este belo espaço sobre Vila Chã e seu passado. Transcrevo o comentário de Albino Gomes sobre esta inauguração, onde é revelado o horário e dias de funcionamento: “No passado Sábado 21 de Abril, teve lugar na freguesia de Vila Chã, a inauguração de um Núcleo de Exposição, essencialmente vocacionado para a divulgação de tão rico património marítimo, daquela freguesia. Segundo nos informaram a abertura é a seguinte: Terça, Quinta e Sábado, da parte de manhã; Domingos estará aberto todo o dia. Visita recomendada, pois merece ser apreciada.»
Núcleo Expositivo “Memórias de uma Terra”
Travessa do Sol
4485-743 -Vila Chã, Vila do Conde.
Telf. 229 285 607
“Will it Make the Turn” - Michael Ancher
Pescadores das costas dinamarquesas presenciam uma embarcação em dificuldades, num dia cinzento e de mar revolto, tal como o título da obra parece indicar. A conhecida frieza escandinava perante as dificuldades.
Um pescador provavelmente de Vila Chã, Vila do Conde com a típica nassa da faneca ou “galricho”. Era nesta comunidade que se construíam as conhecidas catraias fanequeiras e Maria Teresa de M. Lino Netto na sua excelente obra dos anos 40 sobre os pescadores locais refere o seguinte:
«Nassa da faneca, é um círculo de ferro, que tem de diâmetro cerca de 1 metro, e ao qual está presa a rede em forma de saco. O círculo é cortado por 4 peças móveis, perpendiculares, às quais se fixa a isca. É fundeado onde se sente a faneca, a qual logo começa a acudir à isca. Puxa-se então de repente por um cabo fixo na junção das peças, que se erguem, ficando o peixe dentro do saco. Não é usado na Bajoca, e em Vila-Chã dão-lhe o nome de galricho.»
«Outrora situado no canal e doca de Exeter, condado de Devon, em Inglaterra, o Museu Marítimo foi omitido por muitos como uma das principais atracções locais. Em 1969, uma colecção de 23 barcos e embarcações de vela pertencentes ao major David Goddard, foram exibidos, em conjunto com peças de diversas fontes, no novo Museu Marítimo de Exeter. O museu foi aberto por sir Alec Rose a 27 de Junho de 1969 e um grupo de escoteiros do mar transportaram sir Alec canal acima na réplica de uma barca real que fora usada no filme “Um Homem para todas as Estações”.
Na exibição, encontrava-se um dhow das pérolas, presenteado pelo regente do Bahrain, Shaikh isa Bin Sulman Al Khalifa, o governo do Koweit deu um dow de comércio de dois mastros e 120 toneladas, enquanto que um barco de junco do lago Titicaca e alguns coracles se encontravam também nas exibições iniciais. Havia vários barcos atracados no canal, como o rebocador a vapor “S. Canute”, construído em 1931 na Dinamarca.
Durante os anos 90, os armazéns que acolhiam o museu junto ao canal estavam a precisar de reparações, originando problemas financeiros e o museu viria a fechar em 1997.»
adaptado de: Museu Marítimo de Exeter, guias oficiais de 1969, jornais Express e Echo.
«O navio de 60 metros “The Shetland Trader” atracou na doca de Eyemouth, Escócia no passado domingo e na segunda-feira desembarcou a sua carga de 59 barcos de diferentes tamanhos e nacionalidades. Fazem parte da maior colecção de barcos tradicionais e clássicos da Grã-Bretanha (mais de 300) e foram trazidos para a sua nova residência em Eyemouth, desde a sua base temporária de Lowestoft, na costa de Suffolk, Inglaterra. A sua chegada é o primeiro passo para aquilo que poderá ser a maior atracção do Berwickshire de leste – um Museu Marítimo.»
adaptado de: Berwickshire News, 1-5-2002.
«Durante a última década, a Associação Internacional de Barcos à Vela de Eyemouth (EISCA) esteve a reunir o que será provavelmente a maior colecção do mundo de barcos, dentro de armazéns, a qual irá a 29 de Outubro próximo abrir portas ao público pela primeira vez. Alguns destes barcos têm séculos e cerca de 170 vieram da colecção do antigo Museu Marítimo de Exeter.»
adaptado de: Berwickshire News, 24-10-2011.
Este três pequenos textos resumidos servem para dar uma ideia geral das origens e quase colapso desta imensa colecção de barcos. No entanto, a principal razão deste artigo é o facto de entre esta colecção se encontrarem pelo menos 13 embarcações tradicionais portuguesas, algumas delas já nem existentes em qualquer museu em Portugal, o que os torna em peças extraordinárias. A página online da EISCA “O Mundo dos Barcos” (The World of Boats), indica terem ainda somente 187 barcos listados, dos cerca de 400 e outros tantos 300 modelos à escala. Abaixo deixo pois uma tabela com todos os elementos que encontrei nesta dita página, sobre os 13 portugueses que referi, não se sabendo se existem mais. De referir que os textos explicativos de cada embarcação são de boa qualidade, não obstante uma ou outra incorrecção natural, e parecem ter sido elaborados já em 1969.
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Tipo Origem Data Nome Dimensões (m) |
Descrição |
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Ilha do Faial 1940 Eliza C11,31-B1,95 |
Barco baleeiro de design americano, que durante a sua vida activa caçou 6 cachalotes. A caça ao arpão de cachalotes nos mares em redor dos Açores era a mais eficiente do mundo, embora pouco tenha mudado em 100 anos. Era também longínqua e a mais perigosa. Tal como nos dias do Capt. Ahab e a sua eterna besta Moby Dick, os Açoreanos ainda arpoavam a baleia à mão, ainda se debatiam contra ela pelo braço e ainda mudavam o arpoeiro pelo homem do leme para que este a matasse. |
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Aveiro - São Paio C15,88-B4,39 |
O barco da xávega é um tipo de barco de pesca lançado a partir da praia, com uma tripulação de 46 homens, 11 para cada remo. Outros 15 homens e 20 bois estavam encarregues no areal de puxar a rede. Já não existem barcos da xávega de 4 remos a operar em Portugal, embora os mais pequenos de 2 remos ainda se usem, com 8 homens por remo. Os arqueólogos consideram este barco ser descendente de embarcações fenícias que alcançaram Portugal desde o Mediterrâneo de leste cerca de 3000 anos atrás. |
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Alguns dos homens mais rijos que o mundo conheceu, foram os pescadores-de-dóri, dos Grandes Bancos da Terranova e do Canal da Gronelândia. Embora pescassem durante o Verão, o clima nestas águas é sempre frígido e nunca ameno – e eles pescavam solitários nestes pequeninos botes, trazidos para estas inóspitas águas do ocidente europeu e América do Norte nos conveses dos seus navios-mãe. Vinham em busca do bacalhau e todos os dias, quando o tempo o permitia, o navio-mãe largava os 30 a 50 dóris, cada um com um só homem, e já pela noite os içava para bordo de novo. Num só dia, um homem podia encher o seu bote duas ou três vezes, pescando com longas linhas com cerca de 500 anzóis, regressando ao navio à vela ou a remos, mas ao fim do dia o seu trabalho não estava terminado, pois era preciso limpar o peixe antes de o salgar no porão. Este método de pesca continuou até finais do séc. XX, desaparecendo em prol do arrasto. Este dóri veio do lugre português de 4 mastros “Argus”, sobre o qual Alan Villiers escreveu o seu fascinante livro “A Campanha do Argus”. Agradecemos ao Sr. Albano Nogueira, que, como Embaixador de Portugal, abriu a Colecção Ellerman e nos presenteou com esta embarcação, trazida para Inglaterra pela Ellerman Container Line. |
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Rio Douro 1977 - C6,58-B1,83 |
O valboeiro era usado para a pesca ao sável e como barco de passagem entre comunidades das margens do rio Douro. Era mais fácil às gentes usar o barco do que trepar as margens do rio para alcançar as poucas pontes existentes na altura. Esta embarcação movia-se a remos por um remador de pé, de frente para a proa, de modo a poder ver os obstáculos na água rápida e ao longo das margens escarpadas e pequenas praias arenosas. |
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Lisboa 1927 - C5,39-B2,16-P0,79 |
Sem descrição. |
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Costa da Caparica 1940 - C8,23-B2,35 |
Os barcos denominados meia-lua eram usados para a pesca da sardinha e tinham uma tripulação de 8 homens. Tal como a maior parte dos barcos portugueses no museu, está extinto, e o seu actual substituto possúi proa e popa muito menos pronunciadas. |
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Vila Nova de Gaia 1960 - C8,20-B1,89 |
A bateira é provavelmente a forma de embarcação mais comum em Portugal, sendo encontrada ao longo de toda a costa desde Lisboa até ao norte do Porto. A espadela é segura ao mastro e mantida em posição do lado de sotavento, meramente com a pressão do barco. |
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Cascais 1973 - C4,21-B1,71-P0,55 |
Estas coloridas embarcações eram usadas para pescar a partir da praia de Cascais, hoje uma cidade dormitório de Lisboa. Não havia dois barcos pintados da mesma maneira, e sendo leves, eram transportados acima e abaixo do areal por 6 homens, embora o fundo chato e a areia firme lhes permitisse deslizar sobre rolos de madeira. Neles se largavam potes e armadilhas ao marisco e peixe das áreas rochosas. |
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Rio Tejo 1970 Sotero C19,57-B4,30 |
O varino e a fragata foram dos últimos tipos de barcos de transporte à vela a operar no rio Tejo e ambos deixaram de se usar por finais dos anos 70 do séc. XX. O “Sotero” foi trazido para Devonport de navio, na Ellerman Container Line. |
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Viana do Castelo - - C4,27-B1,71 |
Ao contrário da maior parte das embarcações portuguesas, a masseira não deve nada à beleza ou graciosidade, mas é sem dúvida muito prática. Curiosamente, é possível que seja, como um barco puramente português, mais antiga nas origens que qualquer um dos outros barcos. É tida como indígena do norte de Portugal e costa oeste de Espanha. A este respeito, são o equivalente aos Curraghs da Irlanda. |
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Nazaré 1970 - C4,82-B2,44 |
Este é um tipo de barco já extinto da Nazaré, a norte de Lisboa. Ao contrário de qualquer outro barco português, possivelmente é de origem francesa. A sua forma deve-se à necessidade de estabilidade, quando lançado contra o mar da praia. Tal como o meia-lua, a popa dos barcos mais recentes era menos lançada. Este barco passava a maior parte da sua vida na praia e era apenas lançado para transportar a rede para o mar, regressando de imediato para a praia. |
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Aveiro 1974 - C15,18-B2,80 |
A principal função deste barco era a recolha e transporte de algas, usadas como fertilizante, dentro da ria de Aveiro. No entanto era também usado para transportar palha e feno; por outras palavras, era um barco de lavrador. As algas (moliço) eram reunidas com ancinhos e acamadas dentro do barco, tarefa esta levada a cabo com a vela içada ou, à falta de vento, com uma vara até ao leito da ria. |
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Rio Douro - - C9,75-B2,07 |
Esta embarcação é uma versão mais pequena do barco rabelo e o seu leme é uma sofisticação local, necessária nas zonas rápidas do rio, pois ao contrário de um leme normal, este podia virar a direcção do barco apreciavelmente, quando este pouco avançava. É uma embarcação construída em trincado, mas apresenta diferenças significativas à forma de construção hoje encontrada no norte da Europa. Não possúi quilha ou sobrequilha; uma prancha central percorre todo o fundo e nas amuras, cada uma das pranchas se sobrepõe uma à outra e a última ao fundo. Este barco foi adquirido pela EISCA em 1974, não se sabendo a data da sua construção. |
De seguida ficam as imagens dos exemplares portugueses que consegui encontrar, sendo de referir que mesmo um dos crachás do museu original em Exeter ostentava o Barco de Mar português. As restantes fotografias abaixo são do Barco de Mar, Chata, Moliceiro, Rabão e Varino.
Deu-se hoje início aos trabalhos de preparação da lancha poveira "Fé em Deus" para esta nova temporada de 2012. Para além de algumas verificações a bordo, entre elas alguma água acumulada no cavername, as principais tarefas foram dedicadas ao "pano" (a vela), onde foi necessário substituir cabos de reforço e segurança na testa (parte frontal), verificação da escôta e novo cabo também para o rosário, ou caçoilo, o anel de esferas em madeira que une a verga ao mastro no sobe e desce do pano. E que enorme pedaço de pano ele é!
Foram também colocados na água junto ao barco, o mastro e a verga, de modo a ganharem elasticidade e poderem aguentar as enormes forças a que o vento os vai sujeitar. No entanto há sempre o risco de quebrarem. Sendo este o meu primeiro dia como parte da tripulação deste magnífico barco, nada melhor que começar com o referido pano, pois é das parte de um barco tradicional menos conhecidas e focadas quando se fala nele. É como se vê, a parte mais complexa de manobrar.
Lacóbriga é o nome da traineira em primeiro plano, em homenagem ao porto onde se encontra, Lagos no Algarve. Foi aquele o nome registado pelos Romanos, e em 716 seria tomada pela invasão muçulmana, passando a denominar-se Halaq Al-Zawaia. Barcos de linhas finas, eram estes do passado.
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A Frota Bacalhoeira Portuguesa.
filme Uma Aventura na Pesca do Bacalhau
documentário "A Pesca do Bacalhau" - 4 partes
filme 1952 - n/m "Alan Villiers" - Estaleiros Navais de Viana do Castelo
filme 1956 - n/m "São Jorge", construção e bota-abaixo
filme 1957 - l/m "Oliveirense"
filme 1958 - Bacalhoeiros em Viana do Castelo
filme 1964 - n/m "Novos Mares", chegada à Gafanha
filme 1967 - "Os Solitários Pescadores-dos-Dóris"
filmes 1977 a 1991 - Nos Grandes Bancos da Terra Nova
filme 1981 - "Terra Nova, Mar Velho"
História / Filmes de referência à Pesca do Bacalhau
Confraria Gastronómica do Bacalhau - Ílhavo
Lugre-patacho "Gazela Primeiro"
Lugre "Cruz de Malta" ex-"Laura"
Lugre "Altair" - "Vega" - "Vaz"
Lugre "Estrella do Mar - "Apollo" - "Ernani"
Lugres "Altair" "Espozende" "Andorinha" "S. Paio" "Cabo da Roca"
Lugres "Silvina" "Ernani" "Laura"
Lugres "Sotto Mayor" "São Gabriel"
Lugre-motor "Creoula" - Revista da Armada
Lugre-motor "Santa Maria Manuela" - Renasce
NTM Creoula em St.John´s, Agosto 1998
A Campanha do "Argus" - Alan Villiers
Lugre-motor "Argus" / "Polynesia II"
Lugre-motor "Primeiro Navegante"
Lugre-motor "Santa Maria Manuela"
Lugres-motor "Maria das Flores" "Maria Frederico"
A Inspiração dos Cisnes 1 (Inglês)
A Inspiração dos Cisnes 2 (Inglês)
A Inspiração dos Cisnes 3 (Inglês)
Navio-mãe "Gil Eannes" - 1959-71 Capitão Mário C. F. Esteves 1
Navio-mãe "Gil Eannes" - 1959-71 Capitão Mário C. F. Esteves 2
Navio-mãe "Gil Eannes" - 1959-71 Capitão Mário C. F. Esteves 3
Navio-mãe "Gil Eannes" - Fundação
Navio-motor "Capitão Ferreira"
Navios-motor "Capitão Ferreira" "Santa Maria Madalena" "Inácio Cunha" "Elisabeth" "São Ruy"
Navio-motor "Pedro de Barcelos" ("Labrador" em 1988)
Arrastão "Santa Maria Madalena" 1
Arrastão "Santa Maria Madalena" 2
Arrastão "Leone II" ex-"São Ruy"
Arrastão "Álvaro Martins Homem"
Arrastão "Argus" ex-"Álvaro Martins Homem" 1
Arrastão "Argus" ex-"Álvaro Martins Homem" 2
Arrastão-clássico "Santo André"
Arrastões-popa "Praia da Santa Cruz" "Praia da Comenda"
Arrastão-popa "Inácio Cunha" hoje "Joana Princesa"
Arrastão-popa "Cidade de Aveiro"
Estaleiros de Viana do Castelo
# Quando o "Cutty Sark" foi o português "Ferreira"
# Quando o "Thermopylae" foi o português "Pedro Nunes"
# Quando o "Thomas Stephens" foi o português "Pêro de Alenquer"
# Quando o "Hawaiian Isles"/"Star of Greenland"/"Abraham Rydberg III" foi o português "Foz do Douro"
filmes - Mares e Rios de Portugal.
Catraia Fanequeira de Vila Chã, Vila do Conde
Maria do Mar - Nazaré, anos 30 - 9 partes
Tia Desterra - Póvoa de Varzim - 12 contos
Douro, Faina Fluvial - 1931 - 2 partes
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A "Cumpanha".
Modelos de Navios de Prisioneiros de Guerra-POWs Bone Ship Models
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Museu Dr. Joaquim Manso - Nazaré
Bate Estacas - Barcos Tradicionais
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Olivença é Portuguesa.