Sexta-feira, 25 de Junho de 2010
"Cachineiros a bordo!"

 

«Abundando nesta conflictiva relação entre comunidades próximas, trarei aqui um exemplo da costa Norte portuguesa, concretamente de Vila do Conde e a sua quase limítrofe Póvoa de Varzim. No extremo da primeira, pela parte do mar, está o bairro de pescadores da Cachina e practicamente ao lado as casas dos marinheiros da Póvoa. Como não podia deixar de ser, as relações entre ambos os dois grupos são tensas.
Num antigo trabalho levado a cabo com a metodologia de “palavras e coisas”, podemos ler o que um rapazote da Cachina dizia à investigadora: “Ólhi, Sinhora, bote tamém isto nos sês escritos, nû s´isqueça: os cátchinos sã munto bôs, num sã com´ós da Póboa que tém más corage, mas bê o mal e num le bótu-na móu! (Netto, 1949:25).
Lembro agora uma anedota que agradeço ao Dr. Costa Pinto. É bem sabido que os portugueses pescavam ao bacalhau desde, pelo menos, a alvorada do séc. XVI (Cf. Moutinho, 1985). Utilizaram durante vários (dois) séculos a mesma técnica: uma embarcação que transportava muitos homens e botes, os dóris. Chegado o navio ao local eleito, lá nos Bancos da Terranova, arriavam todos os dóris com um pescador em cada; afastando-se estes do navio, começavam a pescar à linha; andavam assim todo o dia e, à caída da tarde, o sino do navio chamava a todos para o regresso da pesca. A chamada fazia-se também quando o capitão via que se aproximava temporal ou chegava a névoa (dois fenómenos habituais naquelas latitudes). Numa ocasião, e aqui vem a anedota, o navio chama os dóris e estes chegam ao costado; com o temporal a vir, o capitão, possivelmente de Aveiro, diz: “Poveiros a bordo” e vê como sobem vários pescadores, mas muitos outros se deixam ficar nos seus botes... e o mar a crescer. Ao capitão, sem perceber o que se passa, diz-lhe alguém que seria melhor dizer também “Cachineiros a bordo”. Dito e feito, sobem todos. Um cachineiro prefere deixar-se ficar num mar de temporal, a refugiar-se num navio onde todos são considerados vizinhos poveiros.»
 
do artigo de Francisco Calo Lourido - «INDIVIDUALISMO FRONTE ÓS NOSOS, AFIRMACIÓN LOCAL CONTRA OS ALLEOS E DEFENSA DO TERRITORIO.»
 
in Antropoloxia Mariñeira - Actas do Simpósio Internacional, 1997 – Pontevedra, Galiza.
“aportuguesado” do original em galego.
 
foto - FRV Anton Dohrn

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publicado por cachinare às 20:29
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2 comentários:
De jaime pião a 26 de Junho de 2010 às 02:07
Boa noite ou bom dia que ja é ,mas para comentar estes ditos e scritos do amigo António ,também digo que esta foto me faz recordar muito da então vida da pesca do bacalhau ,até porque este Navio o Adélia Maria quase se assemelhava ao Avis ,Navio que dei as ultimas 3 viagens e que saudades tenho, mesmo vivendo dias horriveis nos mares gelados da Groenlândia e Terra Nova ,por isso prometo sempre comentar positivamente estas fotos de antigos Navios Bacalhoeiros .
Com respeito aos Poveiros e Caxineiros ,tem razão quem escreve que ambos são demaziados bairristas ,mas tem uma coisa muito diferente entre eles ,é que o pescador Caxineiro na hora de acudir ou socorrer não olha a propria vida para acudir quem ,mesmo o seu inimigo, e ao longo dos anos se contam muitas histórias sobre casos acontecidos entre estes dois povos vizinhos , eu vi com meus olhos vezes sem conta quando alguns barcos Poveiros arribavam a praia de Caxinas e sentiam-se dignificados com isso ,mas também é verdade que muitos diziam mesmo que preferiam morrer na barra da Povoa do que vir para a barra das Caxinas .
Um dia eu já com minha motora o Jaime Pião estava em Vila do Conde atracado ao cais com minha rapaziada reparando os covos ,estava muito temporal de Sodoeste e o mar era bastante vivo como se diz em giria ,as Motoras que normalmente faziam porto na Povoa vinham da pesca direitos a Povoa ,só que o mar era tanto que fizeram rumo a Leixões ,mas também o temporal de sodoeste não deixava muito as motoras navegarem a vontade era dificil romper ,então o Comandante da Capitânia veio ao cais da lota onde estava eu e mais, e me pediu para eu ir a barra de Vila de Conde porque havia motôras que queriam entrar a barra mas tinham receio , eu logo me prontifiquei ,liguei o radio e com dois companheiros a bordo la fui pra barra , a maré era bem cheia ,o rio trazia muita corrente mas dava entrada e bem ,por isso la convidei a rapasiada a entrar porque eu fazia o lugar de salva vidas ,vieram uns quantos entraram maravilhosamente bém ,mas qual o meu espanto que vejo umas quantas a navegar rumo de sul ,então diretamente da Capitania o Sre Comandante fazia o convite para virem para Vila do Conde ja que tinham entrado alguns e bem ,a resposta não se fez esperar ,que antes queriam entrar em Angeiras do que em Vila do Conde, total menosprezo pelas autoridades e por quem como eu estava ali arriscando um pouco fazendo de salva vidas ,por isso quem quizer saber coisas relacionadas com os dois povos vizinhos sobre a pesca e as suas rivalidades ,ainda há quem esteja entre nós que tenha muitas vivencias passadas e que se lembram bem das diferenças entre Poveiros e Caxineiros !!!


De Anónimo a 28 de Junho de 2010 às 18:09
Sem contrariar quanto nos dizem os amigos Fangueiro e Jaime Pião, entretanto, diga-se em abono da verdade, que hoje os tempos serão outros.
Depois dos anos sessenta, com a invasão da Póvoa pelos forasteiros, que compravam tudo e mais alguma coisa, cada vez mais pescadores venderam as suas casinhas a Norte, vindo instalar-se nos nossos bairros
piscatórios de Caxinas e Poça da Barca, onde os preços eram mais acessíveis.
A partir daí, houve uma ainda maior miscigenação das
populações, e de tal forma, que à medida que aumenta a classe piscatória de Vila do Conde, vai diminuindo a da visinha Póvoa.

Quanto ao episódio dos «poveiros a bordo», quanto sei, parece não ter sido nenhuma anedota, mas sim um facto verdadeiro, há muito conhecido.
Havia de facto o hábito de «meter tudo no mesmo saco», como se costuma dizer.
Veja-se o que fez o grande (mas pouco cuidadoso)
escritor Raúl Brandão, quando escreveu o seu livro
OS PESCADORES. Começa por Caminha, Âncora,
Viana, Esposende, Póvoa...e daqui salta para
Matosinhos, etc., por aí abaixo até ao Algarve, "ignorando" pura e simplesmente a nossa
grande classe piscatória, talvez pensando que eles
seriam poveirinhos pela graça de Deus.
Para além de escrever bem, um grande escritor tem,
sobretudo, que se informar melhor...
Por ora,

Albino Gomes


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