Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2007
A Catraia Sardinheira de Esposende.
Sendo eu natural das Caxinas, estou desde sempre habituado a ouvir dizer que homens do Norte, os Vikings que toda a gente conhece e muito romantismo em volta existe, por vezes errado e exagerado, em passagem pelas nossas costas terão alguns decidido fixar-se e tal terá acontecido com especial incidência no noroeste de Portugal, sendo a Póvoa de Varzim o possível maior polo dessa fixação. As siglas poveiras, as formas das lanchas e suas derivações e as regras desta sociedade piscatória assim o parecem comprovar, mas há pessoas bem mais dentro deste assunto do que eu que poderão dizer muito mais. Da minha parte apenas observo e analiso inúmeros factores, andando em constante procura de informação.
Recentemente, cheguei a um ponto nesta investigação em que terei de “varrer” a costa portuguesa de Norte a Sul em busca de todo o tipo de embarcações tradicionais, muitas já desaparecidas das praias, outras em vias disso e algumas ainda a resistirem ao tempo moderno. Algumas destas embarcações foram decididas construír uma réplica exacta como símbolo do passado da terra. Foi precisamente o caso da Póvoa de Varzim com a sua “Fé em Deus” e como escrevi há dias atrás pressinto pouco trabalho feito para que se preservem mais e mais das “velhas ambarcações”, mas prefiro escrever sobre isto mais daqui a uns tempos, pois há muito a descobrir ainda e poderei estar a cometer erros “por desconhecimento”. Tendo começado pelo Norte do país, notam-se claramente as similaridades poveiras nalguns barcos até Caminha ou para Sul até à Afurada. Mas o centro deste artigo hoje é a Catraia Sardinheira de Esposende, não porque se parece imenso com os barcos da Póvoa, mas por outro detalhe nele que nunca havia visto antes e que tem a ver precisamente com as tais gentes do Norte da Europa. O detalhe que me fez arregalar os olhos nos planos da catraia de Esposende são os dois suportes ao alto (forquetas) na borda do barco para “poisar” os remos,  como se vê na foto e usados nos barcos do Norte de Portugal para pousar o mastro e a verga quando não estão em uso. Exactamente dois desses suportes estão na foto do Oseberg e a diferença de idade entre os dois barcos é “apenas” de cerca de 1.100 anos. Posso dizer que mais esta semelhança notória entre os barcos de uma vez por todas prova a meu ver as origens de algum conhecimento naval de muitas gentes do Portugal passado e presente vinda do Norte, através da Bretanha e Galiza.
Fazia questão desde miúdo em ir um dia ver estes navios à Noruega e tive oportunidade para isso em Dezembro de 2004. A sensação de estar a um metro destes navios é quase arrepiante no sentido em que são tão familiares a quem nasceu nas costas do Norte de Portugal, para além de serem bem maiores do que as fotos mostram. Em inúmeras partes da Europa se vê a influência da construção naval escandinava nas populações, pois eram métodos excepcionais. Descobri imenso sobre isso no Norte da Polónia por exemplo. Num tempo em que vivemos tão perto uns dos outros com as distâncias a apenas horas de avião, pensar sobre estas distâncias há 1.000 anos atrás é transportar-nos para outra maneira de pensar e notar que o contacto entre culturas tão diferentes como a latina e a escandinava ou a árabe ou fenícia (estas mais antigas) criou muita da identidade do ser Português.
Voltando à catraia, fiquei muito satisfeito por descobrir que a “Santa Maria dos Anjos” navega desde 1993 mas ainda mais por no site do Fórum Esposendense, para além de fotos se encontrar o plano não especificamente da catraia aqui descrita, mas sim da versão de apanha do pilado, também chamado "mexoalho". Para os modelistas é um verdadeiro “achado”, embora não inclúa o desenho das cavernas. Também no site ptnauticmodel estão fotos da catraia (na versão de pesca à sardinha) precisamente para ajudar quem estiver interessado em fazer o seu modelo à escala. Por fim, aqui fica um link sobre o que é exactamente o “pilado” e porque o apanham desde há séculos principalmente no Centro-Norte de Portugal. Lembro-me de em miúdo ver este caranguejo a vir no meio do peixe e tinha conotação com pesca fraca.
Irei por certo pôr o projecto dos planos do "Creoula" para o lado por uns tempos, pois quero dedicar-me a um modelo desta bela embarcação de Esposende... tão familiar às memórias e quanto à Catraia Piladeira escreverei um artigo num futuro próximo.


publicado por cachinare às 12:23
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8 comentários:
De Anónimo a 17 de Dezembro de 2007 às 13:26
Olá Boa tarde, não resisti a deixar um comentário uma vez que estive entusiasmadíssima a ler sobre as nossas Caxinas . Sim, também sou Caxineira e como o geral neta e filha de pescadores, e apesar de ser fruto já da década de oitenta a descrição sobre os Caxineiros , os verdadeiros Caxineiros está absolutamente fantástica porque apesar de já algum tempo passado ainda tudo é tal e qual....
o mais incrível é como uma terra tão pequena e com pessoas tão peculiares consegue deixar esta marca nos verdadeiros filhos da terra, acho a historia extraordinária, e considero que Caxinas pode nunca ser uma freguesia, mas é o melhor lugar do mundo!!!!!
Cumprimentos, Vera Trocado


De AA a 23 de Dezembro de 2007 às 20:20
Li o texto sobre a CATRAIA PILADEIRA e não concordo com VC sobre a ideia de ela ser de construção VIKING... A dita embarcação é uma pura construção mediterranica pelas seguintes razões:
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Li o texto sobre a CATRAIA PILADEIRA e não concordo com VC sobre a ideia de ela ser de construção VIKING... A dita embarcação é uma pura construção mediterranica pelas seguintes razões: <BR class=incorrect name="incorrect" <a>NÂO</A> TEM O CASCO TRINCADO. <BR>TEM UM CAVERNAME INTERNO QUE È CONSTRUIDO ANTES DE SE REVESTIR O CASCO. <BR><BR>LEIAM FERNÂO DE OLIVEIRA NA SUA «FABRICA DE NAUS» 1580....OU LAVANHA .. <BR><BR>EXISTEM NO NORTE DE PORTUGAL EMBARCAÇÕES DE CONSTRUÇÃO NORDICA ....MAS SÒ NOS RIOS COMO O RABELO DO DOURO... <BR><BR>Cumprimentos <BR><BR class=incorrect name="incorrect" <a>Antonio</A> Angeja


De Albino Gomes. a 22 de Abril de 2008 às 18:16
Então isto agora não funciona?
Fiz um comentário, indicando para fazer uma visita ao
Posto de Socorros a Naufragos de Apúlia, a fim de visitar uma ainda melhor catraia piladeira e isto parece que não funciona?
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Então isto agora não funciona? <BR>Fiz um comentário, indicando para fazer uma visita ao <BR>Posto de Socorros a Naufragos de Apúlia, a fim de visitar uma ainda melhor catraia piladeira e isto parece que não funciona? <BR class=incorrect name="incorrect" <a>Porra</A> ! <BR>Albino Gomes <BR>Vila do Conde


De cachinare a 23 de Abril de 2008 às 08:50
Sr. Albino, recebi bem o seu comentário no qual agradeço imenso a informação sobre essa outra catraia na Apúlia.
Um dia que esteja de novo em Portugal irei lá de certeza.

Cumprimentos.
A.Fangueiro


De Anónimo a 23 de Abril de 2008 às 17:57
Amigo Fangueiro ,
O que eu pretendia dizer é que na Apúlia ainda existe
um belo original da catraia piladeira , com parte da sua
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Amigo Fangueiro , <BR>O que eu pretendia dizer é que na Apúlia ainda existe <BR>um belo original da catraia piladeira , com parte da sua <BR class=incorrect name="incorrect" <a>palamenta</A> , e não uma réplica, como é o caso da do <BR class=incorrect name="incorrect" <a>Forum</A> Esposendense, na qual já tenho velejado várias vezes, em Portugal e Galiza, quando dos Encontros de Embarcações Tradicionais. <BR>A propósito destes Encontros, devo dizer que em Vila do Conde já vamos no V, por iniciativa minha <BR>quando presidi à Associação dos Ex-Marinheiros da Armada local. <BR>Como interessado na matéria, e na hipotese de desconhecer, sugiro que consulte o site seguinte: <BR class=incorrect name="incorrect" <a>www.culturamaritima.org</A> . <BR>Cumprimentos, <BR>Albino Gomes <BR>Post Scriptum : no tema da isca para o bacalhau, <BR>esqueceu-me de dizer que para além dos pombaletes <BR>também se iscava com outra ave: a cascarra .


De José Felgueiras a 7 de Maio de 2008 às 18:07
Caro «Cachinare»
Encontrei uma "mina" nos seus "Blogs", ou lá como se chama isto!
Acabo de ler o que escre4veu sobre a "Catraia de Esposende.
Eu estou na génese da sua construção.Por isso estou á vontade para esclarecer dois pormenores;
Os tais suportes de "guardar" os remos, são aqueles "pinos" ao alto nas "chumasseiras" onde eles assentam ? É isso a que se refere?
Eu não queria desiludi-lo, mas aquilo já são "modernices "em ferro., que nada tem a ver com o original!
Cá na zona o nome técnico daqueles pinos , são "chamas" ou "Toletes", ou seja o original, de há séculos atrás era um pedaço de pau, de uns trnta a quarenta centímetros de comprimento, por 3 a 3,5 de diâmetro, onde o remo trabalhava . Estas peças eram amovíveis, isto é, nunca estavam (onde as viu...) a não ser que os remos estivessem armados.....Depois de atracarem e retirados os remos, as "chamas" eram guardadas em determinado sítio da embarcação, normalmente , numa espécie de antepara que ia do poço ,ao banco do mastro, pelo lado de dentro dos chapins ( talabardão /borda).
Na zona da Póvoa, onde era muito utilizado, chamava-se o "corredor dos toletes".
Quanto a chamar-lhe "piladeira", não será nenhum crime.... mas as catrais piladeiras podem ver-se (ou melhor podiam...) em Apúlia. Estas catrais são mais largas , portanto têm mais boca, e não são tão rápidas como as de Esposende ou de Fão. Estruturalmente parecem iguais, mas não são.A catraia de Esposende tem duas fortissimas peças que unem o banco da proa (reforçado ) e o de vante, imediato , que se chamam "curvatôes", por onde enfurna o mastro.Na catraia piladeira, não é assim. Há uma peça metàlica , em firma de gancho, chamada "galindréu (que segura o mastro ao banco).
Por outro lado as "nossas" catraias não são tão «bojudas» como as piladeiras, as da Póvoa ou mesmo Caxinas e Vila do Conde, por uma simples razão: é que entrando a barra,de Esposende, tinham ainda que vencer a vazante do Cávado, cerca de 1,5 Km, o que era demasiado custoso, e que muitas vezes era feito á "sirga"... Este "pequeno" pormenor de adaptação ao meio, é que poderá , eventualmente ter algo a ver com os "drakars," vikings, pois os homens das "sagas" também por aqui andaram...
No entanto, nem eles nem outros visitantes, deixaram quaisquer vestigios na arte da construção naval, nestas paragens...
Um abraço e ao dispor .
José Felgueiras
Esposende


De jaimepontes a 2 de Março de 2009 às 14:47
Pésso desculpa de apareçer um pouco tarde ,más ainda a tempo de dar uma ajuda ?Os piladeiros ,sim as catraias de Caxinas uma maioria foram compradas ém segunda mão na Apúlia ,más antes já háviam e construidas nas Caxinas ,portanto no que respeita as catraias da Apúlia éram diferentes das nossas ,porque não tinham os corrimões ném os chamados leitos éram mais singelas ,e que me lembre éram mais cergaceiros do que piladeiros ,embora noutros tempos também piladeiros ! Usavam as furquetas a estibordo ,quando nós cá tanto Povoa como Caxinas éram a bombordo ,nós cá velava-mos mais ,normalmente não se ia ao mar sem se levar tudo que dizia respeito ao velame ao passo que ém Esposende e Apúlia e até Fão ultimamente éra mais o remo porque éram mais locais,ao passo que aqui nas Caxinas ainda se andou muitos anos de véla até os anos 60 quando começaram a apareçer os motores de popa as lambretas e mais tarde os jonsons e os evinrudes e mais tarde os motores de centro ,por isso as catraias da Apúlia éram tipicas para velejar ,tinham boas entradas e boas saidas com a tal reparação de corrimões e leitos dava gosto velas a navegar a véla eu sei daquilo que falo ,éram os famosos pulheiros e aqui nas Caxinas chegaram a existir dezenas delas compradas na Apúlia. Omeu Pai também comprou uma que tanto de remo como de véla éra o orgulho do meu Pai e procurava sempre ém traze-la sempre nos pincaros bém estimada ,as vezes servia de salva vidas cá nas Caxinas e não só ...comprimentos a todos e saúdações maritimas ...Jaime pontes «pião»


De jaimepontes a 2 de Março de 2009 às 15:03
Perdão ,foi esqueçimento ,más não queria morrer sem antes ver uma réplica das catraias Caxineiras ,más sei que vai ser difícil porque ém Vila do Conde não véjo quem se lembre de tál ideia ,por isso lanço o repto a todos Caxineiros e Poça da barca para únirmos forças para que tál aconteça ,por favor ajudem nesta ideia que sei que é de todos ,o Amigo António já muito tém dado a entender ésta ideia e eu corraboro vamos fazer uma frente neste e noutros sentidos ,para não deixar morrer o pouco patrimonio que nos ´resta ?...Avante Caxinas e Poça da barca ...saúdações maritimas ...J.Pontes .


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