Terça-feira, 22 de Janeiro de 2008
As “guerras” do bacalhau.
Como é sabido, o bacalhau é desde há séculos de extrema importância para vários povos e nações, nomeadamente as da Europa e América do Norte pelo seu valor comercial e abundância. Este peixe encontra-se espalhado por vastas regiões do Atlântico e Pacífico Norte e os Portugueses sempre conheceram bem os Grandes Bancos da Terra Nova ou os Bancos da Gronelândia. Mas outras nações como Ingleses ou Franceses tembém pescavam em regiões mais próximas de si, nomeadamente na Islândia. Com o início da pesca industrial em massa por parte de vários países, com os seus navios-fábrica, a abundância de bacalhau que se pensava no passado ser “infinita” começou a partir de meados do séc. XX a mostrar diminuições acentuadas e os interesses vários levaram a conflitos.
Os 250.000 habitantes da Islândia sempre estiveram dependentes no passado da pesca como fonte de rendimento. Em meados do séc. XIX, com o aparecimento de barcos a vapor surge maior facilidade em explorar mares diferentes e as águas ricas da Islândia fazem com que mais barcos estrangeiros surjam e com maior frequência. Assim, em 1893 o Governo da Dinamarca, que nessa altura detinha a Islândia e Ilhas Faroé, reclamou um limite de pesca de 13 milhas em toda a ilha.
Os donos dos arrastões Ingleses contestaram esta medida e continuaram a enviar os seus barcos. Navios da marinha da Dinamarca em patrulha escoltaram vários arrastões para portos na Islândia, multaram-nos e confiscaram-lhes a apanha. O Governo Inglês não reconheceu a medida das 13 milhas, afirmando que tal levaria outras nações ao mesmo em redor do Mar do Norte, o que afectaria seriamente a sua indústria de pesca.
Em 1899 o arrastão a vapor “Caspian” foi apanhado a pescar ilegalmente ao largo das Ilhas Faroé e um navio da marinha da Dinamarca inciou a sua perseguição. O arrastão recusou parar e foi disparado sobre ele. Acabaria por ser alcançado e no momento em que o seu capitão já se encontrava a bordo da navio Dinamarquês, este ordena ao mestre que arranque a todo o vapor e fuja. O navio da marinha reenicia a perseguição disparando várias vezes, mas não consegue deter o arrastão que regressa ao porto de Grimsby bastante atingido. O capitão foi amarrado ao mastro e num tribunal em Thorshavn nas Ilhas Faroé, condenado por pesca ilegal e vários outros crimes e a passar 30 dias na prisão. Com vários outros arrastões a serem apanhados ilegalmente pela Dinamarca, a imprensa Inglesa começou a questionar se a sua marinha não deveria intervir em sua defesa. O início da I Guerra Mundial acabaria por diminuir a pesca e o assunto perdeu interesse.
A 1ª guerra efectiva por direitos de pesca teve início a 1 de Setembro de 1958 e terminou a 12 de Novembro do mesmo ano. Teve início mal uma nova lei na Islândia (agora independente) aumentou a sua zona exclusiva de 4 milhas para 12. Os Ingleses declararam que os seus arrastões pescariam sob protecção de navios de guerra em três áreas. Ao todo, 20 arrastões, 4 navios de guerra e um navio de abastecimento encontravam-se dentro da nova zona exclusiva da Islândia. Contra isto, a Islândia lançaria em operações 7 barcos-patrulha e uma lancha-rápida. Ocorreram vários incidentes envolvendo colisões, disparos e já se discutia no Parlamento Inglês sobre o custo de tamanha operação.
Eventualmente os dois países acordaram que qualquer futuro problema sobre zonas de pesca seria levado ao Tribunal Internacional de Justiça em Hague.
A 2ª guerra teve início a 1 de Setembro de 1972, quando a Islândia aumenta a zona exclusiva para as 50 milhas. Vários arrastões Ingleses e Alemães continuaram a pescar dentro da zona no primeiro dia. O Governo Islandês da altura ignorou o acordo sobre o tribunal de Hague alegando não ter de seguir acordos de partidos opostos. A Guarda Costeira da Islândia passaria a usar novos métodos como cortadores de redes e em Janeiro de 1973, 18 arrastões viram as suas redes cortadas. Tal fez com que os próprios arrastões ameaçassem a indústria a abandonar a pesca caso a marinha não intervisse. Duas grandes fragatas são então enviadas dando início a uma série de eventos com colisões entre navios.
De novo com a pressão sobre a utilização de bases da NATO na Islândia por parte de Ingleses, o Secretário Geral da NATO entra em conversações e um acordo é assinado em Novembro limitando a pesca só a certas zonas dentro do limite das 50 milhas. Este acordo teria um fim em Novembro de 1975, quando se inicía a 3ª guerra do bacalhau.
Esta terminaria em Junho de 1976 e de novo tem ínicio porque a Islândia define a sua zona exclusiva nas 200 milhas. De novo Inglaterra não o reconhece, de novo envia navios da marinha para a zona e de novo ocorrem vários incidentes. Finalmente e pela importância das bases da NATO, a Islândia volta a vencer a disputa e o acordo surge sobre as 200 milhas.
É de salientar o facto da maioria dos incidentes ocorridos terem sido abalroamentos e os disparos quase todos de “pólvora seca”. Estas “guerras” foram por alguns vistas como “jogos de guerra”, pois nunca se pretendeu causar mortes de ambos os lados, no entanto estiveram perto de acontecer.
 
Estes acontecimentos demonstram o “perigo” para os recursos de vários países de frotas de navios de grande capacidade de pesca. Enquanto os navios eram à vela e pescavam à linha... sempre chegou para todos e ninguém falava em “zonas exclusivas”. Tendo eu crescido na comunidade piscatória das Caxinas, quantas vezes ouvi o pai e a mãe a queixarem-se que “não se ganha vida, os fundos andam rapados”. Quando me punha a pensar nos barcos de pesca da minha terra que practicamente são os mesmos em todo o Portugal, ou seja, de pequeno porte e familiares, perguntava a mim mesmo se eram aqueles “barquitos” que andavam a “rapar os fundos”...
Ficam aqui uns links que podem clarificar ideias:
 
Portugal assina acordo de pescas com a Espanha.
Portugueses querem Espanhóis fora das 200 milhas.
Portugal é o primeiro país com jurisdição marítima além das 200 milhas náuticas.


publicado por cachinare às 10:15
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