Quinta-feira, 3 de Setembro de 2009
“Fogo no ´Ílhavense Segundo´” – 15-08-1955, Terra Nova.

Em 30 de Junho de 2008, a Drª Ana Maria Lopes escrevia no seu blogue “Marintimidades”, um artigo sobre um airoso lugre bacalhoeiro seu homónimo, o “Ana Maria”. Refere nesse artigo, que durante a sua longa carreira de pesca (1885-1958), foi do “Ana Maria” que a 15 de Agosto de 1955 soou o 1º alarme à navegação sobre o lugre-motor “Ilhavense Segundo”, a pescar a 60 milhas dele e com um grave incêndio a bordo.

Porque a busca constante traz os seus frutos, há dias descobri uma descrição detalhada da operação de salvamento da tripulação, levada a cabo pelo USCGC “Mendota”, corveta da Guarda Costeira Norte-Americana (foto 1). Embora a página do texto mencione o autor do artigo como “desconhecido”, em Fevereiro de 1956 foi publicado um artigo sobre o socorro ao “Ilhavense Segundo” na Revista da Guarda Costeira, da autoria de Paul Prins e intitulado “Fire at Sea, ´Mendota´ Cheats North Atlantic of Forty-Six Victims as ´Ilhavense Segundo´ Goes Down” (Incêndio no Mar, o ´Mendota´ Rapta Quarenta e Seis Vítimas ao Atlântico Norte, Enquanto o ´Ílhavense Segundo´ se Afunda), pp. 16-18.
 
Eis a tradução:
 
«Na manhã de 15 de Agosto de 1955, a corveta da Guarda Costeira “Mendota”, que se encontrava baseada em Wilmington, Carolina do Norte, E.U.A., andava em patrulha no centro da Estação Oceânica Delta, localizada cerca de 600 milhas a leste de Cape Race, Terra Nova. A maioria dos oficiais e tripulação estava preocupada com o que o Tufão Connie poderia ter infligido nas suas casas e famílias na área de Wilmington e com o que o Tufão Diane, na altura 400 milhas a sudoeste de Wilmington poderia fazer.
Às 9:24 da manhã, um Mayday (chamada de rádio de SOS internacional) foi captado. O navio de pesca (arrastão) português “João Côrte-Real” estava a retransmitir um Mayday que recebera, em português, informando que o lugre de pesca português “Ilhavense Segundo” estava em chamas a Norte da posição do “Mendota”.
O “Mendota” no minuto seguinte de imediato traçou rumo à posição reportada à velocidade máxima, em auxílio ao navio. Um incêndio em pleno mar pode ser nefasto, mesmo num moderno navio em aço equipado com o mais recente material anti-incêndio, mas um fogo no mar num velho lugre de pesca em madeira pode ser terrível.
A caminho do local, toda a tripulação entrou em exercícios de salvamento a sobreviventes. Cada um dos homens dirigiu-se à sua posição establecida, tais como na recuperação à proa, iluminação, lancha rápida, vigia de tubarões, etc. Todas as posições e equipamento foram cuidadosamente verificados, tal como o haviam sido menos de uma semana antes. O Procedimento de Incêndio e Salvamento foi activado para a possibilidade de salvar o lugre.
Estes exercícios foram dificultados pelo facto de a navegar, o “Mendota” por vezes mergulhar o convés a sotavento. Às 2:08 da tarde alcançaram a posição reportada do lugre aflito e iniciaram um plano de busca que com maior eficácia cobrisse a área onde o poderiam encontrar. Todo o tipo de informação pertinente relativa ao “Ilhavense Segundo” estava a ser recebida por rádio vinda de outros navios de pesca portugueses, todos eles encontrando-se a mais de 400 milhas de distância do local. As comunicações eram extremamente difíceis pela ausência de uma língua comum.
Foi então determinado que a tripulação do lugre havia abandonado o navio na altura em que enviara o primeiro e único SOS. Além disso pensava-se que o lugre afundara. Esta informação, recebida às 4:45 da tarde tornava uma situação já de si grave, nalgo extremamente atroz.
Detectar um lugre em posição incerta no meio do Atlântico Norte com mau tempo é difícil, mas encontrar alguns minúsculos dóris em mares vivos é praticamente impossível. À medida que a busca decorria, a área foi reduzida tendo em conta o alcançe visual e de radar entre um lugre e um dóri.
Às 6 da tarde, um avião da Guarda Costeira chegou de Argentia, Terra Nova, para auxiliar na busca e foi direccionado para iniciar uma expansão da busca a começar do centro designado pelo “Mendota”, de modo a tornar a procura uniforme e nenhumas áreas ficarem de fora.
50 minutos após ter chegado, o avião reportou ter avistado um lugre de 3 mastros a arder, com 13 dóris todos juntos, uma milha a Sul deste. O avião passou então a circular sobre o lugre enquanto o “Mendota” se aproximava da cena por radar. Às 8:03, os dóris foram avistados e o avião iniciou o regresso à base.
O Sol havia-se posto há cerca de 15 minutos e a visibilidade era reduzida pelo tempo carregado e periodos de chuva intermitentes, bem como pela poalha do mar. O vento era de Oeste a 27 nós e o mar era de 3,65 metros. Os dóris estavam amarrados entre si em grupo e mostravam-se desgraçadamente pequenos naqueles mares de espuma branca. Tanto de repente os dóris desapareciam na ondulação, como de seguida emergiam de novo na crista das ondas. Um sinal luminoso fraco era visível a intervalos. O “Mendota” deteve-se próximo dos dóris e as redes de salvamento (de corda) foram baixadas à proa e à meia-nau do lado abrigado do vento.
A tripulação encontrava-se toda nas suas posições de salvamento. Os dóris começaram a aproximar-se do “Mendota” em fila com os remadores a esforçarem-se como se as suas vidas dependessem disso, e sem dúvida sentiam que era esse o caso. O primeiro dóri chegou à proa pela 8:15 da noite e 10 minutos depois, todos os 46 sobreviventes e um cão estavam a salvo a bordo.
Foram uns 10 minutos frenéticos. Haviam imensos gritos vindos dos dóris os quais, sendo numa língua estranha, davam a impressão de completa confusão. Na verdade, a disciplina foi excelente. Em nenhuma altura dois botes tentaram chegar à mesma rede, nem nunca uma rede esteve livre mais que uns segundos. À medida que os dóris iam ficando vazios, estes eram postos de parte por intermédio de cabos fornecidos pelo “Mendota”. As tentativas de resgate dos dóris provaram-se fúteis, uma vez que depressa se partiam contra a amurada do “Mendota”.
A transferência dos náufragos dos “loucos” e safanantes dóris para as redes de corda só poderia ser levada a cabo por marinheiros experientes. Tácticas diferentes e mais elaboradas teriam de ser a opção noutros casos. O tempo era crucial com a vinda rápida da escuridão e o aumento da hipótese de perda total. Dois nadadores do “Mendota”, com fatos de borracha e apoios estavam estacionados de cada lado das duas redes de salvamento em assistência aos menos fortes, feridos ou exaustos e para recuperar aqueles que pudessem cair no mar. Cabos foram utilizados para içar a bordo aqueles demasiado exaustos para trepar as redes com o auxílio dos nadadores.
Por altura em que os últimos dóris estavam estavam próximos, a proa do navio mergulhava cada vez mais e o mar causava cada vez maior balanço no “Mendota”. Todas as tentativas para esvaziar os dóris com o navio ainda a direito foram inúteis e os homens dos últimos botes tiveram imensas dificuldades a subir as redes.
Entretanto verificou-se que apenas um dos náufragos falava algum inglês. Os pescadores mostravam-se bastante expressivos quando alcançavam a segurança do convés do “Mendota”. De imediato abraçavam o marinheiro americano mais próximo (para consternação e algum embaraço da tripulação) ou começavam a rezar, evidentemente dando graças. Dois deles foram vistos a ajoelhar-se e a beijar o convés. Estes eram bravos homens, mas haviam passado por um longo, frio e molhado dia, amontoados 3 e 4 em pequenos dóris de 4 metros desenhados para um só homem. Estava agora quase escuridão completa e o vento e o mar cresciam hostilmente. O lugre abandonado e fatalmente a arder no horizonte, apenas aumentava o aspecto desolador da cena. Não havia dúvida que estes homens sentiam agora que tinham sido salvos.
Tal como o Capitão do “Ilhavense Segundo” mais tarde disse a um intérprete, todos haviam perdido as esperanças em serem salvos, devido ao mau tempo, até ao momento em que avistaram o avião.
O 2º maquinista do lugre sofria de queimaduras graves nos braços e de outras no rosto e pés. Não se queixava de nada, apesar da agonia que terá sofrido durante todo o dia exposto no dóri, com a água salgada a encharcar-lhe os braços sem pele. O dono do cão, assegurou-se primeiro que o seu animal estava a salvamento a bordo antes de saltar para fora do seu dóri.
Houve várias tentativas para extinguir o fogo na popa usando as mangueiras do “Mendota”. O “Ilhavense Segundo” debatia-se na ondulação e balançeava pesadamente. O chicotear violento dos seus três mastros em aço puseram fora de hipótese posicionar o “Mendota” paralelo ao comprimento do lugre, onde cabos se poderiam prender nas partes não queimadas do seu casco.
O lado de estibordo da proa do “Mendota” estava por bombordo do lugre e por quatro ocasiões que o mastro da mezena quase varreu o poste porta-bandeira do “Mendota” à proa com o balanço. Com as mangueiras a trabalhar, arpéus de abordagem e âncoras foram usadas para, sem sucesso, tentar manter os dois navios próximos.
À terceira passagem, os apoios na base do mastro da mezena estavam ardidos e à quarta, a proa foi mantida contra a proa do lugre com o apoio do motor por curtos periodos de tempo.
As chamas à popa foram apagadas nesta tentativa e pôde-se então perceber que o fogo corria debaixo do convés bem até ao meio do lugre. Ficou decidido então, pouco antes da meia-noite, que o “Ilhavense Segundo” estava perdido.
Os fogos no navio de pesca ergueram-se violentamente cerca da uma da madrugada e o lugre ardia quase a todo o seu comprimento. Por fim as chamas diminuiram e o navio desapareceu do radar do “Mendota” às 2:10, apenas a uma milha e meia de distância.
Presumiu-se que tivesse afundado e uma busca da sua última posição após desaparecer, seguida duma minuciosa busca visual pela alvorada confirmaram esta crença. Nada mais que pedaços de madeira carbonizados, alguns dóris queimados e um bidão de óleo foram encontrados.
O “Mendota” encontrou-se com a corveta da Guarda Costeira “Cook Inlet” dois dias mais tarde, e em mar de temporal, transferiu todos os sobreviventes e o cão, por barco, para o “Cook Inlet” para serem transportados para Boston, Massachusetts. O governo português, mais tarde efectuou o seu repatriamento até Portugal.»
 
fonte - autor desconhecido – Jackspoint.com.
foto dupla 2 “Ilhavense Segundo” – Museu Marítimo de Ílhavo.
foto 3 - comparativa de incêndio, no lugre-motor “Cruz de Malta”, em 1958. De Souza Collection, via Ms. Priscilla Doel, in “Port O´Call”.
 
O “Ilhavense Segundo” foi construído em 1918 na Gafanha da Nazaré, por Manuel Maria Bolais Mónica. O primeiro nome deste lugre em madeira foi “Atlas”, e o seu armador a Parceria Marítima Esperança. Compreendia 38,46m de comprimento, 8,97m de boca e 3,95m de pontal, numa tonelagem bruta de 270,88 t.
Em 1921 passa a chamar-se “Ilhavense Segundo” e em 1937 é-lhe instalado um motor. Terminaria os seus dias da forma descrita acima, a 15 de Agosto de 1955, salvando-se felizmente todos a bordo.
 
O “Mendota” era uma corveta da classe Owasco construída nos estaleiros da Guarda Costeira dos E.U.A. em Curtis Bay, Maryland, comissionada a 2 de Junho de 1945. Recebendo o nome do Lago Mendota, no Wisconsin, iniciou a sua carreira como navio-patrulha WPG-69. Após inúmeras operações de salvamento e apoio no Atlântico Norte, em 1969 foi comissionado para a patrulha e accções humanitárias na costa do Vietname. Terminaria os seus dias desmantelado, em 1974.


publicado por cachinare às 08:29
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4 comentários:
De jaime a 3 de Setembro de 2009 às 09:42
Eis aqui uma história real de como se passou ,do que poderia ser uma tragédia na altura !
O lugre motor Ilhavense Segundo a 15 de Agosto de 1955 ,dia da Assunção de Nossa Senhora ,dia que os pescadores do bacalhau muito respeitavam na altura e que todos os bacalhoeiros faziam trinta por uma linha para chegarem a Portugal ,tempos esses que dependia sempre das pescas e das viagens ,porque se tratavam de lugres veleiros agora com motor auxiliar e muitos nesse tempo chegavam a Portugal pela Assunção e mais pela Senhora das Dores dia 15 de Setembro .
A história aqui reportada é-me muito familiar ,porque também naufraguei por incêndio em dois navios bacalhoeiros ,no Avis em 1965 e no Inácio Cunha em 66 ,o que quer dizer foi seguidos ,mas diferentes porque fomos salvos na altura própria por outros navios Portugueses portanto diferente para melhor ,diria mesmo que foi as minhas melhores viagens de ganho monetário !
Mas é de arrepiar esta história ,porque ao ler fiquei logo a ver o filme e me veio uma lágrima aos olhos ,porque quem lá andou naquela vida sabe que em certas ocasiões era muito difícil ultrapassar os temporais os gelos os nevoeiros e outros inconvenientes que se deparavam com mais e menos sacrifícios tudo se passava , por isso é que vou lutar até a exaustão pela Homenagem aos nossos bacalhoeiros de Caxinas e Poça da Barca Vila do Conde que ainda nada se fez com a tristeza dos ainda pescadores vivos estampada no rosto esperando como eu muitos pelo dia em que alguém em Vila do Conde se lembre que foi de Vila do Conde que partiram para pesca do bacalhau a maioria de pescadores bacalhoeiros ,que durante uma centena de anos ou mais deram vida a esta terra ,mas que muito esquecidos ao longo destes anos todos !!!
cumprimentos Jaime Pontes Pião


De Anónimo a 8 de Setembro de 2009 às 16:41
Ao naufrágio do Cruz de Malta, assisti eu em 1958, no Virgin Rocks, de bordo do Gil Eanes.
O navio foi abandonado ao princípio da madrugada, com água aberta, que inundava a casa das máquinas,
como então se disse.
Dado como um caso perdido, para abreviarem a sua
agonia, chegaram-lhe fogo, ficando o navio a arder (era mais fumaça que outra coisa...) até ao princípio da noite, altura em que aquele belo Lugre se afundou
de poupa, despedindo-se com o gurupés apontado ao
como se fora um dedo acusador.
Felizmente toda a tripulação de "naufragos", nem
sequer molhou as meias, já que atempadamente se
mudaram para outro navio.
Naquela época, parecia ser uma moda os navios bacalhoeiros naufragarem. Só naquele já longinquo ano de 1958, salvo erro, foram 6 navios...dos mais idosos, a irem a pique.
Mais ou menos em surdina, entre a tripulação, dizia-se, que depois o seguro pagava outro.

Albino Gomes


De dolphin a 13 de Setembro de 2009 às 08:37
O naufrágio do Ilhavense II , transcrito na Revista da Guarda Costeira Americana, aviva-me a memória de outro naufrágio, de outro Ilhavense em 1974, em que fui espectador e parte interventiva no salvamento.
Estávamos nos Virgin Rocks a pescar há três dias depois de termos abandonado os "espalques" devido à escassez de peixe nessa zona, quando, ao amanhecer, nos preparávamos para arriar os botes, recebemos um SOS do Ilhavense, pedindo socorro que o navio estava a arder.
Estávamos fundeados por Leste do" Manolejo" e o Ilhavense estava um pouco mais a Sul, cerca de 2 milhas, por fora do "Sadolejo". O Novos Mares, outro navio da mesma empresa do Ilhavense, a Testa e Cunha, Lda. estava mais distante cerca de 10 milhas a pescar no Eastern Shoal. De imediato suspendemos e fomos em auxílio do Ilhavense, o mesmo fazendo o Novos Mares.
O dia estava excelente, podia-se afirmar que " as moscas pousavam na água" e os botes do Ilhavense também estavam todos na água aquela hora, prontos para iniciarem mais um dia de pesca, por isso não foi difícil o salvamento dos dóris que foram içados pelos teques dos dois navios para bordo e empilhados sobre os que já lá estavam e que não chegaram a ser arriados.
Rumamos a St. John's para desembarcar os náufragos e por ironia do destino ali ficamos cerca de um mês e quando vínhamos de regresso a Portugal, depois de muitas peripécias passadas, fruto da revolução recente, foi a nossa vez de naufragarmos perto dos Virgin Rocks, mas em situação muito mais angustiante que o Ilhavense, como descrevo no meu blog www.maolmar.blogs.sapo.pt
Obrigado sr. Fangueiro por trazer estes temas para o conhecimento daqueles que não sabem o que foi a gloriosa e tenebrosa epopeia da pesca do bacalhau à linha.


De Anónimo a 2 de Março de 2010 às 18:44
Só uma pequena correcção ao muito bem descrito pelo dolphin, é que o "Novos Mares" não era da mesma Empresa do "Ílhavens". O "Novos Mares" era da Empresa Testa & Cunha e o "Ilhavense da Parceria Maritima Esperança.
Um abraço
A.Matias


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