Quinta-feira, 30 de Julho de 2009
Memórias subjectivas da pesca do bacalhau.

Este texto é a transcrição de um artigo da autoria de José Milhazes, publicado a 24 de Maio de 2009 no seu blogue Da Rússia. Actualmente a viver em Moscovo, José Milhazes é um conterrâneo “híbrido” como eu, das Caxinas e Póvoa de Varzim. Aqui ficam algumas das suas memórias sobre a pesca do bacalhau de finais dos anos 60:

 
«Eu não andei a pescar bacalhau na Terra Nova ou na Groenlândia, mas só talvez porque tenha nascido quatro anos mais tarde do que o meu irmão mais velho, o último membro da família a embarcar num navio que, segundo me recordo, ainda tinha velas, foi o “Luísa Ribau”.
Recordo-me desde a mais tenra idade dessa aventura dos pescadores da Póvoa de Varzim e Caxinas, das histórias que contavam o meu avô, o meu pai, tio, cunhados e irmão.
Recordo-me dos preparativos para a pesca do bacalhau, que começavam na casa de cada bacalhoeiro. Lembro-me de ver o meu avô, pai e tios a talharem as velas dos botes no quintal da nossa casa na Poça da Barca, recordo-me do cheiro a óleo de peixe que eles utilizavam para tornar as velas impermeáveis.
Em frente de minha casa, havia ainda uma pequena cordoaria, pertencente a Francisco Quintas, o criador da grande empresa de cordoaria e cabos que ainda existe. Aí, os pescadores preparavam as linhas para pescar.
Não me lembro de os meus pais me terem levado alguma vez a Lisboa quando da partida do navio para a Terra Nova, no caso do meu pai, o “Vaz”, pois não era costume levar os filhos à despedida. Lembro-me que chegava um camião para carregar os grandes sacos de lona com a roupa e os pipos de vinho, que deveriam dar para seis meses de faina. Um ou dois dias depois, chegava a camioneta que levava os homens. E isto repetia-se ano após ano.
A ansiedade era grande quando nós, crianças, começavamps a ouvir falar do regresso dos bacalhoeiros. Recordo-me que, à noite, a minha avó e minha mãe ligavam um rádio enorme que tínhamos em casa para apanhar (como se dizia nas Caxinas) as comunicações dos navios quando começavam a chegar aos Açores.
Quando se conseguia determinar a hora e o dia da entrada na barra de Aveiro, começava a azáfama de juntar as esposas de todos os marinheiros da Póvoa, Caxinas e Vila do Conde para alugarem o autocarro que deveria trazê-los para casa. Nós crianças tinhamos direito a “farpela nova”, embora seis meses de ausência dos pais em casa, obrigavam muitas das mães a irem penhorar roupas e outros valores até que chegasse o dinheiro conseguido na viagem desse ano.
Entre as minhas recordações mais remotas da infância estão a viagens a Aveiro, as entradas no navio “Vaz” e a imagem do capitão do navio, Armindo Ré, que os marinheiros diziam ser um homem duro, mas que para nós crianças não passava de um velho simpático. Quando não íamos a Aveiro, ficavamos à espera da chegada da bagagem, pois havia sempre a pequena esperança de que lá vinha uma pequena prenda de São João da Terra Nova: alguma peça de roupa estranha ou algum brinquedo. Mais tarde, quando comecei a fumar às escondidas, as esperanças eram maiores porque se sabia que os bacalhoeiros traziam marcas de cigarros raros.
Íamos esperar os camiões carregados com os sacos às Caxinas, onde, nessa altura, a miudagem local nos recebia de uma forma mais cordial do que habitualmente. Entre os rapazes de que me recordo está o André, conhecido jogador do F.C.P., cujo pai era camarada do meu no “Vaz”.
Embora o meu pai trouxesse sempre óleo de fígado de bacalhau, isso não era o petisco preferido. As latas enormes, de três ou cinco quilos, de margarina e manteiga eram uma autêntica delícia para o nosso pequeno-almoço. As caras, as línguas de bacalhau ainda não eram as iguarias de hoje para nós.
Depois vinha a semana das “estórias”, em que à noite, depois da ceia, se ouviam as aventuras da safra: desaparecimento de botes, fuga de alguns pescadores para o Canadá e os maus tratos recebidos do comandante, os desembarques em São da Terra Nova, etc.
Recordo-me que eu e minhas irmãs podíamos ficar a ouvir durante toda a noite, não fosse a minha mãe ou pai mandar-nos para a cama. Esses relatos do meu avô, do meu pai, tios, irmão e cunhados nunca me atraíram para o mar, compreendia apenas que eles suportavam tudo aquilo para evitar a guerra do ultramar (oito anos de pesca de bacalhau permitiam evitar o serviço militar), mas recordo-me das palavras de meu pai de que a tropa estava longe de ser pior do que a “escravatura do bacalhau”.
Regressados do bacalhau, os pescadores íam trabalhar para os barcos de pesca da Póvoa e Caxinas até à próxima partida para o bacalhau.
E assim durante gerações, anos... Francisco, Agonia, Carlos, João, Alberto, José, Filipe... uma lista interminável de familiares e conhecidos que atravessaram a “epopeia do bacalhau”...
“São Ruy”, “Santa Joana”, “Vaz”, “Creoula”, “Sernache”, “Luísa Ribau”... são apenas alguns dos nomes de navios bacalhoeiros que encalharam para sempre na minha memória.»
 
por José Milhazes – 24.05.2009 – blogue Da Rússia.
foto de gdraskoy.


publicado por cachinare às 08:15
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7 comentários:
De jaime pião a 30 de Julho de 2009 às 11:30
José Milhazes ,eu sempre tive na ideia que era cá da terra ,mas agora através do António confirma a minha ideia e de que maneira ,o José Milhazes que temos a honra de o ouvir constantemente nos telejornais da SIC directamente da Rússia e que nos conta aqui uma história verídica porque era assim mesmo que se passava nesses anos dos tempos dos bacalhoeiros ,não preciso acrescentar mais nada e fico feliz pelo José Milhazes , temos filhos da terra que nos prestigiam BEM-HAJA -..Jaime Pontes


De caxineiro atento a 30 de Julho de 2009 às 12:25
Gostei do pormenor "...nessa altura a miudagem local(caxinas), nos recebia de uma forma mais cordial do que habitualmente.


De Anónimo a 2 de Agosto de 2009 às 00:09
espectacular, amigo Fangueiro!
muito estimo observar os meus caros conterrâneos a nossa identidade e vingar por esse mundo fora,
só lamento não ver generalizadas as intervenções dos que ficaram na terra, salvo, como é obvio, aquelas excepções que confirmam a regra: alguns "caxineiros atentos" como o senhor Jaime P. e outros que, como eu, visitam regularmente este espaço mas pouco deixam registado.
um abraço...


De João Marçal a 9 de Agosto de 2009 às 10:39
Este retrato é-me tão familiar que me tenta assiná-lo também.

Cumprimentos

João Marçal


De jaime pião a 11 de Agosto de 2009 às 15:51
Vou contar mais uma história passada com migo em plena Terra Nova .Foi no meu segundo ano de bacalhau em 64 no Avis ,tinha-mos chegado ao pesqueiro no dia anterior ,portanto era o primeiro dia de arreio e normalmente arriamos ,.debaixo de muito nevoeiro e cada um lá foi a sorte de Deus e eu com um meu tio desviamos do navio duas milhas mais ao menos e largamos os anzóis a agua ,entretanto passado uma hora o meu tio adame sinal para alar as linhas com anzóis que era mais e menos 1000 anzóis claro que estava-mos perto um do outro e alamos os anzóis e pesca não foi nenhuma ,como não largamos as linhas todas até porque, era o primeiro dia de arriar depressa acabamos e como estava nevoeiro fechado através de toques de buzina os botes começaram a juntar-se porque não houve pesca nesse lanço. Estava-mos todos juntos a espera que o navio chamasse o que normalmente só chamaria daí por 4 horas ,más como estava névoa o Capitão julgando os botes a pescar não chamava ,dava só o sinal de nevoeiro com a sirene ,eu estava encostado ao meu tio numa ponta os botes todos amarrados uns aos outros e não se via mais de 20 metros tal era o forte nevoeiro e eu lá deixei o meu tio e fui um bocado ao rola até sair da vista deles, então icei a vela com pouco vento e fui rumo de sul ao contrário de onde estava o navio e os botes e com remos e vela lá me desviei meia hora deles mais ao menos, até que quando entendi lá comecei a largar os anzóis como tinha alado uma dúzia de linhas antes com a mesma isca ,assim foi mais isco menos isco ,o melhor é que conforme largava ia a sentir o peixe a puxar e mais rápido eu largava ,então larguei as mesmas linhas que tinha alado antes e ferro para fundo sem perder mais tempo ,só que passados 15 minutos o navio que mal ouvia a sirene ,começou a chamar ,primeiro um foguetão e depois a sirene três vezes .Eu comecei logo a pressa a alar as linhas porque era mais que visto que longe como eu estava e com tanto nevoeiro o navio não suspendia e se me corresse mal na pesca ia ser o bom e o bunito?Então força as linhas para dentro e as primeiras linhas não deu nada o que me deixava preocupado mas depois onde eu senti o peixe mais ao menos começou a entrar e cada vês mais até chegar ao ponto quando faltavam três linhas já estava a pedir a Deus que não viesse mais ,más o que aconteceu é que tive de pôr bacalhau ao mar e aliviar o bote ,assim acabei de alar as linhas que faltavam e com o bote carregado lá me preparei porque era mais que visto que ao faltar eu só o pessoal estava preocupado até porque ainda estava-mos a começar a viagem e era precisamente o primeiro dia de arrio da minha segunda viagem ao bacalhau estava só e longe , estava calma e mais névoa e eu em camisa lá foi ao remo com o bote carregado e de vês em quando parava para esgotar agua e sempre com os ouvidos na sirene do navio o que me levou uma hora ou mais de remo bem suado cheguei a bordo e o Capitão Vitorino Ramalheira com certeza preparado para me insultar ,logo me perguntou Pontes de que rumo vens eu lá respondi ,venho de sul a uma hora de remo e em vês de ser o Capitão a dizer-me ou a chamar-me como era costume as vezes maltratar não, foi o meu tio que me queria dar com um remo na cabeça e eu reconheço que nessa altura ele tinha toda razão ,porque ele ficou deveras preocupado e então lá descarreguei e a rapaziada fizeram o favor de ao serem chamados para escalar aqueles três quintais me mandavam com as tripas contra as costas enquanto eu descarregava ,mas também já era hábito acontecer isso ,porque ninguém queria trabalhar para os outros como sempre e quando um pescador só como aconteceu comigo trazia peixe era de ter coragem para aguentar com as piadas e mais o resto que vinha pelo ar como cabeças e espinhas e tripas do bacalhau ,mas como digo isso acontecia a todos mais e menos era a vida que era !





Comprimentos J.Pião




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De Anónimo a 18 de Agosto de 2009 às 17:27
Caro Jaime Pião, você deve conhecer bem o meu pai e outros membros da minha família. Eu lembro-me de que alguns Piões andaram com o meu pai no barco do Maiato. Não são da sua família. Eu sou filho do Zé Maneta, já falecido


De jaime pião a 18 de Agosto de 2009 às 22:28
Olá amigo Milhazes boa noite e prazer em conectar consigo com todo o respeito por só agora o conhecer ,e isto porque em conversa com amigos na praia ,eu falei no José Milhazess se seria aqui da terra e logo me responderam que sim e então fiquei satisfeito em saber que o correspondente da SIC em Moscovo era da terra parabéns .
Com respeito aos piões eu sou mesmo da parte sul de Caxinas e eu sei quem são esses dos piões mas não são da minha família eu sou de alcunha pião pelo meu finado pai que também era Jaime Pontes Pião ,com os cumprimentos de Jaime Pontes


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