Terça-feira, 11 de Agosto de 2009
Um Marinheiro da White Fleet.

«Há traços da Water Street que nunca se desvaneceram das memórias da minha infância: o Índio de madeira à entrada da Cash’s Tobacco Store, junto à Scanlan’s Lane; o sistema de tubagem a vácuo da London, New York and Paris Store, enviando trocos e recibos do primeiro andar para o rés-do-chão; o aparelho de Raio-X na Parker & Monroe Shoes, onde podíamos ver os ossos dos nossos pés através de uma portinhola; e a Woolworth’s Store, no Stewart’s Block.
Era meu hábito correr desenfreadamente pelas encostas íngremes da Bond Street depois das aulas, fazendo um grande desvio em volta do polícia que controlava o trânsito na Duckworth em Prestott, dirigindo-me para o porto. Eu só tinha duas missões – ver o que se encontrava amarrado nas docas, e gastar a minha mesada, na Woolworth’s Store. Apesar de ter feito inúmeras visitas àquela cafetaria, apenas uma eu recordo com precisão. Foi o dia em que conheci o marinheiro português.
Era Primavera e estava um daqueles dias raros em St. John’s, com uma brisa ligeira e uma claridade ofuscante; as águas habitualmente turvas estavam quase límpidas. O meu tio Fred costuma dizer que não há nada melhor do que um bom dia na Terranova. Este era, sem dúvida, um desses dias.
A escola tinha acabado e a White Fleet estava ancorada, alinhada pela popa, por entre as embarcações do porto: dóris com motor, arrastões ingleses e petroleiros gregos. Era constituída por veleiros do início do seculo XX, de 3 ou 4 mastros, convertidos em navios-motor. As tripulações, homens e rapazes de Portugal, já atravessam o Atlântico para pescar nos Grandes Bancos, e já procuram abrigo neste porto há muitas gerações.
Com excepção, talvez, de um submarino da Royal Navy, nenhuma outra embarcação me seduzia mais do que estas. Mas, ao contrário do submarino, eu conseguia espreitá-las, contar os pequenos dóris, fazer festas ao cão de bordo, e acenar aos marinheiros enquanto eles cozinhavam no convés. Eles retribuíam sempre com sorrisos e posavam para as fotografias, apreciando a atenção de que eram alvo. Poucos falavam Inglês, e os negociantes da Water Street atraíam-nos com promessas de que os seus vendedores falavam português.
Eu nunca estive num dóri nos Bancos, nesse mundo de mar cinzento e nevoeiro assustador, nem nunca tive as mãos gretadas e cheias de sangue de bacalhau. Eu era um “rapaz de terra”, um miúdo da escola com coração romântico. Nunca tinha estado frente-a-frente com um pescador da White Fleet até àquela tarde, no Woolworth. Ele sentou-se no banco, à minha direita, e perguntou-me, servindo-se de gestos, o que é eu estava a comer. Quando me virei para responder, reparei nas suas mãos calejadas e nos nós dos dedos vermelhos, olhos castanhos e cabelo preto.
A empregada mais jovem, a mais bonita, percorreu o balcão na nossa direcção. Sem tirar o cigarro da boca, ela perguntou-lhe o que ele queria tomar, ao que ele respondeu: uma cerveja. Piscando-me o olho (quase parando o meu coração adolescente), ela respondeu-lhe: Aqui não servimos cerveja! De imediato, o marinheiro apontou para a minha bebida enquanto remexia no bolso esquerdo das suas calças disformes de lona.
Enquanto ele tirava do bolso uma nota dobrada de 1 dólar, uma verde com a cara do George Washington, a forma como baixou a cabeça fez-me pensar que ainda não era um homem mas apenas um rapaz. Ele tinha a minha idade. Tive a certeza quando sorriu para mim e levantou o copo brindando amigavelmente em silêncio, seguindo a empregada com o olhar enquanto ela se dirigia até ao canto mais afastado do balcão para continuar a sua interminável conversa. Tudo estava tranquilo, a loja quase a fechar, apenas eu e ele sentados nos bancos de metal.
Continuei a dissecar o meu banana split, fazendo-o durar, cheio de vontade de lhe perguntar como era a vida no mar, como era nos Bancos e como era na sua aldeia, em Portugal. Mas tal não era possível, por isso bebemos Orange Crush™ com os olhos fixos no espelho da parede do fundo. As suas unhas estavam sujas e as mãos eram ásperas, enquanto as minhas eram suaves, manchadas pela tinta dos verbos latinos – “Amo, Amas, Amat”. Ele tinha passado a tarde a remendar redes no convés, enquanto eu contemplava a claridade que irradiava em South Side Hills. O nosso professor de Latim andava a ensinar-nos, miúdos ranhosos de casaco azul e calça de flanela cinzenta, a conjugar verbos numa língua morta.
Eu sabia que o iria recordar. Observei-o pelo canto do olho enquanto a empregada lhe conferia o troco em moedas cunhadas com a cara da jovem Rainha Elizabeth. Ao levantar-se, ele atirou uma moeda de 10 cêntimos para o balcão, sorriu de esguelha para mim e foi embora. Ele tinha deixado uma gorjeta, coisa que eu nunca havia feito pois a minha mesada não permitia tal generosidade. O seu acto não foi de rapaz, mas sim um gesto de homem, habituado a uma existência perigosa, conquistada com o suor do seu rosto. Para ele não existia uniforme escolar, apenas a linha de mão e o minúsculo dóri num mar agitado e traiçoeiro, sempre com os olhos cravados na cortina de nevoeiro que se aproxima.»

 
por Wayne Ralph.
 
Texto publicado no site oficial do Museu Marítimo de Ílhavo.
Foto 1 - Wayne Ralph no porto de St. John´s, 3/11/2008, da autoria de Donald Hayes.
Foto 2 – Frota Branca Portuguesa – Wayne Ralph.
 
Nos Porões da Memória III - fotografia e texto de Wayne Ralph
8 de Agosto - 30 de Novembro de 2009

Museu Marítimo de Ílhavo



publicado por cachinare às 08:21
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2 comentários:
De jaime pião a 11 de Agosto de 2009 às 10:18
Um marinheiro da frota branca !
Simples mas verdadeira ,esta história aqui contada e retratada ,tão simples como isso.
Foram tempos em que nós os pescadores da frota branca como nos chamavam os Canadianos ,em terra de Santo Jonas ,desfrutava-mos do belo acolhimento que nos dispensavam os moradores e que nós contribuíamos com o melhor que tinha-mos ,e o melhor era a nossa simplicidade e com a maioria envergando uma roupa domingueira que já se levava para viagem , mas também havia dos muitos Portugueses quem deixava ficar mal e ouvia-se dizer que este ou aquele que entrava nos Storys nome dado aos supermercados e roubou isto ou aquilo o que era uma vergonha ,mas no geral a rapaziada portava-se bem !
Mas até se desculpava ,porque era a grande vontade da rapaziada em querer trazer uma prenda para a mulher ou para os filhos e não havia dólares porque muitos não ganhavam o suficiente e então eram tentados a por a mão onde não deviam e ó que vergonha !
Tambem tenho boas recordações ,e uma delas foi quando já no fim de viagem estava-mos em Santo Jonas com o navio carregado já a fazer um mês e como estavam ciclones anunciados não tinha-mos condições para partir para Portugal ,e como mais dia menos dia a gente tinha que fugir era o termo usado ,a rapaziada começou a fazer compras ,ou seja a gastar o que restava das dólares tiradas ao navio que normalmente era até 15 dólares que o Capitão do mesmo abonava mais e menos ,e a que ir aos Stórys comprar umas coisinhas para família de cada um ,e eu lá foi e comprei uma quantidade de sabonetes Lux e mais umas coisinhas para os meus filhos que eram pequenos na altura ,e ao aproximar-me da moça que estava ao balcão apresentei as compras e perguntei num inglês muito fraquinho amoche mais e menos isto , queria dizer quanto custa ,então a moça começou a rir ,eu envergonhado perguntei qual o problema o porquê da risota ,então ela num bom Português me respondeu está a perguntar quanto custa mas o teu Inglês é muito fraquinho e então fiquei mais aliviado e converçamos ,ela me disse que era Portuguesa e que o pai foi pescador e que um dia fugiu do navio e ficou em Santo Jonas e depois mais tarde chamou a familia ,era da Nazaré ,e que estáva noiva e ia casar com um rapaz la da terra canadiano...
Boas recordações apesar de tudo e bons momentos passados BEM-HAJA -Jaime Pontes


De wayne ralph a 1 de Setembro de 2009 às 17:52
Dear Sir, thank you for putting the information about my 1966 photographs on your blog site, now on display at Museu Maritimo de Ilhavo, Portugal, until November. You can contact me at any time at <wayneralph@telus.net> and you can read more about myself and my books, as well as see other photos I have taken, at
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Dear Sir, thank you for putting the information about my 1966 photographs on your blog site, now on display at Museu Maritimo de Ilhavo, Portugal, until November. You can contact me at any time at <wayneralph@telus.net> and you can read more about myself and my books, as well as see other photos I have taken, at <www.aceswarriorsandwingmen.com> or <www.barkervc.com>

Kind regards,

Wayne Ralph, St John's, Newfoundland

September 1st, 2009



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