Quinta-feira, 1 de Outubro de 2009
Tipos Perfeitos da Raça.

«Na Primavera de 1966,o canadiano Wayne Ralph (foto 1) fotografou um grupo de pescadores portugueses cujo navio bacalhoeiro estava atracado no porto de St. John’s, capital da Terra Nova. No final de 2008, essas fotografias foram publicadas na Notícias Magazine (NM) e um desses homens descobriu-se nelas com 18 anos. No Verão de 2009, Wayne Ralph veio a Portugal expor essas imagens a convite do Museu Marítimo de Ílhavo e no dia da inauguração reencontrou-se com o pescador. Aqui se narra esse reencontro, numa conversa em que foi também questão a história comum de dois países unidos pelo bacalhau.

 
Contámos parte desta história na NM de 14 de Dezembro de 2008, quando publicámos algumas das fotos que fez dos pescadores portugueses no porto de St. John’s, capital da Terra Nova, em 1966. Um deles foi reconhecido por um parente, que lhe ofereceu a revista pelo Natal, provocando uma vaga de memórias e emoções. Quer contar o que aconteceu entretanto?
Em Janeiro deste ano recebi um e-mail do filho desse ex-pescador dizendo-me que o pai se tinha visto na revista (nessas imagens ele tinha 17 anos) e chorado (o que o filho nunca o vira fazer). Nesse e-mail o pai agradecia-me por tê-lo fotografado. Eu ignorava até esse momento o nome desse pescador, como os dos outros que fotografei. O próprio nome do navio em que seguiam apenas o soube por essa altura, depois de digitalizar as imagens e de as ampliar de modo a tentar colher elementos identificativos. António (o pescador de que temos estado a falar) era o elemento mais novo da tripulação do Dom Dinis nessa campanha. Tínhamos sensivelmente a mesma idade quando o fotografei no porto de St. John’s. Eu morava perto do porto, e nesse dia andava por ali a passear. Era um dia de sol, nessa Primavera de 1966 (algures entre Abril e Junho) e eu tinha estado a tirar algumas fotografias. Conforme me fui aproximando, os pescadores portugueses começaram a reparar em mim e um deles sorriu e cumprimentou-me gestualmente – e embora não falasse inglês, convidou-me para subir a bordo. Foi ele o homem que me deu a sua morada, que eu perdi, mas lembro-me de ver escrito Aveiro. Foi também ele quem me serviu de modelo, e subiu ao mastro, para que o fotografasse. Havia outros homens, mas estavam ocupados, tinham trabalho para fazer, alguns estavam a cozinhar o almoço, outros estavam a remendar redes.
 
Fosse como fosse, estava habituado a ver os portugueses por ali, no porto de St. John’s, ano após ano – escreveu isso mesmo na narrativa de memórias que está a preparar.
Essas memórias que guardei dos portugueses na Terra Nova só mais recentemente se transformaram em textos. Seja como for, prometi a esse rapaz de Aveiro que lhe enviaria as fotografias, o que nunca cheguei a fazer. Fiquei com essas imagens para mim – imagens que sempre considerei muito interessantes, por todas as razões, incluindo as técnicas: a luz, o enquadramento, e até a qualidade do filme, que era um Panatomic da Kodak, de exposição longa. Temos de lembrar-nos de que nessa altura tudo era feito manualmente, a focagem, a medição da luz, tudo.
 
Nessa altura, quando os portugueses faziam parte da paisagem humana de St. John’s, recorda-se ou não de ser capaz de distingui-los dos outros pescadores?
Os navios dos portugueses eram diferentes de todos os outros, eram os únicos que eram veleiros, de três ou quatro mastros, enormes, com aquelas velas lindíssimas e aquele charme que os outros não tinham. E eram brancos, por causa da Segunda Grande Guerra, o que eu não sabia à época [os navios bacalhoeiros portugueses foram mandados pintar de branco pelo Estado-Maior Naval na sequência de ataques alemães a lugres da nação «neutral» no alto-mar]. A White Fleet era única. Podíamos ver esses navios quando o tempo estava mau, pois eles procuravam abrigo no porto, onde ficavam até o tempo melhorar. Quando a White Fleet chegava íamos todos ver os seus navios. Da minha secretária da escola conseguia vê-los pela janela.
 
Até que ponto essas vivências de infância e juventude na Terra Nova explicam as suas escolhas profissionais? Antes de se tornar um fotógrafo e escritor a tempo inteiro foi piloto-instrutor militar, mais tarde piloto comercial, profissões aventurosas...
Há na minha família uma longa história relacionada com as profissões do mar. Na verdade, a única excepção foi o meu pai, que se tornou militar. E eu cresci num mundo cheio de uniformes militares, dominado pela possibilidade da guerra. Mas, porque tive uma educação (ao contrário do meu pai que abandonou a escola, e do meu avô, que era pescador de bacalhau, e dos meus tetravôs, que eram capitães de veleiros), não fui obrigado a ir para o mar. Tornei-me piloto militar por opção minha. Aos 12 anos sabia que ia ser piloto. Mas se o meu pai tivesse sido um homem do mar é provável que eu também fosse. António, o ex-pescador que agora reencontrei, foi para o mar com 8 anos. Na Terra Nova há muitas pessoas como ele, pessoas da minha geração que não estudaram e que foram para o mar ainda quase crianças. Tal como os portugueses que eu via a jogar futebol em St. John’s, e que ganhavam sempre os jogos, eram muito bons jogadores.
 
Como os distinguia dos espanhóis ou dos marroquinos, que também jogavam futebol quando estavam atracados?
Os portugueses tinham roupas distintivas, feitas à mão, os pescadores da Frota Branca vestiam-se de maneira diferente dos outros. E isso é visível também nas minhas fotos de 1966 – numa delas há um conjunto de homens vestidos com roupas compradas em lojas, blusões como os dos homens da marinha mercante. Os pescadores portugueses não vestiam roupas dessas. A probabilidade de esses homens serem portugueses era baixa.
 
Gente da Terra Nova. Como explica as relações tão excepcionalmente amistosas entre os portugueses da Frota Branca e os seus conterrâneos?
Quando eu era miúdo e via os portugueses sempre por ali, no porto de St. John’s, eu sabia que tinham sido eles a encontrar-nos, na escola aprendi que o primeiro descobridor a encontrar a Terra Nova foi Gaspar Corte-Real, um português. Por outro lado, sempre foi muito claro para mim que os portugueses que paravam em St. John’s eram os mais pobres de todos. Eram sempre avistados a andar pelas ruas em grupos, olhando para as montras das lojas, hesitando em comprar. Tal como o rapaz que eu descrevi na história publicada em Dezembro passado, que não tinha dinheiro para comer um banana-split e ficou a ver-me comer o meu. Os portugueses tinham quando muito, dinheiro para beber uma cerveja, mas não para pagar uma refeição ou uma sobremesa cara. Penso que sempre hou-ve um olhar compreensivo relativamente a esses constrangimentos dos portugueses, que de resto eram muito bem-parecidos e tinham muito sucesso com as raparigas. Sabíamos, ainda, que os portugueses eram os que trabalhavam com menos condições. A pesca do bacalhau era dura para todos, mas para os portugueses era-o ainda mais. Isso fazia deles heróis absolutos, tal como vem explicitado no famoso livro de Alan Villiers [A Campanha do Argus, uma edição da Cavalo de Ferro].
 
Sabia, na altura, o contexto em que os portugueses eram recrutados para essas pescarias na Terra Nova? Sabia que a pesca do bacalhau na sua terra fazia parte de um programa económico de regime? Sabia que a pesca do bacalhau foi o eixo da economia de abastecimento nacional dirigida por Salazar?
Não, ignorava tudo isso na altura. Apenas sabia que havia acordos internacionais relativos aos bancos de bacalhau da Terra Nova. Quando fotografei António e os outros pescadores portugueses ainda não havia restrições, a lei de protecção do nosso mar ainda não tinha entrado em vigor.
 
Houve um momento em que as autoridades canadianas pediram ao Estado português que parasse de pescar aquelas quantidades enormes de bacalhau nas vossas águas. Mas Salazar fez ouvidos moucos e mediante acções diplomáticas conseguiu continuar a mandar os portugueses ao bacalhau da Terra Nova – e isso durou até 1974.
Eu não sabia nada disso naquela altura. Os portugueses interessavam-me porque a sua frota era inigualável em beleza e romantismo, interessavam-me os navios e os homens, porque levavam aquela vida duríssima, embora por vezes tivessem a minha idade, e isso tocava-me. Eu nem sequer sabia que em Portugal vigorava uma ditadura. Apenas nos interessavam os astronautas, a ida à Lua, a guerra-fria. Sabia da existência de Franco e da guerra de Espanha porque lera Hemingway. Lera também os livros de espiões, Ian Flemming, e sabia que havia uma cidade chamada Lisboa, uma cidade romântica que albergara espiões durante a Segunda Guerra Mundial, e vi o filme Casablanca. Quando entrevistei pilotos de guerra para um livro meu sobre os aviadores militares da Segunda Guerra Mundial, uma das coisas mais espantosas que todos me contaram foi que quando estavam a regressar da guerra, vindo pelo Mediterrâneo, iam para Inglaterra por Gibraltar, sobrevoando Lisboa, e todos achavam incrível que estivesse iluminada de noite, enquanto outras cidades europeias estavam na mais cerrada escuridão, que era ao que estavam habituados. De modo que sobrevoar Lisboa era como passar por Hollywood, a vossa capital tinha essa aura. Há um ensaio num livro que saiu recentemente sobre os portugueses no Canadá [The Portuguese in Canada – Diasporic Challenges and Adjustment, coordenado por Carlos Teixeira e Vítor M.P. da Rosa, University of Toronto Press, 2009] que fala dos portugueses como sendo gente da Terra Nova – porque não eram olhados como os outros estrangeiros. Se for falar com polícias que trabalhavam nessa altura, eles dir-lhe-ão que os portugueses eram os que menos conflitos provocavam, os que raramente iam para a prisão. Já os espanhóis andavam de facas e entregavam-se a lutas que por vezes os levavam para os nossos hospitais. Os únicos portugueses que podíamos encontrar nos hospitais eram os que tinham sido vitimados por incêndios a bordo dos navios.
 
Memórias sentidas. Voltemos a esse encontro inacreditável entre si e o pescador que fotografou na Terra Nova em 1966. Quais são os seus significados, e os desta sua vinda a Portugal?
Posto de uma forma simples: passei anos e anos a pensar que devia ter enviado as fotografias a esse outro pescador, o homem que era de Aveiro e me deu a sua morada. Sempre me senti um pouco culpado por não o ter feito, senti remorsos por não ter sido mais consequente. Quando o filho de António me disse que o pai gostaria muito de me reencontrar, fiquei a pensar que também eu queria muito esse reencontro. Mas não sabia onde poderia vir a ter lugar. Foi então que em meados de Junho passado recebi um e-maildo director do Museu Marítimo de Ílhavo, Álvaro Garrido, a convidar-me para expor em Ílhavo essas fotografias tiradas em 1966. Decidi vir, não só para a inauguração da exposição, mas também para reencontrar esse antigo pescador, o que aconteceu no dia 8 de Agosto, no museu. António apareceu com toda a sua família. Foi um momento inesquecível. Até Janeiro passado eu nem sequer sabia o nome dele, ele era apenas alguém que eu fotografara 43 anos antes em St. John’s, mas que representava todos os portugueses que eu conhecera durante a minha infância e juventude na Terra Nova. Ele não fala inglês e eu não falo português, mas isso não teve importância alguma.
 
Sei que depois passou alguns dias no local onde vive o antigo pescador e a sua família.
Passei três dias com a família de António. Tive oportunidade de conhecer outras pessoas, antigos pescadores nomeadamente, que aliás não acreditavam que tinha sido eu o autor daquelas imagens [risos]! Felizmente trouxe os negativos, em que há também outras fotografias, de mim jovem, do meu cão na altura, do carro do meu pai, dos meus colegas de escola... O que mais me impressionou foi ver o quanto guardam St. John’s no coração. Todos eles ficam muito sentimentais quando falam desses tempos na Terra Nova. Lembram de forma muito vívida e emotiva essa época em que passavam por vezes vários dias em St. John’s.
 
Para eles você é a representação da Terra Nova e do seu povo, que os acarinhou ao longo de todos esses anos de campanhas bacalhoeiras.
Exactamente. Alguns ficaram com os olhos cheios de lágrimas, e começaram a falar desses outros homens nas fotografias, indagando o que lhes teria acontecido, quem estaria ainda vivo.
 
Sei que alguns desses pescadores retratados nas suas fotografias de 1966 foram reconhecidos e que alguns são da mesma zona. Porque não os encontrou?
Creio que não estavam interessados nesse reencontro.
 
Talvez queiram esquecer. Há uma memória recalcada desses tempos, seguramente devido à sua dureza. Tal como acontece com combatentes da guerra colonial.
Penso que há traumas associados a essas longas viagens. Para António foi muito emotivo, houve uma quantidade impressionante de memórias que emergiram. Talvez esses outros homens não quisessem vivenciar isso. Talvez queiram esquecer, sim. Falei com um capitão aposentado, um homem com uma grande experiência, que começou nos dóris, e ele reafirmou-me a dureza dessas pescarias. António contou-me que quando estavam em St. John’s e chovia se lavavam debaixo dessa chuva. Nos navios, havia pouca água, e eles lavavam-se numa pequena quantidade de água, que servia também para fazerem a barba, e que no final bebiam! António contou-me que, quando estavam em St. John’s, por vezes iam ao Hotel Newfoundland, que era um hotel para homens de negócios, um lugar caro e onde havia um código de indumentária. Os portugueses por vezes iam lá beber uma cerveja, de gravata e com as suas melhores roupas, com os seus fatos a cheirar a naftalina, e bebiam uma cerveja que faziam durar o serão todo.
 
Saudade das campanhas. O que vai fazer com esta experiência, esta viagem a Portugal, estes reencontros?
Ainda não sei. Há mais do que uma dimensão a considerar, por um lado, uma questão mais pessoal, de busca identitária, de querer saber por que razão quero escrever, ser um escritor. Por outro, há um desejo de documentar uma história que é comum. A vida de António, o pescador português que acabei de reencontrar pessoalmente, é muito diferente da dos seus filhos. Ele passou de uma vida dura como poucas para uma vida pautada pelo conconforto standard da actual classe média. A filha de António tem uma formação universitária e o seu filho tem um trabalho especializado fora de Portugal. Isso é também o que fazem os filhos da Terra Nova que querem melhorar o seu nível de vida: sair do país para trabalhar. O que quero dizer é que as pessoas das classes médias, que agora estão no pico das suas vidas activas, são todas filhas de um António. Em quarenta anos, o mundo mudou muito, e há muitos paralelismos que podem ser estabelecidos entre Portugal e a Terra Nova. A questão é então a de saber o que significa pertencer hoje em dia à classe média. António comove-se quando fala da pesca do bacalhau no Atlântico Norte, e diz que tem imensas saudades desse tempo. Mas de que tem saudades afinal? Ele descreve de forma muito vívida a dureza dessa vida no mar, mas, paradoxalmente, tem saudades dela. Aquilo era uma coisa de cariz militar, daí designarem-se essas pescarias por campanhas de pesca, tal como se diz das campanhas militares.
 
Fazendo um esforço de entendimento humano: de que acha que o ex-pescador António tem saudades?
Talvez da camaradagem entre os homens, num momento que foi decerto muito formador do seu carácter. Talvez, também, de um certo heroísmo que estava associado a essa pesca. Um homem era-o tanto mais quanto mais peixe pescasse. Entre os homens e perante as mulheres, também. Os bons pescadores, os que pescavam mais do que os outros, tinham um outro estatuto.
 
Salazar bebia todos os anos com os melhores pescadores um cálice de vinho do Porto, numa cerimónia que precedia a largada da frota para a campanha. O regime conferia um valor simbólico a esses heróis do mar, cuja bravura era manipulada através de encenações da propaganda que os comparavam aos marinheiros de Quinhentos.
Isso reflectia-se na vida das populações. Na terra de António as raparigas sabiam quem eram os melhores pescadores, e era com eles que queriam casar. António era bem visto pelas mulheres, a sua própria mulher mo disse. Ser um pescador da Frota Branca era o máximo. Em A Campanha do Argus, de Villiers, há uma personagem que é o mau pescador, e todos troçam dele, porque todos os dias saía de manhã para a pesca e voltava com cinco ou seis bacalhaus, o que fazia dele um zero à esquerda a todos os níveis. Talvez isso tivesse que ver com o valor da masculinidade, com uma hipermasculinidade. Mas não só, porque tal como escrevi, eu próprio, que não era português, me achava muito pouco masculino, se comparado com os pescadores portugueses da minha idade que eu via em St. John’s. Eu não passava de um rapazola, já eles eram claramente homens.
 
Imagino que olha de outra maneira para isso, hoje em dia.
Não sei até que ponto, porque a verdade é que admiro essas capacidades.
 
Como é normal num militar.
Exacto. Eu próprio acabei por ter uma vida pautada por um certo heroísmo, à minha escala. Fui piloto militar, depois piloto de uma companhia de aviação comercial, aterrei no Árctico, voei debaixo de tempestades, fiz aterragens de emergência, enfim, tive uma vida de piloto, o que também era, e é ainda, considerado uma marca de masculinidade. Mas uma outra masculinidade, diferente da que era atribuída aos homens da Frota Branca. Eu fiz questão de dizer a António (alguém no Museu teve a amabilidade de fazer a tradução) que o admiro, também porque nunca pareceu sentir pena de si próprio por ter vivido aquelas experiências extremas.
 
Julgo que a outra hipótese era ir fazer a guerra em África... .
Claro, hoje sei disso. Enfim, é uma história rica de factos humanos e sociais relevantes. O mundo mudou, há menos opressão e menos pobreza. Mas há mais outras coisas. O director do Museu Marítimo perguntou-me como estava a Terra Nova a mudar e eu respondi que está a padecer da mesma doença que afecta o mundo inteiro, e que é configurada pela sociedade norte-americana. Quando eu era miúdo e ia brincar para a rua com os meus amigos a ordem era para não voltar para casa antes da cinco da tarde. Hoje a paranóia securitária afecta imensamente a infância e a vida das famílias. Hoje em dia as crianças têm de ter tudo, tudo lhes é dado, para circunscrevê-las, protegê-las do que julgamos perigoso. Penso que a questão é a de tentar perceber o que está a acontecer à nossa cultura, àquilo que a distingue das demais. Se nos tornamos como toda a gente, de que vamos orgulhar-nos? Nós temos a mania de que somos diferentes dos outros americanos, e somos, porque temos uma longa história que faz a diferença, porque somos muito pouco canadianos – os outros americanos acham-nos estranhos.
 
Essa questão identitária é um problema global. A questão hoje é a de tentar perceber de que modo vão sobreviver as diferentes culturas no mundo globalizado.
Sim, concordo, mas que cultura estamos entretanto a construir? Que mundo vai ser o dos nossos filhos e netos? Se a adversidade forma o carácter, que pessoas vão ser? Se as novas gerações não tiverem nada contra o que lutar, se não tiverem desafios, como poderão ter iniciativa? Como poderão ser capazes de improvisar? Conhecerão algum dia a satisfação de se verem capazes de se ultrapassarem e se surpreenderem a si mesmos? A geração de António cresceu a duvidar de tudo: do navio, do tempo, do mar, dos outros homens, a dureza da vida levava-os a duvidar sistematicamente de tudo, e daí os pescadores com quem me encontrei no outro dia duvidarem das minhas fotografias. António disse- me que pensa que há da parte deles uma espécie de cepticismo fundamental em relação a tudo.
 
Julgo que se trata de uma outra expressão para o medo, que no caso dos portugueses resulta também da nossa longa ditadura.
Talvez... Muita gente me fala da ditadura, os mais velhos sobretudo. Mas o vosso país surpreendeu-me, pensei que fosse mais rural, menos desenvolvido. Em 12 dias descobri por exemplo que vocês têm um sistema de telecomunicações muito mais sofisticado do que a nosso. Achei incrível poder comprar um telemóvel tão bom por tão pouco dinheiro. A rede de comboios também me surpreendeu, e a vossa nova arquitectura, um modernismo de que não estava à espera. Não  encontrei em Portugal o mundo que conhecia através da Frota Branca. Há uma coisa que achei estranha: não vejo sinais do mar na vossa cultura, como se o mar tivesse deixado de interessar-vos. E não estou a falar das praias, que vi apinhadas de gente.»
 
TIPOS PERFEITOS DA RAÇA
 
Nos Porões da Memória é a exposição (a terceira de uma série dedicada à memória da Faina Maior) que o Museu Marítimo de Ílhavo (MMI) acolhe até 30 de Novembro próximo. Inaugurada por ocasião do 72.º aniversário do MMI no passado dia 8 de Agosto, a mostra reúne um texto e um conjunto de 12 fotografias tiradas na Primavera de 1966 no porto de St. John’s da Terra Nova. Fotografias analógicas, a preto e branco, constituem belíssimas evocações de um tempo pretérito, porém bem vivo na memória de todos quantos andaram ao bacalhau nos bancos da Terra Nova – lugar distante e inóspito para onde o Estado Novo enviou os rapazes e homens de Portugal entre 1936 e 1974. São milhares os portugueses que passaram, ano após ano, pelo porto da capital de Newfoundland, ali deixando marcas que estas imagens revelam inesquecíveis, também para os naturais, para quem os portugueses eram, de entre todos os pescadores avistados no porto e pelas ruas de St. John’s, os mais amistosos, bravos e bonitos. «Tipos perfeitos da raça», chamou-lhes Bernardo Santareno, médico a bordo do mítico (e mitificado) Gil Eannes, o navio-hospital de apoio à Frota Branca.
 
in (transcrição) Notícias Magazine nr.903 – 13 de Setembro, 2009.
texto – Sarah Adamopoulos - Notícias Magazine.
 
foto 1 – por Rui Coutinho – Wayne Ralph em Lisboa - Notícias Magazine
foto 2 - lugre-motor “Dom Diniz”
foto 4 - por Wayne Ralph - pescador de Aveiro, 1966, St. John´s, Terranova
foto 5 - lugre-motor "Brites" - Direcção Geral de Turismo


publicado por cachinare às 08:09
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1 comentário:
De jaime pião a 1 de Outubro de 2009 às 11:43
Que maravilha ,fiquei maravilhado a ler toda esta escrita feita de entrevista com o Sr Ralph ,e recordar muitos dos momentos aqui descritos ,e a veracidade das coisas com que foram descritas ,me fizeram bem ao meu ego e lembrar com um pouco de orgulho que tive o Sr: Ralph em minha casa durante uma hora ,mas foi uma boa hora em que fiquei satisfeito com a sua visita estivemos a ver mutas das fotos que eu fui amealhando através do blogs do amigo António Fangueiro e da Doutora Ana Maria Lopes e outros blogs que muito me diz , e agora esta leitura desta maravilhosa entrevista me fez recordar emoções vividas durante as sete viagens que dei ao bacalhau ,e só imaginar o que seria entrevistar o Sr Ralph na T V e ao vivo e os antigos pescadores a ver e com interprete eu acho que seria uma grande vivencia para os antigos pescadores que ainda estão entre nós ,mas como isso não acontece só nos resta estes maravilhosos apanhados casualmente que muito nos diz e apreciamos eu pelo menos que tenho a mão este pequeno portátil ja me deu mutas emoções e vivencias e não só ,por isso Bem Haja ao Sr. Wayne Ralph e ao Blogs do amigo Fangueiro e sua escrita que não passo todos os dias de fazer uma visita e que tem sempre bons motivos para me prender um hora ou duas ,por isso obrigado amigo António Fangueiro pelo excelente Blogs e a todos os meus cumprimentos Jaime Pontes -Pião


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