Terça-feira, 5 de Fevereiro de 2008
"Robertson II".
O “Robertson II” é uma escuna de pesca com dóris Canadiana, típica dos Grandes Bancos e contemporâneo do afamado “Bluenose”.
Teve o seu bota-abaixo nos estaleiros navais de W. G. McKay & Sons em Outubro de 1940 em Shelbourne, Nova Escócia no Canadá. Ficou conhecido na altura como “O pescador de homens” e foi a última “escuna da salga” comercial a navegar de um porto Canadiano. Com o desenho típico para a pesca com linhas de trol do bacalhau, alabote, eglefim e espadarte, levava consigo 10 dóris e uma tripulação de 26 homens. Possuía ainda um potente motor instalado, razão pela qual os seus mastros eram mais baixos e não possuía gurupés. Em 1973 ainda pescava ao largo de Lockeport, Nova Escócia, com uma tripulação de 6 homens, mas em breve a sua história mudaria.
Uma das razões para o “Robertson II” ter resistido à passagem do tempo foi o facto de a sua construção ter sido interrompida pelos estaleiros para terminarem a tempo um outro contracto naval. Esta interrupção de seis meses permitiu que as madeiras amadurecessem perfeitamente e se tornassem mais duradouras. Normalmente os navios eram construídos o mais rapidamente possível, com madeiras ainda verdes (foi o caso do Bluenose) e por essa razão não duravam mais de duas ou três décadas. A madeira verde deteriora-se com rapidez e normalmente com 10 anos, um navio já podia ser encostado.
O “Robertson II” deve muito da sua recuperação a uma organização denominada S.A.L.T.S. (Sail and Life Training Society), a qual o adquiriu por necessidade de uma embarcação típica à vela. Foi levado até à Bermuda, onde resistiu a um temporal e depois través do Canal do Panamá até Victoria na costa Oeste do Canadá. Segundo parece, terá sido uma verdadeira aventura, pois ainda era na altura um navio de pesca. O cheio a peixe era bastante forte, principalmente quando em águas mais quentes as vagas batiam com mais força nos costados.
Sendo que os mastros não eram os usuais de navios só à vela, foi necessário aumentar-lhes a altura e dessa forma teve de se instalar um gurupés na proa. Novas velas foram feitas e o interior foi todo reorganizado, principalmente a parte do porão de carga.
Em 1980 o “Robertson II” foi posto à venda, pois o custo da sua manutenção era demasiado elevado para a S.A.L.T.S.. Em leilão, foi comprado por Alan Graham de Calgary, o qual voltou a doar o navio à mesma organização. Com o motor reconstruído e a área da popa reparada, arranjar fundos era sempre um problema e mesmo os 135.000 dólares angariados para o seu restauro não chegavam para manter a conta com fundo. No entanto, com uma tripulação de dedicados voluntários o trabalho foi levado a cabo. Em 1982 o “Robertson II” ganhou o prémio para o melhor veleiro restaurado num concurso em Victoria.
O programa da S.A.L.T.S foi criado para proporcionar experiência de mar à juventude e cerca de 10.000 jovens velejaram nele. Participou em 4 filmes realizados na área e quanto aos mais novos... adoravam brincar aos piratas dentro dele.
Em 1995 deu-se início à construção do seu substituto, o “Pacific Grace”, essencialmente com as mesmas dimensões e aspecto mas detalhes mais modernos. Com o “Robertson II” oficialmente retirado, foi construída uma doca especialmente para ele no porto de Victoria e passou a ser veleiro de atracção popular. Formou-se a Victoria Heritage Boat Society e estudantes foram contractados para efectuarem visitas guiadas. As visitas eram grátis, embora houvesse uma conveniente caixa para donativos e durante vários anos foi uma das grandes atracções do porto.
Em 2003 foi de novo posto à venda e desta vez foi comprado por Roy Boudreau, segunda geração dos donos originais. Formaram uma nova sociedade, com os objectivos de promover o conhecimento e o interesse pelo ambiente marinho, usando embarcações históricas e ao mesmo tempo organizando treino de vela, voltas de mar para os deficientes e educando tanto pela sua história como pela herança marítima do Canadá.
Na tarde de 30 de Junho de 2007, o “Robertson II” embateu num baixio a Norte de Saturna Island. Embora não parecesse importante ao início, depressa se verificou com a maré a subir que o problema era mais sério. Começou a adornar, a tripulação foi retirada do navio e após alguma investigação verificou-se que havia um rombo onde o casco assentava nas rochas, na zona da casa do motor, supostamente enfraquecida por uma anterior reformulação. Com imensa água a entrar pelas escotilhas, foi solicitado o auxílio de um salva-vidas para o endireitar minimamente e estancar a entrada da água.
Segundo informações da Guarda Costeira no local uma semana após o incidente, o casco encontrava-se demasiado danificado para colocar de novo a escuna a flutuar. Apesar disso, vários grupos de entusiastas, incluindo alguns do Cabo Bretão na Nova Escócia dirigiram-se ao local para ajudar e outras organizações e companhias também o têm tentado, mas sem sucesso.
As últimas informações a 20 de Janeiro de 2008 indicam que os dispendiosos esforços levados a cabo em Agosto de 2007 não tiveram sucesso e lamenta-se que o Governo Federal do Canadá não tenha participado no auxílio. O seu único interesse foi sempre monitorizar possíveis riscos de poluição pelo fuel ou a escuna tornar-se um perigo para a navegação. Embora a Guarda Costeira e Marinha na costa Oeste possuam equipamento pesado que ajudaria e o facto de o “Robertson II” ter registo Canadiano, a decisão foi de não actuar. Caso o naufrágio tivesse ocorrido na costa Leste, certamente as fortes comunidades piscatórias se teriam unido e tratado dos meios necessários para o desencalhe.
A história e significado deste navio não merece que o Governo se desinteresse por um dos poucos símbolos genuínos de um passado marítimo que atraía milhares de pessoas e cujo papel educativo era enorme. Assim, a história do “Robertson II” parece ter chegado ao fim ingloriamente. O mar reclamou a embarcação e agora só restam as memórias.


publicado por cachinare às 10:05
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