Segunda-feira, 26 de Abril de 2010
A Catraia Fanequeira - Vila Chã (Vila do Conde).

Há uns tempos atrás escrevi um artigo sobre a Catraia Fanequeira, a qual recebeu comentários esclarecedores, nomeadamente do Sr. Albino Gomes e J.P. Baptista, sobre as suas origens em Vila Chã e detalhes de construção. O texto abaixo apresentado explana todas as características técnicas desta mesma embarcação, de forma bastante completa.

 
«No inicio do ano de 2000 o Clube de Vela de Viana do Castelo, consciente da importância cada vez maior da necessidade da preservação do nosso universo etno histórico e marítimo, iniciou um projecto de recuperação de uma embarcação tradicional de pesca da faneca, que fruto de pesquisas pelas póvoas de pescadores à beira mar se encontrou. Ao mesmo tempo criou uma escola de vela tradicional na qual se permite o ensino e a navegação nesta embarcação. Embarcação que só aparece com relevo e particularidades próprias na freguesia de Vila Chã ao sul de Vila do Conde. É uma embarcação genuína desta freguesia, com características que a distinguem de todos os outros barcos filiados no modelo Poveiro. A embarcação de boca aberta com 5.5 mts de comprimento, possivelmente construída por volta de 1977, matriculada em Vila do Conde nesse ano, tinha como sistema de propulsão e governo, no registo, a vela e remos. Arma como uma catraia pequena, mastro e vela latina de pendão, distinguindo-se delas nos seguintes aspectos: Para a fixação do mastro, um furo no banco da proa, a enora, e assente no fundo sobre a quilha uma pia onde pousa o mastro, em vez de ter curvatões e linguetes assentes sobre os bancos da proa e voga, e ter carlinga para pousar o mastro,(como nas catraias). Para subir a verga e vela a ostaga usa só um moitão em vês de dois, e uma agulha que é fixa à borda por barlavento, onde prende também o cabo da ostaga; nas catraias o conjunto de 2 moitões prendem num tolete que se enfia no buraco da borda e o cabo da ostaga prende no banco do sotavoga. Usa 3 pares de remos de 13 palmos, um tripulante por par; nas catraias 4 a 6 pares de remos de 18 palmos e um tripulante por remo. É no presente o único barco de pesca da faneca de Vila Chã a navegar e a ser estudado. Muito maneira ou boieira é uma embarcação que navega rápido e com elegância, com uma boa bolina, mesmo com a vela no pau ao contrário das suas congéneres galegas, Bucetas, Racús e Botes Polveiros.
 
1- Os proprietários e tripulantes: Os seus proprietários eram lavradores pescadores, situação comum desde Montedor ao Norte de Viana do Castelo até Bouças e Lavra em Matosinhos. A ocupação no mar permitia o equilíbrio e a alimentação da família, e nos tempos de abundância do pescado até o pequeno comércio, sendo isso desempenhado pelas mulheres da família que iam terra dentro vender ou trocar por outros artigos em falta no lar, o peixe. Elas, à semelhança da mulher Poveira, têm um papel fundamental no seio da organização do lar e educação dos filhos. Também em meados de Julho e Agosto em época de safra se dedicavam à pesca do pilado ou mexoalho que secavam e vendiam, de igual modo também apanhavam o argaço para adubo das suas terras. A tripulação destes barcos era composta por 3 a 4 pessoas. Existem registos de que em Vila Chã algumas vezes as mulheres faziam parte da companha. Algumas até tinham carta de arrais e governavam a embarcação.
 
2- As artes de pesca: As artes usadas eram o arco ou a linha para a faneca, a linha de mão para o congro, o espinhel para os diversos peixes, as pequenas armadilhas (as nassas ou galrichos) para os mariscos. Este tipo de pesca local aproveitava os fundos com corredores ora limpos ora rochosos, com uma linha de costa onde não existe um porto de abrigo, e a faixa costeira é formada por afloramentos rochosos muito extensos ao correr dessa linha, formando pequenas enseadas onde se pescam o congro, a faneca ,o robalo, o sargo, a raia e os mariscos: A navalheira, os burros (a sapateira ), a arola (santola), o carramilho (lagosta pequena). Esta panóplia de artes e de pescas dependia das dimensões dos barcos e das posses do seu proprietário para o apetrechar.
 
3- Os locais da pesca, os mares: A costa compreendida entre a Póvoa de Varzim e a Foz do Douro é a zona de pesca destas embarcações, os seus mares de eleição, os pescadores utilizavam a beirada de terra ou beiral, zona que fica logo a seguir ao afloramento rochoso antes do limpo que tem profundidades até aos 200 metros. O beiral é uma zona da costa repleta de fendas e pocinhos onde a faneca se abriga em abundância, são zonas de profundidade compreendida nas 15 a 30 braças onde hoje ainda se pratica a pesca à linha por pescadores desportivos, e que ficam à distancia de uma hora de terra. Pescam ao alvor da manhã, e ao anoitecer, por vezes durante o dia.
 
4- A construção: Estes barcos de construção muito simples, leve e robusta em madeira dos pinhais das redondezas, pinho bravo e carvalho, tinham uma vida útil de cerca de 10 anos, de actividade intensa, sempre que o mar o permitia o barco saia para o mar, permanecendo em terra varado de fundo para cima assente sobre rolos de pinheiro por onde desliza para o mar e sobe para terra. Os seus construtores são geralmente os próprios donos, daí a simplicidade da construção, e na maioria construídos a partir de uma única árvore. As suas dimensões são: comprimento: 5.5mts, boca: 1.82 mts, pontal: 0.60 mts. Construído a partir da ossada com roda de proa e popa de cadastre, apresenta 19 cavernas 5 enchimentos de proa e três de popa. As cavernas são distribuídas da seguinte forma sempre a contar de vante: 5 enchimentos de proa, 5 cavernas extremas de proa, 4 intermédias de vante, caverna mestra a n.º 10 ao meio, 4 intermédias de ré, 5 extremas de popa, e por fim 3 enchimentos de popa. As cavernas são “armadas”, assentam directamente na quilha e são pregadas na vertical de cima para baixo. Em Vila Chã montam-se da proa para a popa. Não têm boieiras (pequenos entalhes que permitem a passagem da água entre cavernas). Também não possui coral e sobrequilha nem alefriz.
 
5- O tabuado do casco. Tem cerca de 1,5 cm de espessura o costado do barco. Toma os seguintes nomes a contar de cima para baixo: cinta , segunda cinta, fecho pequeno e fecho grande, tábua de sobrefundo e fundo, no fundo também se chama de tábua de resbordo à tábua que vai encostar à quilha, e fazer a vedação. Os fechos podem ser variáveis dependendo da largura das tábuas a utilizar. A cinta, de maior espessura cerca de 2,5 cm corrida de proa a popa é a primeira tábua a ser colocada e é pregada aos braços, sobreposta a esta a fazer o remate exterior e o reforço da borda, corre a todo o comprimento o verdugo de forma arredondada em meia cana, do lado interior correm duas ripas que fazem o fecho por dentro, as “dragas”. A primeira draga faz o remate onde apoiam as remadouras (três pares de cepos onde encaixam os toletes dos remos), as remadouras tem dois entalhes e encaixam no topo dos braços, de modo a ficarem entre duas cavernas. Por baixo das remadouras na altura da segunda draga ficam as chumaceiras ou “castanholas”, pequenas peças em madeira onde pousa o tolete. Esta embarcação ao contrário do pouco que dela se tem escrito e descrito em literatura consultada, apresenta um “talabordo” ou “alcatrate”. Tábua de remate superior das bordas, pregada no topo superior dos braços junto à primeira cinta e a fechar a borda deixando à mostra os cabeços dos braços abaixo desta, À excepção dos que encaixam nas remadouras que passam acima, e são galivados,( aparados). O fecho da primeira cinta e da primeira draga ao bico de proa e ré ao cadastre é feito com as “ boçardas ou cangas” peças de madeira de sobro com feitio em v que encaixam à roda de proa e ao cadastre de popa reforçando o fecho das tábuas, e ao mesmo tempo reforçam de modo a evitar a deformação no varar em terra, pois ele fica de “borco” (apoiado numa só borda ao virar de casco ao ar). É sobre a boçarda da proa junto ao capelo que se coloca a “goiva” pequena tábua com entalhe em v que serve para passar o cabo da poita e alar as linhas de pesca. Na segunda draga apoiam os bancos presos por dois “gatos” de cada lado, na parte superior encaixados na draga de cima. Esta segunda draga na embarcação recuperada termina na proa no ultimo enchimento. O tabuado do casco nas obras vivas e por dentro era protegido com uma pintura feita a partir de breu e óleo de peixe, ao qual se juntavam por vezes uns poses p`ra dar cor, (geralmente anilina vermelha), e pintado e quente com um escopeiro (um pau com um pedaço de pele de carneiro que servia de pincel).
 
6- Os bancos: Os bancos são cinco. O primeiro a contar da proa é o sobresselente, funciona como “estronca“ de segurança da boca na zona da escarva de proa, no acto de varar. Os bancos tem a seguinte denominação e são contados a partir do que têm o furo do mastro (a enora): 1º banco da tosta ou da proa, 2º banco segundo da proa ou do meio da proa, 3º banco do meio da ré ou segundo da ré (a contar da ré), 4º banco da ré.
 
7- A divisão interior: O barco de pesca da faneca é dividido em três partes, por duas “panas” (ou empanas). São tábuas colocadas na vertical e servem para dividir o barco em compartimentos. São denominados da seguinte forma: O “quartel de proa” o “esgotadouro” e o “quartel de ré”. O esgotadouro é a zona a meio do barco compreendida entre a caverna mestra e a primeira de vante , é a zona do fundo do barco mais plana, ai a água, é esgotada a eito com o bartedouro. Tem à proa e popa paneiros assentes directamente sobre os “embaraços das cavernas”, pois não possuem “escoas ou sarretas”. (embaraço é a junção entre o braço e a caverna).
 
8- O governo e a propulsão: Vamos falar das outras partes. Porventura as partes da embarcação que mais facilmente se perdem sem deixar vestígios, e das quais temos mais dificuldade em recolher informação oral ou escrita. Mastro, Verga, Vela, Mareação, Governo, são aspectos que só o contacto directo e a experimentação nos permitem hoje de uma forma que se julga o mais fiel possível, registar.
 
8 a- Os remos: A forma primeira e mais usual de propulsão são os remos. Eles são seis dispostos em três pares sendo um tripulante por par de remos, tem de comprido três metros. Os remos são constituídos por três partes a saber: punho, haste e pá. Tem também uma particularidade que não pode deixar de ser assinalada, na haste em vez de tacos, a peça com um orifício onde passa o tolete que assenta na remadoura, apresenta uma peça que só se encontra nas Bateiras a sul da Afurada, o Cáguedo, peça em madeira de sobro com um entalhe em meia cana onde encaixa a haste, com um furo num dos lados, o que permite desde logo saber de que lado é o remo. Não se encontrou explicação para o uso desta peça nos remos tão fora do habitual em Vila Chã. Mas foi através da experimentação que se descobriram as vantagens deste tipo de remo, mais fácil e rápido de armar, melhor assentar na remadoura, melhor impulso do remo na água. Considerações que nos levam a reflectir qual o tipo de costa em que estes remos se usam, Costa Nova, Vagos, Gafanha Aveiro. Mares de costa arenosa e mar aberto, portanto com formação de ondas fortes e altas, onde a força do remo é papel fulcral para a segurança da embarcação na saída ao mar. Pode esta adaptação ser o resultado da junção de saberes...
 
8 b- O leme: O leme, é constituído por uma só peça uma tábua com 1.68 mts de altura e 0.32mts de largo, que se divide em duas áreas a saber: a cachola onde enfurna a cana e a porta ou leme . Leva para o governo uma peça chamada punho ou cana do leme. É de dimensões desproporcionadas em relação à altura da embarcação, daí só ser possível de montar na água com fundo, esta é a solução encontrada pelos velhos marinheiros para evitar o efeito de deriva ou caimento na navegação à bolina, pois estas embarcações não tem patilhão. O leme é montado sendo enfiado nas ferragens de agulha e fêmea no cadaste de ré.
 
8 c- O mastro e verga: O mastro e verga, são construídos a partir de dois troncos de pinheiro que se secaram à sombra, e se fasquiaram de modo a dar a forma pretendida. O mastro tem cinco metros, leva um furo em cima para passar a adriça do inçadouro, com um espelho em madeira de sobro, o recrame. A sua inclinação é conseguida pela imposição de uma cunha na pia pela frente ou por trás do mastro. A verga tem 6.5 metros, no punho é fasquiada de modo a formar um pião onde a alça ou inhão da testa da vela inverga. Ao terço leva dois calços de madeira a inchumeia, onde amarra a adriça do inçadouro e o rosário de caçoilos abraça de modo a não deixar a verga afastar do mastro.
 
8 d- A vela: A vela, é do tipo Poveiro, uma latina de pendão, isto é uma vela triangular na qual se corta ao terço a frente fazendo uma testa, fica a pender na proa, daí o nome de pendão. É feita a partir de pano de algodão cru, cortado em tiras e cosido, as folhas, pode ser encascado, tomando a coloração acastanhada, e tem a seguinte denominação: frente: a testa, baixo: a esteira, cima: cimeira ou gurutil, atras: valuma. Leva uma tralha interior em cabo de sisal cosido à bainha por dentro, e por for a outro de maior espessura, partem da primeira andada de rizes, na valuma ,contornam a esteira, sobem a testa e a parte cimeira e terminam na pena na valuma, portanto a valuma que é a parte onde se escapa o vento não leva reforço interior. Os rizes são em três andadas. Ao direito dos rizes leva alças ou garrunchos que servem para a amarrar com vento forte. No cimo leva espaçados os invergues, pequenos estropos de cabo que servem para envergar (amarrar) a vela à verga. Esta embarcação, deixou de sulcar os mares à vela na década de 70, com a introdução da motorização fora de borda. Foram os mares da saudade na memória... Hoje, de novo, sulca o Atlântico aproveitando a Nortada...Está a desenvolver a divulgação da vela tradicional, e a servir de Museu Vivo no Meio Aquático, das Tradições Marítimas dos homens da beira mar. Tem regularmente participado em diversas actividades de encontros tradicionais quer em Portugal quer na vizinha Galiza. É portanto um motivo de orgulho para quem ama e sente o mar, as suas gentes e as suas tradições.
Bem hajam .»
 
João Paulo Baptista – in Revista de Cultura Marítima – V Encontro de Embarcações Tradicionais, Poio-Galiza 2001 - As fotos estão incluídas no mesmo artigo, excepto a 1ª.


publicado por cachinare às 08:53
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1 comentário:
De barcosdonorte a 28 de Abril de 2010 às 23:12
Bons tempos... Quem sabe um dia se edita o tal livro esquecido sobre esta embarcação...
Abraço


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