Terça-feira, 25 de Agosto de 2009
Pescadores da Faina Maior homenageados em Lavos.

«A pesca do bacalhau à linha, feita há mais de meio século nos mares da Terra Nova e Gronelândia, vai ser homenageada pela freguesia de Lavos, Figueira da Foz, que a compara à odisseia dos Descobrimentos portugueses.
"Era um autêntico sacrifício de vida, só comparável às caravelas portuguesas quando iam para o desconhecido. A pesca do bacalhau à linha é a segunda grande odisseia nacional", disse à agência Lusa Isabel Oliveira, autarca de Lavos.
Alude à ausência prolongada sem notícias da família e à solidão da pesca, cada homem no seu "dory" — embarcação à vela, também movida a remos — largado diariamente do bacalhoeiro, debaixo de constante neblina, nos mares gelados do Atlântico Norte, onde se localizavam os melhores pesqueiros.
"Hoje não conseguimos sequer sonhar o que era trabalhar meses a fio naquelas condições. Quando iam para a pesca e se despediam da família era como se despedissem definitivamente", argumenta Isabel Oliveira.
O pescador embarcava sozinho no "dory", botas, saia de oleado, casaco e chapéu, bússola, forquim e outros instrumentos de pesca, o indispensável barril de água e a merenda, um baú com café e pão com bacalhau frito - "o prato do dia de todos os dias", relembra José Cruz, que se fez à faina pela primeira vez aos 17 anos, já lá vão mais de 40.
Ainda assim, no lugre “Coimbra”, quatro mastros à vela e motor auxiliar, a tripulação de meia centena de pescadores que incluía José Cruz dispunha de condições que outros pescadores não tinham, a começar pela água, um litro por dia reservado à higiene.
"Eu para me lavar era só quando ia a terra a St. Johns [na costa nordeste do Canadá], uma vez em cada seis meses", admite Silvino Bio, que se fez ao mar em busca de bacalhau pela primeira vez em 1956.»

 
in Jornal da Madeira, 08-09-2008.
 
«A sede da Junta de Freguesia de Lavos foi pequena para receber tantos convidados, que quiseram assistir à inauguração da exposição sobre a pesca do bacalhau. Antigos lobos do mar, familiares e amigos, todos quiseram partilhar o espaço de memórias, recordar os que faleceram e evocar esses tempos difíceis que fizeram parte do seu dia-a-dia. A mostra é composta por diversos artefactos da faina, um bote e muitas centenas de fotografias de lavoenses que andaram à pesca do “fiel amigo”.
Na abertura, a presidente da Junta da Lavos recordou que este programa “de homenagem aos bacalhoeiros lavoenses” está a ser desenvolvido desde 2007 e que a exposição “é simples, mas tem o intuito de recordar”, disse, agradecendo à população que “foi aos baús buscar coisas desses tempos de agruras”, contribuindo assim, para o enriquecimento da mostra. Isabel Oliveira falou ainda nos livros de Manuel Luís Pata, que deixam “vontade de se conhecer mais da faina e para o futuro memórias e testemunhos de uma vida que foi muito difícil”, e destacou a colaboração do Museu de Ílhavo. Apelou ainda a eventuais pescadores que não figurem na exposição, para que “forneçam as cédulas para completar um trabalho que está incompleto”.
Já o presidente da Câmara da Figueira da Foz enalteceu a iniciativa que considerou de “grande interesse”, por focar uma “actividade teve muita expressão no concelho e não se restringe à cidade, mas a praticamente todas as freguesias que contribuíram com pessoas para a faina maior”. Duarte Silva recordou que ele próprio teve grandes ligações à actividade, através de seu pai, manifestando, por isso, “consideração por todos os que levavam a cabo esta epopeia. Honra-nos como tradição marítima e tudo o que se possa fazer para manter esta memória é fundamental”, concluiu o autarca.
Refira-se que, segundo registos do Museu Marítimo de Ílhavo, existiram mais de 700 pescadores do bacalhau em Lavos, mas poderão ter sido muitos mais, sendo que, com a exposição, outros nomes poderão aparecer.
O programa de homenagem prossegue dias 17 e 24, na Casa do Povo de Lavos, com um encontro de bacalhoeiros, seguindo-se, no dia 31, a realização de uma palestra sobre a pesca do bacalhau, missa campal e a inauguração do Monumento aos Homens “Bacalhoeiros” Lavoenses. A iniciativa culmina no dia 6 de Junho, com uma visita ao Museu Marítimo de Ílhavo e ao navio bacalhoeiro Santo André.»
 
por Bela Coutinho – in Diário de Coimbra.
 
«A inauguração do Monumento aos Homens “Bacalhoeiros” lavoenses constituiu, ontem à tarde, o momento mais cerimonioso da homenagem que a Junta de Freguesia de Lavos, a Câmara Municipal da Figueira da Foz e a população em geral, prestaram aos homens do bacalhau que, durante décadas, foram o grande suporte familiar de muitos lares na freguesia.
Esta cerimónia foi antecedida de uma pequena procissão entre a Capela da Praia de Lavos e a zona da beira-mar, onde ficou localizada a estátua, cerimónia religiosa conduzida pelo cónego Manuel Maduro, que nas sua palavras de homilia evocou a bravura daqueles destemidos homens do mar agora, simbolicamente, retratados na estátua que evoca o feito desses pescadores.
Também a presidente da Junta de Freguesia, Isabel Oliveira enalteceu estes pescadores e o que eles contribuíram para o desenvolvimento económico e familiar do povo da freguesia, em épocas muito difíceis.
Na cerimónia inaugural participaram o presidente da Câmara Municipal, António Duarte Silva, os vereadores Teresa Machado e José Elísio, bem como Joaquim Barraca (AM), entre outros autarcas e individualidades e a Filarmónica Carvalhense que abrilhantou o acto.
Entretanto, António Duarte Silva e Isabel Oliveira, acompanhados por crianças da freguesia procederam ao descerramento da placa alusiva à inauguração da estátua. Trata-se de um trabalho da autoria do canteiro António Nogueira (de Lavariz - Carapinheira), que foi construído em pedra rosada e será “uma marca para os vindouros recordarem e terem orgulho dos feitos dos seus familiares”. A escultura (orçou em 5 mil euros) representa o pescador a agarrar no bacalhau, vestido a rigor, ladeado por uma vela estilizada e assente numa onda.
Esta homenagem promovida pela Junta de Freguesia de Lavos com a colaboração da Câmara Municipal, já se havia iniciado a 10 de Maio com diversas iniciativas que se foram desenvolvendo nos fins-de-semana seguintes e que terminou com a realização de uma sessão solene no Sport Clube de Lavos, em que intervieram Isabel Oliveira (J. F. Lavos), o conselheiro da Embaixada do Canadá, Eurico Monteiro (director-geral das Pescas) e António Duarte Silva.
Antes, porém, Miguel Vigueira, professor da Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, fez uma palestra sobre a “Odisseia da Pesca do Bacalhau” que o orador preferiu chamar-lhe Epopeia porque, explicou, “os Bacalhoeiros é que são os verdadeiros heróis do mar”.
Depois da sessão solene seguiu-se um almoço que reuniu mais de 200 pessoas e a finalizar a inauguração do monumento seguida de Missa Campal presidida pelo cónego Manuel Maduro.»
 
por José Santos – in Diário de Coimbra.
foto - António Agostinho - Outra Margem Visor.


publicado por cachinare às 08:13
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1 comentário:
De jaime pião a 25 de Agosto de 2009 às 10:41
As memórias dos pescadores de Lavos ,um BEM-HAJA , aos seus pescadores ainda vivos e aos que já partiram em especial ,porque afinal dos fracos também reza a história !
Digo dos fracos ,porque aqui por Vila do Conde nem dos fracos ,nem dos fortes ,ninguém se lembra de ninguém ,e porquê tudo isto ,porque não temos ninguém das Caxinas a representar verdadeiramente os pescadores de ontem e de hoje ,isso de aparecer quando acontece uma desgraça ou mostrar solidariedade em ocasiões de desgraças ,até aqueles que estão por fora mostram sensibilidade ,o que queremos e eu digo queremos é que se lembrem que das Caxinas e poça da barca desde os anos 1880 até os anos 1970 do século passado ao longo dos anos de muitos anos saiam para a pesca do bacalhau nossos pescadores que muito contribuíram para melhoria desta terra ,porque não havia outro modo de vida melhor ,porque eram tempos difíceis ,porque eram homens rudes não tinham escolaridade ,porque não tinham apoio nenhum do estado nem de ninguém e pior agora infelizmente ,que ninguém se lembra deles nem para prestar uma singela homenagem ,mas vamos nós pescadores e não só de Vila do Conde fazer uma força para que alguém se digne lembrar e nos apoie para que amanhã se possa erguer bem alto uma estátua aos nossos bravos pescadores nem que para isso tenha que andar de porta em porta a pedir para contribuir ,não queria morrer sem ver os nossos bravos bacalhoeiros serem homenageados ,homens dos gelos e dos temporais dos bancos da TERRA NOVA E GROENLÂNDIA
cumprimentos Jaime Pontes


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