Terça-feira, 22 de Junho de 2010
Incultura marítima.

OS NAVIOS DO INFANTE

E OS BARCOS DA COSTA DE PORTUGAL

  Artigo publicado no Diário de Notícias de 29 de Agosto de 1960

por Jaime Martins Barata

 

            «(...) O barco é uma das mais belas criações utilitárias do homem e para muitos, a mais bela. A sua forma, afinada, depurada, provada pela experiência, é eminentemente funcional, aproxime-se ela das formas dos peixes ou siga mais as das aves aquáticas. Será por tudo isso que a sua beleza é tão pura.

O barco deve ser amado por ele mesmo, mais ainda num país «todo ele marítimo» como o nosso, e também pelo que nele se retracta da vida milenária dos homens, com uma perenidade difícil de conceber-se através das máquinas modernas ainda sem tradição. Com esse amor, a arqueologia naval é uma coisa viva e não fossilizante. Antes de ser ocupação de cientistas medidores é campo de artistas, mais afeitos, por natureza, às subtilezas das linhas e das superfícies do que o observador comum, mesmo com grande erudição histórica, naval ou matemática. A ideia contrária, do predomínio do pormenor sobre o conjunto de pormenores, ideia ainda reinante nalguns lados, explica a existência em muitos museus navais (não é só no de Lisboa) de modelos que podem ter todas as coisas que devem ter, mas não as têm nas proporções e na expressão devidas e por isso soam a falso.

O arqueólogo naval, particularmente no capítulo da forma dos cascos, pode não ser marinheiro nem construtor; basta-lhe que os possa entender, na escala em que esse conhecimento interessa à sua formação humanística e artística, o mesmo é dizer universalista (e universitária, sem mal nenhum), que lhe é indispensável, e a uma paixão que não se inventa nem nunca poderá ser profissional. Alguns queridos amigos, velhos companheiros do liceu e das matemáticas da Faculdade, e agora em altos postos da Armada, dizem-me estarem absolutamente fora dos problemas do barco antigo, que em nada lhes interessam. Têm outros violinos de Ingres.

Acusam-se em geral os artistas de fantasiosos e tem-se mais confiança em provas fotográficas do que em desenhos ou pinturas documentais. Mas será legítimo duvidar-se da concordância universal tantas vezes verificada nos desenhos de vários artistas da mesma época? Será lógico duvidar-se da objectividade de pinturas como as de Rafael, Carpaccio, Van der Welde, Breughel, etc., que nos seus quadros teriam reproduzido tudo certo, das pessoas aos monumentos, alguns existentes ainda, e só errariam nos barcos? Certamente há pormenores que não se entendem bem em pequenos desenhos muito antigos porque são perfeitamente ilógicos aos olhos dum construtor actual. Mas o modelo de Mataró, feito em 1450 «certamente por mãos marinheiras», vem explicar alguns desses pormenores ilógicos e a dar razão aos desenhadores. O barco antigo, acima da linha de água, está quase sempre carregado de «erros» construtivos. Eram assim mesmo e este tema levar-nos-ia longe.

Na Exposição do Mundo Português viu-se a carta de Juan de la Cosa, do começo do séc. XVI, onde aparecem algumas das primeiras representações conhecidas de caravelas portuguesas, e uma de Mateus Prunes, de 1563, onde aparece uma caravela de três mastros, um deles arvorando uma vela altíssima.

Não podemos saber rigorosamente como era a caravela henriquina e por isso declinei o convite que me fizeram para reconstituir, em Lisboa, uma «rigorosa». Ninguém sabe. Todavia, o que se afirma comummente é que devemos desconfiar dos desenhos antigos porque neles se exagerava muito a guinda e o tosamento dos barcos, ou sejam a altura das velas e a curvatura dos cascos.

Por isso um meu amigo, entendido técnico, procurava demonstrar-me a injusteza de certo modelo de caravela, exibido na Exposição de Belém em 1940, de grosso casco e pequenas velas. Mas ao sairmos do pavilhão onde estava o modelo os meus olhos deslumbrados viram correr, sobre as águas agitadas do Tejo. com vento muito fresco, a vela esguia duma canoa que demandava a barra. Apontei-a ao meu amigo. Era a ressurreição da caravela desenhada na carta! As razões que ele me deu para me provar que a caravela não podia ser assim, têm um adjectivo que eu acho delicioso; eram "perfunctórias".

Numas águas como as do século XVI, sob um céu como o do século XVI, um barco de madeira como os desse tempo, com vela semelhante às de então, «nas proporções que viramos pouco antes no desenho de Mateus Prunes», tripulados por homens como os daqueles anos, a fazer o que eles faziam, pelos mesmos meios, e com os mesmos fins, era mentira. A congeminação académica que se corporizara na múmia exposta era a verdade.

Não se pode vencer esta cegueira.

A costa portuguesa, tendo sido, no decorrer de dezenas de séculos, ponto de confluência equilibrada de duas correntes de civilização, a do Norte e a do Mediterrâneo, e depois a do Extremo Oriente, arquivou nos seus barcos o melhor do que lhe veio de todas aquelas origens. Dizia Quirino da Fonseca ser a costa portuguesa a mais rica de tipos de barcos de pesca em toda a Europa, e eu creio-o bem. Muitos desses tipos ligaram-se, pouco ou muito, mas outros mantiveram vida isolada.

É curioso ver, ainda agora, como os mestres de machado, alguns deles quase iletrados, talham e dispõem as madeiras com formas consagradas mas nunca repetidas com rigor matemático, e sem planos ou papéis. E como, ao lado de barcos como o rabelo e o rabão, de que fazem primeiro o fundo, depois o costado e só no fim as cavernas, constróem outros, começando peia quilha e pelas cavernas e terminando pelo forro. Como conclusão impressiona fundamente ver no Douro um barco rabão, de claras formas orientais, todo ele em curvas maravilhosas, subtis e moles, encostado a uma barca poveira, de linhas hirtas e secas, de manifesta influência nórdica. É como se víssemos um árabe ao lado dum saxão. Isto passa-se em Portugal e não se passa já nas costas de Espanha ou da França ou da Itália, pelo menos no que eu conheço.

O conhecido modelo de prata mesopotâmico de Ur, de há uns 8000 anos e agora num museu inglês, é perfeitamente semelhante aos barcos de mar da Costa Nova ou da Torreira. Não sabemos de outros iguais nas costas europeias. Medite-se no que isto quer dizer.

A muleta de pesca era um barco inconfundível. Uma canoa da picada, um batel da Nazaré, ainda há pouco eram barcos vivos, genuinamente portugueses, tripulados por portugueses e tão ligadas à caravela que quase a podiam representar agora. Mas «eram»; com infinita pena o dizemos. Eram, porque todos estes barcos maravilhosos desapareceram em nossos dias e sem deixar rasto, diante do motor vitorioso.

Que nos fica a lembra-los? No nosso Museu de Marinha não conheço, neste sector, mais do que umas reduzidas miniaturas sem categoria para um museu e para a sua missão.

Em S. Jacinto o cadáver dum barco corno o de Ur embranquece ao sol e à brisa, no areal salino. Ninguém o quer. Pela costa acima dizem-me haver apenas catorze barcos daqueles, com uma vida triste, e que não serão substituídos, porque a sardinha fugiu, a xávega é penosa e não compensa. Irão fazer companhia ao de S. Jacinto. E depois? Depois, como em Setúbal, Sesimbra e Nazaré, nada.

Entretanto, segundo sei pelos Drs. Alberto Souto e Vale Guimarães, por sugestão dum pintor espanhol, um museu da América comprou cá e levou para lá um daqueles barcos incomparáveis, «os mais belos do mundo».

Assim, quando os nossos filhos quiserem saber como eram os nossos barcos, já sabem, pelo menos, onde podem ir ver um deles.

No lindo cenário das Ataracenas, Barcelona mostra alguns dos seus barcos de pesca reais, dos que andaram no mar.

A Holanda dispensa por ora esse museu. Os seus verdadeiros museus desses barcos são os canais, com inúmeras embarcações antigas, amorosamente conservadas e servindo de «casas de campo itinerantes».

Entre nós vimos há pouco num jornal do Porto que uma família de Póvoa de Varzim, de apelido Fome Negra, oferecera ao museu da sua terra uma barca local, com todos os seus pertences, vendo o desaparecer absoluto dum tipo secular e famoso. Mas este lindo gesto ficará, talvez, isolado.

As nossas instâncias oficiais ainda não deram um passo, que seja do nosso conhecimento, no sentido de salvar algumas daquelas espécies únicas e moribundas. Não temos o direito de nos queixar da incúria dos nossos avós quando numa viragem da civilização tão evidente e fulgurante como aquela a que assistimos deixamos perder os tesouros que eles nos deixaram — e irremediavelmente.

Faz-nos falta um museu constituído por exemplares reais dos nossos barcos tão variados, abrigados em telheiros (o barco sufoca entre paredes) onde a forma total das querenas, insuspeitada por muitos, pudesse ser admirada como as estatuas antigas. O seu custo seria irrisório e o seu valor, como propaganda portuguesa, como interesse turístico e cultural, seria no futuro de grandeza imprevisível agora. Artistas novos, de preferencia escultores, deveriam estudar e ordenar as peças.

Ver-se-ia então como a beleza das formas de alguns destes barcos suportava com vantagem o confronto com os lindíssimos bergantins que, felizmente, se conservam, se nos abstrairmos da riqueza ornamental destes.

Esse museu faz falta a Portugal. Anexo ao Museu de Marinha ou separado, nas condições do Museu dos Coches, que também nada tem que ver com o Ministério das Comunicações.

Um barco a motor de agora pode ser belíssimo nas linhas sóbrias que a decoração moderna explora; estão nesse caso de acordo a maquina e a concepção estética com ela nascida ou pelo menos sua contemporânea.

Repare-se, entretanto, na fealdade das traineiras, alheias de todo àquelas concepções estéticas «e feitas precisamente pelos mesmos homens» que fazem os maravilhosos saveiros, varinos, moliceiros, etc., e compreender-se-á o desacordo entre o Diesel e os velhos barcos à vela ou a remos. Aquele vai vencer tudo, fatal como o destino. Acudamos nós a estes, enquanto é tempo: enquanto temos alguns a conservar e temos quem saiba repetir os que faltam.»

 

Propositadamente, deixei este artigo sem qualquer imagem de barcos a ilustrá-lo, para que se perceba que passados 50 anos, esta belíssima faceta portuguesa praticamente morreu, excepto, talvez na região de Lisboa. Mais grave é ver tentativas ténues de recuperar algo do que se perdeu, mas pouco ou nada disso vinga e dá frutos cada vez mais, como deveria. Pior que isso, é a quase total "imcompreensão do barco" por parte das novas gerações e o desprezo da maioria das altas patentes e responsáveis pelo mar no nosso país, "pelo antigo".

Portugal de mar tão tristonho este que temos... .



publicado por cachinare às 11:36
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1 comentário:
De Anónimo a 5 de Julho de 2010 às 13:13
Infelizmente, quanto aqui se dizia, pela pena brilhante
de Jaime Martins Barata, publicado no Diário de Notícias, no já longínquo ano de 1960, era verdade.
Passados que são 50 anos, no que respeita à preservação dos Barcos Tradicionais da Costa Portuguesa, a situação é bastante pior, mau grado uma ou outra desesperada tentativa de algumas Associações, nomeadamente a Associação Barcos do Norte, sediada em Viana do Castelo.
Depois, como se não bastasse a motorização das
embarcações, como refere o articulista, vinda algures da União Europeia, veio-nos essa "chaga"
do abate das embarcações, com o qual alguns
ganharam milhões...
Enfim, a eterna guerra dos cifrões.

Como o CACHINARE por certo recordará, há meia
dúzia de anos atrás, a Associação dos Antigos
Marinheiros da Armada, de Vila do Conde, queria
recuperar com rigor, cerca de + de uma dezena de
Embarcações Tradicionais da Costa Portuguesa.
Obviamente, daquelas mais significativas, as quais,
estariam ancoradas, permanentemente em foto,
frente à Praça da República, ali bem perto da Ponte Rodoviária e da Estrada Nacional nº 13, o que constituíria mais um Ex-Libris e grande cartaz turístico para
Vila do Conde, já que seria único no País.
Entretanto, uns politicaram,
...e outros zarparam !

Albino Gomes
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Infelizmente, quanto aqui se dizia, pela pena brilhante <BR>de Jaime Martins Barata, publicado no Diário de Notícias, no já longínquo ano de 1960, era verdade. <BR>Passados que são 50 anos, no que respeita à preservação dos Barcos Tradicionais da Costa Portuguesa, a situação é bastante pior, mau grado uma ou outra desesperada tentativa de algumas Associações, nomeadamente a Associação Barcos do Norte, sediada em Viana do Castelo. <BR>Depois, como se não bastasse a motorização das <BR>embarcações, como refere o articulista, vinda algures da União Europeia, veio-nos essa "chaga" <BR>do abate das embarcações, com o qual alguns <BR>ganharam milhões... <BR>Enfim, a eterna guerra dos cifrões. <BR><BR>Como o CACHINARE por certo recordará, há meia <BR>dúzia de anos atrás, a Associação dos Antigos <BR>Marinheiros da Armada, de Vila do Conde, queria <BR>recuperar com rigor, cerca de + de uma dezena de <BR>Embarcações Tradicionais da Costa Portuguesa. <BR>Obviamente, daquelas mais significativas, as quais, <BR>estariam ancoradas, permanentemente em foto, <BR>frente à Praça da República, ali bem perto da Ponte Rodoviária e da Estrada Nacional nº 13, o que constituíria mais um Ex-Libris e grande cartaz turístico para <BR>Vila do Conde, já que seria único no País. <BR>Entretanto, uns politicaram, <BR>...e outros zarparam ! <BR><BR>Albino Gomes <BR><BR class=incorrect name="incorrect" <a>ps</A> : Quanto ao preço de tal empreendimento, segundo o nosso projecto, apenas irrisório. <BR>Tudo seria uma questão de vontade... <BR><BR><BR>


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