Sexta-feira, 30 de Julho de 2010
“Rose Dorothea” e o Capitão Marion Perry.
Esta escuna do tipo “cabeça de índio” foi desenhada pelo conhecido Tom McManus e construída nos estaleiros de Tarr & James em Essex, Massachusetts em 1905, custando na altura 15.000 dólares. O seu dono foi o Capitão Marion Perry, o qual usaria a escuna para a pesca nos Grandes Bancos e o nome dado à embarcação foi o da sua esposa. Tinha 33 metros de comprimento, pesava 108 toneladas brutas e levava uma tripulação de 26 homens. O seu fim seria por naufrágio no ataque de um submarino Alemão durante a I Guerra Mundial.
Esta escuna, com porto de abrigo em Provincetown, participaria e ganharia a Taça dos Pescadores de 1907, com partida em Boston num total de 39 milhas até Gloucester e regressando de novo a Boston. O grande derrotado foi a famosa escuna da época “Jessie Costa”. O prémio foi de 650 dólares e um troféu em prata avaliado em 5.000 dólares, oferecido pelo entusiasta de corridas de iates Sir Thomas Lipton (o magnata do chá).
No que respeita ao seu capitão, Marion Perry, a sua história revela inúmeros contactos com a comunidade Portuguesa de pescadores de Provincetown e Gloucester já que o nome “anglo-saxónico” esconde a sua verdadeira origem. Nascido em São Miguel, Açores, a sua família cedo emigrou para Boston e o apelido “Pereira” passaria a “Perry”. Criança e homem que nunca gostara das reuniões familiares, sapatos novos, festas de aniversário, gravatas ou cumprimentos de ocasião, dedicou-se jovem à vida do mar, pois tinha um raro gosto pela vida dura e pela liberdade que o mar podia proporcionar, ao contrário de terra e com 18 anos já era capitão. Num par de anos a comandar a pequena embarcação “W.B. Keene” de Provincetown, provou ser um grande pescador competindo contra barcos maiores e capitães experientes. Mais tarde passaria ao comando do maior “Mary Cabral” e pouco depois do ainda maior “William A. Morse”, onde atingiu grandes recordes de pesca.
Entretanto casaria com Rose Dorothea, de origem Irlandesa e a sua primeira filha daria o nome à sua nova escuna “Annie C. Perry”. Nessa embarcação, especialmente contruída para ele em 1903, tomou o seu lugar entre os “campeões” da pesca nos Bancos, capitães como Manuel Costa da escuna “Jessie Costa”, Johnny Bull Silva da “Isaac Collins”, Joe Silva da “I.J. Merritt” e Manuel Crawley Santos, que na “Philip P. Mants” seria o grande campeão em 1903.
Nas duas estações seguintes, o Capitão Perry fez grande figura na sua nova escuna, mas ainda não estava satisfeito. A velocidade não era tudo, mas ajudava. Queria um barco ainda mais veloz, um que o pusesse em pé de igualdade com o capitão da “Jessie Costa”. Foi assim que em 1905, mantendo a sua parte como proprietário da “Annie C. Perry”, mandou construír a “Rose Dorothea”. Quando foi a Gloucester para tomar em mão a sua nova escuna, levou a sua esposa junto (após insistência desta) e mal viu a embarcação, de imediato resmungou e mandou que a levassem de novo para o estaleiro. As linhas eram perfeitas, mas a carpintaria abaixo do convés estava impossível, com demasiados arranjos e tolices modernas. «O que julgavam aqueles tipos em Essex que estavam a construír, um iate de Verão?» Mas a esposa do capitão fez-se ouvir e defendeu o aspecto da escuna, que lhe agradava imenso, com uma cozinha que não ficava atrás da dos melhores hotéis. E assim, para agradar à esposa, o capitão deixou ficar a escuna daquela forma e antes da primeira campanha de pesca, de novo por vontade da esposa e porque ficava bem a um capitão, foi organizada uma prova contra a “Annie C. Perry” de modo a testar a sua manobrabilidade. O capitão, mais uma vez de sorriso forçado fez-lhe a vontade e jornais, repórteres e fotógrafos vieram de Boston para registar o evento. A vitória do “Rose Dorothea” foi concludente e forçou-a tanto que partiu o topo do mastro de proa, o que o manteve em terra mais três dias antes de finalmente se poder despedir da esposa e “ir à sua vida”.
No Verão de 1907, uma das diversões programadas era a corrida de pescadores com meia dúzia das melhores escunas de Gloucester e Provincetown. O capitão Manuel Costa de imediato se inscreveu com a sua “Jessie Costa”, mas este ano estava a ser bom na pesca e quando a famosa “Rose Dorothea” foi convidada a participar, o seu capitão de imediato respondeu que não tinha tempo. A prata da taça era muita, mas o que se fazia com aquilo depois de a ganhar? Era demasiado grande para se beber por ela e o capitão Perry não precisava de uma taça para nada. O preço do peixe fresco estava alto e a “Rose Dorothea” faria umas boas corridas entre Boston e um certo sítio no Banco Georges. A palavra do capitão estava dada e se não fosse a intervenção da esposa por certo não mudaria. Rose Dorothea tinha visto uma foto da taça oferecida por Sir Thomas Lipton e era tão bonita que o marido tinha de entrar na corrida. Se depois não quisesse a taça, podia entregá-la para caridade. E assim o capitão levou a escuna para Boston para competir. Com apenas mais duas escunas presentes, a “Jessie Costa” e “James W. Parker”, as outras 3 inscritas ainda não tinham regressado das campanhas de pesca e assim foi decidido colocar a “James W. Parker” de lado, seguindo as outras duas em competição. A meio da corrida, de novo o topo do mastro principal da “Rose Dorothea” se partiu (foto 2) e o capitão Perry praguejava contra tudo e todos pela madeira usada no estaleiro e porque estava ali a perder o seu tempo por nada enquanto o peixe esperava por ele. Mastro partido eram mais 3 dias em terra! No entanto, mesmo de mastro danificado o avanço sobre a “Jessie Costa” mantinha-se e acabaria por vencer.
Na chegada à principal doca de Boston, capitão e tripulação foram recebidos por milhares de pessoas, media, banda de música e toda aquela confusão que pouco agradava ao capitão. Com o chapéu bem enfiado na cabeça a tapar as orelhas (recusara usar o chapéu comprado especialmente pela esposa), saltou por entre a multidão à procura do telefone mais próximo. Por entre assobios de festa e música da banda, atirou com tudo o que tinha (sem direito a tradução) contra aqueles carpinteiros de piratas que lhe fizeram tamanhos mastros e mastaréus.
Três semanas após a vitória, importantes celebrações foram levadas a cabo em Provincetown, com um monumento aos primeiros colonos do “Mayflower” e o presidente Roosevelt estaria presente. A sua equipa preparou cuidadosamente um plano de actividades para o presidente, o qual incluía um encontro com os pescadores de Cape Cod e por sugestão do seu responsável pela publicidade, um encontro com o famoso capitão ainda recentemente vencedor da corrida de pescadores, Marion Perry.
No entanto, este seu “momento de inspiração” não fora o melhor, pois o capitão tinha outro dia bastante ocupado. Enquanto a populaça de apinhava para ver o presidente, Marion Perry estava na doca a verificar novos equipamentos e aparelho na “Rose Dorothea”. Quando mandaram um menssageiro à sua procura a casa, disseram-lhe que devia estar na doca e indo lá, leu a menssagem ao capitão. O menssageiro aguardou e decidindo que o capitão não o teria ouvido bem, recitou de novo tudo um pouco mais alto. De repente, o capitão trincou o lápis que tinha na boca e deixando cair alguns papéis entre o barco e o cais, virou-se para aquele chato e disse: «Pronto, está bem! Diz ao Presidente que se me quiser ver, sabe onde me pode encontrar!»
A história correu a comunidade e nessa noite o raspanete da esposa foi grande, ao qual o capitão manteve o silêncio, envergonhado. Respondeu-lhe que escreveria uma carta ao presidente a pedir desculpas. Essa carta dizia assim: «Honrado Senhor, diz-se que da sua parte, enquanto reunido com os pescadores no Odd Fellows´ Hall em Provincetown, lhes fez saber que um dia gostaria de os visitar em plena faina nos Bancos para com eles conversar. Eu, como capitão e em parte dono da escuna “Rose Dorothea” de Provincetown, a embarcação que venceu a corrida da Taça Lipton em Boston, cordialmente o convido para a minha escuna durante uma campanha até aos Bancos, ficando a data da partida à escolha de V/Excelência.»
Em 1977, uma réplica a meia escala da escuna “Rose Dorothea” foi construída por Francis “Flyer” Santos, construtor naval desde os 15 anos de idade, a qual se encontra no Provincetown Heritage Museum. (fotos 1 e 3).
 
Texto baseado e traduzido de “In Great Waters - The Story of the Portuguese Fishermen in Gloucester and Provincetown” – Josef Berger - 1941


publicado por cachinare às 09:06
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1 comentário:
De michael bogoger a 1 de Agosto de 2010 às 03:24
Ahhh! So, what does the term " double banked" refer to? Barry Fisher says that all of the dories he fished were "double banked".
The original conversation on Doryman:
https://www.blogger.com/comment.g?blogID=5007838299911865964&postID=747599375169258866


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