Quarta-feira, 30 de Junho de 2010
O papel das mulheres na pesca costeira da Terra Nova e Labrador.
Desde os inícios do séc XIX até 1940, a maioria da população da Terra Nova estava envolvida na pesca costeira, levada a cabo com o uso de barcos até 10 metros de comprimento, a qual se reflectia na produção de bacalhau seco salgado. Nas famílias, os homens (pais, maridos, filhos e irmãos), apanhavam o peixe nestes pequenos barcos e o aparelho usado era as linhas de mão e armações do bacalhau, enquanto que a “equipa de terra” (mães, esposas, filhas, irmãs e filhos pequenos) limpariam e salgariam o peixe. As mulheres levariam então o peixe salgado a ser estendido em suportes de madeira para a seca ao Sol até estar curado. As mulheres recolhiam o peixe todas as noites ou durante tempo de chuva.
Para além da cura do peixe, as mulheres também tratavam das tarefas essenciais à família como a conserva de comida, manufactura de roupas ou jardinagem. De acordo com os registos dos censos da Terra Nova, em 1891, 33% da população ligada à pesca eram mulheres, em 1901 era de 34% e em 1925 38%. Nas comunidades rurais, as mulheres eram conhecidas como sendo responsáveis por metade do trabalho, mas nas comunidades costeiras, a sua função fazia a diferença entre sobreviver ou passar fome.
Com o início da II Guerra Mundial, a pesca na Terra Nova e o papel das mulheres mudaria dramaticamente. As mulheres começaram a procurar trabalho nas fábricas de peixe congelado, trabalho esse bastante diferente do da cura tradicional. Na fábrica, o trabalho estava dividido num certo número de tarefas diferentes. Após a descarga do bacalhau, este era metido em máquinas que o escalavam, tiravam a pele e espinhas. O bacalhau mais pequeno era normalmente escalado à mão. Depois disso passava para a apartagem por tamanhos e qualidade. De seguida era pesado e colocado em caixas nas quais seguia para a congelagem. Depois de congelado, aguardava a exportação.
Embora as mulheres levassem a cabo todas as tarefas relacionadas com pesca tradicional, nas fábricas o seu trabalho era mais limitado. Os homens predominavam como operadores das máquinas, frigoríficos e escaladores à mão, enquanto as mulheres nas fases de pesagem e empacotagem, sendo estas as tarefas de ordenado mais baixo. Apesar desta diferença nas posições e ordenados, em 1991, 60% dos trabalhadores nas fábricas eram mulheres.
Antes dos anos 70, só muito raramente as mulheres se envolviam na pesca directa de peixe. Embora a principal razão fosse a pressão social sobre os trabalhos “típicos” de homens, os regulamentos do Governo também não permitiam grandes opções às mulheres. Dois factores levaram a que mais mulheres se envolvessem na pesca. À medida que de ano para ano, a apanha de peixe diminuía e os custos de manutenção dos barcos aumentava, mais mulheres começaram a sair para o mar com os maridos de modo a trazer maior parte de dinheiro para a família. Por outro lado, nos anos 80, uma mulher pescadora de nome Rosanne Doyle, natural de Witless Bay, Terra Nova, confrontou com sucesso os regulamentos do Seguro de Desemprego, o qual ainda negava quaisquer benefícios às mulheres de pescadores. Mulheres que trabalhavam com os maridos a bordo dos seus barcos passavam assim a ter direito a benefícios deste seguro. Em 1991, 1.190 mulheres trabalhavam na pesca directa.
Nos inícios dos anos 90, o bacalhau que durante séculos fora o sustento da economia da Terra Nova, virtualmente desapareceu, devido a vários anos de pesca excessiva. Em 1992, o Governo do Canadá declarava a moratória sobre o bacalhau na Terra Nova e as pequenas comunidades piscatórias seriam devastadas por isso. Embora muito de tenha falado sobre o futuro dos pescadores (homens), as mulheres foram bastante atingidas por esta medida que traria crise social e económica. Antes da moratória, cerca de 15.000 mulheres estavam empregadas na indústria do peixe e carca de 10.000 tiveram direito a compensações, no entanto esses programas terminariam em 1998. Desde o colapso do bacalhau, a indústria de pesca na Terra Nova emprega um número muito menor na pesca de caranguejo e camarão. A competição por licenças e empregos em pequenas fábricas tem sido intensa.
Apesar das mulheres terem atingido elevados números na força de trabalho das pescas, sempre tiveram poucos direitos de afirmação nas políticas do Governo e só após a moratória se têm formado grupos de discussão específicos. Se o futuro das pescas lhes trará mais direitos à riqueza por elas gerada, é algo a analizar.
 
Traduzido do artigo de Miriam Wright, 2001 – Memorial University of Newfoundland

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publicado por cachinare às 11:35
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2 comentários:
De jaime piao a 3 de Julho de 2010 às 12:11
Bom dia meus amigos ,hoje a foto nos mostra as famosas e trabalhosas secas de bacalhau ,que cá em Portugal também as havia e muitas , por isso vou comentar uma das muitas histórias que minha avó me contou . <Anos 30 -40 - 50 até 60 e 70 »aqui nas Caxinas ,muitas das nossas raparigas e mulheres trabalhavam na seca de bacalhau sediada em Vila do Conde junto a dita doquinha hoje lota de vendagem ,e depois mais junto a Senhora da Guia ,a minha avó tinha as filhas minhas tias a trabalhar na dita seca e como enviuvou muito cedo ,aos 34 anos ,o meu avô Pião morreu com 35 anos de idade deixando no mundo 8 filhos que a minha avó com muitos sacrificios ,levou por diante a dura tarefa de os criar ,vida muito dura para essa jente de então, que sem rendimentos nenhuns nem ajudas de ninguém ,simplesmente vivendo do que o mar dava , na altura o meu avô Pião deixou ficar de bens dois barcos um piladeiro e um sardinheiro ou fanaqueiro , barquinhos de boca aberta de remo e vela de pesca local e costeira , sendo os mesmos entregues a governar pelos arrais na altura mais velhos que ja não andavam na pesca do bacalhau , até que os filhos mais velhos meu tio Francisco e meu pai muito cedo bem jovens começaram a governar os barcos dos meus avós ,as filhas como disse antes andavam na seca do bacalhau e assim a minha avó conseguiu levar por diante com bastantes sacrificios a boa maneira Caxineira a educação dos filhos que embora um pouco rude ,era sadia e bem feliz tempos difíceis esses ... Um dia a minha avó em tempo de Inverno como sempre ia a praia e fazia montes de o chamado cisco ,gravulha como chamavam que era pequenos paus e casqueirões que do rio ave levado pelas correntes ontem como hoje tudo bem parar na praia das Caxinas ,mas não só os ditos casqueirões e paus mas também de vês enquando apareciam nesses tempos animais como bois porcos e galos ou galinhas ,então minha avó levou para casa que era bem perto da praia um porco que era bem bom dizia ela porque parecia que ainda estava vivo ,claro com as cheias das chuvas que antigamente faziam e que nem haviam as ditas barragens os rios corriam mais selvagens o que hoje não acontece ,então a minha avó levou o porco para casa e trabalhou ,preparou tirou as visceras limpou queimou e no fim dependurou o dito porco nos caibos da cosinha, bem salgadinho tava ali o sustento para uns meses ,mas não foi assim ,porque passados uns dias apareceram os fiscais da Câmara e com muito lamento da minha avó levaram o porco porque diziam na altura foi ordem sanitária e assim minha avó ficou sem o porco ... Outro dia de Inverno claro, minha avó levou da praia um bom galo que como o dito porco dizia ela que ainda estava quentinho tinha morrido naquela altura e preparou o galo depois de bem limpo, cozinhou o dito com um arrôz e meteu tudo numa cesta de vime na altura e levou as filhas que estavam trabalhando na dita seca do bacalhau ,o que suscitou dúvidas as minhas tias que perguntaram a minha avó porquê galo se era dia de semana o que não era costume já que era as sardinhas e os carapaus salgados que vigorava nas refeições nesses tempos ,e assim se passavam os dias com umas fintas da minha avó de permeio ,diria eu quão difícil eram esses tempos aqui nas Caxinas e não só !!!!


De Anónimo a 4 de Julho de 2010 às 11:03
Parabéns ao A. Fangueiro, por nos trazer aqui mais este naco de cultura sobre a vida das mulheres dos pescadores da Terra Nova, extensivos ao amigo Jaime Pião, que a partir deste texto nos transporta para a vivência das nossas gentes das Caxinas,
Poça da Barca e lugares limítrofes.
Duros eram esses tempos de então, com tantas e tantas bocas carentes de um bocado de pão,
. . . enquanto outros, morriam de congestão.
Parabéns, pela coragem de aqui nos trazerem histórias verídicas e humanas, idênticas a tantas outras, que ainda hoje nos perduram na memória. Pena é que outros, agora na farpela de "novos ricos", teimem em ignorar quanto deixaram de passar.
Um abraço,

Albino Gomes
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