Segunda-feira, 25 de Janeiro de 2010
1878 e uma rica carga de bacalhau.
«Se houver algum lugar ao longo da costa Atlântica onde o mar é mais bruto que nos Baixios de Nantucket, então por certo ninguém lá quererá ir. Ao largo de Point Judith (pequeno cabo em Rhode Island, a nordeste de Nova Iorque, E.U.A.) é mau, mas Point Judith é um lago de Verão comparado com Nantucket. No entanto os velhos navegadores, que mais tarde escreveriam livros, não são de acreditar no seu todo. Quando afirmam que “o mar corria à altura de montanhas”, estão a exagerar. O mar nunca corre à altura de montanhas. Quando corre à altura do quebra-mar, as coisas já começam a tremer e se alguma vez fosse como montanhas, um navio mostraria toda a sua quilha. O velho marinheiro, tal como o velho residente que naquele canto viveu durante 47 anos é uma fraude.
Pode-se dizer que à pesca do bacalhau naquelas difíceis águas rasas de Nantucket, era costume levantar cedo pela manhã. Um homem que se encontre abaixo do convés em cima de uma tábua, com as roupas molhadas, fumegantes e de cheiro a peixe, com pequenos coágulos de sangue nos dedos e constantemente entre o dormido e a acordado para evitar que o navio o atire para fora da tábua, não pode, de modo algum “levantar-se”, no entanto estávamos sempre acima no convés às 3:30. Então a pesca teve início. Não é de supor que qualquer respeitável bacalhau esteja a pé àquela inconveniente hora. O peixe que apanhávamos àquela hora tão cedo devia ser aquele que estava de regresso a casa da noite anterior. Mas eles mordiam e o primeiro peixe era apanhado ao anzol.
Numa manhã, enquanto viviamos este prazeroso estado de incerteza sobre se no próximo minuto estaríamos de pés para o ar ou de cabeça para baixo, o vigía (havia sempre um vigía quando nos encontrávamos nos baixios) acordou-nos a todos apressado, tocando o sino de nevoeiro selváticamente e berrando furioso para o Capitão. Pusemo-nos todos acima do convés num minuto. O nevoeiro era tão espesso que não conseguíamos vislumbrar o vigía à proa, nós na popa a cerca de 12 metros. Não era uma daquelas névoas que se pode cortar com uma faca – era demasiado grossa para isso. Tinha-se de serrá-la em blocos. O Capitão pôs-nos a todos consternados. “Vem um vapor mesmo na nossa direcção!”, gritou ele. Encontrávamo-nos mesmo na rota dos vapores e o ouvido treinado do Capitão havia captado o som do grande assobio de nevoeiro de um deles, que mal se ouvia através da névoa. Era claro que da parte deles não conseguiriam ouvir o nosso pequeno sino de nevoeiro, que dez vezes mais alto pouco se ouviria.
O vigía manteve o sino a bater e dois da tripulação apressaram-se a trazer dos seus aposentos duas buzinas de latão, soprando-as bravejantes. O assobio chegava perto e mais perto. O vigía do vapor não nos conseguia ver até estar a uns 6 metros de nós e o navio a vapor não podia ser parado numa dúzia dessas distâncias. E o assobio chegava mais e mais perto. Um bote foi de imediato largado à água e dois tripulantes saltaram para dentro agarrarando nos remos, de modo a estar preparado em caso de acidente. Se o vapor embatesse na nossa pequenina escuna, iríamos com ela e só com muita sorte nos safaríamos. E alguns vapores têm o hábito pouco amigável de não pararem para ver se magoaram alguém. O nosso estado subiu dos 6º abaixo de zero para um valor mais confortável quando o navio-vapor assobiou duas vezes. Tal dizia-nos que havia ouvido os nossos sinais e que amavelmente passaria sem nos cortar em dois. Um minuto mais tarde uma grande mancha escura passava pelo nosso bombordo. Era o grande fantasma negro de um grande navio negro a surgir do nevoeiro e a desaparecer de novo nele antes que pudéssemos dizer quem era ou sequer em que direcção seguia.
Então os pescadores riram e diziam em brincadeira que se o navio nos tivesse embatido teria ele ido ao fundo. Era bom vê-los a rir; mas não se viam sorrisos antes do sinal de reconhecimento do navio.
Então a pesca teve início. Estava um mar tremendo e o pequeno barco saltava acima e abaixo ao lado da escuna, por vezes tão abaixo que mal o víamos e outras tão acima que vinha ao nível do convés. Todos nos pusemos nas nossas posições e preparamos para começar. “Hoje não vais ter nenhum pequeno-almoço”, disse o Capitão ao estranho connosco, à medida que remávamos para longe do navio, largando um pequeno rasto de anzóis iscados.
“Porque não?”
“Porque vais enjoar”.
E parecia realmente que sim. O barco sacudia acima e abaixo, pondo-se em todas as posições menos na horizontal e cobrindo-nos constantemente com o spray do mar. Perdemos a vista a tudo. Se um homem enjoa por não ter nada fixo no qual pôr a vista em cima, então o momento era chegado. Mas essa teoria é absurda. Um homem pode estar no convés de um navio ao largo de Sandy Hook (Connecticut) com a vista fixa em terra firme e enjoar. No entanto aguentámo-nos até chegarmos ao fim da linha do bacalhau. Então, como tínhamos de parar o barco, depressa entramos no rolar do mar e aí foi o pior. Enjoou então um tripulante, um dos homens de mais idade, que poisando o seu remo, descarregou as emoções.
Havia um estranho a bordo, um inexperiente que não distinguia um enfrechate duma adriça e não tinha a certeza sobre a diferença entre um brigue e uma barca, que havia sido atiçado e acautelado todos os dias e avisado que se iria abaixo “ao largo nos baixios”, ao qual haviam dito como lutar contra o enjoo, como deveria comer, comer e comer até entalar e de como a tripulação não teria tempo para cuidar dele se adoecesse; para este novato encharcado, sentado confortavelmente à proa, era bálsamo de Gilead (região de Israel) bem passado ver aquele velho marinheiro debruçar-se na amurada do barco a oferecer a ceia da noite anterior aos peixes. Em pouco tempo se recompôs, mas fora um verdadeiro caso de enjoo de mar.
Esta pescaria inicial era só um aperitivo antes do pequeno-almoço. 25 ou 30 peixes estavam na linha quando foi alada para dentro e a maioria era tão vivaça que foram postos no poço (poço com água no centro da escuna para manter o peixe vivo até terra). À chegada à escuna, o pequeno-almoço estava na mesa. Era o velho costume: bacalhau salgado, principalmente, “seleccionado” como eles dizem e cozinhado com leite e batatas. Nada fazia um destes cozinheiros dos barcos cozinhar um peixe fresco. Nada a não ser bacalhau salgado, que dá a um homem uma sede intolerável e sem água à medida para beber. A variedade requerida ao pequeno-almoço, contudo, não fazia grande diferença como seria de supôr. Um pequeno preconceito do cozinheiro em  lavar as mãos ou pentear o cabelo era uma barreira efectiva a um apetite aberto. Não era o mês de lavagem da toalha de mesa e podiam encostá-la ao alto contra um canto sem problema.
O programa de cada dia de trabalho era começar a pescar bacalhau cerca das 4 da manhã até às 7. De seguida, pequeno-almoço; pescava-se até às 11 por bacalhau e alabote; jantar às 11; pescava-se bacalhau e alabote até às 5; ceia e pescava-se bacalhau até pouco depois do anoitecer. O bacalhau também morde depois do anoitecer, tal como de dia, mas os homens precisam de algum descanso, pois pescar ao bacalhau não é brincadeira. Normalmente 4 homens saíam num bote e 2 ficavam a bordo da escuna, parte em vigía, parte à pesca ao alabote. Apanhar alabote é melhor desporto que bacalhau. Não mordem tão depressa, pela mesma razão que ovelhas negras não comem tanto como as brancas; mas quando se apanha um, é em grande. O alabote dá uma forte luta e nunca é posto a bordo sem contenda. As beiras das amuradas da escuna estão cortadas em pequenos lanhos, como que entalhadas com uma faca, nos pontos onde a linha passava em luta com um alabote que tentava fugir.
É um dos truques preferidos dos pescadores quando têm um novato a bordo, atar um bacalhau à sua linha e às escondidas largá-lo borda fora. Um bacalhau escalado e salgado tem a mesma forma de um alabote e quase sempre um noviço é enganado. O truque foi levado a cabo, com grande sucesso com o reporter representante do Times (jornal). Um estranho é também provavelmente enganado pela sua chumbada, que pesa por vezes 3 a 3 quilos e meio e faz com que a linha pareça ter peixe pesado.
Numa certa 4ª feira de manhã, o vento estava “lindo e consideravelmente forte”, como dizia o vigía e o mar bastante bravo. Havia passado um temporal e a pequena escuna saltava e rolava tremendamente. O vento havia limpado a névoa e na claridade do Sol, podia ver-se a Ilha de Nantucket. Parecia desolada e árida, mas todos os sítios parecem desolados e áridos quando pela primeira vez vistos a partir do mar, pois só se consegue ver terra; as casas e árvores são demasiado pequenas para serem reconhecidas. Os homens acabavam de se preparar para sair no bote com a linha do bacalhau. O estranho também era suposto ir com eles. Mesmo vislumbrar o pequeno barco era difícil. Num momento estava a bater contra o costado da escuna e no outro estava a uma dúzia de jardas, na crista de uma onda que ameaçava levá-lo para longe da vista completamente.
“Sobe a bordo”, disse o Capitão ao estranho, que se perguntava a si mesmo como fazê-lo. Era fácil de dizer, mas algo difícil de levar a cabo. A única maneira era saltar para dentro, Requeria um bom cálculo, de modo a acertar no sítio certo do bote e no momento correcto. Acertar-lhe de lado podia fazê-lo virar-se; e saltar um segundo mais tarde podia estar o bote um pouco afastado e a voltar rapidamente acertando em quem saltasse na cabeça. Dois homens já estavam no barco com os remos e os outros 3 saltaram com sucesso, caindo a meio do barco em segurança. Duas horas mais tarde o barco continha perto de 60 bacalhaus, pesando pelo menos ¾ de tonelada. O peso dos 5 homens no barco fazia a sua carga chegar à tonelada, talvez mais. A navegar de regresso à escuna, abateu-se sobre eles um mar mexido, meteu água e afundava-se num ápice. Mas a catástrofe não era má de todo. O bom velho barco tinha em si madeira suficiente para flutuar com mais de uma tonelada de carga e quando a beirada chegou à linha de água, parou. Só precisava que lhe tirassem a água de dentro, um duro mas eficaz processo mas cedo voltou a flutuar. No total dos danos, 5 mergulhos em água gelada e uma dúzia de bacalhaus a flutuar.
Durante 10 noites e 11 dias estivemos ancorados nos baixios de Nantucket. Nesse tempo, “nós” apanhamos 1.450 bacalhaus e cerca de 60 alabotes. Ao fim da tarde do 11º dia, as duas âncoras foram içadas a bordo, as velas puxadas para cima e apontámos a proa em direcção a casa. Antes de escurecer estávamos a Oeste de Nantucket. O mesmo vento Leste que que durante tanto tempo nos havia mantido prisioneiros era agora o nosso melhor amigo. A viagem foi sempre a direito e sem paragens. Na alvorada do dia seguinte encontrávamo-nos a Oeste de Point Judith. Esquivámo-nos através das calotas brancas sem problema, passando Stonington, New London, Noank e várias vilas de Long Island. Uma prosaica meia-Lua olhava para nós nessa mesma noite quando atracávamos no Mercado de Fulton. A viagem terminava.
Tinhamos ao todo cerca de 18.800 quilos de peixe, 13.280 de bacalhau e 5.520 de alabote. Fora uma excepcional campanha. No mercado pagam cerca de 4 cents. por quilo de peixe, embora depois o vendam à comissão. O lucro total foi mais de $800 dólares, com os quais todas as despesas da viagem tinham de ser pagas e os donos do barco receberiam o restante.»
Publicado no “The New York Times”, 23 de Junho de 1878.
Tradução de A. Fangueiro.


publicado por cachinare às 08:21
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1 comentário:
De jaime pião a 25 de Janeiro de 2010 às 22:42
Pequena historia contada ou escrita por quem sabe da poda com certeza ,linda mas singela ,eu sobrescrevo tudo que aqui foi escrito como realidade de uma vida que sei de cor e salteado embora não seja desse tempo mas que me diz muito !
Pois que o António aproveitou esta linda história que diz muito a todos quantos passaram pela pesca do bacalhau ,porque mesmo os últimos dos dóris sabem bem o significado desta linda narrativa por isso meus parabéns amigo por saberes dar a volta por cima ,por isso este blog está bem enquadrado nestas ainda lindas narrativas dos pescadores bacalhoeiros do antigamente ,que muito deram que falar nesses tempos e que ainda hoje resiste aos detractores dos apaganços destas lindas histórias que um dia foram realidades de séculos até os nossos dias ,BEM-HAJA !!!


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