Sexta-feira, 20 de Julho de 2007
Inesperada semelhança a Norte.

Regressei há um par de dias atrás de umas férias.

Foi só uma semana, mas pareceu-me ter sido um mês... e isso talvez porque não estava à espera de encontrar... o que encontrei.

Ora estando eu na Polónia já há cerca de dois anos, em Cracóvia bem cá no Sul do país, longe do mar aberto e da frescura do mar na cara, enfim tão diferente “das minhas” Caxinas, desde há muito que tinha curiosidade em ver como é o mar da Polónia, lá no Norte, o Báltico.

Sendo este ano de 2007 bastante atarefado em matéria de férias, proporcionou-se então uma semana nos princípios de Julho. Com a minha batata (máquina digital) no bolso, um monte de cartões SD e pilhas (recarregáveis), metemo-nos no comboio logo na sexta à noite para ir de encontro a dois casais amigos que já estavam há uma semana de férias na região dos lagos, a Mazuria no nordeste, numa pequena terra chamada Gizycko, perto da fronteira com Kaliningrado, enclave Russo no Báltico. - (aconselho a abertura de uma janela com o mapa da Polónia, pois ajudará a perceber a particularidade do sítio onde estive.) – A Mazuria é uma região onde milhares afluem todos os anos para velejar nos grandes lagos, região selvagem e muito aprazível com centenas de iates e pequenos veleiros sobre a qual desde há muito me falam por aqui e que deveria experimentar o “prazer de velejar”. Sendo eu filho de pescador... sem dúvida seria interessante e confesso que a única vez que pús os pés num barco a sério, tinha eu uns 11 anos e foi só ir de um cais para outro ali na lota da Póvoa num barco de pesca para o qual a minha mãe trabalhava.

Chegamos aos lagos pelas oito da manhã, costas retorcidas pela noite a dormir sentado ou em posições quase de equilibrista no meio da cabine cheia do comboio e de carro, os tais amigos esperavam-nos. Lá fomos para onde o veleiro estava e passamos essa noite no barco, mas de velejar nada, pois o tempo era de autêntico Inverno, chuva e frio já há mais de cinco dias seguidos, para enorme frustração de todos. Como tal, só pude “cheirar” como seria, mas não saímos do porto e na manhã seguinte partimos então todos de carro para o ponto central das minhas férias, a Península de Hel, na costa central.

Uma vez que autoestradas na Polónia ainda são practicamente uma miragem, a viagem foi algo lenta, uns 300 km por território ao qual entre 1525-1947 se denominava por Prússia e antes disso dominado pela Ordem Teutónica. A influência alemã é enorme e muito antiga por estas bandas.

Se já procuraram no mapa onde esta Península de Hel fica, por certo reparam que é algo bastante estreito e extenso, 36 km. Ora pensava eu que ia encontrar uma estrada, uma fina faixa de mato ou floresta ao lado e respectiva praia. Enganei-me. À medida que avançava-mos ganha mais alguma largura e só do lado da baía se vê água, pois do outro lá está a floresta mas com casas, lojas, parques de campismo para os Kitesurfers e Windsurfers e gente por todo o lado.

A nossa estadia foi numa casa privada, fui pela primeira vez na vida “banhista” a 1.500 paus por pessoa por noite. Espero que ainda se lembrem dos escudos, pois eu escrevi bem: 1.500 paus. A localidade chama-se Jastarnia, no centro da península e é uma pequena terra de pescadores, com o seu porto, casas típicas e igreja recheada de artefactos e pinturas alusivas à pesca e um púlpito em forma de barco, com velas, cordame e ondas; o mais lindo que já vi. A parte de cima da casa, com quatro quartos, ficou por nossa conta, enquanto na parte de baixo vivia normalmente o casal de pescadores, ele com 77 e já reformado e a senhora nos seus 65. Quintal enorme, com mais anexos, área para o churrasco, enfim... algo já a recordar as Caxinas. Gente bastante simpática, por estas bandas falam Polaco, mas a sua língua é outra, denominada Kashube, uma mistura maioritária de Polaco, com Alemão e algumas palavras de Sueco. O sotaque é tão diferente e soa tanto a escandinavo que os Polacos não entendem esta língua. Brincando com coisas sérias, é como mandar uma excursão de Caxineiros a Lisboa e manter o nosso forte sotaque e línguagem da pesca. Não é bem o mesmo caso, mas fica a comparação, pois dizem que o sotaque do Porto é o que mais se diferencia em Portugal do “correcto Português”, mas quatro pescadores Caxineiros a jogar à Sueca com a sua Super Bock ao lado e as respectivas mulheres a “cochichar” na cozinha enquanto arranjam o peixe... não estou certo se um lisboeta ou mesmo um portuense entenderia tudo. Mais uma prova da forte identidade das gentes do mar.

Os dias foram passando, o tempo não estava o mais solarengo, mas deu para dois dias de praia. Uma das minhas maiores curiosidades era sem dúvida sentir a areia do Báltico nos pés e dar uns mergulhos na sua “gelada” água. Pois Caxineiros da minha terra... a areia é finíssima mas estranhamente não se cola ao corpo como a nossa e sai com a maior das facilidades. Areal enorme ao longo de toda a península, sem qualquer rocha ou penedo, lembra o Lugar de Areia ou Ofir, com a floresta por trás. Quanto à água, Caxineiro que se preze quando põe os pés na praia tem de dar ao menos um mergulho, nem que gele os quilhos (bom dia aos púdicos!). Após medir a temperatura à água com um molha-pés, sobe à areia e de corrida desenfreada (qual Zé-dos-Congros) aí vai chapa. Meia hora depois ainda estava na água... sem frio, mas com a cabeça a andar à roda de tanto mergulhar, afinal já há cinco anos que não passo o Verão nas Caxinas nem sei o que é banho-de-mar. As saudades daquilo eram tantas que me custou imenso sair da água mas a maior curiosidade... é que pús água à boca... e não se sente qualquer sal. Nas Caxinas, entra água pelo nariz ou bebe-se alguma, ai senhor que é sempre a cuspir; ali, não se passa nada, é quase como nadar na piscina. Fantástico. Apesar de tudo isto, o nosso Atlântico é muito mais rico em vida e só a nossa água fria podia ser diferente. Fui o único a disfrutar do mar. Ninguém dos colegas tem prazer naquilo, o que denota as diferenças nas origens. De início pensaram que eu era maluco por ir para a água. Tenho-lhes dito que um dia têm de passar férias nas Caxinas, disfrutar da nossa praia. Seria lindo, com uma boa Nortada, uns mergulhos por arrasto e rolar de seguida na areia tipo panado no pão-ralado... se voltarem um dia é pelas navalheiras e o arroz de marisco!

Aí ao quarto dia de estadia, sempre com o tempo a prometer chuva, fomos ao extremo da península, a Hel. Fãs dos AC/DC já devem estar aí a cantarolar uma certa música, pois foi o que eu fiz ainda muito antes de iniciar estas férias. Hel é outro porto piscatório, onde a península é mais larga e há mais para ver. Um velhote estava a fumar peixe mesmo à entrada do porto. Sendo peixe fumado para nós algo estranho, nada de confusões com cigarros ou “charros” pois é algo extremamente saboroso. Sou grande adepto do peixe fumado e por todo o país se encontra. Vários barcos de pescadores ganham umas massas ao fim-de-semana a levar os turistas a dar umas voltas pela baía. Turistas são aos milhares, pois por estas bandas tudo cheira a típico pescador, para onde quer que se olhe, montes de tendas de recordações alusivas ao mar e pesca, restaurantes do mais rústico e tradicional que já vi, sopa de peixe deliciosa... enfim. Outra grande curiosidade foi ver miúdos e graúdos a brincar com cisnes na praia, cisnes de verdade, não insufláveis tipo bóia. Como há tão pouco sal na água... deve parecer-lhes um belo lago e lá andam eles ao sabor das mini-ondas! Foi então que decidimos visitar o museu de pescas local... e é aqui neste ponto que se centra parte deste post, pois foi lá que me deparei com algo inesperado. Lembram-se das marcas Poveiras, que muito pescador da nossa terra traz dos seus antepassados? Pois em Hel também as têm, pelas mesmas razões e para o mesmo uso, marcar os seus pertences e não só. Chamam-lhes “merki” e há certas semelhanças nalgumas com as nossas. Curiosamente, já quando estive em Bergen na Noruega há 3 anos atrás, descobri lá o mesmo tipo de marcas das gentes do mar. Não me vou alargar neste tema, pois o post já vai longo e fica mais um ponto em comum entre Caxinas e Hel. Os barcos são semelhantes aos nossos mas mantêm muito mais as características escandinavas no modo de construção, com pranchado sobreposto.

No regresso a Jastarnia deu para explorar uma bateria anti-aérea Polaca da II Guerra Mundial, impressionante e um bunker abandonado. Esta península resistiu bastante tempo à afronta alemã no início da guerra e de facto as suas gentes presenciaram os primeiros disparos do navio de guerra alemão Schleswig-Holstein a 1 de Setembro de 1939 a Westerplatte, uma parte de Gdansk (Danzig) e que deu início à guerra.

Ainda antes de chegar a Jastarnia, existe Jurata, parte mais rica da península e onde há poucos meses houve uma cimeira que inluíu o presidente Americano. Não faltavam os slogans por todo o lado dirigidos a ele com “Bush, welcome to Hel(l)”.

Noutro dia levantámo-nos às seis da manhã para ir comprar peixe fresco e mais barato no porto de pesca. Lá compramos uns quatro quilos de solha para grelhar a um pequeno barco com quatro pescadores acabados de chegar do mar e a tirar o peixe das redes a conversar em “Kashube”. Com eles estava um miúdo que não tinha mais de 13 anos e que nos vendeu o peixe todo por 500 paus. Peixe é o prato forte por todo o lado, frito ou grelhado, com umas batatas e saladas, mas o custo chega quase ao nível de Portugal e a variedade gastronómica não é grande.

Deu também um dia para atravessar a baía de barco e visitar Gdynia, sendo o seu porto a “casa” de um belo e enorme veleiro, o Dar Pomorza, semelhente à nossa Sagres e um navio de guerra da II Guerra. Gdansk mesmo ao lado é uma cidade a visitar, riquíssima cidade, parte da Liga Hanseática, deslumbrante. Puck é outra pequena cidade mais dentro da baía, onde comi um bacalhau frito com baratas noutro tão tradicional restaurante de pescadores. Parecia que estava num filme épico, mas sem efeitos especiais, com redes, bóias de vidro e coloridas, cabeças de peixe embalsamadas, cores vivas em tudo. Tudo mantido tal como era no século XIX.

 

O dia do regresso chegou e nunca mais esquecerei esta península, por muito motivos. Fartei-me de contemplar as semelhanças com as Caxinas, não na arquitectura, mas no significado do mar no homem, como o molda de forma tão semelhante em dois pontos geográficos tão distantes. Gostaria de ver nas Caxinas velhas casas de pescadores em madeira transformadas em restaurantes rústicos e que põem o turista de boca aberta nos detalhes, mas tal não é possível, pois a nossa terra não é tão antiga e além disso se havia algo a aproveitar do antigo, tal já não existe. Pode-se sempre transportar o conceito da casa de Hel para as Caxinas e criar um restaurante de sucesso garantido. Arquitectura de Hel + gastronomia das Caxinas... quem quer investir?

Outra marca forte que me fica é o facto de estes locais serem reconhecidos pela sua identidade, pelos seus costumes, linguagem, possuem o seu Brasão que se vê por todo o lado em bandeiras nas casas, nas t-shirts dos turistas, canecas e tudo mais. O governo central interessa-se, o governo regional ainda mais e as gentes com quem falei estavam muito contentes com este reconhecimento, em ostentar o seu brasão.

 

Como gostaria de ver as gentes das Caxinas com este orgulho representado e não só “falado”. De vez em quando mandam-se uns berros à Câmara porque as coisas não vão bem, mas sempre senti que Vila do Conde olha para as gentes das Caxinas como gente de pouca instrução, a quem se dá umas bandeiras e t-shirts durante as eleições, uns beijos e abraços às mulheres na rua nas desenfreadas campanhas eleitorais e chega para ganhar os votos. Sim, porque são 15.000 habitantes, mais que no resto de Vila do Conde com os seus 10.000 e o pescador muitas vezes, não obstante a sua rudeza, se sente inferior, porque “não teve a escola toda”, ou porque fala diferente do “Sr. Engenheiro” e como tal encolhe-se, porque quase parece que o que o “Sr. Engenheiro” diz e promete, é LEI. O que o pescador se devia lembrar é que ele próprio é o “Sr. Engenheiro” no que respeita a mar e à faina e que se trocarem as posições... qual é a diferença?

Já que as pescas são o que são em Portugal, de imagem decrépita e com apoios quase por favor, aos menos permita-se que tão únicas gentes, que tratam a Morte por Tú e não dormem descansados no quente da sua casa durante anos das suas vidas, tenham uma bandeira para hastear bem alto, frente ao mar e em todo o lado, nas t-shirts dos miúdos ou nas varandas das casas, em vez de bandeiras e autocolantes de partidos que na verdade significam o quê, que o presidente lhe deu um beijo ou um aperto de mão durante as eleições?

 

Os pescadores de Hel e Jastarnia falam alto, tom grosseiro como os nossos, têm as rugas da faina como os nossos e têm voz, com o seu Brasão... ao contrário dos nossos.

 

Podem ver aqui meia-dúzia de fotos.



publicado por cachinare às 08:50
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1 comentário:
De jaime pião a 4 de Agosto de 2009 às 10:41
Bom dia amigo Fangueiro ,bom dia a todos .
Gostei muito de ler e admirar a franqueza das gentes do norte da Polónia e também cheguei a conclusão através da leitura que fiz que são quase em tudo comparados a nós mas com a diferença abismal em saber respeitar a sua bandeira ou brasão ,coisa que nós os Caxineiros não nos podemos gabar de ter e por este andar nunca teremos ,porque enquanto estivermos debaixo do domínio central nunca seremos propriamente Vila nem nada que se pareça ,seremos sempre aquilo que outros quiserem e, nós assobiamos para o lado ,como não fosse nada connosco ,por isso e neste ponto sempre defendi que Caxinas têm que ter autonomia e ser aquilo que os Caxineiros querem que seja e não estarmos subjugados e se todos formos ao remo para o mesmo lado com certeza que mais tarde ou mais cedo teremos a nossa identidade e o nosso Brasão !!!
Eu sempre me identifiquei como um Caxineiro descendente a cem por cento mas sempre com a sensação de ser olhado de soslaio em especial quando falo com alguém no centro de Vila do Conde e mais grave ainda é a sensação de quando das deslocações de alguns Caxineiros a Câmara são logo vistos como de que partido és ,se for da cor são melhor atendidos se não esperem que estamos em reunião ,por acaso não se passa isso com migo mas tenho conversado com muita gente cá nas Caxinas que estão fartos de serem tratados desta maneira e podem querer que o Caxineiro sabe muito bem distinguir os tratamentos devidos e os que são
menos devidos !
Por isso os meus elogios ao blogs do amigo António que me proporciona boas leituras e boa escritas um Bem Haja ...Jaime Pontes .


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