Terça-feira, 8 de Janeiro de 2008
“Ernestina” e Cabo Verde.
A indústria de pesca nos E.U.A nasceu nas águas da Nova Inglaterra há uns 300 anos atrás. Desde então, a partir dos portos de pesca do estado de Massachusetts, em particular Gloucester, saíu a maior frota de escunas de pesca da nação. De Gloucester e outros pequenos povoados frotas de pesca velejavam para trabalhar nos Grandes Bancos da Terra Nova e outras águas da costa leste onde águas pouco profundas ofereciam enormes quantidades de bacalhau, eglefim, cavala, arenque, entre muitas outras. Para fazer face ao crescente comércio, estaleiros navais em Gloucester e nas proximidades desenharam e construíram as escunas de pesca Americanas do séc. XIX e XX, entre elas o mais famoso tipo “Fredonia” de 1889 por Edward Burgess. Este passou a ser o tipo de navio de pesca preferido da maioria dos Americanos.
A escuna “Ernestina”, nasceu a 1 de Fevereiro de 1894 com o nome “Effie M. Morrissey”, (nome da filha do seu primeiro capitão) para uma companhia de Gloucester, sendo o seu capitão William Morrissey o qual disse sobre o navio: “Representa os melhores homens de Gloucester, no seu desenho tipo Fredonia – excelente a trabalhar como veleiro, com um desenho que combina velocidade, capacidade de carga, manobrabilidade, contacto com o mar e elegância num equilíbrio que raramente se consegue.”
Com o bota-abaixo no estaleiro de John F. James & Washington Tarr (o qual construíu 139 embarcações) em Essex e rapidamente aparelhado, o “Effie M. Morrissey” navegou para os Bancos a 14 de Março desse ano, dando início a uma carreira de 20 anos como navio de pesca. Pescando para a salga, a sua principal faina era ao bacalhau, o qual era processado e salgado a bordo trazendo por vezes 145 toneladas de peixe. Com uma tripulação de 20 homens, dois por cada dóri saíam para o largo e pescavam bacalhau à linha (trol). (os Portugueses pescavam sempre com só um homem por dóri). Em todos os seus anos de pesca, os registos indicam que apenas um homem perdeu a vida nele.
A escuna foi vendida em Março de 1905 a um capitão da Nova Escócia, Canadá, mantendo o seu registo Americano e vindo sempre vender o seu peixe a companhias Americanas. Em 1914 foi vendida de novo e convertida para navio de carga entre a Terra Nova e Labrador, transportando carvão, mas na maior parte do tempo continuava a pescar nos Bancos. Nesta situação, o navio fez parte de um artigo da National Geographic em 1921 pela escrita de um seu anterior adepto, William Wallace que descrevera a vida a bordo dele numa campanha de pesca em 1914, com o título “A vida nos Grandes Bancos”. Depois de mais 4 anos de trabalho, em 1925 foi vendido a Robert Bartlett, sobrinho do dono e notável explorador do Ártico o qual tornou o “Effie M. Morrissey” e a si próprio lendas da época.
Robert Bartlett nasceu em Brigus, Terra Nova em 1875. Naturalizado como cidadão Americano, morreu em Nova Iorque em 1946, pouco depois de escrever que “O meu primeiro amor é a “Effie M. Morrissey, a minha escuna; o meu segundo é o Ártico, cujas águas geladas naveguei durante quase meio século”. Bartlett fez 22 viagens ao Ártico do Canadá, seis a outras partes, uma à Sibéria e comandou grandes navios da exploração Ártica. Com o “Effie M. Morrissey” fez 16 viagens à sua conta e outras 4 pelos E.U.A. Com a 2ª Guerra a aproximar-se foi comissionado pelo governo dos E.U.A para levantamento das costas da Gronelândia, tornando-se navio de apoio a bases no Ártico após 1942. Regressando aos E.U.A. em 1945, o seu capitão morre pouco depois e em 1946 a sua escuna é vendida a dois irmãos em Nova Iorque que tencionavam levá-la para os mares do Sul. Quando em 1947, um incêndio deflagra sob o convés, abrem-lhe rombos no casco para que o salvem do fogo o que o danificou muito. Parecendo que os seus dias do fim se aproximavam, foi salvo ao ser vendido ao Capitão Henrique Mendes e sua irmã Louise Mendes de Egypt, Massachusetts. A sua nova vida seria como paquete nas Ilhas de Cabo Verde.
Cabo Verde esteve bastante ligado ao comércio marítimo da Nova Inglaterra desde os princípios do séc. XIX, quando baleeiros ianques faziam escala nas ilhas para embarcarem homens. Muitos Caboverdianos que passavam a vida na caça à baleia, acabaram por se fixar na Nova Inglaterra trabalhando nas indústrias marítimas do litoral. Como resultado, um tráfico regular entre as ilhas e a Nova Inglaterra, em especial New Bedford surgiu. O Capitão Henrique Mendes comprou o seu primeiro navio em 1902 e juntou-se a este comércio crescente transportando imigrantes e carga em geral de e para as Ilhas de Cabo Verde. Foi dono de diversos destes paquetes até que comprou o seu último, o “Effie M. Morrissey”. Com a ajuda da irmã, cidadã Americana, comprou a escuna, aparelhou-a em New Bedford e estava pronta em 1948. O nome da escuna foi mudado para “Ernestina”, em honra da filha do novo dono. Sem motor ( que foi removido), velejou para Cabo Verde pela 1ª vez em Agosto de 1948 com 50 toneladas de comida e carga levando um passageiro.
Ao longo dos anos 50, a escuna transportou carga e passageiros entre os E.U.A. e Cabo Verde, sendo a última vez que imigrantes chegavam num navio à vela à América. Depois de passar 4 anos entre 1959-63 em Cabo Verde devido à concorrência de um navio Belga nesta rota, o “Ernestina” regressou a New Bedford em 1964-65 mas sem passageiros. Em 1967 foi vendido ao Capitão Alberto Lopes e novamente parecendo que o seu fim se aproximava, fez comércio entre ilhas só em Cabo Verde.
Já havia interesse em preservar a escuna como navio-museu desde a altura da morte do Capitão Barlett. Novos esforços nos anos 60 surgiram, mas sem resultado. Foi em 1975 que a nova e independente República de Cabo Verde anunciou a sua intenção de fazer o navio navegar até aos E.U.A. para a Operation Sail ´76 (concentração de veleiros). No entanto o navio sofreu problemas nos mastros mas determinados, os Caboverdianos decidiram fazer regressar o navio aos E.U.A. como um presente de uma nação para outra e em 1982, restaurado e de novo aparelhado foi apresentado à Comunidade de Massachusetts. Depois de um exaustivo restauro de 4 anos, velejou na Operation Sail 86. Trabalhos finais em 1988 puseram o navio em excelente estado.
Tendo por porto de abrigo New Bedford, de onde outrora saía como paquete para Cabo Verde, o “Ernestina” navega com regularidade, mantendo a sua história e os seus laços únicos entre os E.U.A, Canadá, o Ártico e as Ilhas de Cabo Verde vivos.
 Sendo outra escuna com grande passado de pesca com dóris nos Bancos, o “Ernestina” tem a particularidade de estar ligado a Portugal (colonial) durante vários anos e é hoje um orgulho histórico para diferentes nações. Para quem não saiba, 60% da população de New Bedford é hoje de origem Portuguesa.
A epopeia do bacalhau de Portugal não é tão simples quanto construir uns lugres, meter homens de Portugal e Açores dentro e ir por 6 meses para os Bancos da Terra Nova. Quanto mais investigo mais vejo a ligação de séculos e que a raiz Portuguesa por aquelas terras é muito antiga. Sem dúvida são comunidades muito interessantes a visitar e conhecer. Veremos muito de Portugal por lá.
 
Todas as fotos são propriedade ou estão referidas nos seguintes sites:
 
Site oficial do “Ernestina”.
Artigo sobre a Gronelândia que inclui o “Ernestina” – National Geographic, Julho de 1940.
Canções de Marinheiros lançadas pela comissão do “Ernestina”.
Site oficial da Direcção do "Ernestina".


publicado por cachinare às 15:19
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