Segunda-feira, 4 de Janeiro de 2010
Howard Blackburn – O mar e o homem.
A história de Howard Blackburn epitomiza o tema clássico do “homem contra a natureza. Em Janeiro de 1883, Blackburn, um jovem pescador da Nova Escócia, alistou-se na tripulação da escuna de Gloucester “Grace L. Fears”. A “Grace L. Fears”, capitaneada por Alec Griffin, tinha como destino o Banco de Burgeo, uma rica zona de pesca 60 milhas a Sul da Terra Nova. Ia em busca do alabote, o grande peixe do tipo solha que chega a pesar quase 200 quilos.
Havia um prémio em dinheiro para a primeira escuna de alabote a chegar ao porto com o porão cheio de peixe fresco. A escuna de dois mastros “Grace L. Fears” ostentava a graça de um clipper e a sua velocidade favorecia-a nas campanhas aos Bancos de pesca.
Após 3 dias de viagem, o “Grace L. Fears” chegou ao Banco de Burgeo e ancorou. Para pescar o alabote, a escuna largaria 6 dóris, cada qual tripulado por 2 homens. Os dóris de cerca de 5 metros e meio de comprimento, eram barcos rudes com popa aberta e fundo chato. Eram barcos bastante navegáveis e tornavam-se ainda mais estáveis quando carregados de peixe.
Ao raiar do dia a 26 de Janeiro, Howard Blackburn e o seu companheiro de dóri Thomas Welch, um enérgico natural da Terra Nova, sairam em busca de alabote. Remando, afastaram-se para longe da “Grace L. Fears” e começaram a largar as suas linhas de trol. Lançando primeiro a âncora de trol, de seguida vão largando a linha até chegar ao fundo. O trol consistia numa linha grossa de algodão pichada (passada por alcatrão) com pedaços de linha mais fina atada a espaços constantes, as quais possuiam cada uma um anzol iscado na ponta. Quando o trol chegava ao fundo, deitavam ao mar uma bóia (pequeno barril de madeira) com uma bandeira, bóia esta ligada também à âncora.
Puseram-se então a largar cuidadosamente o trol, que se encontrava ordenado em secções de 50 braças dentro de um “cesto” em madeira (metade de uma barril grande) e cada dóri levava 4 destes cestos. À medida que cada linha chegava ao fim, atava-se a seguinte e continuava-se a largar. O trabalho era tedioso e cerca de uma hora mais tarde chegavam ao fim do trol. Largavam então a segunda bóia de marcação embandeirada. O trol, com cerca de 500 anzóis estendia-se cerca de uma milha e meia no fundo. Então os pescadores de dóri remavam de regresso à escuna para comer algo.
Nessa altura via-se que um temporal se estava a formar e o capitão ordenou aos seus homens para alarem o trol mais cedo do que previsto. Era melhor perder algum peixe do que o aparelho todo. Enquanto os homens labutavam para alar o trol, o tempo piorava. Os outros dóris já remavam de regresso à escuna na altura em que Blackburn e Welch terminavam com o fim da sua linha. No momento em que começaram a remar para a escuna, a borrasca abateu-se. Neve rodopiava em volta deles, reduzindo a visibilidade. Mais preocupante, devido à direcção do vento, encontravam-se a sotavento (contra o vento) da escuna e estavam forçados a remar contra vento e mar revoltado. Remaram e remaram e periodicamente sopravam a sua buzina de mau tempo, mas o som era abafado pelo vento uivante.
Ao cair da noite ainda não tinham alcançado a escuna. Mais tarde, quando a neve havia parado, conseguiram vislumbrar as luzes da escuna à distância. A sua posição indicava que apesar das vigorosas remadas, não se encontravam mais perto da escuna. Então largaram âncora e passaram uma noite gelada, constantemente lambidos pelo spray frígido do mar. Ao amanhecer, a “Grace L. Fears” tinha desaparecido. Blackburn e Welch estavam sozinhos no seu dóri e o temporal continuava.
Decidiram então remar para a costa da Terra Nova, a qual se encontrava a mais de 60 milhas para Norte. Os mares estavam traiçoeiros e o perigo do dóri se virar era constante. Remar contra o mau tempo de pouco servia e eram constantemente subjugados por ele. Os homens remavam e tiravam a água do dóri em turnos de modo a mantê-lo de frente para o vento.
Ao tirar água do dóri, Blackburn perdeu as luvas, mas tão preocupado estava em manter o dóri a flutuar, que só quando Welch lhe apontou para as mãos, este notou que as havia perdido. Apercebendo-se que as mãos lhe começacam a gelar e cedo estariam “mortas”, Blackburn lentamente forçou-as a agarrar os remos. Em pouco tempo transformaram-se em garras geladas.
O duro martírio continuou. A luta para manter o dóri a direito era constante e tinham de moer o gelo que incrustava no dóri para prevenir que este afundasse o bote. As mãos geladas de Blackburn sofreram imenso nesse processo. O vento não dava descanso e o ar frígido envolvia-os.
O anoitecer chegou e um novo dia, mas a salvação não chegara. Durante a segunda noite, Welch começou a vacilar e Blackburn teve de continuar a lutar por ele próprio. Pela alvorada, Blackburn apercebia-se que o seu companheiro de dóri tinha gelado até à morte. Blackburn continuou a remar durante todo o terceiro dia e a sede atormentava-o. Remava... e descansava, perpetuando o seu labor solitário. A noite chegou e o frio não baixava, com o seu companheiro morto à popa.
Ao quarto dia, os mares haviam acalmado e ele continuou a remar. Nesta altura nas suas mãos já se viam os ossos. Cada puxar de remos trazia-lhe agonia, mas pelo final da tarde conseguiu finalmente vislumbrar a linha da costa. À medida que se aproximava da costa, a água tornou-se turbulenta e constatou que estava na foz de um rio. Remou rio acima mas não encontrava quaisquer habitantes.
Mais um dia passou e o abatido Blackburn continuou a luta contra o frio, sede e exaustão. Finalmente, à quinta noite após se ter perdido da escuna, Blackburn foi descoberto por gentes que viviam junto ao rio. Descobria assim que havia alcançado a comunidade piscatória de Little River na costa da Terra Nova.
Apesar de ter sobrevivido à fúria do oceano, Blackburn foi forçado a uma dolorosa recuperação à mordida do frio. Eventualmente perdeu todos os dedos em ambas as mãos e metade dos polegares. Também perdeu vários dedos dos pés, dois no esquerdo e três no direito.
A incrível história de sobrevivência de Blackburn espalhou-se depressa e cedo tornar-se-ia numa lenda. Após a recuperação, Blackburn saíu da Terra Nova e fixou-se em Gloucester, Massachusetts, um velho porto de pescadores que condizia com o seu temperamento. O bom povo de Gloucester angariou fundos que permitiram a Blackburn tornar-se proprietário de um saloon, generosidade que o próprio muitas vezes retribuíu.
Contudo, os dias de aventura no mar não tinham acabado. Apesar de ter perdido os dedos em ambas as mãos, Blackburn cumpriria travessias solitárias do Atlântico a bordo das suas chalupas “Great Western” e “Great Republic”. Também se aventurou de escuna até ao Klondike em busca de ouro. Blackburn viveu até aos 73 anos e a sua vida notável tornou-se num símbolo da dureza dos pescadores e do triunfo do espírito humano.
in aquanet.com.


publicado por cachinare às 08:21
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1 comentário:
De jaime pião a 4 de Janeiro de 2010 às 17:54
Que vivencia a destes dois homens aqui descritos pela escrita do amigo António ,em Janeiro na Terra Nova meu Deus ,presumo que ao sul de Saint Jonas ,mas que sofrimento horroroso a destes homens ,em especial do Blackburn ,porque o Welch na minha opinião não sofreu tanto porque não aguentou e faleceu logo claro que sofreu mas as defesas foram logo embora ,o Blackburn suportou sem dormir e cheio de tudo que se possa imaginar de horroroso ,claro depois era um homem robot sem conhecimento que era um ser humano imagino eu , mas conseguiu se superar e hoje é lembrado como um Senhor exemplo de sobrevivência enorme .Esta história que eu vou contar agora tem algumas semelhanças com a que aqui foi descrita pelo amigo António . Um certo dia em plena pesca ao bacalhau no Navio Senhora do Mar nos mares da Groenlândia um bote no fim do dia de trabalho não regressou ,até porque o Navio começou a chamar com bandeira a tope e sirene antes da hora normal ,o que queria dizer que algo anormal estava para acontecer e ,esse anormal foi o temporal que começou a cair e com sacrifício lá conseguiram entrar os botes quase todos a bordo, mas faltava um ,esse um era um pescador das Caxinas o João Lirú que passou três dias debaixo de temporal forte mas a revessa dum iceberg «nós os pescadores dizia-mos ilhas de gelo» ,o João foi duma tremenda inteligencia porque como ele estava longe do Navio Mãe e não tinha e´hipóteses de navegar já com o temporal ficou por bem a revessa do iceberg ,mas o pior foi que ninguém previa isso e julgaram-no como morto pudera com três noites de temporal e o Navio de capa ao tempo quem imaginaria que o homem estava vivo ,passado esse temporal ao terceiro dia ficou calma e mar raso todos os Navios começaram a arriar os botes para água só o Senhora do Mar ainda não tinha arriado embora os pescadores ja tivessem recebido o isco ,mas o Capitão Costinha era esse o nome do dito Capitão se mantinha com fé de encontrar o respectivo bote com homem . Pessoal vai para proa mandou o Capitão e assim navegou com seus cálculos como deveriam ser as correntes de água nesses três dias ,eis que por volta das 10 da manhã um pescador avista direito a costa em relação ao Navio um bote cheio de água e grita para o Capitão que está um bote aqui a Leste ,claro toda gente a olhar inclusive os oficiais estes com binóculos e não viam nada ,esse pescador continuou a dizer que via o bote a Leste o qe se veio a averiguar que era verdade ,então o Navio navegou mais um pouco e reconhecera o dito pescador que mal podia erguer um braço de todo molhadinho e inchado arriaram a baleeira e meteram o homem a bordo que passados uns dias estava pronto a arriar mas foi difícil a sua recuperação ,mais ainda os homens agradeceram a Deus a sua salvação quando ja tinham rezado pela alma dele e assim se passaram coisas terriveis nesses muitos anos da pesca ao bacalhau, diria eu que vivi alguns momentos difíceis também ,acho que todos que passaram pela pesca do bacalhau mais e menos viveram dessas vivencias e que daria para boas escritas se os pescadores realmente tivessem o respectivo valor devido mas como costumo dizer ,dos fracos não reza a história .
Cumprimentos do Jaime Pião ...


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