Segunda-feira, 15 de Fevereiro de 2010
O comércio da Terra Nova e Labrador no séc. XIX.
Durante todo o séc. XIX, a economia da Terra Nova e Labrador centrou-se na sua possibilidade de exportar produtos para compradores estrangeiros.
Mais que tudo, dependia na venda de bacalhau salgado produzido localmente para o Sul da Europa, Brasil e Índias Ocidentais. Produtos derivados da foca ganharam importância durante as primeiras décadas dos anos 1800s mas rapidamente entraram em declínio após 1870, quando as reservas foram exauridas. A indústria mineira também se expandiu próximo do fim do séc. XIX e a colónia começou a exportar cobre, ferro e outros minerais. O impacto destes desenvolvimentos no comércio em geral, contudo, eram insignificantes quando comparados com a indústria de peixe salgado, a qual contava em 70% das exportações da colónia em finais desse século.
Os pescadores da Terra Nova e Labrador produziam uma variedade de graus de peixe salgado, o qual podia ser vendido numa vasta escolha de mercados nos anos 1800s. Os pescadores costeiros da ilha produziam a cura de maior qualidade, pois pescavam perto de casa e podiam secar o bacalhau quase imediatamente após a apanha. Este produto de pouco sal e seca forte era conhecido como “peixe da costa” e normalmente atingia os maiores preços no mercado. Existiam contudo, variações no grau desta categoria, dependendo do tamanho do produto, aspecto, humidade e qualidade geral. Os mercadores contratavam “inspectores” para verificarem a apanha do pescador e determinar o seu valor.
O grau mais elevado, conhecido como “comerciável”, era um peixe grosso, amarelo ou dourado, de pouco sal e não demasiado seco. Este produto dividia-se em duas categorias: “comerciável de primeira”, que era o de maior qualidade e “Madeira”, mais seco e de menor qualidade. A seguir a estes havia o “Índia Ocidental”, o grau mais baixo de peixe salgado comerciável. Contudo, se um comprador discordasse bastante sobre a classificação de um produto, ele ou ela podia insistir na mudança de grau antes de o adquirir. Como tal, por vezes um grau de primeira era baixado para “Madeira”.
Pescadores que migravam para o Labrador todos os anos para lá apanharem bacalhau produziam um outro grau de peixe conhecido como “Cura do Labrador”. Este producto era mais húmido, de salga mais pesada e geralmente inferior ao peixe da costa, em grande parte devido ao clima pouco solarengo e ao maior tempo necessário para transportar o peixe para a ilha. Os inspectores dividiam esta cura em duas classes dependendo da qualidade: “Labrador nº1” e “Labrador nº2”. Os pescadores dos Bancos também produziam curas de qualidade variada, as quais eram classificadas como “Labrador” ou “peixe da costa”.
Uma vez o bacalhau apanhado e curado, cabia aos mercadores da colónia vendê-lo aos compradores estrangeiros. A maioria conseguia-o contratando agentes que trabalhavam directamente nos mercados do Sul da Europa, Brasil e Índias Ocidentais. Quando um carregamento de peixe chegava, estes homens e mulheres arranjavam forma de o vender a um comprador interessado. Por vezes o peixe salgado era trocado por dinheiro e outras por produtos que não era possível produzir na Terra Nova e Labrador, como melaço ou café.
Os maiores mercados para o peixe salgado da Terra Nova e Labrador existiam no Brasil, Índias Ocidentais, e países do Sul da Europa como Portugal, Espanha, Itália e em menor escala a Grécia. Todas estas regiões tinham um clima quente, o qual permitia um bem preservado e ainda de preço acessível, fonte de proteínas essenciais. O peixe salgado era proveitoso em ambas as frentes. Além disso, nenhuma destas regiões quentes possuía grandes reservas de peixe nos seus mares, no entanto várias trocavam os seus produtos locais por bacalhau. Os países europeus produziam sal, fruta, nozes, vinho, além de outros, o Brasil oferecia algodão e café e as Índias Ocidentais exportavam açúcar, melaço e rum para a Terra Nova e Labrador em troca pelo bacalhau.
A colónia conseguia atrair tão grande número de mercados porque produzia um vasto número de graus do mesmo produto de peixe. Peixe “comerciável” vendia bem na Europa enquanto que o Brasil comprava bacalhau “Madeira” e as Índias Ocidentais preferiam o mais barato e de menor grau peixe salgado. Espanha, Itália do Norte e Grécia também aceitavam ambos os tipos de peixe “Labrador”.
Embora o peixe salgado contasse para a maioria das exportações durante o séc. XIX, a indústria não se expandiu durante essa altura e os níveis de exportação manteram-se os mesmos. Este não foi o caso com a indústria da caça à foca, a qual cresceu rapidamente durante as primeiras décadas dos anos 1800s. A colónia exportava a maioria dos seus produtos de foca para a Grã-Bretanha, onde havia enorme demanda por óleo e couro de foca. Avanços ligados à iluminação próximo do início do séc XIX colocaram o óleo de foca numa posição particular, reflectindo-se na indústria. O combustível era usado para iluminar casas, docas, ruas e mesmo faróis. Era também usado nos curtumes, sabão e lubrificantes. A pele de foca cresceu em popularidade sendo usada na manufactura de vestuário e calçado. Com o advento da iluminação a gás e da crescente popularidade do petróleo na 2ª metade do séc. XIX, a procura pelo óleo viria a decrescer e após 1870 ainda mais devido ao excesso de caça.
Juntamente com o bacalhau e a foca, o mar oferecia à Terra Nova e Labrador uma variedade de outras exportações embora menos significativas. Esta incluiam o salmão, lagosta, arenque, capelim e lula, a maioria dos quais seguia para mercados da França, Canadá, E.U.A. e Grã-Bretanha. Sendo lucrativos, a sua quota parte comparada com o bacalhau era ínfima.
Traduzido do artigo de Jenny Higgins. ©2007, Newfoundland and Labrador Heritage

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publicado por cachinare às 09:08
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1 comentário:
De jaime pião a 15 de Fevereiro de 2010 às 22:47
Mais uma história linda sobre os bacalhaus e os homens que o pescavam e de todo um trabalho sobre os métodos de o preparar para secagem e vendagem .
Costa do Lavrador e Terra Nova ,por aquilo que se escreve e se lê eram costas favorecidas aos bacalhaus ao capelim que era um dos iscos favoritos do bacalhau ,por isso eram costas atractivas aos pescadores do bacalhau da caça as focas e dos mercadores que negociavam o preço dos bacalhaus e das peles de foca assim como outras vendagens !


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