Segunda-feira, 30 de Agosto de 2010
Os verdadeiros super-homens.
«Na passada segunda-feira, dia 6 de Abril (de 2009), uma chuva mansa e silenciosa trouxe do mar o mais mítico navio português do século XX. Regressou ao País quase anónimo, puxado por um rebocador espanhol que o resgatou das latitudes do Sul e de um tribunal que por arresto o leiloou em Aruba.
Diz quem sabe que ao partir, vendido, em 1975, levou as lágrimas de milhares de homens do mar e virou a última página da maior aventura portuguesa do século passado: a faina do bacalhau nos mares do Norte. Vestiu-se depois de madeiras que nunca tinha conhecido. Camarotes com casas de banho, que nunca houvera visto, bares e música para servir e animar nas Caraíbas os turistas maravilhados por este lugre de quatro mastros de novo baptizado como Polynesia.
Quando rumei à Gafanha da Nazaré, em Ílhavo, avisaram-me que iria encontrar um navio desfigurado, transformado profundamente pela sua segunda vida, talvez perdido e estragado para sempre. Regressei com a ideia contrária. Foi quem o pôs a navegar do outro lado do mundo que o salvou, mesmo que hoje pareça um destroço. Foi quem lhe deu destino, que sem intenção, preservou uma peça insusbstituível da história portuguesa que muitos desconhecem e alguns desprezam. Como não compreender quem advoga que a dimensão e a grandeza de um povo e de um país tem na sua essência o modo como vive e promove a sua cultura. Somos um país de uma riqueza marítima incomensurável, com um traço destintivo e identitário ligado ao oceano, caminho para construir um posicionamento de modernidade e de diferenciação. Somos a maior nação oceânica da Europa e uma das maiores do mundo. E somos também capazes de não saber o que fazer com isso. Utilizamos timidamente os recursos do mar e os nossos portos. Temos uma das mais baixas taxas de navegação de recreio da europa ocidental. Um país onde quem tem um barco, por mais pequeno que seja ou é rico ou é considerado como tal. Não temos nas nossas escolas básicas e secundárias disciplinas ou actividades que nos liguem ao mar. E até a ideia da nossa Expo 98 e dos seus Clubes do Mar, bem como todo o investimento que aí foi feito, desapareceu e não voltou a dar à costa. Dizemo-nos um país de marinheiros, mas não é verdade. Os portugueses não vão ao mar, vão à praia.
E é por isso, e por ser tão evidente que a economia do mar é a nossa maior oportunidade e vocação, que quase não se estranha que dois empresários, Aníbal Paião e João Vieira, donos da empresa Pascoal, desde sempre ligados à pesca e ao comércio do Bacalhau, tenham nas mesmas semanas em que amarguradamente discutíamos a crise e o eventual afastamento da selecção portuguesa da fase final do Mundial da África do Sul, rumaram ao Caribe e do seu bolso resgataram o Argus de todos nós.

 

 

Talvez também não se saiba que estes mesmos empresários, no próximo mês de Outubro (de 2009) e após anos de luta e alguns milhões de euros de investimento privado, irão concretizar um outro sonho: colocar a navegar, totalmente recuperado o navio Santa Maria Manuela, navio gémeo do navio Creoula da Marinha Portuguesa, ambos construídos em Lisboa em 62 dias no ano de 1937. De repente Portugal, desanimado, distraído e desfocado, ganha uma frota única no mundo. Três veleiros de quatro mastros. E que são mais do que três navios. São a expressão de que nada acontece por acaso e que só com trabalho, visão e paixão, nos tornamos melhores e actuamos na nossa predestinação.
A meio do século passado alguns milhares de portugueses enfrentavam nos mares do Norte uma das mais difíceis jornadas de trabalho e de sobrevivência que a humanidade conheceu. Os verdadeiros super-homens não são os da Marvel ou de Hollywood. Foram os pescadores portugueses que pescando à linha e em pequenas embarcações de madeira, passavam seis meses sozinhos no meio do mar. Uma jornada tão dura que quem a fizesse ficava livre do serviço militar obrigatório e dos seus quatros anos de duração.
Somos, no entanto, já filhos de outro tempo e é por isso que a inspiração de homens como Anibal Paião e João Vieira nos podem fazer acreditar que afinal, a crise somos nós. Naquele dia cinzento de Abril algumas centenas de pessoas e familias inteiras e bloguistas correram a Ílhavo para ver que o navio não era fantasma. A notícia correu célere. Ainda bem que não sou editor televisivo. Arriscar-me-ia a ter uma fraca audiência, abrindo as notícias com este navio chegado da bruma.»


por David Azevedo Lopes, Diário de Notícias, 26 Abril 2009

 

Um excelente texto já com ano e meio, carregado de verdades, virtudes e maleitas do Portugal marítimo de desde há 30 anos. Gente de dinheiro em Portugal há muita, mas muito poucos sabem o que lhe fazer quando se fala de mar, não passando de habitantes de marinas em puro exibicionismo, mais a sua banheira branca de 400 cavalos. Que tal Uma Aventura na Pesca do Bacalhau?



publicado por cachinare às 08:42
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6 comentários:
De jaime pontes pião a 30 de Agosto de 2010 às 21:43
Maravilhado com esta foto ,os pescadores portugueses cada um dentro dum bote ,nos lejos da terra nova ,o mar no lejo ,o sá do lejo ,o pereira estes os lejos maiores ,mas havia outros com nomes diferentes interessantes como o brilhante os caraplins os obstáculos ,o gabinete e outros que não posso agora precisar ,enfim tempos que o tempo teima em não apagar enquanto alguém nos fazer lembrar estas coisas que a muitos diz !!!


De Celestino a 1 de Setembro de 2010 às 09:10
Plenamente de acordo com o texto. Apenas um reparo: para livrar da tropa eram necessários sete anos e não quatro como é referido. É mais um dado da ligação dos homens da Frota Branca, especialmente, aos eus companheiros do tempo das Descobertas e dos primeiros bacalhoeiros, em que os condenados à prisão ficavam em liberdade se embarcassem e chegassem vivos. Tal era a dureza daquela vida. Sobre o comentário do Jaime Pião, é interessante reter como nós pescadores portugueses chamávamos à nossa língua os nomes ingleses daqueles mares.


De Anónimo a 4 de Setembro de 2010 às 23:05
Na classe dos Verdadeiros Super Homens, justo recordar aqui a memória de Manuel Marafona, velho
Lobo do Mar das muito nossas Caxinas/Poça da Barca, que devido à brisa, andou perdido durante 7 dias e 7 noites, nos mares da Terra Nova.
Quando foi recolhido por um barco estrangeiro,
estava tão depauperado e sem forças, restando-lhe
enormes chagas nas nádegas e pulsos, devido ao
constante balançar do Dóri.
Viria a falecer este ano com 82 anos de idade.
Tive a oportunidade de o entrevistar e fotografar o
ano passado, no âmbito da Celebração da Cultura Costeira.
Agora, que descanse em paz.

Albino Gomes


De celestino a 6 de Setembro de 2010 às 23:26
Trata-se do pai do Arnaldo Marafona, com quem embarquei? Agradeço-lhe a informação. Muito obrigado!


De Anónimo a 7 de Setembro de 2010 às 17:19
Procurando corresponder à solicitação de Celestino,
inquiri junto de alguns pescadores, no Café Imperial,
das Caxinas, que me informaram que o Manuel Agonia Gomes Marafona, nascido em Agosto de 1929, não era o pai do referido Arnaldo Marafona.
Era tio do Alberto Marafona, proprietário do barco da pesca ao espadarte "Filho da Escola", nome este em homenagem aos nossos camaradas da Armada.

Albino Gomes


De jaime piao a 8 de Setembro de 2010 às 12:12
Bom dia amigos , não queria de maneira nenhuma contrariar o amigo Albino nem o amigo Celestino , mas o Senhor Manuel Agonia que já não está entre nós ,realmente ficou marcado por essa odisseia na pesca do bacalhau e não só ,também é preciso que se diga que foi sempre um Homem com H grande um Senhor como pescador e como Homem ,assim ,falando do filho que eu saiba tem um filho chamado Alfredo que começou na pesca comigo ,tenho esse prazer de apadrinhar o Alfredo na pesca artezanal costeira e ainda um dos genros do Senhor Manuel Agonia o Renato por isso conheço bem essa boa gente foram anos comigo ...cumprimentos Jaime Pião


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