Sexta-feira, 30 de Outubro de 2009
O bacalhau da discórdia.
Durante quatro séculos, os marinheiros da Bretanha, no noroeste da França, andaram à pesca do bacalhau no Atlântico Norte. Foi uma actividade remunerada e certa, mas que atravessou periodos difíceis e conheceu bem os seus riscos e dramas.
Por mais bizarro que possa parecer, a práctica religiosa está estreitamente ligada à história Bretã da pesca ao bacalhau, pelo menos nos seus inícios, sendo que naquela altura não se gracejava com a abstinência alimentar imposta em certos dias pelos mandamentos da Igreja. Durante um ano, os dias a cumprir o jejum nunca eram menos de 150. Pode-se dizer que esta regra, proibindo o consumo de carne, causava na práctica, sérios problemas de nutrição na população, principalmente no interior do país, onde a presença de peixe do mar à mesa era rara. Assim, seriam os pescadores do Norte da Bretanha a darem início à satisfação das necessidades do mercado, quando descobriram a existência de Bancos de bacalhau nas regiões da Terra Nova entre a Islândia e o Canadá, aprendendo lá os métodos de conservação do peixe utilizados.
A pesca do bacalhau na Terra Nova trazia deste modo a felicidade às populações da Bretanha, para desgraça da água de salmoura que enchia os pequenos cursos de água e empestava o ar. Como tal, foi inevitável o choque entre os autóctones Canadianos e os nativos do Labrador que practicavam a caça ao lobo marinho nestes mesmos sectores. As querelas com os pescadores de Saint-Malo, Paimpol e Saint Brieuc tornavam-se por vezes em afrontas sangrentas. Chegou ao ponto de em 1610, os bacalhoeiros de Saint-Malo solicitarem a assistência de dois navios de guerra para assegurar a sua protecção e neste contexto o conflito armado que existia entre a França e a Inglaterra precisamente pela Terra Nova, reivindicando cada um deles a posse desta ilha. Nestes termos o armamento de navios bacalhoeiros Bretões continuou a desenvolver-se, quer para a costa do Canadá, quer para a vizinha Islândia. Um recenseamento de 1664 indicava que só em Saint-Malo 61 navios haviam sido equipados para a pesca do bacalhau.
Os outros portos “Islandeses” do Norte da Bretanha não lhe ficariam atrás. Paimpol, pela sua parte, possuia em finais do séc. XIX perto de uma centena de navios e o armamento proseguia sobre a Mancha. Contraditórias haviam sido as previsões do explorador de Saint-Malo Jacques Cartier, que em 1550 declarava que jamais veria na Bretanha navios de pesca de duzentas toneladas. Um século mais tarde Saint-Malo possuía sete navios da Terra Nova que ultrapassavam essa tonelagem e pouco antes da Revolução, a média dos navios bacalhoeiros andava nas 190 toneladas. No entanto, a segurança das tripulações não havia melhorado. Na Terra Nova, o navio largava a âncora nos profundos e os homens repartiam-se em grupos de 4 nos dóris que partiam à procura de bancos de peixe. Sobre mar vivo, o perigo era quase permanente, tanto para os pescadores agarrados às suas linhas como para o próprio veleiro. Durante os 83 anos da aventura dos homens de Paimpol na Islândia, 120 escunas jamais regressariam ao seu porto de abrigo e fariam cerca de 2.000 vítimas.
O recrutamento de marinheiros fazia-se aos seus 12, 13 anos. Pelo início do Inverno, os mestres de bacalhoeiros faziam a ronda aos albergues de campanha em busca de jovens camponeses desejosos de abandonar a terra na esperança de uma vida melhor. Para este fim, havia em Dezembro em Vieux-Bourg, próximo a Saint-Malo, uma feira anual onde, vindos de localidades vizinhas, se reuniam os candidatos ao embarque. Outros, reconhecidos pelo seu boné e camisas de lã, vinham por si sós tentar as suas chances pelas docas de Saint-Malo e Saint-Servan. O acordo era feito geralmente num bar próximo, selado com uma caneca de cidra ou um copo de licor e um pequeno avanço em géneros sobre o montante de peixe que seria apanhado. Muitas vezes, os contratos comportavam desvantagens que passavam despercebidas aos futuros marinheiros que não sabiam ler ou escrever. Em caso de naufrágio por exemplo, eram forçados a embarcar noutro navio sem compensação de salário.
Na gravura acima, pescadores de St. Pierre (no Sul da Terra Nova) aventuram-se com mau tempo a pescar nos ricos Bancos de bacalhau. É uma ilustração da autoria de Le Breton, publicada no livro “Voyage a Terre Neuve” em 1860.


publicado por cachinare às 08:20
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1 comentário:
De jaime pião a 31 de Outubro de 2009 às 15:22
Pois é olhando bem a foto ,mais parece um Navio em naufrágio e os escaleres salva-vidas fora do Navio já e ainda um outro a baixar !
Mas olhando bem ,se vê que são pescadores que estão a volta das bóias ,parece os espalques ou os lejos ou rocks !
Estão juntos os veleiros bacalhoeiros como no nosso tempo no rocks ,anteontem como ontem era igual os mesmos homens pescando rudemente os bacalhaus o tal fiel amigo que em alguns tempos se apregoava aqui em Portugal ,no tempo em que os pescadores bacalhoeiros tinham algum valor ,hoje passou a história esquecida ,e por isso costumo dizer que aqui em Vila do Conde se esquece depressa os valores ,e só alguns que não os pescadores são reconhecidos ,aliás os pescadores só são lembrados quando infelizmente acontecem desgraças no mar ,e mesmo assim fico com dúvidas se não é hipocrisia !
Meus comprimentos Jaime Pião ..


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