Quinta-feira, 6 de Maio de 2010
“A bandeira azul não quer barcos” - Catalunha

 

«O governo municipal de Sant Pol de Mar (Catalunha) renunciou à bandeira azul que recebeu como símbolo de qualidade das suas praias. A razão é que a Associação de Educação Ambiental e do Consumidor (ADEAC), o órgão que atribúi a bandeira azul, solicitou à autarquia a retirada dos barcos de pesca, símbolo maior das festividades desta praia, por incomodarem e ocuparem muito espaço no areal. E a cidade de Sant Pol disse que "aqui, vai-se festejar e dançar", e não vai ser uma agência com sede em Madrid quem define o modelo que as pessoas querem. A população já disse que quer continuar a viver do modo tradicional e portanto, não concorda com os argumentos vindos da ADEAC, retirando elementos das nossas praias, característicos da vida da vila e do património dos barcos de pesca locais. Apesar da retirada da bandeira, Sant Pol decidiu optar por outra certificação de qualidade, ISO 14001, para comprovar as boas praias e água, demonstrando que esta é perfeitamente compatível com a presença de barcos.
Há muito tempo que, em geral, somos considerados uma sociedade que vive do e para o mar e que, ao contrário de outros países, nós não sabemos apreciar o nosso património marítimo, defendê-lo e preservá-lo. Tirando uns quantos "românticos" apostados em restaurar alguns barcos antigos pondo-os de novo a navegar, e tímidos protestos quando a tradicional cabana de um pescador foi demolida, tal como um estaleiro naval histórico, ou tentaram “limpar” um bairro inteiro à beira-mar, a maior parte da sociedade não se dá “ao trabalho". Portanto, decisões como a da cidade de Sant Pol de Mar, recusando-se a retirar os barcos da praia pela bandeira azul, tem um valor enorme e me faz-me pensar que talvez nem tudo esteja perdido.

 


Não há tantos anos atrás, os barcos de pesca estavam presentes em muitas praias de Maresme (Catalunha) e no resto do país, e os barcos e os pescadores conviviam bem com os banhistas. Isto não é algo agora inventado, mas faz parte da vida, carácter, e génese de muitas cidades costeiras. Também não sei se eles (ADEAC) sabem que, no caso de Sant Pol, a presença de barcos na praia faz parte de um projeto de recuperação do património marítimo local, incluindo o restauro da casa de máquinas e a construção do sardinal (barco típico da sardinha) “Sant Pau”. Através destes elementos, a associação A Tot Drap periodicamente organiza actividades de praia que mostram os aspectos locais do passado marítimo, e das pessoas que constituem uma cultura singular e independendente.
Certamente que não agradou ao sector hoteleiro de Sant Pol de Mar o facto da Câmara Municipal ter renunciado à bandeira azul. Ou talvez sim. Pode ter começado a perceber que o sol e a areia, - modelo de turismo que tornou as praias do país em solários - começa a ser ultrapassado, e o turismo de "baixo custo" em massa já não permite Agostos lucrativos. É altura de um novo modelo de compromisso com o turismo, o turismo de qualidade, além da qualidade das infra-estruturas e serviços nos locais visitados, que também se sinta a oferta cultural própria destes locais e a capacidade de viver experiências únicas. Nesse sentido, penso que a herança marítima, adequadamente gerida, pode ser um elemento muito importante dentro dessa dinâmica de um novo turismo, isto para aquelas cidades costeiras que consigam e saibam preservar o seu passado marítimo.

 


Sant Pol de Mar, não é a única cidade que tem barcos na praia. Calella de Palafrugell tem, Badalona tem, Cadaques também... . Há muito tempo que Sitges também quer voltar a ter barcos de pesca na praia. Sei porém, que a pesca como se fazia anteriormente nas praias não é compatível com os usos actuais deste espaço e que não se pretende converter as praias em estacionamentos de barcos, meio vazios, mas sim aqueles que respeitem certas características, e especialmente que se movam e realizem actividades.
É a decisão da cidade de Sant Pol de Mar em se recusar a retirar os barcos da praia, perdendo a bandeira azul, que me faz pensar que talvez comece a haver uma sensibilidade na sociedade para o património marítimo e as formas de se relacionar com os aspectos do mar, parte da essência das comunidades de pescadores. (…)»

 

adaptado do artigo de Joan Sol – blog El Mar es el Camí - Catalunha

Um artigo PERFEITO, que se enquadra TOTALMENTE na realidade túristica da maior parte da costa portuguesa, de onde os barcos tradicionais e toda a cultura em volta deles foi erradicada, como ervas daninhas, em prol da bandeira azul que tudo limpou.

As 3 imagens a ilustrar o texto, representam Portugal ainda há poucas décadas atrás, respectivamente, Póvoa de Varzim, Costa da Caparica e Quarteira. A coexistência entre pescadores, barcos e banhistas é mais que evidente nessas imagens.

Sant Pol de Mar, é uma autarquia com visão, respeito pela sua gente e Solanum(s) lycopersicum(s).



publicado por cachinare às 10:11
link do post | comentar | favorito

5 comentários:
De PJNunes a 6 de Maio de 2010 às 11:38
Artigo muito interessante e que deve servir de elemento de contágio! Ainda me lembro das praias Costa da Caparica assim e da multidão que se apinhava para ver os barcos que regressavam da faina repletos de sardinha.


De Anónimo a 6 de Maio de 2010 às 17:02
Muito interessante este apontamento que o Caxinas a
Fréguesia aqui nos trás.
Pena é que ele não chegue a todos esses mandões que de ano para ano, sem mais aquelas, teimam em delapidar tão rico Património, que é de todo um povo.
Recordo com saudade meus primeiros anos em praias algarvias. Quanta beleza tinha aquela praia de Albufeira, onde várias vezes embarquei com os pescadores locais, ajudando-os, graciosamente, na
faina de largar ou alar as redes.
Quanto colorido daqueles tradicionais barcos e
respectiva palamenta, intercalados com os vistosos
fatos de banho dos e das veraneantes.
No Verão, era tudo à mistura.
E quanta alegria manifestavam aqueles banhistas, sobretudo estrangeiros, que expontaneamente se
dispunham a ajudar a varar os barcos na praia e
admirar a quantidade e qualidade da pescaria alcançada.
Ainda hoje, quem não se lembra das pessoas que
logo acorrem, quando um ou outro pequeno barquito vindo da faina, chega na praia das Caxinas?
Tal como diz o referido texto, na cidade catalã de Sant Pol de Mar, contráriamente a outras, renunciaram à Bandeira Azul em prol das suas tradicionais embarcações de pesca.
Nós, por cá, nem uma coisa nem outra...

Albino Gomes


De jaime pião a 6 de Maio de 2010 às 19:39
Boa tarde amigo Bino ,tudo bem contigo ,ok ,gostei do teu comentário ao link que´o António nos trás hoge da muito pano para mangas ,mas como sempre , te dou razão ,sempre digo aos banhistas que temos as melhores praias aqui do norte de Portugal ,e as pessoas me perguntam pela bandeira azul , eu sempre vou dizendo que não é preciso bandeira azul que nós somos dos verdes !
Pois como digo as praias do algarve ainda hoge se vê barquinhos lanchas na praia é com muita alegria que os banhistas vê a chegada dos mesmos as vezes ajudam no varar ou na praia a meter abaixo logo de manhã cedo eu apreciei muitas vezes e também ajudei em especial quando os barcos atravessavam na praia com o mar na praia alí para os lados de Vila Real de Santo AntónIo Monte Gordo ,um abraço amigo Bino ...


De Anónimo a 7 de Maio de 2010 às 16:53
Até parece ironioa do destino...Depois do dito ontem,
hoje quase roda a Imprensa D iária publica a listagem
e coloridos mapas das Praias de Portugal e Ilhas, às
quais foram atribuídas as Bandeiras Azuis, e as
Praias de Vila do Conde continuam ignoradas . . .
Motivo: embora os irresponsáveis continuem a dizer que a culpa é do Rio Ave, a verdade é que não é.
Culpados são os grandes e nauseabundos esgotos
que sem qualquer tratamento, são, lançados ao rio e ao mar, nomeadamente no lugar da Poça da Barca, este digno de figurar no Guiness BoocK . . .
Perante isto, lá «vamos cantando e rindo, levados, levados sim», sem barcos nem bandeiras, a vê-los tentar tapar o sol com as peneiras ...
Com um abraço,

Al bino Gomes







De Manuel a 24 de Setembro de 2014 às 17:43
A bandeira azul é um negócio e uma vaidade. Para ostentar a bandeira azul uma Câmara Municipal tem de pagar uns bons milhares ao certificador que fica num dos países nórdicos.

Como somos governados por acéfalos, que esbanjam o que não é deles, nem lhes custou a ganhar...


Comentar post

mais sobre mim
subscrever feeds
últ. comentários
Outros tempos ,diria mesmo meus tempos de rapaz ,o...
Pois ,nesse estado bem bebido até a sua sombra ele...
Ver está foto, salta-me muitas saudades de ouvir m...
Pescador da Nazaré ,homem do antigamente ,com traj...
Uma das formidáveis pinturas de Almada Negreiros, ...
sou de Nazare gostava de saber o meu estorial de 1...
....................COMEMORAÇÕES DO DIA DA MARINHA...
Esta réplica do Vila do Conde, participou em vário...
Pois é exactamente tal como acima se diz.Depois de...
Boa tarde , com respeito a foto aqui presente eu j...

culturmar

tags

a nova fanequeira de vila chã

ala-arriba

alan villiers

apresentação

aquele portugal

argus

arte marítima

bacalhoeiros canadianos-americanos

bacalhoeiros estrangeiros

bacalhoeiros portugueses

barcos tradicionais

caxinas

cultura costeira

diversos

fotos soltas

galiza

jornal mare - matosinhos

memórias

modelismo naval

multimédia

museus do mar

pesca portuguesa

póvoa de varzim

relatos da lancha poveira "fé em deus"

santa maria manuela

veleiros

vila do conde

todas as tags

Vídeos
links
arquivos