Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2007
Moliceiro, outro exemplo a seguir.

No passado dia 1 de Dezembro, foi apresentado na Sala da Ria do Museu Marítimo de Ílhavo o livro “Barco Moliceiro – construção de um modelo” da autoria do Capitão Marques da Silva, co-editado pela Câmara Municipal de Ílhavo e pelo Museu de Marinha.

Como escrevi há um par de semanas atrás, o modelismo em Portugal é um passatempo de sobrevivência dos mais arrojados ou de velhos marinheiros que constroem as suas réplicas por imagens da memória, pois de outro modo não o poderiam fazer. Assim, este livro sobre o moliceiro é de grande importância, primeiro porque um dia destes deixam de se construír moliceiros, tal como tantas outras embarcações tradicionais por Portugal fora “arrasadas” pelos tempos modernos e várias estão a caír no esquecimento. A segunda razão é que esta obra serve de documento para a posteridade sobre esta embarcação, pois o autor revela todos os detalhes e significados das diferentes partes, o que é perfeito. Não é apenas uma publicação de planos, desenhos e medidas à escala de 1/25, mas uma descrição da identidade do moliceiro. É um belo exemplo a seguir e muitos modelistas (e não só) agradecem.
Ao longo da costa portuguesa muitas e diferentes embarcações de pesca existiram e sobre elas poderia escrever-se uma enciclopédia, tamanha é a sua variedade e complexidade. Alguns municípios costeiros têm levado a cabo a construção de ao menos uma réplica do seu barco mais emblemático, como por exemplo na Póvoa de Varzim, com a Lancha de médio porte “Fé em Deus” ou Olhão, com o seu Caíque algarvio “Bom Sucesso” (que vai navegar até ao Brasil em 2008!), mas ainda é muito pouco na minha opinião. Quando é que os seixalenses põem mãos à obra para a construção de uma Muleta, que impressiona pelo seu aspecto e velame? Quando é que as gentes de Aveiro ou da Caparica constroem um dos seus Saveiros, embarcação do tipo mesopotâmico a remos para tripulações de 12 homens? Sobrevive um exemplar no museu de marinha em Lisboa. São inúmeros os casos e ao menos gostaria que se documentasse suficientemente tanta ambarcação que está a desaparecer ou já não se constrói. Haveria muito trabalho de campo a fazer, mas sem trabalho nada se consegue. O modelismo rigoroso é uma forma de preservação e inúmeros casos existem pelo mundo fora de embarcações que só se conhecem em rigor hoje em dia porque alguém os representou em modelo ou os desenhou.
Como tantos outros, por vezes ponho-me a imaginar um futuro em que se fazem regatas na costa de Portugal com embarcações tradicionais originárias desde Caminha a Vila Real de Santo António, grandes, pequenas, de fundo chato, com mais quilha ou menos quilha, enfim, um bocadinho de cada ponto da nossa costa que na verdade está a retratar tantas fases da nossa história e o contacto com Fenícios, Cartagineses, Árabes, Escandinavos... . Não se trataria de competição mas sim de regalo para a vista e para a memória, para que os mais velhos continuassem a contar histórias sobre aqueles barcos aos mais novos, sobre a dureza da vida nos seus dias mas também das alegrias no modo como se vivia. Há muitos outros barcos tradicionais sobre os quais não irei escrever neste artigo, aqueles que normalmente são os "mais pequeninos" e passam mais despercebidos à vista, barcos de 2 ou 3 homens mas que têm tanta importância como os mais vistosos. Pode ser que com tempo, organize qualquer coisa sobre isso e dê também voz aos "pequeninos".


publicado por cachinare às 15:06
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