Quinta-feira, 17 de Janeiro de 2008
Alan Villiers.
Alan John Villiers nasceu a 23.09.1903 em Melbourne na Austrália. Era o segundo filho do poeta e líder sindicalista Australiano Leon Joseph Villiers. O jovem Villiers cresceu nas docas do porto de Melbourne a ver navios mercantes entrar e sair e sempre sonhou um dia embarcar num deles.
Deixando a sua casa com 15 anos de idade, alistou-se como aprendiz na barca “Rothesay Bay”. Este navio operava no Mar da Tasmânia em rotas entre a Austrália e a Nova Zelândia. Villiers era um marinheiro nato e depressa aprendeu e ganhou o respeito dos seus camaradas. Um acidente a bordo da barca “Lawhill” fê-lo permanecer em terra em 1922, quando já era um marinheiro formado, razão pela qual procurou e conseguiu trabalho como jornalista no “Hobart Mercury” de Hobart, na Tasmânia, enquanto recuperava dos ferimentos.
O chamamento do mar era forte e rapidamente regressou ao mar quando o navio-fábrica baleeiro “Sir James Clark Ross” com cinco perseguidores de baleias à sirga pedia por homens em finais de 1923. A sua história da viagem seria mais tarde publicada como “Whaling in the Frozen South”. Este navio era na altura o maior do mundo na caça à baleia, caçando principalmente no Mar de Ross, um dos últimos bastiões de baleias da época.
Em 1927, Villiers ganha passagem a bordo do “Herzogin Cecile”, o que resultaria na obra “Falmouth for Orders” e o poria em contacto com a família Cloux, que mais tarde seriam seus sócios na compra da barca “Parma”. As experiências a bordo do “Grace Harwar” em 1929, onde dobrou o Cabo Horn, dariam origem ao livro “By Way of Cape Horn”. A barca de três mastros “Grace Harwar” era um belo navio, contudo, já com 40 anos de serviço, apresentava riscos vários, com o casco carregado de algas e cracas. “Cascos sujos fazem os navios lentos e navios lentos tornam duras as passagens”, escrevia ele, mas Villiers sempre mostrou um grande desejo que o acompanharia durante toda a vida, de documentar os grandes últimos veleiros antes que fosse tarde demais e o “Grace Harwar” era um dos últimos navios totalmente à vela. Com uma pequena e mal paga tripulação e sem necessidade de carvão, estes navios eram menos dispendiosos que os navios a vapor e uns 20 ainda andavam no comércio. A azarada viagem levou 138 dias e o “Grace Harwar” foi o último da frota, mas as experiências a bordo produziram 1.850 metros de filme.
Villiers reencontrou-se com a família Cloux em 1931 tornando-se seu sócio na aquisição da barca de quatro mastros “Parma” que continuava no transporte de cereal. Como capitão do navio, provou ser um excelente comandante ganhando a corrida entre navios do mesmo transporte e gastando 103 dias, enfrentando um temporal nessa viagem de 1932. Em 1933 fê-lo em 83 dias. Vendendo as suas acções à família Cloux, Villiers decidiu adquirir o “Georg Stage” em 1934. Originalmente construído em 1882 em Copenhaga, Dinamarca, este veleiro tinha por função a instrução de marinheiros. Salvando-o do desmantelamento, deu-lhe o novo nome de “Joseph Conrad”, marinheiro e escritor Polaco de afamadas histórias de mar. Como pioneiro no treino de mar, Villiers circum-navegou o globo com uma tripulação amadora, usando unicamente o ambiente de mar para criar carácter e disciplina entre a jovem tripulação na moderna máxima de que o treino em navios à vela não serve para ensinar a juventude para uma vida de mar mas sim, para usar o mar como instrução da juventude para a vida.
Regressando quase dois anos mais tarde, Villiers vendeu o “Joseph Conrad” e publicou dois livros sobre as aventuras a bordo: “Cruise on the Conrad” e “Stormalong”. Este navio é hoje pertença do museu marítimo Mystic Seaport no Connecticut, E.U.A funcionando como navio-museu.
Com o início da II Guerra, Villiers foi comissionado como Tenente em 1940 na Royal Naval Reserve e serviu na Operação Dynamo em Dunquerque na Bretanha enquanto a aviação alemã carregava nas tropas e os navios as evacuavam através do Canal da Mancha. Participou noutras campanhas de guerra no Dia-D, na Batalha da Normandia, na Invasão da Sicília, na Campanha de Burma e no Pacífico. No fim da guerra, é promovido a Comandante e galardoado com a Cruz Britânica de Serviço de Distinção, bem como Comandante da Ordem Portuguesa de Santiago D´Espada pela sua galante conduta.
Casado em 1940 pela segunda vez, Villiers fixou-se em Oxford, Inglaterra continuando a sua actividade no mar e na escrita. Foi capitão no “Mayflower” em 1957 aquando da travessia do Atlântico depois do original o ter feito 337 anos antes e batendo o seu tempo em 13 dias. Esteve envolvido com quase todos os últimos veleiros históricos existentes na altura, como o “Balclutha”, “Falls of Clyde”, o bacalhoeiro Português “Gazela Primeiro” bem como o navio-escola “Sagres II”. Foi conselheiro no filme de 1962 “Revolta na Bounty” e contribuíu regularmente nos anos 50 e 60 para a revista National Geographic.
Serviu como Presidente da Sociedade de Investigação Náutica do Museu Marítimo Nacional Inglês em Greenwich, Londres e foi Governador da Sociedade de Preservação da “Cutty Sark” antes da sua morte a 3 de Março de 1982.
Relativamente à sua ligação com Portugal, Alan Villiers é convidado por Pedro Teotónio Pereira, embaixador português em Washington em 1950, a documentar a pesca do bacalhau num lugre Português, o “Argus”, na Terra Nova e Gronelândia. Essa campanha de 6 meses foi uma das mais marcantes da sua vida, pois presenciou aspectos de mar e pescadores que nunca imaginara ou vira em veleiros mercantes. Dessa experiência surgiu o livro “A Campanha do Argus”, um filme (que pode ser adquirido no Museu Marítimo de Ílhavo) com o mesmo nome e inúmeras fotos que foram doadas em 1959 ao mesmo Museu Marítimo de Ílhavo. Em 1952 publica um artigo na National Geographic sobre essa campanha, intitulado “Eu Velejei com os Corajosos dos Capitães de Portugal” e em 1954 volta a Portugal, desta vez para documentar a vida dos pescadores ao longo da costa, em especial na Nazaré e Algarve. De novo na National Geographic desse ano publicaria o artigo sobre essa experiência, de nome “Praias Douradas de Portugal”.
 
Pelo seu grande amor pelo mar e acima de tudo por documentar aspectos de navios e homens em vias de extinção na altura, Alan Villiers prestou um grande contributo à memória do mundo e também a Portugal, pois a campanha no “Argus” é uma das suas obras mais lidas e conhecidas em todo o globo relacionadas com aventuras marítimas.
Tal como o próprio escreveu, “...o treino em navios à vela não serve para ensinar a juventude para uma vida de mar mas sim, para usar o mar como instrução da juventude para a vida”. Tal como já se faz nalguns países, universidades e mesmo liceus são proprietários de navios que são usados na tal “instrução para a vida”. Portugal é um país de mar e seria na minha opinião algo a desenvolver com o devido apoio do Estado, mas como sempre... não há dinheiro, ou vontade, ou tempo... sabe-se lá. Muitos miúdos desfavorecidos ou “mal-comportados” se fizeram homens a bordo de navios no passado, pois o mar obriga à responsabilidade. Há que continuar a trabalhar para isso.
 
Alguns links de interesse:
 
Resumo sobre Alan Villiers no site de j.aldeia, com bibliografia.
Algumas fotos das viagens.
O "Argus" hoje em dia como "Polynesia II" e navio de cruzeiro de uma companhia (Windjammers Barefoot) em crise profunda.


publicado por cachinare às 09:42
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