Sexta-feira, 19 de Março de 2010
“Ross Revenge” - De bacalhoeiro a posto de rádio-pirata.
O “Ross Revenge” foi construído e 1960-61 em Bremerhaven na Alemanha como arrastão-lateral sob o nome “Freyr”, juntamente com outros dois navios idênticos, destinados a um armador de pesca da Islândia. Comportava 68 metros de comprimento, 10,3 de largura e 978 toneladas brutas.
Até Agosto de 1963, o navio foi propriedade da empresa Islandesa Isbjorninn, altura em que seria vendido à Ross Trawlers Ltd. / Ross Fisheries e mudaria de nome para o actual. Passaria então a ter bandeira do Reino Unido, com porto de abrigo em Grimsby. De 1969 a 1979, o “Ross Revenge” fez parte do B.U.T. (União de Arrastões Britânicos) e esteve envolvido na guerra do bacalhau com a Islândia (sobre a qual já escrevi anteriormente) entre 1972 e 1976. Este navio, bandeira da frota Inglesa na pesca do bacalhau, era o maior arrastão convencional do mundo na altura, mantendo o recorde mundial de pesca numa campanha, quando em 1976 descarregou 3.000 kits de bacalhau da Islândia (cerca de 200 toneladas) em Grimsby vendidos ao preço recorde de 75.597 Libras. Durante a sua carreira como bacalhoeiro, navegou por mares até Archangelsk, Spitzbergen, Murmansk e Gronelândia em viagens com média de 28 dias. Contudo, devido a novos limites de pesca, faina incerta, quotas e importações, tornava-se cada vez menos rentável o negócio usando tão grande arrastão. De 1979 a 1981, o navio serviria de estação de mergulho de apoio no Mar do Norte.
Em 1981, estava o “Ross Revenge” atracado em Rosyth na Escócia para sucata, quando foi comprado por uma empresa do Liechtenstein que o registou no Panamá como navio de recreio para o inserir no chamado “Projecto Caroline”, de rádios off-shore (pirata). Em Abril, foi rebocado para Solares, próximo de Santander no Norte de Espanha onde nesse Outono entraria em trabalhos de conversão para um navio-rádio. A torre de transmissão era a mais alta jamais instalada num navio, 91 metros acima do nível do mar. Três transmissores em segunda mão previamente usados numa estação de rádio no Arkansas, foram mandados vir dos E.U.A. para a Holanda e dois estúdios foram construídos no navio.
Em 1982, novos investidores para o “Projecto Caroline” surgem no Canadá e as condições estavam reunidas para iniciar as transmissões. A 8 de Agosto ancorou em Kentish Knock, ao largo da costa de Kent e Essex, Leste de Inglaterra e após testes mudou âncora para Knock John Deep. Em Janeiro de 1984 soltou-se da âncora e à deriva para Sul encalhou num banco de areia 2 milhas dentro de águas territoriais Inglesas. Dois dias depois, regressa ao ancoradouro prévio e retoma as transmissões. Após várias ocasiões de forte temporal em que voltou a perder âncora, em 1987 o Panamá anulou o registo do navio devido a violações nas comunicações de rádio.
No Verão de 1987, o “Projecto Caroline” foi encerrado para “manutenção”, o que na verdade teve razões do fora das águas territoriais, pois nesta altura a Inglaterra passava a reclamar 12 milhas além da costa, em vez das 3 da altura e assim o navio passou a ancorar e a transmitir mais longe, em South Falls Head. Em Novembro, com muito mau tempo a antena de 91 metros partiu-se pela base e caíu ao mar, sendo reposta em Janeiro de 1988. Desde os inícios em 1983 que pequenos barcos traziam ao navio a partir da costa Inglesa jornais, discos e trabalhadores da rádio. O fuel, 8.000 litros por semana, era trazido de Nieuwpoort na Bélgica. A 4 de Janeiro de 1989, duas novas antenas foram instaladas no navio e em Agosto desse ano, o “Volans”, um rebocador da Polícia Holandesa com cerca de trinta agentes armados Holandeses, Ingleses, Franceses e Belgas, abordaram o “Ross Revenge” apreendendo equipamento de estúdio, discos e cassetes. O aparelho aéreo foi posto abaixo, partes do transmissor removidas e outras destruídas à força. Em finais de Novembro, o navio sofreu uma quebra de energia o que resultou em que ficasse sem iluminação várias noites. As autoridades marítimas Inglesas avisaram o navio que tinha the possuir iluminação durante a noite, mas o fuel era já escasso e os geradores principais não funcionavam. A 10 de Dezembro o navio sofreu nova quebra da pouca energia gerada por um pequeno aparelho a gasolina, o qual foi levado pelo mar incluindo os poucos bidões de fuel restantes. Num temporal de força 9, pediram ajuda à Guarda Costeira, a qual acabaria por enviar um helicóptero para evacuar toda a tripulação. No dia seguinte as autoridades revistaram o navio e declararam-no abandonado. Poucos dias mais tarde, membros da rádio voltariam a reclamar o navio.
Durante os anos seguintes, por entre repetidos problemas com mau tempo e mudanças de ancoradouro, passou por vários portos na região de Essex, incluindo Londres e as docas do rio Tamisa. Em 2004, o navio foi rebocado para o porto de Tilbury também em Essex, onde se encontra até hoje e se tornou em parte navio-museu.
Desde o início de 2008 que o navio tem vindo a ser restaurado, sendo o navio-rádio mais famoso do mundo, o qual continua a transmitir.
 
Texto adaptado e traduzido de offshore-radio.de
 
Links de interesse:
 
Site oficial do navio-rádio.
Fotos do restauro do “Ross Revenge” em Fevereiro 2008.
Fotos do restauro do “Ross Revenge” em Março 2008.


publicado por cachinare às 08:13
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