Sábado, 2 de Fevereiro de 2008
Praias Douradas de Portugal.
Após a campanha no “Argus” em 1950, Alan Villiers resolveu voltar a Portugal pouco tempo depois para de novo presenciar e documentar a vida dos pescadores Portugueses, desta vez ao longo da costa. Em Novembro de 1954 esse trabalho foi publicado uma vez mais na revista National Geographic.
Consegui adquirir também um exemplar desta revista e com todo o gosto traduzi o texto que aqui apresento, incluindo umas poucas fotos, propriedade da mesma.
Por um passado que será sempre nosso e meu.
 
PRAIAS DOURADAS DE PORTUGAL
Por Alan Villiers
in THE NATIONAL GEOGRAPHIC MAGAZINE, Novembro de 1954
 
Se eu fosse um peixe, mantinha-me afastado das douradas praias da Ibéria!
Especialmente, evitaria como se da peste fugisse, o todo da espectacular costa de Portugal. Belas podem ser as suas praias, mas não para um pobre peixe.
Ao longo de todo aquele varrido pelo Sol, pitoresco litoral – desde Caminha no Norte, passando pela Costa Nova e Nazaré, Costa da Caparica, dobrando a Ponta de Sagres e além dela, ao longo de todo o brilhante e dourado, florido Algarve, bem até às fronteiras com Espanha e além delas também – 40.000 pacientes, destros pescadores tiram do mar o sustento tal como o têm vindo a fazer desde tempos imemoriais, caçando o peixe para comer.
Tem sido deste modo desde que o homem teve os seus inícios. O mar guarda uma abundante colheita, a qual não requer semente semeada. Tudo o que o homem necessita são as ferramentas para nele trabalhar, a arte de saber onde o peixe anda e a paciência para esperar por ele.
Ao longo dos tempos, as ferramentas do homem para ceifar a colheita do mar foram evoluindo até aos dias de hoje, em muitos locais e a sua eficiência é quase assustadora. Através de aparelhos electrónicos para detectar o peixe, televisão subaquática para os ver, traineiras de malha fina para o arrastar aos milhões e o peixe poucas hipóteses tem. É possível encontrar estes modernos métodos de pesca em uso nalguns portos de Portugal, também, se pretenderem procurar por eles. Mas depois da minha viagem com os homens-dos-dóris aos Grandes Bancos e Gronelândia, não me interessei muito pela chacina científica de peixe em massa.
 
HOMENS CONTRA O MAR BRAVIO.
 
Os meus amigos homens-dos-dóris haviam-me dito que aqui e ali ao longo da costa Ibérica, homens de mar ainda lançam a sua habilidade e força nua contra o mar. Usando métodos herdados dos Fenícios, remando em enormes lanços, estes pescadores do alto saem para o tempestuoso Atlântico com barcos de proa alta que parecem ter navegado e saído de um passado místico.
Os pescadores continuam a usar estes métodos, disseram os homens-dos-dóris, porque deste modo apanham peixe suficiente e não esgotam seriamente os pesqueiros. Os métodos modernos são todos muito bons, mas os velhos e hábeis pescadores olham para eles como assassinos e temem pelo seu efeito terminal nas reservas de peixe. Os Bancos podem ser esgotados, dizem eles; por isso é melhor manter alguns dos antigos e bem experimentados métodos em vigor. Então, de um modo ou de outro, haverá peixe suficiente para comer e a continuidade das espécies.
 
ONDE OS SÉCULOS NÃO TRAZEM MUDANÇA.
 
Os homens-dos-dóris falaram-me de praias douradas no Norte de Portugal onde todo o homem de corpo feito da terra e todos os bois que eles consigam levar, lançam enormes e Bíblicas embarcações de pesca através da brava rebentação na praia. Os homens que lançam as redes às águas vestem-se praticamente todos da mesma maneira, entoam os mesmos velhos cânticos e trabalham precisamente do mesmo modo que foi passado de pai para filho, geração após geração.
Contaram-me sobre a afamada Nazaré, com a sua meia-lua de praia reluzente praticamente coberta quando está mau tempo, de característicos barquinhos de pesca, uns aparelhados como um dhow (1), outros impulsionados a remos com uma maravilhosa forma de sapato velho, grandes e altivas proas e grande boca para evitar que se virem na rebentação.
Contaram-me também de praias no Algarve, como a de Albufeira, onde encontraria pequenos dhows sem motor ainda pintados com um olho à proa para que possam “ver”. Falaram da grande corrida ao atum, a louca corrida do gordo peixe que vira em direcção ao Mediterrâneo para acasalar, altura em que os homens montam um gigante curral no mar para travar as hordas de velozes barbatanas tal como o têm feito desde tempos antigos.
Direitos sobre a pesca ao atum, outrora pertenceram ao Infante D. Henrique, Henrique-o-Navegador, o qual estabeleceu, por tradição, uma pioneira escola de navegação próximo, na Ponta de Sagres.
Acabei por confirmar que os homens-dos-dóris me haviam contado a pura verdade.
Iniciei a minha viagem no Norte, num local chamado Moledo, na Província do Minho, onde povoações inteiras de guturais homens, cantadeiras mulheres e crianças se juntam a apanhar algas da ondulação para fertilizar os campos provincianos. Apanham as algas com longas varas com redes armadas na ponta e apressando-se na rebentação que se afasta, enchem o máximo que podem, trabalhando o dia inteiro para fazer um monte de bom tamanho. Os apanhadores normalmente trabalham com roupas brancas, embora nem sempre. “Porquê vestir de branco?” perguntei eu. “Porque sempre o fizemos assim.” disseram eles. Apesar da maioria dos homens usar roupas brancas ou quase todas brancas, as mulheres podem vestir-se de um modo mais alegre.
De membros fortes, despreocupada e morena gente, todos correm atrás da ondulação, como se fossem crianças numas férias sem fim. O Sol quente depressa seca as vestes soltas e molhadas pela rebentação. Ricos vinhos da terra empurram boas refeições de peixe e de produtos dos seus bem cultivados campos. Que mais tem a vida para oferecer, ponderei eu enquanto me apressava para ver a embarcação Fenícia de grande proa, os navios de vir a terra originais da guerra anfíbia que labutam através da poderosa rebentação desde as praias de Mira e Costa Nova até Vieira de Leiria.
Passei vários dias ao longo destas praias e num local chamado Leirosa. Tive sorte, pois a faina estava a correr bem e os homens lançavam os barcos três e quatro vezes ao dia.
 
TEMPORAIS MANTÊM OS BARCOS EM TERRA.
 
Por vezes o Atlântico, chicoteado por um temporal repentino, lança-se em tamanha rebentação que nem os grandes barcos contra ele podem lutar e nessa altura não há pescaria. Há alturas em que durante dias não podem sair, enquanto o oceano está enfurecido. Não importa. O verdadeiro pescador é um filósofo. O peixe, argumenta ele, também tem de ter o seu descanso.
Fascinado, observei esta faina antiga. O método é sempre o mesmo, embora de praia para praia os barcos possam variar ligeiramente. Todos eles têm imponentes proas erguidas no alto, que terminam num ponto elevado no qual normalmente se penduram grinaldas de flores. Possuem grandes e bojudos cascos, fundos para carregarem as redes e todos os aprestos necessários, largos para terem uma boa firmeza no mar e não virarem com facilidade.
Os barcos possuem rés bem arredondadas e confortáveis, que lhes dêem um bom deslocamento no mar de modo que, quando a rebentação vem atrás deles à medida que se dirigem para a praia, o mar reclamante encontre bastante para levantar e assim carregá-los em segurança adiante, em vez de neles quebrar e os encher.
Enormes remos impulsionam a embarcação, cada remo feito de um único pinheiro. Estes grandes barcos não possuem velas, motores ou qualquer outra energia excepto os músculos da sua tripulação. Estes têm de regressar à praia após cada lanço de redes e um motor rapidamente ficaria em pedaços. Além disso, seria necessário um pesado motor para impelir tamanhos cascos contra rebentação e mar. Porquê gastar tempo e dinheiro em coisas dessas? Os remos fazem o trabalho muito bem e o seu manejo é perfeitamente sabido.
Fui a bordo destes barcos sempre que pude, sabendo que estava a regredir talvez mil anos na história e maravilhado, também, por estar com estes primos dos homens-dos-dóris dos Grandes Bancos, que também pescam com habilidade e sem medo. Ao princípio não conseguia entender como embarcações que pareciam tão impossíveis de manobrar podiam ser lançadas através da rebentação, pois todas elas tinham 18 metros de comprido e largas o suficiente para dez homens se posicionarem a um remo. O comum barco da rebentação é longo e esguio, tal como um velho bote baleeiro ianque – gracioso e ligeiro e com grande curvatura, contudo não tão delicado que lhe falte robustez suficiente para sobreviver praticamente a tudo.
 
HOMENS E BOIS LANÇAM A EMBARCAÇÃO.
 
Subi a bordo do meu primeiro barco-do-mar em Palheiros de Mira, enquanto se encontrava sobre rolos brutos de madeira de frente para o mar, à margem da rebentação. Dois brandos bois, emparelhados juntos, mantinham-se placidamente em posição, amarrados a curtas cordas que se encontravam atadas a argolas dos lados do barco.
Os animais ficavam por vezes com água pelos joelhos na rebentação, embora não estivesse muito forte nesse dia. Pareciam bem habituados àquilo e não lhes prestavam atenção. Ao pé de cada parelha mantinha-se um homem com uma vara para os controlar.
Havia outras parelhas de bois estacionadas ao longo da praia, uma dúzia ou mais. O barco estava rodeado (excepto na proa) por cerca de 40 homens, todos em vivas camisas de quadrados e de calças arregaçadas bem acima dos joelhos. A maré estava a crescer. Os homens aguardavam até que o mar batesse em volta da proa e a levasse.
“Agora! Agora! Todos à uma! É pô-lo a boiar!”, berra um gigante dum homem, mestre de redes.
“Agora! Agora! Todos à uma!”, gritam os 40 homens e os bois esforçam-se nas suas cangas, sacudindo as narinas que se livram da rebentação e espuma e cunhando na areia mole até afundarem nela à altura dos cascos enquanto a rebentação sobe às suas massivas espáduas.
O barco range e estala. Um camarada à proa grita a um grupo de mulheres em terra que seguram uma pesada corda, dizendo-lhes para manterem a proa de frente para o mar, de modo a que a embarcação não se vire. Os 40 homens empurram com toda a sua força e pequenos rapazes correm a colocar novos rolos em posição de novo debaixo do casco, enquanto a rebentação recua. O grande barco moveu-se uns bons 5 metros, mas a ampla popa está bem em terra e longe de estar a flutuar.
Outra onda enrola na areia e mais outra. Mais por fora do quebrar das ondas, uma maior que as outras faz surgir uma boa chance.
“Agora! De novo, meus filhos! Todos à uma!”, grita o mestre.
 
MAIS UM PUXÃO – ELE FLUTUA!
 
De novo os animais esforçam, os seus donos gritam para os encorajar e os homens puxam com ritmo e força, com água até às coxas no mar fervente, espuma nas caras e o Sol quente a bater.
Ah, agora ele vem! Da vantagem do sítio em que me encontro, no pequeno convés sob a altaneira proa sinto todo o barco a flutuar. Um mar vivo, a correr a partir na praia bate contra o pesado talha-mar e explode em espuma que paira.
“Largai a corda!”, grita o camarada às mulheres em terra. “Largai!”
Elas largam a corda e os bois são desengatados das argolas. Os homens apressam-se desenfreados para o barco; rindo e chapinhando eles pulam sobre as altas bordas, cada qual de imediato fazendo-se ao seu lugar nos remos gigantes, mantendo-se empoleirados nos bancos de remador, bem perigosamente acima do grande porão cheio de redes e cordas.
“Com alma! Puxai com alma! Virai-lhe as costas!”, grita o mestre, pois o mar recuante pode ainda deixar o grande barco em terra e há sempre o perigo de que ele possa guinar e arremessá-los para fora.
Com mau tempo, tal má sorte pode terminar em afogamentos. Com qualquer tempo é uma largada errante e danosa para barco e aparelho. Mas agora, 40 fortes costados esforçam-se com vontade nos grandes remos e 80 braços morenos puxam com toda a força que têm.
Os remos trabalham ao ritmo de um “Oxford eight” (2) e a força que imprimem ao comprido casco, puxa o barco firmemente mar afora. Ele salta e pula num ferver de ressaca, pois o mar parte bem longe da praia e de novo ele salta à medida que cavalga os mares que rodopiam mal humorados em volta de um banco de areia longe da praia.
Agora o barco está a flutuar como deve ser, livre do areal. Já os bois e seus donos são cada vez mais pequenos à distância e a fila de mulheres que seguravam a corda à ré se desfez. As mulheres e raparigas pegaram nos seus cestos do peixe e aguardam pela apanha para o mercado.
O mestre, um grisalho lobo do mar que enverga uma velha boina , mantém a sua ainda atenta vista de fora para o mar, vigiando sinais no tempo. Todo o traiçoeiro Norte Atlântico se vislumbra perante ele, livre até à América. De momento, está a sorrir e as ondas por partir tremulam e erguem-se preguiçosamente no calor de um dia de Verão. No entanto, uma ventania pode levantar-se a qualquer momento.
 
VOLTAR À PRAIA, UMA MANOBRA DELICADA.
 
Sob o olhar do mestre, dois homens mais velhos cuidam da saída do corda da rede. Uma ponta foi deixada em terra; o barco afasta-se cerca de três milhas e aí, larga uma elaborada rede trabalhada de modo a que recolha cuidadosamente toda a vida marinha que esteja no seu caminho. O aparelho é todo largado enquanto o barco corre para longe da costa; de seguida, o barco vira de novo para terra e puxa uma outra corda. Quando chega à praia, ambas as pontas da rede podem ser aladas em simultâneo.
Levou-nos quase uma hora, a meu ver, largar as cordas e rede e outra para nos fazermos à praia de novo.
Voltar à praia é uma manobra a levar a cabo com cuidado, também, tal como é a largada, pois os perigos são ainda maiores. O ligeiro barco, apanhado numa rebentação enrolante, pode com a maior das facilidades ser virado.
Mas os pacientes bois mantêm-se à espera e o grupo de homens na beira-mar tal como as vendedoras de peixe estão prontos para colocar os rolos e para pegarem nas cordas com firmeza.
A linha de rede ainda a ser largada à popa ajuda a manter o grande barco a direito e desta vez ele navega como um LST (3) a fazer-se a terra numa qualquer praia do Pacífico em tempo de guerra.
Mal toca em terra, os 40 camaradas saltam para fora, a proa é virada face ao mar de novo e os bois são engatados às argolas. Então, os animais de imediato dão início ao esforço de puxar para fora da rebentação o barco de 18 metros. Toda a tripulação e os homens que aguardavam, mais os rapazes, tomam os seus lugares nas grossas cordas que saem do barco ao longo da praia. É então que homens, rapazes e bois puxam vigorosamente até a embarcação estar em cima e a seco, fora do alcance da rebentação. É ali que a deixam, pois irá sair mais uma vez mal esteja carregada com corda e rede nova.
 
BOIS ALAM A MILHAS-LONGA REDE.
 
Houve um padrão fixo em todo este trabalho. Mal o barco tocou em terra, cinco parelhas de bois começaram a carregar passo através da praia, de um lado para o outro, mais uma vez e outra vez, trazendo a terra o fim da linha de rede.
Ao longo da praia, no local de onde largámos – à distância de três quartos de milha – mais cinco parelhas de bois davam início ao puxar das cordas da rede dali; assim a rede milhas-longa era puxada firmemente em direcção à praia pelas cordas atadas a cada uma das pontas.
Vez após vez os animais lutavam pela areia até ao mais longe que conseguiam alcançar e depois, rapidamente desengatados da linha da rede, regressavam ligeiros à beira da água para puxarem de novo de um local intocado.
O dia pôs-se mais e mais quente, mas os bois e homens trabalharam firmes hora após hora, pois é um longo trabalho. Entretanto, outros homens içaram outra rede seca e reparada para a grande embarcação e começaram a armazená-la cuidadosamente a bordo, com as suas respectivas cordas, preparando uma vez mais o barco para sair.
A uma milha de distância, um outro barco estava a sair – mais um barco com outra tripulação de 40 homens e 18 ou 20 parelhas de bois para auxiliar a lançar e a trazer à praia e de novo içar a rede com mais homens e rapazes, qual bando à beira-mar.
Lá ao longe na neblina, conseguia-se ver ainda um outro grande barco e eu sabia que para além daquele haviam mais, onde quer que as plataformas de areia daquelas praias douradas mantenham a rebentação quieta o suficiente para que a arte sobreviva. Desde antes da alvorada até depois do crepúsculo, durante todo o dia, inteiras povoações de pescadores labutam à maneira antiga, trazendo o que colhem do mar.
 
POR VEZES A APANHA É PEQUENA.
 
Não que não hajam dias em que a apanha não é muita. Várias vezes, quando a última parelha de bois acaba de puxar as cordas e a enorme rede semi-circular, está estreitada numa comprida, encharcada e vibrante biruta por fim prostrada na praia, o que contém á uma mísera quantidade de peixe. Uns poucos cestos de sardinha, uma ou duas tremulantes pescadas, alguns pequenos tubarões, algumas lulas, umas cavalas, talvez uma dúzia ou mais de solha e uns poucos peixes maiores – isto pode ser tudo.
Aquando de tais aladas, as peixeiras sentam-se desconsoladas no areal e esperam pelo próximo alar. No entanto desta vez é um lote solarengo e depressa se põem a sorrir e a conversar, enquanto as crianças as rodeiam. O que não se pode ter hoje, virá amanhã. Porquê cismar? Enquanto o Sol brilhar, haverá o suficiente para comer e envolvendo-os está o panorama das douradas praias e toda a beleza de Portugal. Os pescadores, também são filósofos. Eles não são donos dos grandes barcos ou das redes com as quais trabalham. Eles são formados em “companhas” aí de uns 80 homens e os “camaradas” (como os membros das companhas são chamados) têm direito, por costume e tradição antiga, a peixe em quantidade suficiente para manter as suas famílias e recebem uma parte dos lucros da faina. Se não houver lucros, comer comem sempre. E mesmo que não hajam lucros hoje, o amanhã pode trazer fortuna.
Por vezes a grande rede vem a rebentar de peixe e camiões são chamados de vilas e aldeias milhas em redor para transportarem o peixe ao interior, onde dá bom preço.
Barcos e redes são pertença de um só homem, mais influente que a maioria, ou por pequenos grupos. A regra é que o dono leva uma certa percentagem, os camaradas levam a sua e o Estado recebe 12% para policiamento, controle de mercado e fazer das gerações mais novas bons cidadãos.
Eu podia ter ficado semanas em Mira ou Leirosa ou Furadouro, sem dúvida um belo local; ou na Costa Nova, onde vi barcos mais pequenos que são pertença dos próprios pescadores. Mas havia ainda muito mais para ver. Passei um fim-de-semana em Ofir, um agradável lugar para se estar enquanto se comem lagostas gigantes frescas a sair do mar e visitando a próxima e muito interessante cidade de Viana do Castelo.
Nazaré, onde permaneci durante uma semana, é um glorioso presente para artistas ou qualquer pessoa com gosto pela cor, com a sua simples vida tranquila. Lá, as crianças dos pescadores dançam à margem da praia num Domingo de manhã ao som de velhas concertinas.
É uma grande praia a da Nazaré. Existem pensões e hotéis e turistas chegam de autocarro de tão longe quanto Paris. As praias parece que foram arranjadas para parecerem o mais atractivas possível e os Nazarenos são outro factor juntado às suas vantagens naturais.
Nazaré, para os pescadores, é uma baía aberta para lá de um ponto elevado, com uma praia segura para trazer barcos à praia e boas condições de comércio e distribuição. Lá eu vi centenas de alegres embarcações de proas altaneiras, de fundo chato para deslizarem sobre as areias e amplas para levarem as suas cargas.
 
FAMÍLIAS COM NOMES DE PEIXE.
 
A vida familiar na Nazaré centra-se em redor de barcos e praia. Antes do alvorecer ouvi o andar ligeiro de pescadores descalços que se faziam em direcção à praia. Eram sempre homem e mulher, o homem levando um pequeno cesto igual ao dos homens-dos-dóris, contendo comida e água, um cachimbo e um assobio sem o qual nunca se faz ao mar e a mulher com um cesto de pescadeira à cabeça. O homem pesca e a mulher vende e o peixe é tão grande parte das suas vidas que os seus próprios apelidos têm a ver com peixe. Na Nazaré é o Sr. Bonita e Srª. Pargo, jovem Mestre Bacalhau e sua prima Menina Pescada; tão pouco alguém se preocupa que haja algo de impróprio nos nomes.
Notei o quão bem planeadas eram as casas onde os pescadores vivem, num bairro próprio, para eles construído pelo Governo com parte dos 12% que tira da faina. Vi o infantário para os seus pequenos e o bem guarnecido dispensário, o hospital e a loja cooperativa onde o mulherio compra o necessário para fazer as coloridas camisas aos quadrados e a grossa roupa interior de lã. Existem destes bairros em quase todas as praias de pesca.
Podem comprar-se bons barretes na Nazaré por muito pouco, desde que se seja um pescador de mar. Os barretes são bons, pois um homem pode ter a sua provisão de tabaco protegida da espuma da água se a guardar bem no fundo de um arrumado barrete – e mesmo uns poucos escudos, também, dos quais a mulher não sabe.
Bois ajudam no trabalho de lançar e trazer a terra firme os barcos de pesca também na Nazaré – de longos chifres, bestas contentes que gostam de se prostrar nas areias quentes quando não há que fazer. Os Nazarenos pescam com redes lançadas dos seus pequenos barcos em forma de sapato, com linha curta ou longa e através de pequenas redes lançadas da praia. No entanto, eles não possuem nenhuma das grandes embarcações que cavalgam na rebentação das praias mais bravas. A ponta de terra da Nazaré permite que os barcos mais pequenos passem a ondulação e amaina o mar. Aquelas outras praias são bem mais abertas.
 
BARCOS APARELHADOS COMO DHOWS ÁRABES.
 
A minha Província favorita em toda a Península Ibérica é o Algarve, carregado de Sol e pleno de flores, onde crescem amêndoas e brancos casarios crivam verdes vales.
A marca do Mouro é claramente notada no Algarve mesmo hoje, apesar de séculos terem passado desde que os últimos seguidores do Islão deixaram esta área, a qual era para eles um verdadeiro paraíso.
Sinais do Árabe são inúmeros ao longo das praias em lugares como Albufeira, a qual se agarra às suas altivas arribas, ou à plana Quarteira, onde todo o barco puxado ao longo do areal é quase puro Árabe. De vela latina, linhas doces e construção robusta, olhos pintados nas bem formadas proas, nem um motor em todos eles, mantêm-se em longas e irregulares filas contemplando o mar. A praia é o seu porto e não conhecem outro.
Algumas destas embarcações vão para o mar pouco antes do Pôr-do-Sol, outras antes do amanhecer. Alguns pescam toda a noite em águas que conduzem ao Estreito de Gibraltar. Outros pescam durante o dia e eu vi-os lá – sempre em pequenos grupos de fantasticamente pequenos barcos, apenas uns pequeninos barcos – enquanto que pela minha parte, anteriormente havia embarcado em enormes embarcações. Também na Albufeira presenciei idas ao mar ao amanhecer e ao anoitecer, altura em que os homens e as mulheres da vila descem à praia para ajudar, mesmo que muitos deles não tenham ligação directa com a faina.
Albufeira, julgo eu, daria uma óptima vila para artistas, como a Nazaré. É um local pitoresco, situando-se principalmente em montes no topo de uma arriba e virado a Sul em direcção a África, que não fica muito longe daqui. Os seus resolutos habitantes são boa gente; as suas atraentes ruas oferecem variedade e cor. Os barcos de pesca de Albufeira estão alegremente coloridos e nenhum deles se encontra sem a graça de uma linha. O peixe é vendido num mercado à medida que chega a terra e numa manhã contei mais de 80 das pequenas embarcações a descarregar a sua prateada carga nas proximidades.
 
HOMENS QUE PESCAM À NOITE.
 
Na Quarteira, mais para Leste em direcção a Faro, os barcos são do mesmo tipo dos de Albufeira. A tripulação média é de 8 a 10 homens para um barco. A maioria sai para o mar uma hora antes do Pôr-do-Sol e regressam uma hora depois do amanhecer. Alguns pescam aos pares com redes, outros, usam longas linhas, com os seus inúmeros anzóis que permanecem iscados no leito marinho. Uns apanham sardinha com redes; outros peixe-espada, um longo e esguio.
A praia da Quarteira é plana e boa de se usar. Não existem arribas a barrar as saídas e a subida da rebentação é baixa e espaçada, tal que os barcos podem ser facilmente arranjados sem necessidade de bois.
Todos na povoação aparecem para ajudar ao regresso da frota todos os dias – velhas mulheres, crianças, toda a gente. Em especial apressam-se todos eles à praia a dar uma mão se uma borrasca repentina surge e as pequeninas embarcações vêm apressadas sob as suas velas latinas de varas altas em desesperada necessidade de abrigo!
Então aí a labuta é rápida, quase de perder o fôlego. Cedo a rebentação sobe de tom e parte ao longo da praia, enrolando espumosa. As gentes correm de barco em barco, agarrando nas cordas engatadas a argolas nas pequenas embarcações para as puxarem.
O vento começa a uivar. Mais e mais barcos de apressam para a praia, alguns entrando na rebentação ainda com as velas içadas, atirando-se para o areal a todo o fulgor para fugir para fora do alcance da água quebrante.
Por vezes as embarcações ao entrar na praia não lhe conseguem escapar. Barcos viram-se. Em ventanias repentinas alguns afundam-se. As igrejas estão repletas de ofertas por parte daqueles que se salvaram, quantas vezes por milagre. Outros não se salvam. É a vida do mar.
Presenciei uma venda de peixe ao longo da colorida praia da Quarteira, enquanto uma multidão de pequenas embarcações secavam as suas velas e centenas de numerosas famílias se juntava em redor. Crianças, em gritarias de contentes, correm e fazem malandrices em volta dos barcos durante todo o dia.
O peixe, apartado de acordo com o tipo pelos pescadores e suas famílias, era leiloado em montes no areal. O leiloeiro anda de monte em monte, pondo-se ao pé de cada um deles e cantando em voz altiva.
Este cantar é curioso – nada mais que uma sequência de números. O leiloeiro começa em voz alta e vai andando em voz baixa numa longa cantilena e o peixe vai para o comprador que o interrompe. Tais vendas a leilão passam muito depressa; então – e só depois – vão os pescadores para o descanso.
Mas era a tremenda correria ao atum que mais me interessava e apressei-me através dos agradáveis campos do Algarve até Faro, a capital provincial e centro das pescas ao atum.
Eu sabia que a qualquer momento após meados de Março, atuns aos milhares aproximam-se vindos das distantes, misteriosas profundidades do mar, chegando a terra algures na costa Portuguesa, perto do Cabo de Santa Maria e partindo dali para o azul Mediterrâneo para desovar. As condições no Mediterrâneo devem ser as ideais para os jovens atuns. Porquê, ninguém sabe.
Os Mouros foram provavelmente os primeiros a notar esta migração do atum, pois algumas das canções que os atuneiros cantam contêm palavras Árabes e outras são puramente Árabes. No entanto, é provável que os Mouros apenas tenham adoptado os métodos de os cercar quando os encontraram por alturas em que varreram a Península Ibérica.
 
ATUM ENCURRALADO COMO GADO.
 
Ao longo da costa da Sicília e aqui e ali nas costas do Norte de África é possível encontrar-se estas enormes armações do atum, currais onde os atuns em migração são apanhados para enlatar. Mas o melhor curral de todos é o que existe ao largo de Faro, pois este captura primeiro o atum, fresco do oceano. Algumas das outras armações apanham-nos quando estão já de regresso da desova, altura em que já são mais magros e cansados.
Eu saí para ver as armações do atum ao largo de Faro, indo com o dono, Sr. Manuel Francisco Lã e o meu omnipresente Sr. Joaquim Maia Águas.
Várias milhas fora da costa, no mar desprotegido, vi o que ao primeiro me pareceram longas linhas de cortiças flutuantes, milhas e milhas delas. O Sr. Lã explicou que o corpo da armadilha é uma enorme barreira com a forma da letra “L”, tendo cada um dos seus braços umas 3.000 jardas de comprido. As redes são suportadas por cortiças e todo o aparelho é mantido no sítio por uma série de cuidadosamente colocados ancoradouros, os quais incluem 600 grandes âncoras. Na ponta do “L” existe uma espécie de cancela nas redes e o atum que aparece nervoso e pode ser desviado por uma sombra na sua corrida à desova, bate na rede e vira-se inevitavelmente em direcção à cancela. Os braços do “L” estão posicionados de forma a que aqui e ali existam bolsas, desenhadas para conduzirem o atum naquela direcção.
Uma vez que o atum entre no curral, tem a vida feita. O portão está desenhado de tal forma que produz sombras ao longo da entrada e o atum nada para dentro, mas não voltará para trás. A cancela não tem de ser fechada excepto quando a apanha é muito grande e pesada.
A própria armação é um espaço cercado por pesadas redes, cerca de 400 jardas de comprido por 50 de largo. Muito atum se pode juntar ali. Eles vêem em cardumes de 60 (ocasionalmente) até 1.000, por vezes a chegar aos 2.000. Eles nadam fundo e ninguém sabe quantos estão no curral até a rede do fundo ser içada e o peixe é forçado à superfície. Se um atum é visto na armação, sabe-se que ali está um cardume. Nenhum atum sozinho entra enquanto a correria decorre.
 
OCIOSOS MANTÊM-SE NA VIGIA POR PEIXE.
 
A toda a volta da armação, flutuam compridos barcos negros, quase sinistros em aparência, os quais são ancorados ali em Abril e lá ficam durante a estação. Neles, homens estão em vigia. Existem vigilantes especiais, os quais se denominam por ociosos – um nome difamatório, pois a última coisa que são é preguiçosos – que permanecem em botes a mirar as profundezas o dia todo.
O atum é muito difícil de detectar para os olhos sem experiência os verem, pois ele nada bem fundo com o seu dorso azul para cima. Eu não conseguia ver nada a não ser água, embora pouco depois o chefe ocioso anuncie muito calmamente que um cardume se aproxima. Eu olhei e olhei e não via nada – apenas as linhas de cortiça amarelas a boiar sossegadas e os barcos negros e os dhows ancorados que levariam o atum para o mercado assim que fossem apanhados. Tudo isto e ao longe, talvez umas 10 milhas, a costa arenosa do Algarve e além dela Faro, a cidade mais a Sul de Portugal e capital de Província, a tremeluzir no calor da manhã.
De imediato surgiu uma excitação controlada, embora o ocioso apenas tenha sussurrado algo ao veterano mestre de redes, o qual veio cumprimentar o Sr. Lã. “Peixe!” disse ele, apontando. Para ele e para Lã a palavra peixe significa atum – em qualquer altura durante Maio e Junho.
Até ali, tudo havia sido silencioso. Não mais de três ou quatro homens estiveram em vigia, nos barcos todos. Agora, sem qualquer outro som, figuras começam a surgir nos barcos agrupados em volta do curral até serem 100 ou mais com determinadas caras morenas. Silenciosamente se puseram no trabalho de lançar uma rede móvel através da armação para encurralar o atum dentro e conduzi-lo na direcção do copo à sua extremidade.
Uma vez na armação, o atum nada à volta e à volta. O mestre das redes, tomando o comando, deu ordem para lançar a rede mal ele visse – eu ainda não via nada – que o atum se dirigia para o fim do copo. E lançada foi a rede com um relâmpago. Então aí o barulho já era muito! Os homens crêem que o atum os consegue ouvir e que se houver algum barulho repentino antes da rede os ter encurralado, o peixe pode escapar. Até ali, a malha das redes de barreira é grande o suficiente para permitir que o atum nade através dela. Só mesmo quando o peixe atinge o copo é que se encontra realmente preso.
 
BALEIAS ASSASSINAS CAUSAM A DEBANDADA.
 
Mas o atum não sabe disso. A única esperança de liberdade está no facto de ser alarmado e o que mais o assusta em tudo é a baleia assassina – o terrível roaz, que preda sobre o gordo atum e sabe de igual modo sobre a correria.
Se roazes se aproximarem das redes – e por vezes fazem-no – os atuns enlouquecem e furam por todo o lado, causando milhares de dólares em estragos com o seu pânico. Aí as redes têm de ser içadas de novo e toda a armação laboriosamente reposta.
Uma vez que a rede principal é lançada, os homens fazem todo o barulho que podem para mandarem o atum ainda mais para o copo, pois esta é de rede de malha tão grossa que o próprio roaz não consegue ultrapassá-la, embora uma baleia maior pudesse. (De vez em quando grandes baleias entram, também e uma grande chateação elas causam).
Mal o atum se encontra no copo, os homens começam a içar a rede do fundo, cantando uma velha canção, melodiosa e de belo ritmo. Faz-me lembrar cânticos que ouvi os Árabes usar durante trabalhos pesados, quando com eles velejei nos seus dhows ao longo das costas de África e no Golfo Pérsico.
A rede do fundo é pesada e há muita dela. Ainda assim, não consigo vislumbrar nada – não há sinal de peixe algum em nenhum lado! Mas sei muito bem que os homens não dariam início ao erguer da rede do fundo ou a fazer barulho contra a mesma até que os ociosos de vigia num bote acima do copo tivessem reportado que o peixe havia entrado.
Eu olho e olho, dum ponto vantajoso num dos barcos negros. À minha volta, homens em tronco nú aguardam tensos e com vontade, dobrando grandes anzóis curvados nos seus pulsos direitos, olhando para a superfície da água no copo onde o atum despontará.
 
MISTÉRIO DO PEIXE-VOADOR.
 
Continuo a olhar, com as minhas câmaras prontas. O Sr. Lã olha ao meu lado.
“Procura pelo peixe-voador!” Exclama o Sr. Águas. “Eles surgem sempre primeiro”.
Peixe-voador? Não vejo nenhum peixe-voador. O que poderia andar esse peixe a fazer junto com o atum? Pois os grandes atuns, sabia-o eu, caçam peixes-voadores e comem os mais que podem apanhar. Eu vi-os dos grandes veleiros em viagem da Austrália, nos Ventos Alísios de nordeste. As estranhas palavras de Águas depressa ganham significado. Surge uma agitação à superfície, depois outra e mais outra. Um peixe-voador desponta, um dos maiores que alguma vez vi!
Mais peixes-voadores rompem, voando loucamente, caindo de novo na água à frente da parede de homens que avança nos barcos que içarão a rede. Os peixes-voadores nadam em volta e em volta, com os grandes olhos fixos, procurando uma saída para fora da armadilha. Eles voam num golpe apenas para caírem dentro dos barcos em volta.
Agora sim, surge uma agitação brava nas águas, primeiro rompida por uma ou duas grandes barbatanas dorsais e depois por 20 dorsais, 50 dorsais, 100!
Tudo ao mesmo tempo, surge um desfazer selvático das águas à medida que a rede do fundo é puxada inexoravelmente para a superfície e os enormes corpos dos magníficos atuns rodopiam-se em volta, em volta e em volta.
O atum selvagem bate e esbarra-se contra si próprio e a superfície da água é atormentada como se um furacão a tivesse atingido, espuma voa alto à medida que o atum bate, continuando os aladores da rede a cantar a sua exultante melodia e os sinistros barcos negros avançam lentamente, firmes.
 
O ÚLTIMO RODEIO AO ATUM.
 
Agora o atum está à superfície. Enormes corpos azuis, gloriosamente simétricos, poderosos e ligeiros, nadam freneticamente – este é o seu último rodeio! Eles nadam em círculos no sentido dos ponteiros do relógio, mais e mais depressa, procurando uma saída, frenéticos para alcançarem os locais de desova que agora nunca conhecerão.
A espuma é batida num creme já tingido com sangue, pois os atuneiros estão agora a cobrar o seu preço. À medida que o grande peixe dardeja em círculos cada vez mais apertados, homens gancham os que estão mais próximos dos barcos, sacando-os habilmente. Eles baixam-se sobre as águas serpeantes; gancham sempre nas guelras com um só golpe, estocada certeira.
Dois homens gancham o mesmo peixe se puderem e aí, à uma, puxam-no para cima sobre a borda do barco, onde cai embatendo e tremulando com a sua força imensa no fundo. Noto que os homens não podem aspirar a trazer o atum para dentro sozinhos, pois o seu peso médio será de mais de 80 quilos e alguns pesam tanto como 275 quilos. Os homens guiam os monstros a bordo, pois a própria força bestial dos atuns lança-os para dentro do barco, com o rabo a bater na água violentamente enquanto os homens pelejam com a cabeça.
Os homens são primorosos a engatar o bicheiro mesmo nas guelras e a dar leves pancadas na cabeça do atum direccionando-os à amurada inclinada do seu barco, de modo a que a sua própria força o condene. Pobre atum! Ele não tem noção de tamanha força. Não tinha motivo alguma para estar naquele curral.
Agora a água está vermelha com o sangue do peixe debatente e a superfície do copo está cada vez mais apertada. Homens malham ao último atum com bicheiros compridos, forçando-os às laterais. Os compridos barcos negros zunem e tamborilam com as bravas batidas do condenado e moribundo atum.
 
TOURADA DO MAR.
 
Ainda cantam os aladores da rede, cantam, cantam. O Sol vai descendo. Alguns atuns livram-se dos ganchos. Um nada em volta e em volta com um bicheiro longo preso numa ferida atrás das guelras. Um homem salta para dentro para recuperar o instrumento e conduzir o atum para o lado. Outro salta com uma perna de cada lado do peixe no momento da vitória. A “tourada ao atum”, como lhe chamam, é um bravo e sanguinário momento, enquanto dura.
Então o alvoroço morre. O último atum, batendo, socando, vibrando no seu imenso reprimido e desfalecente poder, permanece ofegando a bordo. A água atormentada descansa de novo. Por um tempo, um longo tempo, os atuns agitam-se e batem onde se encontram e os costados e cavernas dos barcos vibram e tremem.
Aí, tudo acaba. Os aladores da rede afastam-se calmamente, a cantadoria pára e o fundo do copo é largado novamente. A rede móvel é retirada da armação. O mestre das redes coloca de novo os seus ociosos em vigia, pois é provável que mais atum já se dirija para o curral.
A corrida tem início; agora virão aos milhares.
A apanha que presenciei naquela manhã totalizou cerca de 150 grandes atuns. Depois de cada apanha, uma bandeira é içada para indicar aos vigilantes em terra quantos foram apanhados de modo a que as conserveiras em Vila Real de Stº. António possam ser informadas. O peixe é transportado para dhows que aguardam, os quais erguem as suas velas latinas e deslizam na presença do vento matinal.
No entanto, vejo-me deixado com mil perguntas. Porquê os peixes-voadores? Serão eles como que pilotos? Serão eles conselheiros dos atuns acompanhando-os? O que sei é que o atum os come – isso eu sei.
“Aparecem sempre primeiro os peixes-voadores. Vêmo-los primeiro.” Diz Lã. “Mas porquê? Nenhum homem sabe responder. É – bem, só mais um mistério do mar”.
Eu tive sorte em ver a pesca ao atum. Por vezes os homens mantêm-se nos seus barcos por dias e dias e não há peixe nenhum. Mas eventualmente eles chegam sempre, algures entre 15 de Maio e 20 de Junho de cada ano. Como eles navegam ou como sabem quando vir – também estes, são mistérios do mar.
 
ARMAÇÃO AO ATUM SÉCULOS ANTIGA.
 
Mas haverá ainda imenso atum aos milhares por contar algures nas profundezas do mar, pois embora este rodeio tenha ocorrido – ao largo de Faro, ao largo de Tavira, ao largo da costa Marroquina, ao largo da Sicília – durante séculos sem fim, o Mediterrâneo é um grande mar e o Estreito de Gibraltar é amplo.
As redes são viradas na direcção oposta e o atum é apanhado na sua viagem de regresso, também, em muitos locais. Mas não ao largo de Faro. Lá, eles gostam do seu atum gordo e cheio de nutrição e os magros eles deixam passar, intocados no seu regresso ao profundo e misterioso mar.
 
  
  • (1) dhow – tipo de embarcação tradicionalmente Árabe de vela latina, por vezes chamado “pangaio” segundo escritos antigos Portugueses.
  • (2) "Oxford eight" – Corridas de remadores, oito por embarcação, entre as universidades de Oxford e Cambridge em Inglaterra.
  • (3) LST – embarcação de fundo chato desenvolvida na II Guerra Mundial para descarregar tropas e carga em praias abertas.
 
Links sobre a Armação do Atum, ou Almadraba:
 
“Almadraba Atuneira” de António Campos – Tavira 1961. – A última em Portugal.
Almadraba de Barbate, Cádiz – Ainda em prática no Sul de Espanha.


publicado por cachinare às 23:15
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1 comentário:
De JAIME PIÃO a 3 de Julho de 2009 às 13:25
AQUI VOU FALAR SOBRE O SARGAÇO ,ESSE PRODUTO QUE FAZ MARAVILHAS COMO ADUBO PARA OS CAMPOS ,UM AUTENTICO FERTILIZANTE QUE ANTIGAMENTE OS LAVRADORES AQUI DA REGIÃO VINHAM BUSCAR AS CAXINAS O SARGAÇO QUE O NOSSO POVO ACARRETAVAM DA PRAIA E TROCAVAM POR ACHAS OU LENHA.
ENTÃO HAVERÁ ALGUÉM QUE SE PERMITA UMA EXPLICAÇÃO PARA O QUE ACONTECE AGORA ,QUE NÃO DEIXAM LIMPAR A PRAIA OU TIRAR O SARGAÇO QUE DEPOIS DE 3 OU 4 DIAS NA PRAIA APODRECE E É SÓ MOSQUEDO E MAU CHEIRO ?
MAS A QUEM INTERESSA ESTA MISÉRIA ? PORQUE SERÁ QUE NÃO TEMOS BANDEIRA AZUL NAS NOSSAS PRAIAS ? SERÁ QUE ISTO É POLITICA ? SE SIM É UMA VERGONHA ...JAIME PIÃO


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