Quarta-feira, 16 de Janeiro de 2008
“Belle Poule”, “Étoile” e a pesca do bacalhau na Islândia.
A pesca do bacalhau na Terra Nova por parte dos Franceses, começa a partir do séc. XVII a sair de grandes portos da Mancha, Bretanha. Devido ao sucesso e ao sustento que proporcionava esta pesca, numerosos outros portos de menor importância fizeram-se a esta aventura. Mas no séc. XIX, enquanto que portos como os de Saint-Malo, Saint-Servan ou Cancale mantiveram-se fiés aos Bancos da Terra Nova até ao fim, outros abandonaram-nos pouco a pouco para passarem a practicar um tipo diferente de pesca ao bacalhau... na Islândia.
Diferentes armadores que baseavam as suas frotas na Terra Nova, começam a partir de meados do séc. XIX a tentar a pesca na Islândia com uma ou duas escunas. Os resultados são bons e passam a construír pequenas frotas até 20 escunas específicas para aquelas paragens.
É sobretudo o porto de Paimpol, no Norte da Bretanha, que arma maior número destas escunas conhecidas como “Islandesas”, numa média de 80 e acima das 100 toneladas. Esta ascenção que substituia um longo passado na Terra Nova teve início em 1852, fazendo de Paimpol o porto “islandês” por excelência da Costa Norte. Uma parte muito importante das actividades da vila organizava-se em volta da construção naval, o seu armamento, equipagem de pesca, etc. e o seu declínio só se dá por inícios da I Guerra Mundial em 1914.
Só o departamento das Costas do Norte tinha na Bretanha a exclusividade do armamento para a Islândia, o qual era equilibrado por outros portos como os de Fécamp, Calais, Gravelines e sobretudo Dunquerque que também teve forte tradição nas escunas da Islândia.
As condições deste tipo de pesca errante como a que se practica na Islândia são em efeito muito diferentes das da Terra Nova. Para começar, a campanha é mais curta e sendo a Islândia mais próxima, já não é necessário armar navios de maior tonelagem. Por outro lado, no mar da Islândia convém ter um navio ligeiro que se imponha à superfície e se deixe levar pelo vento mesmo com vela reduzida e uma boa carga. Sendo as paragens da ilha onde se practicava a pesca, particularmente atrozes, estas urgiam por navios robustos e muitos marinheiros, capazes de fazer frente a um mar difícil, quase sempre agitado e capaz de se elevar à força do vento naquelas costas inóspitas. Todos estes factores deram origem à célebre “escuna islandesa”.
Em 1930, a Escola Naval Francesa perde o seu último navio-escola e surge a necessidade de um novo navio que desde o início foi acordado, seria um veleiro, pois são estes navios os que melhor preparam futuros marinheiros. Com várias condições como a manobrabilidade, capacidade para vários instruendos e que não fosse muito grande, levam a Escola Naval a optar pela construção de duas escunas do tipo “islandesa”, ideais para a função e com provas dadas. Em 1931, no estaleiro naval de Fécamp na Normandia, o qual tinha grande tradição na construção destas escunas de pesca, inicia-se a construção da “Belle Poule” e da “Étoile”. Sendo navios de instrução, são-lhes dadas certas linhas mais elegantes e condições para o efeito. Ao fim de 6 meses estavam prontas e foram lançadas à água a 8 de Fevereiro de 1932.
Em Junho de 1940 a “Belle Poule” e a “Étoile” juntam-se às Forças Navais Livres Francesas na Inglaterra. Em Novembro desse ano, a chegar a Portsmouth, as duas escunas são bombardeadas pela aviação Nazi, com a sorte de não terem sido atingidas. Em Janeiro de 1941, duas bombas incendiárias que visavam o couraçado “Courbet” caem sobre a ponte da “Belle Poule”. Se bem que gravemente lesada, o seu comandante insiste em salvar o veleiro. Somente em Abril de 1944, passam a navegar alternadamente e são pintadas de cinza e um mês depois passam à reserva em West-Hartlepool na Escócia.
Em Setembro de 1945, regressam ao seu porto de abrigo em Brest num estado lastimoso. A “Étoile”, que havia passado o seu motor para a “Belle Poule”, recebe em 1947 um motor de camião... alemão. O mesmo sucede à “Belle Poule” e ambas entram num exaustivo plano de restauro. A partir de então, dão instrução a futuros marinheiros, manobrando sempre as duas juntas e sob o comando de um só capitão. Em 1975 sofreram novos trabalhos de renovação incluíndo um novo motor.
Estas duas escunas tiveram a “sorte” de nascer com as melhores qualidades das suas antepassadas de pesca, mas nunca andaram ao bacalhau ou na Islândia. 75 anos passados, a “Belle Poule” e a “Étoile” continuam a perpetuar as tradições da marinha à vela, recebendo a bordo jovens marinheiros que aprendem o sentido do mar durante campanhas com a mesma duração que os antigos pescadores faziam na Islândia. Ao mesmo tempo mantêm vivo este tipo de embarcação que marcou os portos da Bretanha. Tal como o Creoula, também costumam participar em regatas europeias.
Neste link para o blog milhasnauticas, podem ver as duas escunas a sair do Tejo na Regata Cutty Sark de 1998.
Que bonito seria ver alguém em Portugal a construir uma réplica de um lugre bacalhoeiro Português em madeira e usá-lo em instrução, turismo, escola flutuante... tantas possibilidades.


publicado por cachinare às 10:50
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