Quarta-feira, 11 de Março de 2009
Caminha na pesca do bacalhau.

«Nas proximidades da Foz do Minho, entre a Mata Nacional do Camarido e a praia do Cabedelo, havia um extenso areal que foi destruído pelas correntes incontroladas do mesmo curso de água.

Na década de vinte do século passado, uma seca de bacalhau e instalações para armazenagem e comercialização de peixe seco – sob a responsabilidade de Nazário Dantas Carneiro – tiveram pouco tempo de vida naquele espaço de terra, outrora formado por acumulação de areias e agora abrangido pelo estuário do Minho.
A seca do bacalhau e instalações anexas pertenciam à “Parceria de Navegação e Pesca – A Caminhense”, organizada por Dr. Francisco Odorico Dantas Carneiro, Delfino de Miranda Sampaio, padre Manuel Martins de Sá Pereira e outros em 1922. E a referida associação comunitária teve sede social e escritórios, cuja chefia pertenceu a Frederico Frezas Vital, no prédio da Rua da Corredoura, que actualmente tem os números 69 a 73, em Caminha.
A “Parceria de Navegação e Pesca – A Caminhense” teve ao seu serviço dois navios equipados para a pesca de bacalhau: “Rio Minho” e “Esposende III”. O objectivo da sociedade cooperativa era a pesca de bacalhau nos mares da Terra Nova, para secar e lançar no mercado da especialidade. E os dois lugres saíram do porto de Caminha, pela primeira vez, para a pesca de bacalhau, a 25 de Maio de 1923.
 O lugre “Rio Minho” foi construído em Caminha, pelo mestre construtor naval Manuel Ferreira Rodrigues em 1921, para o armador Dr. Francisco Odorico Dantas Carneiro e o seu registo na Capitania do porto de Caminha data de 23 de Fevereiro de 1922.
Entrou no porto de Caminha carregado de bacalhau, pela última vez, a 30 de Outubro de 1928. Em seguida foi vendido a um armador do Porto, sendo registado na Capitania do porto daquela cidade a 11 de Abril de 1929, com a denominação de “Silva Rios”.
 O “Esposende III” saiu do porto de Caminha pela segunda (e última) vez, em 16 de Junho de 1924 com destino aos mares da Terra Nova e com dois dias de viagem, ao largo da cidade galega de Vigo encontrou mal tempo e naufragou.
A embarcação fora construída em Esposende por José Azevedo Linhares, tendo sido lançada à água em28 de Novembro de 1921. Era propriedade do armador Firmino Clemente Loureiro de Esposende e quando naufragou a 18 de Junho de 1924 navegava sob o comando de Manuel Ançã de Ílhavo.
Naquele naufrágio não se perderam vidas humanas, mas a associação comunitária sofreu prejuízos materiais muito elevados. Perdeu o navio com todo o seu equipamento, a carga destinada à manutenção do pessoal durante a permanência no mar e a oportunidade de realizar receitas em devido tempo. Teve ainda de suportar, sem contrapartidas, as despesas de repatriação, indemnização e salários dos tripulantes.
O ancoradouro dos navios bacalhoeiros no porto de Caminha era no estuário do Minho, junto à seca de bacalhau. Ali morreu afogado em 8 de Fevereiro José Maria Martins Braga, casado, de 25 anos, natural de Vilarelho e morador em Caminha, por ter caído de um navio e desaparecido nas águas profundas do rio. O seu corpo apareceu na volta da Ponta da Ruiva a 26 de Fevereiro do ano referido.
A criação, o equipamento e as actividades da “Parceria de Navegação e Pesca – A Caminhense” deram a Caminha e Vilarelho um relativo surto de desenvolvimento económico e bem-estar social, pelo elevado volume de trabalhadores que ocuparam, em terra e no mar. A situação, porém, durou pouco tempo, porque algumas coisas cedo começaram a correr mal.
Os prejuízos resultantes do naufrágio do “Esposende III”, alguns erros de administração e a crise económica daquela época, em Portugal e no Mundo, tornaram a sociedade cooperativa economicamente inviável. Em 1928 os sócios mais influentes deliberaram suspender a actividade da “Parceria de Navegação e Pesca – A Caminhense”, cuja existência, ao que parece foi sempre irregular. E os pequenos accionistas foram as grandes vítimas daquela decisão: perderam a totalidade dos capitais investidos.
O vaivém dos navios de pesca de bacalhau, com lágrimas na despedida e alegria no regresso, durou pouco tempo no porto de Caminha. A população local mal chegou a vida que normalmente resulta da movimentação dos lugares bacalhoeiros noutros portos do país.
Apenas por circunstâncias imprevisíveis e adversas, que ultrapassaram a vontade, a esperança e a inteligência dos homens, a vila de Caminha e arredores perderam, naquela tempo, uma excelente oportunidade de acesso ao desenvolvimento económico e progresso social.»
 
Fonte: Torcato Augusto Ferreira in “Caminiana”, Tomo 8, Junho de 1983
 
Agradecimentos a Brito Ribeiro (vila praia de âncora blogs) e Celestino Ribeiro.


publicado por cachinare às 10:54
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2 comentários:
De reimar a 15 de Março de 2009 às 02:39
Caro amigo,
Faz tempo que não tenho notícias. Repare no perigo de copiar textos e não dar atenção ao que está escrito.
Por acaso deu-se conta que o "Esposende III", demorou dois dias de Caminha a Vigo !
Um grande abraço, Reimar


De jaimepontes a 17 de Março de 2009 às 22:21
Caminha os bacalhoeiros ,sim nunca me passou pela cabeça que de Caminha saiam Lugres para o bacalhau ,más como estou todos os dias a ler os blogues vou descobrindo que pagou a pena comprar o portátil ,só assim fiquei a saber que não sou eu só que gosto de mar e navegantes ,que maravilha toda ésta gente ,e muita gente que não só do mar ? Meus amigos todos os dias aprendo ,como pescador que fui ,ainda hoje digo obrigado a todos os bloguistas . Pena na altura as empresas de Caminha não terem a sorte que é preçiso para seguir ém frente ,ém especial o Lugre Esposende que de tão curta vida não deu lucro,pelo contrario atirou com a empresa a baixo ,! Mais dois lugres que eu não savia que existiram ,más estou sempre a aprender ,por tudo isto um abraço e comprimentos de Jaime Pontes


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