Quinta-feira, 10 de Janeiro de 2008
“Grampus” na evolução das escunas.
As histórias das corridas entre barcos de pescadores nos Bancos da Nova Inglaterra, são baseadas em eventos de finais do séc. XIX. A pesca passou de costeira para o largo nos Grandes Bancos por volta de 1830. Tal significava viagens maiores e como tal algo que preservasse o pescado a bordo, neste caso o sal. Mudanças económicas a partir de 1840, fizeram com que grande número de barcos saísse para os Bancos. Nesta altura, expandindo-se os E.U.A. para Oeste, canais e os caminhos-de-ferro transportavam o sal e o peixe salgado, seco, ou fumado, surgindo também o gelo como preservante de cargas. Uma carga que se estragava facilmente urgia pelo aumento na velocidade das embarcações. Essa rapidez foi ganha em barcos diferentes dos “pinkies”, há muito usados no Golfo do Maine. O barco de eleição para os Bancos – estreito, de pequeno calado e pesado – evoluiu do “sharpshooter”. Estas rápidas escunas tinham o problema de serem lentas a mudar de direcção, deixando os rasos cascos à mercê de encalharem na extremidade. De igual modo, para envergarem o seu enorme plano de vela, tinham um longo gurupés, ou por alcunha o “viuveiro” no qual, nos gelados Invernos dos Bancos, muita mulher ficava viúva.
Um capitão media-se pela sua vontade em manter as velas içadas sempre na velocidade máxima até chegar aos mercados. Tripular nos limites o barco, normalmente uma escuna de 2 mastros com cerca de 18 metros, era imperativo em todas as condições de tempo. A corrida partia quase sempre dos Grandes Bancos ou do Banco de George.
James Connolly escreveu histórias sobre os homens de Gloucester nos inícios de 1900. Um misto de facto e ficção, um desses contos narra uma corrida entre uma escuna de pesca de Gloucester, a “Lucy Foster” e um hiate de dono Inglês, o “Bounding Billow”. Encontrando-se em Reykjavik, Islândia, acordaram correr um contra o outro até Gloucester. Connolly, tal como Joe Garland, Rudyard Kipling ou Wesley Pierce, romantizaram os Capitães e culparam os donos pela evidente grande perda de pescadores e barcos na busca pela velocidade. Entre 1860 e 1899, 600 escunas e 3.500 pescadores nos Grandes Bancos perderam a vida. Anualmente havia cerca de 300 barcos na frota dos Grandes Bancos durante este periodo.
Quem quisesse ter lucros, tinha de jogar com estas regras. Proprietários, desenhadores e construtores focavam-se na velocidade. Os pescadores, dependendo do deu quinhão dos lucros, eram devotos desta realidade. Juntando aos barcos de difícil manobra, muitas das tripulações tinham de aprender rapidamente a velejar, por pura necessidade. Não tinham o treino que normalmente um marinheiro mercante tinha. Velejavam também com equipamento que não tinha a manutenção ou melhorias dos navios mercantes. Quanto aos desenhadores, alguma ignorância marítima poderá ser adicionada à sua cumplicidade. Só foi na altura em que os McMannus de Boston começaram a desenhar barcos de calado mais fundo, com mais rocega e peso reduzido à proa que as casualidades começaram a diminuir, a partir de 1880. As mudanças no desenho dos McManus começaram a ser comuns nos Bancos, pois Tom McManus, tal como o seu pai, velejaram a bordo de escunas de pesca e sabiam em primeira mão as realidades. Desde os seus 10 anos de idade que Tom se preocupava com várias más características da vida dos pescadores. Passou anos a tentar acabar com a existência da “viuveira”, o que acabou por conseguir com a escuna “Indian Head” em que a proa foi projectada ao máximo para incorporar o gurupés.
As qualidades de segurança das embarcações de pesca era um assunto muito discutido e o Capitão J.W. Rollins da Comissão de Pescas dos E.U.A., conduziu uma cruzada pela segurança na frota. Ele criticou os rasos “clippers” por serem instáveis, de fraca resposta e incontroláveis em condições adversas. Convenceu a Comissão a levar a cabo a batalha com a ajuda de vários arquitectos navais, advogando por calados mais fundos. Convidaram novos tipos de desenho a exporem e patrocinaram a construção de um tipo muito diferente de escuna, o “Grampus” de 1886, (fotos 1 e 2)desenhado por Dennison Lawlor de Boston. Um ano antes já os McManus tinham desenhado e construído o “John H. McManus”, o mais rápido e capaz nos seus dias ganhando a primeira das grandes corridas de pescadores a 1 de Maio de 1886. Estes barcos de pesca eram mais rápidos que os hiates de competição da altura.
O “Grampus” foi lançado à água a 23 de Março de 1886 em Essex, Massachusetts e o seu nome deriva de um pequeno cetáceo da família dos golfinhos. Sendo em geral parecido com a típica escuna de pesca da Nova Inglaterra, apresenta algumas das seguintes diferenças: tem cerca de mais 60 cm de profundidade do que outras escunas do mesmo comprimento; em vez de uma complicada roda da proa, possúi uma proa a direito quase perpendicular à água e abaixo da linha-de-água sai a curvar suavemente até à quilha; a popa não é tão larga e tem muito mais rodo. Como curiosidade, veja-se a semelhança do castelo de proa com o do bacalhoeiro Português “Gazela Primeiro” (fotos 3 e 4).
Depois de alguns anos a pescar, foi considerado ter muito boas características para a investigação marítima e entre 1912 e 1916 esteve ao cargo de Henry Bryant Bigelow, considerado o pai da Oceanografia Moderna e fundador da Instituição Oceanográfica Woods Hole. O “Grampus” fez o levantamento de fundos marinhos e de espécies no Golfo do Maine.
Foi a escuna percursora das belas proas em forma de colher, nas quais os mestres Mónica em Portugal se inspiraram para desenhar lugres como o “Brites”, o “Oliveirense” ou o "Novos Mares".
“Não havia outro som a não ser o das chumbadas borda-fora, o tremular do bacalhau e a pancada dos paus quando os homens os atordoavam. Era um pescar maravilhoso”. in “Os Corajosos do Capitão” de Rudyard Kipling.
Sendo um barco revolucionário e muito admirado pelas suas vantagens, julga-se ter sido a inspiração de Rudyard Kipling na sua obra “Os Corajosos do Capitão”, livro sobre o qual existe um filme de 1937 onde um dos personagens (e pescador) é o Português “Manuel”.
Curiosamente, “Os Corajosos do Capitão” é precisamente o título que Alan Villiers deu ao seu artigo na National Geographic em 1952 sobre a sua experiência a bordo do bacalhoeiro Português “Argus”.
 
Não encontrei qualquer informação sobre os últimos dias desta escuna.


publicado por cachinare às 10:04
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1 comentário:
De jaime pontes a 6 de Fevereiro de 2009 às 12:33
Corridas de barcos de pesca a béla ! Que belesa ,quando se fazia apostas a valer ,lembro-me éra eu mosso com -12 a13 anos e andar a pesca da sardinha com redes de imalhar na nossa catraia de -18 palmos de quilha como outras! Quando nos meses de inverno e com tempos favoraveis ,aparecia uma toarda de sardinha normalmente a sul ou seja para espinho até ovar , então lá se preparava as redes com o nome de «pessas»e por volta das -10 -12 -horas lá se saia para o mar rumo sul e quase se fazia apostas no fieiro ou nas tavernas quem éra o barco que mais andava de véla , claro que também dependia da força do vento , que embora os barcos fossem muito iguais ,normalmente as vélas tinham diferença mais e menos maiores ou menores , Então no regreço éra ver quem ganhava a aposta ! Lembro-me uma das muitas vezes já vinha-mos de véla mas com vento fraco éra meia noite ,muito frio tempo bom ,normalmente a partir da madrugada começava a puchar mais vento de leste ,nisto surgiu uma das afamadas catraias comtodo o pano que não éra nada pequeno ,pelo contrario ,o seu arrais então desafiou o meu pai a vir prá frente prá ver quem andava mais ! claro que com o vento que estáva no momento éra favoravel a essa catraia , o meu pai respondeu , vai indo que logo se vê' ? entretanto começou a puchar mais bento já com boas sardadas ! então o meu pai meteu de capa e disse, rapaziada vamos preparar o pano vamos com cunha ao grosso e malhete atravessado e o puchar o inçadoiro a ré como quem diz fazer cair um pouco o mastro para trás ,tudo preparado perguntou meu pai ? sim teu Jaime responderam os tripulantes ! vamos ver se ainda os vamos apanhar ,.Por sinal o vento veio de vinda o que nos façilitou porque a nossa vela do barco éra em relação ao barco mais pequena ! portanto estáva mesmo a calhar para ganhar-mos a aposta o que veio aconteçer . Que béla navegação estáva- mos a fazer ,quando a rapaziada disse ,teu Jaime o barco está aí a frente , o meu pai disse preparen-se que vamos passar por ele ,o vento está com muitas rajadas tende cuidado ,então nós nos aproximamos do barco em causa ,esse mesmo barco ia com o pano risado nas do meio e o pessoal a carregar com tudo para balrravento, e nós passamos por ele ,então o meu pai disse ,então isso não anda ? o arrais desse barco fico pior que uma barata,e um compadre do meu pai disse voçês vão aí com o cú de fora da borda olhe ? e atiro-se para sotavento ,o meu pai não esperava na altura passou uma sardada forte o nosso barco mergulhou a borda e foi um caso sério! então o meu pai gritou ao compadre ? vossê não fassa mais isso homem quase nos virava-mos por causa sua ,sim se o meu pai não larga escota ao mesmo tempo deixava o leme pró vento a coisa complicava! assim se ganhavam as apostas dos barcos de véla ,e eu assim aprendi como se navega no mar com veleiros ! .Saúdaões .Maritimas ...Jaime Pontes...


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