Quarta-feira, 25 de Março de 2009
“Um Pequeno Herói - O Dóri dos Bancos, Bote dos Bacalhoeiros”.
Esta pequena pérola da literatura técnica naval Portuguesa editada em 2004 pela Comissão Cultural da Marinha é da maior importância para quem se interessa pela pesca do bacalhau, pois o dóri era ferramenta essencial à pesca à linha e tal como o narrador do filme “O Navio Branco” (a bordo do “Santa Maria Manuela” em 1962) disse, “Isto (o dóri) será a tua pequenina casa 12 horas por dia”, seis meses no ano... .
É uma obra da autoria do Comandante Marques da Silva, actualmente a colaborar na recuperação do “Santa Maria Manuela”, o qual fez 20 campanhas de pesca na Terra Nova, entre elas no “Creoula”. Homem bastante dedicado ao modelismo naval, disse sobre esta obra que: “Estas pequenas e humildes embarcações que facilmente se adaptaram ao método da pesca à linha utilizado nos bancos da costa leste da América do Norte do Canadá, começaram a ser adoptados pelos nossos navios da pesca do bacalhau nos finais do século dezanove. Até meados do século vinte continuaram a ser por nós utilizadas, constituindo o sustentáculo do renascimento da grande pesca que se efectuou nos Bancos da Terra Nova e ainda durante três décadas na costa oeste da Gronelândia”.
O livro começa com uma breve história desta pequena embarcação, passando depois ao detalhe de como é construído em Portugal (existem outras variantes do dóri, nos E.U.A. e Canadá) e seguidamente como era aparelhado para a pesca a bordo dos navios pelos pescadores, começando por serem sorteados pelos seus números.
O Comandante terminaria a sua apresentação referindo que: “Não procurei neste livro fazer mais do que recordar um pequeno herói que sendo humilde e até esquecido, foi um fiel servidor dos homens que em determinada época e trabalho específico, o utilizaram na luta pela vida. Se por vezes esses mesmos homens se esqueceram da sua pequenez e fragilidade e o levaram a suportar situações às quais não conseguiu sobreviver, não o devemos culpar porque ele nunca esqueceu a sua dimensão”.
 
Baseado no artigo da Revista de Marinha.
 
Sem dúvida intimamente ligado a cada um dos pescadores como uma “pequenina casa”, na muita investigação que tenho feito sobre este tempo e arte, onde o meu avô, pai e tio andaram, a figura e papel do dóri em todas estas décadas de pesca é enorme. A verdadeira “acção” era a bordo dos dóris, onde se fugia ao mau tempo repentino, onde se afundava em mar gélido por estar demasiado carregado de peixe, onde se morria de frio perdido do lugre durante dias, onde se pintavam as marcas pessoais de cada e muitos içavam a pequenina vela também decorada por muitos à sua maneira, onde se morria “traçado” entre ele e o lugre porque as ondas foram traiçoeiras a garfar o peixe para dentro. Era nele que se ficava sozinho no meio do oceano sem nada nem ninguém em volta a pescar, no silêncio da água contra aquele bocadinho de madeira e a pensar lá na terra, onde ainda falta tanto tempo para regressar... se regressar.


publicado por cachinare às 12:35
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1 comentário:
De jaimepontes a 28 de Março de 2009 às 20:18
Boa Noite amigo Fangueiro ,lembrar o bote do bacalhau ,esse fiel companheiro ,quando os botes éram sorteados éra uma alegria cada um a arranjar o seu ,más havia quem pouco fazia por mereçer um fiél bote ! Então éra plainar os remos a maneira ,também o mastro e a verga da véla ,e as pinturas cada um com sua marca e o nome que normalmente se dava ao bote a maioria nomes de santos ,quando chegava a altura de arriar o bote tinha que estár oquei e não ha dúvida que éra um grande companheiro para seis mezes ,o bote éra o único que guardava segredos ,normalmente 12 horas por dia ,por isso eu costumava dizer que naqueles seis mezes éra o meu fiél ,eu e ele inseparaveis amigos ,bém haja quem escreveu este livro ,porque tém muita razão ao intitular o bote como uma casinha no meio do mar dos bacalhaus por 12 horas diarias ,...comprimentos J.Pião


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