Quarta-feira, 30 de Dezembro de 2009
Pelas palavras de Raúl Brandão.

«Só tendo a morte quase certa é que o poveiro não vai ao mar. Aqui o homem é acima de tudo pescador. Depende do mar e vive do mar: cria-se no barco e entranha-se de salitre. Desde que se mete à terra, o poveiro modifica-se: perde em agilidade e equilíbrio, hesita, balouça-se, não sabe onde há-de pôr os pés.

Conheço esses homenzarrões broncos e espessos, de cara rapada ou suíças, barrete na cabeça e calça branca de lã, desde que me conheço. Iam dormir à Foz dentro das lanchas e todas as tardes o moço passava à minha porta com o barril de água à cabeça. Dormiam no rio cobertos com a vela, e primeiro que pregassem olho era um falatório que se ouvia em toda a vila. Minha mãe, quando as criadas falavam alto na cozinha, repreendia-as sempre nestes termos: - “Então isto aqui é alguma lancha de poveiros?”»
 
Raúl Brandão, 1921 – “Os Pescadores”.
 
Pela rara foto aqui mostrada, duma brochura turística da Póvoa de Varzim em 1962, que tive a sorte de encontrar num alfarrabista do Porto em Dezembro passado (2008), Raúl Brandão terá razão quando diz que o pescador poveiro não sabe onde há-de pôr os pés quando em terra. Realmente, mesmo quando não iam ao mar, os homens reuniam-se por entre as dezenas de barcos no areal e como inúmeras fotos antigas o comprovam, voltavam a sentar-se neles, dentro deles ou punham-se mesmo a dormir “arrestirados” (deitados) à proa. Quanto aos mais pequenos, então os barcos eram obrigatoriamente o lugar de poiso e brincadeiras. Fantásticas naves que um dia os levariam também ao mar, ansiosos pela estreia.
Por alturas desta foto, já não existiam os barcos de maior porte, as lanchas “pequenas” ou “grandes”, entre os seus 12 a 14 metros.
Os motores fora-de-borda eram já comuns nas ainda muitas catraias e batéis existentes, como se pode notar nos suportes adaptados nas popas dos barcos. Para isso tinham de cortar o capelo (topo) ao cadaste na popa.
Certamente que não só na Póvoa os pescadores andavam constantemente de volta dos seus barcos no areal, mas Raúl Brandão demarcou-o nos poveiros... .


publicado por cachinare às 11:17
link do post | comentar | favorito

1 comentário:
De Celestino a 31 de Dezembro de 2009 às 00:38
O primeiro parágrafo desta citação de Raúl Brandão inserta no livro "Os Pescadores" sugere-me a expressão de um velho pescador ancorense, então a pescar em Matosinhos. Era uma noite que ameaçava tempestade. Estávamos no inverno. Os outros tripulantes do barco onde andava, hesitavam em saír para o mar, já se fazia sentir o mar e o vento. Mas o velhote que só terminou os seus dias de pescador quando a doença o venceu, insistia que tinham de ir ao mar e disse: -"Temos que ir nem que morramos" , ao que os outros indignados lhe responderam: "-Então morra você" e desistiram de saír para o mar, prudentemente. Pouco tempo depois, abatia-se a tempestade que seria fatal se tivessem decidido saír para o mar. O homem chamava-se Manuel Malhão e tinha por alcunha " o Morraga". Era um pescador que só estva bem no mar e o barco era como se fosse a sua casa mais apetecida.
Meu caro Fangueiro, desejo-lhe um bom e feliz ano de 2010, bem como à sua família.
Um abraço,

Celestino Ribeiro


Comentar post

mais sobre mim
subscrever feeds
últ. comentários
Pois ,nesse estado bem bebido até a sua sombra ele...
Ver está foto, salta-me muitas saudades de ouvir m...
Pescador da Nazaré ,homem do antigamente ,com traj...
Uma das formidáveis pinturas de Almada Negreiros, ...
sou de Nazare gostava de saber o meu estorial de 1...
....................COMEMORAÇÕES DO DIA DA MARINHA...
Esta réplica do Vila do Conde, participou em vário...
Pois é exactamente tal como acima se diz.Depois de...
Boa tarde , com respeito a foto aqui presente eu j...
Salvo melhor opinião, julgo que esta imagem do gra...

culturmar

tags

a nova fanequeira de vila chã

ala-arriba

alan villiers

apresentação

aquele portugal

argus

arte marítima

bacalhoeiros canadianos-americanos

bacalhoeiros estrangeiros

bacalhoeiros portugueses

barcos tradicionais

caxinas

cultura costeira

diversos

fotos soltas

galiza

jornal mare - matosinhos

memórias

modelismo naval

multimédia

museus do mar

pesca portuguesa

póvoa de varzim

relatos da lancha poveira "fé em deus"

santa maria manuela

veleiros

vila do conde

todas as tags

Vídeos
links
arquivos