Sexta-feira, 4 de Janeiro de 2008
“Delawana” vs. “Esperanto”.
No Outono de 1920, um grupo de jornalistas e homens de negócios de Halifax, Nova Escócia, Canadá, patrocinaram uma série de corridas eliminatórias entre escunas de pesca com dóris Canadianas. O mais rápido foi o “Delawana” (1ª foto), que na 2ª foto se vê com grande avanço sobre os concorrentes. Decidiram então desafiar o lendário porto de Gloucester nos E.U.A. para uma corrida entre o representante de cada país. Os requerimentos eram que Gloucester deveria responder numa semana, seleccionar uma escuna de pesca à vela, sem motor auxiliar a qual teria de chegar a Halifax dentro de outros 10 dias para iniciar a corrida. Quando a mensagem chegou via telegrama a Gloucester não existiam embarcações apropriadas no porto. A frota de pesca encontrava-se onde deveria estar... no mar a pescar.
A escuna de pesca com dóris “Esperanto” (3ª foto), foi desenhada por Tom McMannus de Boston, construída nos estaleiros de Essex, Massachusetts, E.U.A. e lançada à água em 27 de Junho de 1906. Tinha cerca de 33 metros de comprimento, 8 de largura e 3 de profundidade, pesando 140 toneladas. O seu nome, derivado da conhecida língua internacional esperanto, significa “aquele que salta” (de linguagem em linguagem).
Apesar do elevado perigo da pesca no Atlântico Norte para veleiros e a terrível mortandade daí resultante, apenas uma vida se perdeu a bordo do “Esperanto”, a 17 de Março de 1916 quando um membro da tripulação foi atirado borda-fora pelo pau de carga principal e se afogou.
Então e por destino, a escuna “Esperanto” chegava ao porto após 2 meses a pescar nos Bancos. O navio não estava na melhor forma e já tinha 14 anos de uso, mas os velhotes de Gloucester recordavam que o “Esperanto” era uma excelente embarcação fosse qual fosse a direcção do vento, especialmente quando a barlavento. A Companhia que o detinha teve muito pouco tempo para pôr o navio em forma, mas ainda assim içaram-no a doca-seca, rasparam e pintaram o fundo, repararam rapidamente mastros e cordame e ajustaram-lhe o lastro. O custo foi considerado como uma contribuição para o porto de Gloucester e para a nação.
Com um capitão de créditos firmados natural da Nova Escócia mas naturalizado Norte-Americano, no mar desde os 14 anos e com toda a vida passada em Gloucester, este tinha todo o apoio dos marinheiros. A tripulação escolhida adveio do talento de Gloucester, incluindo muitos outros capitães, todos voluntários que não receberiam qualquer pagamento em todo o evento. Quando o “Esperanto” saíu do porto em Outubro de 1920, fortemente acarinhado pela população, era a 1ª vez que o seu Capitão Welch estava no navio mas as 400 milhas até Halifax permitiriam o habituamento.
A PRIMEIRA CORRIDA.
Na manhã de 30 de Outubro, com o porto de Halifax apinhado de espectadores, o “Esperanto” e o “Delawana” manobraram para a linha de partida, aguardando o tiro da partida às 9 em ponto. Durante as primeiras 5 milhas e por conhecer as águas, liderou o “Delawana”, no entanto foi passado pelo “Esperanto e à passagem da 1ª bóia tinha ¼ de milha de avanço. À passagem da 2ª bóia aumentou o avanço para ½ milha. A 3ª etapa de 11 milhas mostrou a boa forma do “Esperanto” que ultrapassava as ondas à proa ligeiro enquanto as mesmas atrasavam cada vez mais o “Delawana”. Termina a 1ª corrida com um atraso de 2 milhas e meia para o “Esperanto” (5ª foto).
A SEGUNDA CORRIDA.
Embora a Corrida Internacional de Pescadores de Escunas tivesse sido concebida e anunciada como um confronto entre navios capazes de velejar com os ventos mais fortes e mares mais vivos, os Canadianos rapidamente notaram que o “Delawana” não era oponente para o “Esperanto” em ventos fortes. Sempre que o vento havia aumentado na 1ª corrida, o “Esperanto” ganhava vantagem. A sua única esperança em ganhar a corrida seguinte era com vento fraco. Arriscaram e começaram a retirar toneladas de pedra e lastro de ferro do casco do “Delawana”, esperando que navegasse mais elevado e ganhasse vantagem nos ventos leves. Claro que se o vento refrescasse teria maior risco de virar.
Na manhã se 1 de Novembro, os ventos eram fracos e havia nevoeiro sobre o mar. À medida que os dois navios manobravam para a linha de partida, ambas as tripulações sabiam que tinham uma longa e dura corrida pela frente. Com o tiro de partida às 9, o “Esperanto” sai primeiro, mas com tais ventos e lastro reduzido o “Delawana” cedo o passou e manteve o avanço à 1ª bóia. Com o vento a refrescar em ocasiões e o “Esperanto” a recuperar, o “Delawana” passa a 2ª bóia com um avanço mínimo, após grande perícia do Capitão Welch em manter as velas sempre cheias de vento. Na última parte, com vento mais favorável ao “Esperanto”, este não consegue passar por barlavento e então decide numa manobra difícil, ultrapassá-lo por sotavento.
Com as escunas a velejarem nesta posição, aproximavam-se da traiçoeira Ilha do Diabo, com rebentação nos rochedos submersos. Com o “Delawana” a barlavento e o “Esperanto” no seu lado de sotavento, o piloto de Halifax a bordo do “Esperanto” ao ver rochedos sob o casco avisa o Capitão Welch para se afastar, mas o representante da Companhia que detinha o navio, a seu risco, permite a Welch que mantenha a rota. O “Delawana” acaba por ser forçado a afastar-se e dá espaço de mar ao adversário que não embate nas rochas por centímetros. O “Esperanto faz-se à última bóia ainda com o “Delawana” a barlavento e com o vento a crescer e chuva viraram a 3ª bóia com o gurupés do “Delawana” quase a tocar a popa do “Esperanto”.
A maioria da população de Halifax presenciava o “Esperanto”, a toda a vela com relâmpagos e trovões a cortar vento e chuva e a passar a meta em primeiro a favor de Gloucester e dos E.U.A.. Assim, com toda a pompa e circunstância o “Esperanto” regressou a Gloucester com o seu prémio de 4.000 dólares, apanhando na viagem ventos de 40 nós.
A 30 de Maio de 1921, somente meses após vencer a Corrida Internacional de Pescadores em Halifax, bateu no submerso “S.S. State of Virginia” ao largo de Sable Island e afundou-se. A tripulação largou os dóris e remou do local, sendo mais tarde socorridos.
Várias tentativas foram feitas para recuperar o “Esperanto”, que o trazia à superfície mas acabava sempre por se escapar nas ondas de novo. Após um mês de tentativas, os danos causados eram tais que a operação foi interrompida, embora com relutância.
Com esta derrota, os Canadianos decidiram financiar a construção do “Bluenose”, que se tornou num grande campeão e sobre o qual já escrevi anteriormente.
Sempre que se conversa em Gloucester sobre os dias de antigamente e de veleiros, vem sempre à baila o tempo em que um grupo de voluntários velejou numa escuna já de idade percorrendo 400 milhas, com um capitão que nunca nela tinha posto pé, para bater a melhor das escunas Canadianas nas suas próprias águas.
Fica pois a história de mais duas escunas históricas para aqueles dois países, no meio das quais escunas e lugres Portugueses pescavam nos Bancos. Em breve somente lugres de pelo menos 3 mastros passariam a sair de Portugal todos os anos, pois a distância não fazia render embarcações mais "pequenas", como as escunas de dois mastros.


publicado por cachinare às 12:58
link do post | comentar | favorito

mais sobre mim
subscrever feeds
últ. comentários
Na verdade, tão belo quanto elucidativo este quadr...
Mas que beleza de foto ou pintura que retrata bem ...
Aproveitando a ocasião, sugiro a todos, pescadores...
Na verdade, tal como diz o Jaime Pontes, esta pose...
Claro que como demonstração tá tal e qual mas ,não...
Tal como se fosse um «filho pródigo», 7 meses depo...
é com orgulho e admiração que leio e recordo este ...
Esta bela foto retrata bem o que eram os tempos an...
Mais de um ano depois, volto aqui (ao blog), e li ...
é de facto interessante, mas .... o que caracteriz...

culturmar

tags

a nova fanequeira de vila chã

ala-arriba

alan villiers

apresentação

aquele portugal

argus

arte marítima

bacalhoeiros canadianos-americanos

bacalhoeiros estrangeiros

bacalhoeiros portugueses

barcos tradicionais

caxinas

cultura costeira

diversos

fotos soltas

galiza

jornal mare - matosinhos

memórias

modelismo naval

multimédia

museus do mar

pesca portuguesa

póvoa de varzim

relatos da lancha poveira "fé em deus"

santa maria manuela

veleiros

vila do conde

todas as tags

Vídeos
links
arquivos