Quinta-feira, 20 de Agosto de 2009
A Vontade do Povo.

«O assunto da venda ilegal de peixe esteve em destaque na última reunião de executivo camarário da Póvoa de Varzim, depois de sucessivas queixas das vendedoras do Mercado Municipal que dizem que esta transacção constituiu concorrência desleal. O Póvoa Semanário foi até ao porto de Pesca da Póvoa de Varzim para saber como se processa essa venda e descobriu que são muitos os que passam pelas docas em busca de preços mais baixos.

Manhã de um dia da semana, na entrada do porto de Pesca da Póvoa de Varzim. Não há qualquer vendedora ambulante de peixe à vista, no entanto, são muitos os que passam, com sacos plásticos, vindos da zona da Doca.
Enquanto nos aproximamos dos cais de desembarque, começamos a aperceber-nos que, junto às redes de pesca e bem junto à lota, existe um aglomerado de cerca de meia centena de pessoas. É possível ver pescado a ser transaccionado, passando de caixas colocadas no chão ou dentro de carrinhas de transporte para os sacos dos compradores.
Bem no meio da confusão está um dos carrinhos de mão que eram visão típica nas ruas da cidade. Chegam dois agentes das Polícia Municipal e a reacção é imediata. Os vendedores correm com as caixas de peixe na mão, tentando escondê-lo dos elementos da força especial, a proprietária do carrinho arrasta-o com uma desenvoltura que faria inveja a qualquer velocista e tenta ocultá-lo por trás dos depósitos de água que ladeiam os cais.
Quem parece não estar a entender o que se está a passar, são os compradores de circunstância que, com um ar atarantado, olham à volta, tentando perceber a razão de tamanha comoção. Muitos deles, escolheram a praia da Póvoa para passar o dia e aproveitam para levar para casa pescado mais barato, trazendo, até, arcas frigorícas para mantê-lo nas melhores condições.
Depois da surpresa inicial, e com os agentes a manter-se no local, começa a sentir-se uma tensão crescente que redunda em alguns comentários dos populares. “Neste país só se prejudicam os pobres”, grita uma senhora vestida de negro, enquanto exibe a mão fechada em tom ameaçatório. “Já viestéis tarde, pois em vez de apanhar apenas uns saquitos de peixe, poderiéis levar umas caixas”, ironiza um homem enquanto sorri.»
 
in Póvoa Semanário - 29 de Julho, 2009
 
E a sorrir fico eu com esta história sobre algo que sempre fez parte do povo da Póvoa, mas que foi também “limpo” para não “envergonhar” mais a imagem da cidade. É que eu quando era miúdo por meados dos anos 80, andei muitas vezes durante o Verão com a minha mãe a vender peixe, principalmente em frente à antiga lota (que tantas e belas memórias me deixou). Tínhamos um daqueles carrinhos de mão, “tão típicos das ruas da cidade”, como diz o autor do artigo, e era eu sempre o “piloto”, pois adorava aquilo. Foram uns 3 ou 4 desses “atrelados” lá em casa com o passar dos anos.
Já naquela altura se sentia a preocupação pela polícia (estou a falar de 1985, não do Regime) e de vez em quando surgia a patrulha de carro de repente, e era ver o mulherio a esgueirar-se por aquelas ruelas da cidade. Algumas não podiam fugir a tempo e então respondiam simplesmente “foi comprado p´ra mim, Sr. Guarda”.
Para um miúdo, aquelas situações traziam alguma confusão ao porquê de se andar atrás de quem andava a ganhar o pão, como a minha mãe, que o fazia para ter mais algum ao fim do dia a ver se dava para o leite e o pão do dia seguinte. Não conseguia perceber onde estava o crime.
A mulher do pescador quase sempre foi mulher da pescaria. As opções eram duas: ou ficava em casa, na sua maioria mulheres de pescadores emigrados, ou andava a vender peixe, pois o que o homem trazia ao fim-de-semana nem sempre chegava. Quando se começaram a construír mercados municipais... passaram as peixeiras ambulantes a ser “concorrência desleal” e as queixas a chover na Câmara. Se me derem a opção de comprar peixe no mercado, ou directamente dum barco no cais... é certo que vou ao barco e a razão é simples: preço + qualidade, com o extra de presenciar ao vivo a vida da pesca, som dos barcos e sua gente.
Em tempos idos, o peixe era vendido “na hora” mal os barcos arribavam aos areais e não se queriam “intermediários”. Hoje em dia... dou só um básico exemplo: quanto recebe um pescador por uma (só uma) sardinha e quanto se paga por ela na noite de S.João. Não deveria o desgraçado que a foi pescar ter melhor ganho?
Conversa longa, esta seria.


publicado por cachinare às 08:10
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2 comentários:
De jaime pião a 20 de Agosto de 2009 às 11:27
Bom dia ,muito se discutiu e continua a discussão ,mas a luta continua e enquanto as lotas com os vendedores e compradores estiverem como sempre viciadas ,não se resolve o problema ,eu sei daquilo que falo !
Os pescadores continuam a ser o bode expiatório ,porque trazem o peixe e quando julgam fazer mil euros da maré do mar fazem por exemplo 750 e e assim sucessivamente ,mas se o pescador vende por fora e com a mesma quantidade de peixe fizer quase o dobro chega a conclusão que paga pena fugir a lota, pelo facto que para resolver uma serie de problemas que as manutenções dos bens requer e as despesas no fim do mês das embarcações são vastas e sempre certas .
Mas alguém que não conhece e está fora do ambiente diz, mas os pescadores armadores ao fugir a lota não estão a prejudicar o tripulante ?Sim é verdade ,mas o tripulante fica satisfeito se em vês de 100 euros receber 150 no fim de semana ,porque como todo mundo save o pescador vive o dia a dia e normalmente faz contas no fim de semana e está -se a falar de marés do mar e as marés de mar não são fiaveis ,por isso é muito discutível o problema dos pescadores em Portugal costuma-se dizer ,quem está mal que se vire ?
Meus Senhores eu pessoalmente estive em varias reuniões em Lisboa pelos anos 90 em representação da associação dos armadores de pesca do norte AAPN e discutiu-se muito sobre as vendagens de peixe em lota .
Infelismente nunca se chegou a conclusão alguma porque os pescadores armadores e porque os compradores nunca se entendiam ,cada um puxava a brasa a sardinha e sempre dava no mesmo ,os pescadores armadores tem ainda hoje a percepção que quem ganha o dinheiro são os revendedores e disso ninguém tem dúvidas , porque vender em lota um kilo de pescada ou outro peixe qualquer a 1 euro e cá fora no mercado ou numa peixaria comprar esse mesmo peixe a 5 euros o kilo logo se vê que o mexilhão é que apanha porrada e de que maneira ,por isso alguns dos armadores e bem deixaram o mar e puseram-se a comprar e a vender peixe e eu hoje fazia o mesmo !!!
cumprimentos Jaime Pontes


De celestino a 25 de Agosto de 2009 às 01:49
Em Vila Praia de Âncora, passa-se o mesmo. Mas, aqui é tudo transparente e do conhecimento das autoridades que não actuam. O jornal local dá constantemente notícia deste tipo de venda e também quem vende no Mercado Municipal acusa as vendedeiras - do aqui chamado mercado "Marrocos" junto à Lota - de concorrência desleal. Aqui , estamos contra a venda sem condições de higiene. Os preços são outra questão. Mas foi construído pelo IPTM sob projecto da Câmara um Posto de 2ª Vendagem com todas as condições e que custou 175 mil euros. Porém, continua fechado sem nunca ser usado. Com o tempo está a degradar-se. Não se compreende. Gostaria de saber o que resultou da reunião de Câmara de Vila do Conde sobre o assunto.


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