Segunda-feira, 31 de Dezembro de 2007
“Bluenose”, o campeão do Canadá.
Quando se olha para o “Creoula”, normalmente encontramos algo de admirável nele, mesmo que não percebamos nada de coisas do mar a sua silhueta é agradável e fica presente na memória. Muitas pessoas, por causa disso tentam descobrir um pouco mais da sua história e surpreendem-se porque era um antigo navio de pesca e não “navio de guerra” como já li algures. As suas únicas batalhas eram contra temporais em mares gelados e gelo contra o casco. Tentando descobrir sempre mais e mais da sua história, acaba-se por ter de sair de Portugal, pois o “Creoula” é um lugre de 4 mastros ao qual também chamam “escuna”, a única no mundo com 4 mastros... ao qual em breve se juntará o “Santa Maria Manuela”.
Com altos e baixos e até alturas da Revolução de Abril, a Pesca do Bacalhau dos portugueses sempre esteve ligada a mares do Canadá e Gronelândia desde os Côrte-Real por alturas de 1500 e por isso existe todo o interesse em investigar estas mesmas terras do Labrador e Terra Nova e os barcos que eles usavam para pescar entre outras espécies como a cavala ou o arenque, o tão rico bacalhau. A história trágico-marítima de muitas povoações nestas terras é impressionante no número de naufrágios. Muitos bacalhoeiros portugueses afundaram naquelas águas traiçoeiras, onde um temporal se levanta do nada em minutos e os nevoeiros são tão frequentes como o nascer do Sol, não esquecendo baixios riquíssimos em peixe mas mortíferos, a uma braça da superfície. Por causa de tudo isto, estes homens sempre estiveram dependentes da “sorte do Senhor” e da resistência dos seus barcos e é por alturas de princípios do séc. XVIII que surge uma evolução importante na construção naval norte-americana.
Em 1713 em Gloucester, Massachusetts (EUA) é registada uma primeira embarcação do tipo “escuna”. Este termo surge do inglês “schooner”, que traduzido me traz à memória tempos de miúdo quando na praia apanhava godos de vários tamanhos e os atirava, com mar liso, sobre a água para que “saltassem” o maior número de vezes. Este saltar ou deslizar sobre a água é exactamente o que significa “to scoon” em inglês. Alguém fez exactamente este comentário, segundo consta a lenda, quando em Gloucester testavam este novo barco e viram como deslizava sobre a água e por isso passou a chamar-se “escuna”.
O desenho destes barcos e velames, baseia-se em embarcações holandesas que evoluiram desde os sécs. XVI, conhecidas por se encontrarem em muitas pinturas europeias. A diferença foi que com a evolução nos velames, os americanos deram linhas “mais rápidas” a estas embarcações, pois era necessária rapidez em mares tão complicados. Eis pois que as escunas de dois mastros passam a ser as preferidas para a pesca, construíndo-se muitas outras para transporte e outros fins. Torna-se tão popular que a construção naval no estado de Massachusetts é enorme, nomeadamente em Essex, onde hoje existe um museu a ela dedicado ou Gloucester, porto piscatório muito antigo e curiosamente onde se passa o conhecido filme de história verídica “Tempestade” (“The Perfect Storm”) do realizador alemão Wolfgang Petersen. No Canadá, Lunenburg na Nova Escócia ou Bonavista Bay foram importantes comunidades de estaleiros. O sucesso destes barcos de pesca foi tão grande que os pescadores começaram a efectuar corridas entre si no regresso aos portos de pesca, pois como em qualquer parte do mundo, era importante chegar primeiro para tirar mais lucro do peixe e ao mesmo tempo provar que se tinha o melhor barco. Era o orgulho de todo o capitão ser dono do barco mais rápido e isso ajudou ainda mais a evoluir o seu desenho.
Em 1851, começa a America´s Cup, com iates de competição de linhas baseadas nas escunas de pesca mas aperfeiçoadas à velocidade máxima e competidores de diferentes países. Em 1886, o arquitecto naval Thomas F. McManus patrocina a primeira corrida oficial entre pescadores de forma a potenciar os seus desenhos e o público que aflúi a tais corridas cresce tanto de ano para ano que mesmo em Boston são grande notícia e aguardadas. Com décadas e décadas de rivalidade entre si, pescadores da Nova Escócia e de Massachusetts passam a competir entre si com as seguintes regras: os barcos tinham de ser barcos de pesca real, barcos de trabalho com pelo menos uma campanha bem sucedida nos Bancos. Com a experiência naval da América´s Cup, as escunas de pesca americanas acabam sempre por levar a melhor e o troféu. Em 1919, a corrida é cancelada devido a ventos muito fortes, o que criou algum mal-estar entre os pescadores dos Bancos pois consideravam que os seus barcos não eram fortes o suficiente para as demandas da competição e decidem que as regras devem ser revistas: a verdadeira competição seria entre barcos do mesmo tipo mas tripulados só por pescadores e é William H. Dennis, dono de um jornal em Halifax, Nova Escócia que cria um troféu para corridas com tripulações de pescadores, chamada International Fishermen´s Race (Corrida Internacional de Pescadores). A primeira destas corridas em 1920 foi um sucesso total dos americanos e é então que os canadianos decidem desenhar finalmente um barco capaz de igualar e vencer os americanos.
W. J. Roue, jovem arquitecto naval, foi o escolhido para a tarefa e a 26 de Março de 1921 é lançado à água em Lunenburg, Nova Escócia a escuna “Bluenose” que foi mesmo a tempo de efectuar uma campanha de pesca nos Bancos. De imediato provou ser uma excelente veleiro e ainda nesse ano fica em primeiro nas qualificações e vence o americano “Elsie”, trazendo o troféu para o Canadá. Em 1922 ganha de novo ao “Henry Ford” e em 1923, depois de vencer por pouco, os americanos protestam um erro técnico na passagem de uma bóia, o que não foi aceite pelo capitão do Bluenose. Tal despique levou a 7 anos de interrregno nas corridas. Nestes anos inúmeros temporais desgastaram bastante a frota de pesca, incluindo o “Bluenose” que teve de ser reparado e em 1930 aceita uma corrida contra o novo americano “Gertrude L. Thebaud”. Desta vez o “Bluenose” perdeu 2 de 3 corridas, o que fez rejubilar de novo as gentes da Nova Inglaterra. Em 1931 o “Bluenose” defronta de novo o “Thebaud” em Halifax, ao qual prevaleceu nas duas primeiras etapas e por tal foi novamente nomeado como a escuna raínha da frota de pesca do Atlântico Norte.
A depressão económica, especialmente em 1932 levou muitos barcos a atracar e o “Bluenose” inicia uma nova vida como barco de exposição activo, navegando os Grandes Lagos e indo mesmo a Inglaterra ao jubileu de prata do Rei Jorge V e Raínha Maria. Finalmente em 1938, quando a pesca à vela estava nos seus fins, uma última corrida internacional de pescadores teve lugar ao largo de Gloucester efectuando-se 5 etapas. A primeira foi ganha pelo arqui-rival “Thebaud” com quase 3 minutos de avanço. 4 dias mais tarde o “Bluenose” redime-se e vence com um avaço de 12 minutos. 10 dias de atraso devidos a vento fraco e o “Bluenose” volta a vencer desta vez por 6 minutos. Não ficando atrás, o “Thebaud”, em mares vivos bate o “Bluenose” em 5 minutos ao longo de 35 milhas. A etapa final ocorreu a 26 de Outubro onde com ventos calmos, o “Bluenose” prevelaceu com uma margem de menos de 3 minutos e pelos tempos das 5 etapas ganhou e levou o troféu para os canadianos.
Vários desafios foram mais tarde propostos mas tristemente as escunas à vela já não eram rentáveis face aos barcos de pesca a motor e o seu capitão acaba por perder a posse do “Bluenose”. Foi vendido para transporte costeiro nas Caraíbas e numa noite em Janeiro de 1946 o grande campeão bateu num recife ao largo do Haiti. Toda a tripulação se salvou, mas este foi o fim de um símbolo glorioso de uma era histórica de veleiros. Com o tempo e pelo seu simbolismo, uma réplica foi construída no mesmo estaleiro de Lunenburg e a 24 de Julho de 1963 o “Bluenose II” é lançado à água.
O “Bluenose” foi e é tão emblemático para a memória canadiana que em 1928 se editou um selo de 50 cents. e ainda hoje está cunhado nas moedas de 10 cents.
 
Toda esta história serve de introdução a outra página que inicio relativa a barcos e ligações à pesca das comunidades que também pescavam pelos Grandes Bancos. São várias as escunas americanas e canadianas que andaram na pesca do bacalhau (e não só) com os seus dóris que ainda sobrevivem hoje. Estão totalmente ligadas aos navios da nossa frota bacalhoeira, pois influenciaram o desenho dos nossos lugres em Portugal. Podem comparar o desenho do “Bluenose” com o do “Creoula” e as semelhanças são mais que evidentes. Um belo exemplo de escunas de 2 mastros construídas em Portugal é o “Orion”, construído em Aveiro.
Sei que existem modelos de várias destas escunas norte-americanas no Museu de Marinha em Lisboa, pois já vi fotos delas e por certo estão lá porque traduzem ligação com Portugal e a nossa Epopeia. Vale a pena admirá-los, pois a sua graça e linhas “frágeis” contrastam com a vida dura que tinham, tanto em pesca como em competição.
Deixo aqui alguns links de interesse sobre estas embarcações:
 
A evolução do desenho das escunas (inglês).
A história do “Bluenose”e “Bluenose II”, com fotos e vídeos (inglês).
O Museu de Construção Naval de Essex, Massachusetts (inglês).
Colecções de fotos do “Bluenose II”.


publicado por cachinare às 14:27
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