Sexta-feira, 11 de Janeiro de 2008
Tarde Demais.
«No frio Dezembro de 1995 li um artigo da Laurinda Alves, na revista de O Independente, sobre o naufrágio de um barco de pesca artesanal no meio do rio Tejo.
Dois homens tinham perdido a vida. As circunstâncias em que se tinha dado o acidente pareceram-me, no mínimo, bizarras. As autoridades competentes, embora avisadas, não saíram imediatamente para o rio para os salvar, os poucos pescadores que resistiam às normas da CEE para os estuários, não ousaram ir para o mar com a tempestade que estava, a burocracia para fazer sair um helicóptero da base aérea do Montijo, indiscritível. Isto tudo a dois passos de Lisboa.
Estava feito o quadro geral da tragédia. O rio continua poluído, a maior parte da frota das canoas pesqueiras foi queimada, a pesca artesanal está em extinção, a nossa própria cultura está a ser mais uma vez devastada.
Peguei na minha câmara de vídeo e comecei por fazer um levantamento pormenorizado da sequência dos acontecimentos, recolhi os testemunhos dos sobreviventes, sinto o desepero da espera e a dor das famílias. Envolvi-me definitivamente com os futuros personagens do filme quando soube que um dos pescadores era pai de uma amiga minha.
A dramaturgia estava desde o início traçada. Qualquer aproximação ao tema era, só por si, estimulante. O filme já tinha começado a acontecer sem que eu tivesse dado por isso
por José Nascimento (realizador), Janeiro de 2000.
 
Este texto publicado no site da Madragoa Filmes (no qual podem ler a sinopse do filme), revela a razão pela qual o realizador José Nascimento decidiu fazer este filme de nome “Tarde Demais”. O filme esteve presente no Festival Fantasporto em 2001 ganhando o prémio para Melhor Filme Português do Ano. Ora sendo o Fantasporto baseado em peças de cinema que normalmente “causam arrepios”, a história destes 4 pescadores numa situação de morte previsível, no meio de um ambiente frio, escuro e húmido encaixa-lhe perfeitamente.
Tal como o realizador diz, a tragédia foi verídica em 1995, mesmo nas barbas da Capital... tal como foi verídico o naufrágio do “Luz do Sameiro”, de Vila do Conde, a 50 metros da praia morrendo 6 pescadores e salvando-se 1. O caso do “Luz do Sameiro” foi falado em tudo o que era sítio, desde o Parlamento, partidos políticos, jornais e televisões, por parecer que algo não fazia sentido em naufragar a 50 metros da praia e os mecanismos de salvamento pouco fazerem.
O que passou, passou. De novo morrem pescadores, de novo das Caxinas, mas pouco interessa de que terra são. São é das suas famílias que têm de continuar a viver e aceitar a agonia de quem lhes era querido e viu terrivelmente a morte a chegar, fria e húmida.
Gostaria que se fizessem filmes de outro calibre em Portugal, com menos arte e mais realidade e nem sempre é preciso mundos e fundos para que se façam, basta inteligência e vontade. Recordo que quando se fez o mítico “Ala-Arriba” de Leitão de Barros, a maioria dos actores eram a própria comunidade piscatória da Póvoa de Varzim. Não faltam hoje em dia gentes que terão todo o gosto e orgulho em que alguém os filme na sua labuta, que os metam em ecrans de televisão ou cinema.
Um bom exemplo disso, é o filme de 1998 “A Companha do João da Murtosa”, de Paulo Nuno Lopes e Helena Lopes. Relativo a ele e de extrema importância é a situação de quem trabalha artesanalmente, com pequenos barcos tradicionais. A Europa paga para que sejam queimados, mas o gosto pelo mar há-de sempre persistir e se não for em trabalho, será em diversão que os homens e mulheres do litoral manterão os seus barcos, tal como já se faz muito na Galiza, havendo bons níveis disso no Tejo e vendo-se um lento renascer nalguns pontos da costa.
Haverá tempo para escrever muito sobre isso.


publicado por cachinare às 12:42
link do post | comentar | favorito

mais sobre mim
subscrever feeds
últ. comentários
Esta bela foto retrata bem o que eram os tempos an...
Mais de um ano depois, volto aqui (ao blog), e li ...
é de facto interessante, mas .... o que caracteriz...
Conforme já referi algures, no próximo Sábado, 23 ...
Na verdade, típico é os nossos vizinhos da Póvoa ...
Belo quadro pintado ,dois botes um a vela e outro ...
Outros tempos ,diria mesmo meus tempos de rapaz ,o...
Pois ,nesse estado bem bebido até a sua sombra ele...
Ver está foto, salta-me muitas saudades de ouvir m...
Pescador da Nazaré ,homem do antigamente ,com traj...

culturmar

tags

a nova fanequeira de vila chã

ala-arriba

alan villiers

apresentação

aquele portugal

argus

arte marítima

bacalhoeiros canadianos-americanos

bacalhoeiros estrangeiros

bacalhoeiros portugueses

barcos tradicionais

caxinas

cultura costeira

diversos

fotos soltas

galiza

jornal mare - matosinhos

memórias

modelismo naval

multimédia

museus do mar

pesca portuguesa

póvoa de varzim

relatos da lancha poveira "fé em deus"

santa maria manuela

veleiros

vila do conde

todas as tags

Vídeos
links
arquivos