Quarta-feira, 7 de Outubro de 2009
O projecto DORNA.

«As muletas podem voltar ao Tejo. Hoje desaparecidas, foram as principais embarcações utilizadas até ao início do século XX na pesca do arrasto efectuada ao largo da costa da Caparica. Tal como as muletas, há outros tipos de barcos tradicionais portugueses que poderão ter uma segunda vida, ao abrigo do Projecto Dorna, promovido pela Associação das Indústrias Marítimas (AIM). Este projecto está a desenvolver a marca BATE - Barco Atlântico Tradicional Europeu, que certificará a qualidade da sua construção, desde o tipo de madeira utilizada, até à técnica utilizada no seu fabrico, que seguirá os melhores padrões da carpintaria naval.

Filipe Duarte, director técnico da AIM, refere que o projecto Dorna está bastante avançado, sendo liderado pela Diputación Provincial de A Coruña. Além da portuguesa AIM, o DORNA integra ainda o Colégio Oficial de Arquitectos de Galicia, a Agencia de Desarollo Comarcal OARSOALDEA, o Causeway Coast Maritime Heritage Group e a GALGAEL - ambas instituições do Reino Unido -, e a Conselleria de Pesca espanhola.
O objectivo deste projecto é recuperar a construção naval tradicional, que está a desaparecer em toda a Europa, conservando um património histórico cuja manutenção só é viável se a indústria naval tradicional for modernizada de forma inteligente. Este objectivo só é concretizado se forem cruzadas diversas valências, entre as quais a formação profissional, o desporto, o turismo e a actividade comercial, além da perspectiva didáctica e cultural.
Para o efeito, a AIM refere que estão a ser efectuados planos directores de recuperação das infra-estruturas dos estaleiros tradicionais portugueses e de levantamento das embarcações tradicionais do espaço atlântico. Outro vector fundamental deste projecto é a criação de uma plataforma de comércio electrónico que facilitará o acesso dos estaleiros tradicionais aos mercados que têm apetência pelas embarcações de madeira típicas.
Já foram identificados os principais estaleiros que podem ser incluídos no projecto DORNA, entre os quais a Socrenaval, de Vila Nova de Gaia, onde se continuam a construir barcos rabelos. Tal como os moliceiros construídos na zona de Ílhavo, perto de Aveiro. "Aliás, o próprio presidente da Câmara Municipal de Ílhavo, Ribau Esteves, tem sido um estusiasta deste projecto", refere Filipe Duarte, comentando que "esta zona, da área de influência da ria de Aveiro, beneficia da experiência do museu marítimo local".
Mas haverá muitos outros estaleiros navais tradicionais susceptíveis de serem integrados neste projecto, tais como o Réplica Fiel, no Seixal, embora a iniciativa dos accionistas e donos dos estaleiros seja determinante, porque serão eles que terão de candidatar as suas unidades ao processo de modernização que posteriomente as transformará em Museus Vivos.
Finalmente, haverá uma componente turística, fundamental neste projecto, porque contribuirá para a sua rentabilização. Na realidade, estas embarcações são emblemáticas e servem de ex-libris regionais. A ideia é integrar os barcos típicos portugueses nos pacotes turísticos promovidos pelas agências de viagens, de forma a disponibilizar viagens costeiras com uma componente cultural regional. "Mas o projecto Dorna não se fica por aqui, porque foram previstas muitas outras iniciativas, como seminários, eventos transnacionais, exposições e workshops", adianta Filipe Duarte.»
 
in jornal EXPRESSO – 28/04/2009 – J.F. Palma-Ferreira.
 
Embora pareça que esta maravilhosa ideia de reconstruír barcos tradicionais “construtivamente” tenha agora “caído do céu”, já alguns países e regiões o fazem com grande sucesso desde há vários anos, por iniciativa das próprias comunidades. Em Portugal infelizmente, a iniciativa própria custa sempre muito a desenvolver-se e quando surge, os obstáculos legislativos e financeiros não permitem o avanço. Mesmo quando organizações estrangeiras “injectam” o seu interesse no nosso património a ver se lhe pegamos... nem assim muitas vezes a coisa vai.
Veremos então se vai ser desta, que o património de cultura costeira portuguesa vai começar a renascer, sim, “começar” porque o projecto é a nível nacional e estas coisas levam pelo menos um par de décadas a arranjar interessados, a instalar-se e a multiplicar-se. Acima de tudo, o que mais custa é criar a organização.
Ainda assim, pergunto: e se eu quiser abandonar o escritório e pôr mãos-à-obra a construir barcos tradicionais da minha terra? De quem e que tipos de apoios poderei ter?
Ao saber agora do arranque deste projecto DORNA, ainda mais acredito que as visões que tenho da cultura costeira (como muitos as têm), em especial na minha terra, se podem tornar realidade a tempo dos “velhos” homens do mar ainda as (re)verem. Verem catraias de novo a ser construídas à moda antiga junto à praia na Favita, em simples barracões, as velas a serem cortadas e cosidas, o cheiro do breu a ferver e acima de tudo, ver depois os barcos “vivos”, usados pelos seus filhos e netos em regatas organizadas, e todo o rol de eventos que a DORNA refrere e não são novidade. A praia das Caxinas voltava ao seu “novo” passado, o areal teria de novo barcos e barracões de aprestos, praticava-se e ensinava-se vela tradicional, até se voltava a ir à pesca “para turista ver”. Enfim... as visões são muitas, mas por vezes só quando uma organização ou “senhor estrangeiro” nos vem mostrar o valor disto (como aconteceu na Galiza há 30 anos, com o sueco Staffan Morling), é que lhe daremos razão.
Houve um tempo, em que os Portugueses foram pioneiros nos assuntos do Mar. Punham-se à proa do navio, e não à popa.
Agradeço ao amigo Albino Gomes o comentário de há dias sobre o excelente trabalho de campo  que tem vindo a ser feito. Presumo que se refere a este projecto DORNA. Acreditemos que este projecto de uma vez por todas vai impulsionar e dinamizar a nossa cultura costeira e que vai apoiar quem realmente quer trabalhar em prol dela.
 
foto 1 – Construção de um bote polbeiro em Bueu, Galiza.
foto 2 – Catraias nas Caxinas – in Octávio Lixa Filgueiras – “O Barco Poveiro”.


publicado por cachinare às 18:38
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5 comentários:
De barcoantigo a 7 de Outubro de 2009 às 22:55
O meu amigo acredita que em Portugal se faça algo:.. Pois eu só vendo...
Sobre a primeira foto do bote polveiro construido no estaleiro do Purro em Bueu, para que saiba os politicos dão o dito por não dito e o estaleiro está de novo ameaçado...
abraços desde Viana


De jaime pião a 8 de Outubro de 2009 às 11:04
Bom dia a todos ,ainda falando de barcos de pesca local e costeira de antigamente !
Aqui nas Caxinas se calhar pouco é possível ,porque a nossa praia já é só para banhistas e pouco mais !
A praia que eu conheci de Caxinas não existe nem de longe nem de perto ,só ficou o farol do aguilhão e os penedos de fora ,porque os de terra estão debaixo de areia ,tem seguramente 4 metros de areia mais do que antigamente ,assim ao contrario virou praia de banhos ,para uns se calhar a maioria está bem para os mais velhos ,dizem que saudades da nossa praia antiga ,assim os mais velhos são considerados cotas e do passado !
Resumindo não ficou nada para recordar do antigamente só velhas fotografias !!!
cumprimentos Jaime Pontes Pião


De caxineiro atento a 9 de Outubro de 2009 às 14:10
Mesmo o farol está ameaçado, temos que fazer algo pelas nossas memórias caxineiras. Vejam o programa do Bloco de esquerda para as autárquicas...


De etelvina a 14 de Outubro de 2009 às 21:43
António, parabéns pelo blog.
Acompanho o seu blog há cerca de um ano.
Estou a investigar na área das embarcações tradicionais da ria de Aveiro, no âmbito de uma dissertação de mestrado em design, na Universidade de Aveiro.
Tenho igualmente seguido o blog da Drª Ana Maria Lopes, maritimidades ",e hoje li um comentário seu acerca de uma embarcação da ria. Reparei que se interessa pela forma das embarcações, precisamente o objectivo do meu trabalho. EMBARCAÇÕES TRADICIONAIS DA RIA DE AVEIRO: ANALISE FORMAL -O DESENHO E O PROCESSO CONSTRUTIVO.
http:/ etelvina.wordpress.com /

Li este tag sobre o projecto DORNA ", com muito interesse. Parece que já existe sensibilização para o problema da construção naval tradicional e a crise que atravessa.
Acompanho com todo o interesse todos os tags que abordam o tema das embarcações tradicionais fluviais e lagunares. Caso me possa fornecer alguma informação a respeito, tanto em bibliografia, links , etc. agradeço.
Bem haja pelo trabalho que tem efectuado nesta área.
Cumprimentos,
Etelvina Almeida


De Anónimo a 27 de Outubro de 2009 às 18:18
É impressionante a dedicação e o interesse que o António tem por estes assuntos. Gostava de poder ter outra disponibilidade para vir apreciar o que escreve, recolhe e partilha no blog. De qualquer modo, sempre que venho aqui, fico deliciado com o que leio e observo.
Nesta questão em particular, considero que o Fangueiro tem toda a razão, e, mais do que isso, tem toda a legitimidade para se dirigir a quem de direito e propor as suas ideias.
Tenho imensa pena que a situação não mude muito de figura. No entanto, sinto que já somos cada vez mais pessoas a pensar que afinal "aqueles bileiros " da política não gostam assim tanto de nós... Mas enriquecem às nossas custas!!!
Penso sentir a minha terra tão intensamente como quem lá vive ou, em alguns casos, até mais! Por essa razão, estou pronto a dar o meu contributo naquilo que puder, discutindo ideias e apoiando quem realmente merece.

Um abraço!

Rui Maciel



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