Terça-feira, 10 de Novembro de 2009
Uma nova Catraia está a nascer.

Já várias pessoas terão notado no que escrevo, que estou constantemente “a bater no ceguinho” no que respeita a barcos tradicionais, especialmente os do tipo poveiro, pois quase ninguém se interessa por reavivá-los, na rica tradição piscatória da qual fazem parte. Este reavivar significa primeiro que tudo construír de novo estes barcos, fomentar associativismo em torno deles, e usá-los em prol quer próprio, quer das comunidades que através deles ergueram casas, ruas e identidade nos areais de antigamente.

Ora há dias, o habitual comentador Albino Gomes revelou-me a melhor notícia desde que este blogue existe, no que respeita aos barcos do tipo poveiro, que tanto me fascinam: uma nova Catraia está a ser construída nos estaleiros Samuel & Filhos, em Vila do Conde.
Desde que a Lancha-do-Alto poveira “Fé em Deus” foi construída nos inícios dos anos 90, nada mais se fez por estes barcos na Póvoa de Varzim, cabendo o mérito em Vila do Conde à Associação dos Marinheiros da Armada com a recuperação da “Briosa” e “Baltasar”. Tudo o resto continua enterrado na memória de poveiros e caxineiros, que se lembram saudosamente dos seus antigos barcos, mas ninguém decide ir ao estaleiro encomendar um. Não será por certo por falta de dinheiro, pois carros topo de gama enchem as ruas das Caxinas desde há muitos anos. Acredito que a falta de informação será a maior causa, mas acima de tudo a falta de Exemplos. A lancha “Fé em Deus” passa a maior parte do ano “escondida” e é grande demais para convencer alguém a ter uma igual, actualmente.
Esta nova catraia pode finalmente ser o ponto de viragem, pois não chega a 6 metros de comprimento e com 3 ou 4 homens está a navegar. É muito importante que os poucos barcos de tipo poveiro que existem estivessem sempre bem visíveis em locais públicos, fosse um fim-de-semana aqui, outro ali, em ruas principais, em frente ao mar, etc. É preciso que as pessoas “tropeçem” neles, façam perguntas, e lhes seja explicado tudo sobre eles, de onde evoluíram, como são construídos, como navegavam, como armavam, etc. Só assim aumentará o interesse e futuras construções surgirão.
O comentário do Albino segue abaixo, pois não pode estar escondido por trás do artigo onde foi inserido, e que a foto acima começe a ganhar a côr que tanto merece, De uma vez por todas.
 
«Felizmente que hoje, a Associação dos Marinheiros da Armada, de Vila do Conde, da qual tive a honra de ser um dos principais fundadores, para além da catraia BRIOSA, tem neste momento em construção no Estaleiro do Samuel, uma nova Catraia com cerca de 5,80 m de comprimento. Registe-se que a partir da minha presidência naquela Associação Marinheira, em 2003, a BRIOSA, juntamente com a lancha poveira Fé em Deus, a catraia esposendense Stª Mª dos Anjos e a catraia vianesa Nª Srª da Agonia, têm participado em dezenas de Encontros de Embarcações Tradicionais em Portugal e Espanha. Anote-se ainda, que a Nª Srª da Agonia, propriedade da Associação de Barcos do Norte, é uma embarcação típica da nossa Vila Chã e recentemente descobrimos que foi construída por Benjamin Moreira, hoje Presidente da Junta da Freguesia. Portanto, embora isto esteja muito mal, de quando em vez lá vai havendo algumas excepções, por banda de uns tantos que teimam em remar contra a maré... . Al bino Gomes.»
 
Seria do maior interesse que se divulgassem os passos da construção da catraia, pelo menos com algumas fotos. Tão interessante como ver um barco na água, é vê-lo no estaleiro, a ganhar forma.
 
Imagem – filme “Ala-Arriba” – José Leitão de Barros, 1942.


publicado por cachinare às 08:13
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5 comentários:
De jaime pião a 10 de Novembro de 2009 às 21:36
Boas noites meus amigos .
Esta noticia aqui divulgada pelo amigo Albino que se está construindo uma catraia nos estaleiros do Samuel E Filhos é para já a melhor das noticias que tenho ouvido como das melhores das muitas aqui divulgadas e para mim muita apreciada como não podia deixar de ser ! Mais uma vez ,fico com a sensação que as nossas autarquias não se interessam por esses eventos ,mais, ainda não temos ninguém para fazer lembrar que Caxinas foi noutros tempos o expoente maximo de catraias piladeiras, barcos sardinheiros e fanequeiros e caicos do trol do congro palangre do badejo e robalo .
Um Bem-Haja ao António Fangueiro e Albino que estão sempre em cima do acontecimento ,diria mesmo ainda bem porque Caxinas e Poça da Barca ,nunca têm noticias de nada, quando as coisas acontecem as noticias só cá chegam passadas semanas, assim ainda bem que temos o melhor blogs dos pescadores em questão que nos faz lembrar que existe alguém que não se cala e que pela verdade vai descrevendo o muito que não temos que é a divulgação ,mais uma vês o meu obrigado amigos pelo desenvolvimento deste grandioso blogs e seu autor !!!
cumprimentos Jaime Pião ...


De forademim a 10 de Novembro de 2009 às 23:16
Carissimo , chamar embarcação tradicional a um barco tipo baltazar , é ser muito prá frentex ", se aquilo é barco tradicional, depois queixamo-nos que não existem barcos tradicionais...Adiante. Correção , a catraia pequena, ou melhor a fanequeira de Vila Chã de nome Nossa Sra da Agonia é propriedade do Clube de vela de Viana do Castelo, o seu a seu dono
Ainda bem que resolveram contruir uma catraia, é que a briosa é un caique , usado antigamete por um banheiro e tinha o nome de Luis , se precisar de algumas fotos tenho em arquivo...
saudações nauticas.


De cachinare a 11 de Novembro de 2009 às 10:54
Caro "forademim",
Seria excelente se me disponibilizasse fotos da "Briosa", pois quase não tenho informação para escrever sobre ela.
Realmente a discussão em torno do que é "um barco tradicional" é complexa. Mesmo a "Baltasar", que foi adulterada, é importante que exista e seja mantida, pois para mim, barco tradicional é sinónimo de barco antigo e a "Baltasar" ilustrará outros aspectos da vida marítima passada. Será um barco de transição, que convém explicar a quem pergunta porquê que foi "cortado". Na verdade sei muito pouco sobre a "Baltasar" ou a "Briosa", a informação sobre eles é quase nula e descubro agora por si o termo "caique", que associava só a barcos algarvios. "Caíco" é o comum termo que conhecemos. As suas fotos poder-me-ao ajudar a descobrir as diferenças e características.

O melhor deste blog, são os comentadores que complementam muitas vezes os artigos que escrevo. Relembro que vivo na Polónia e não tenho o contacto que desejaria com estes barcos e pessoas a eles ligados. Por isso é muito importante que me corrijam com os Vossos comentários. Só assim todos aprendemos e ganhamos e na verdade, este blog existe por Vossa causa.

Cumprimentos,
A.Fangueiro


De Anónimo a 11 de Novembro de 2009 às 12:51
Tá a ficar interessante, esta académica discussão.
Não entrarei nela, porque sendo o "pai" da BRIOSA, sou suspeito...
No entanto, posso adiantar que além de caíque, já lhe
camaram bote, etc.
Portanto, isto é tudo uma questão de alcunhas, que mais ou menos todos nós temos. Sobretudo aqueles que, de algum modo, estão ligados ao mar salgado.
À Briosa, até já lhe chamaram badalhoca.
Portanto...

Al bino Gomes


De Jose Alberto Maciel a 3 de Abril de 2010 às 23:18
Olá malta sou Caxineiro Vilacondense e é com tristeza que vejo a tradição antiga desaparecer, não há futuro sem uma geração que consiga perservar essas mesmas tradições, somos um povo ( Caxineiro, Vilacondense, Português) que estamos a perder essa identidade, atiramos e deixamos atirar esses simbolos abaixo, quando deviam ser perservados, caso das Caxinas; do salva-vidas, posto da guarda fiscal, a casa dos pescadores, onde poderia funcionar um museu do mar, meus amigos povo sem tradição é povo sem futuro, vamos lá todos juntos, unidos sem guerra dar as mãos .


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