Segunda-feira, 15 de Novembro de 2010
Arte xávega... em Kerala - Índia.

 

São várias as comunidades piscatórias em Portugal onde a pesca pelo método da arte xávega ainda vai resistindo hoje com os seus barcos típicos, mas já só com os de menor dimensão, a dois remos e com motor adaptado (já os vi também com 4 rodas!). As imagens aqui mostradas, à primeira vista trazem logo à memória a Costa Nova, Mira ou Vieira de Leiria, entre outras comunidades. Mas de imediato se percebe que a tez de pele mais escura dos pescadores ou os remos utilizados na embarcação, fazem estas imagens pertencer a outro país.

São pois imagens de pescadores e barcos típicos do estado de Kerala, na costa do malabar, Sul da Índia. Foi em Calecute, neste estado, que Vasco da Gama completou a sua rota de descoberta do caminho marítimo para a Índia em 1498 e a presença portuguesa daí em diante faz pensar numa possível ligação entre as semelhanças na arte da pesca. Não encontrei quaisquer referências à antiguidade da xávega em Kerala ou às suas origens, mas a fisionomia dos barcos é extremamente semelhante aos barcos de mar da xávega em Portugal.
O processo de pesca inicia-se de igual modo com os pescadores “de terra” a auxiliar e a empurrar o barco através da rebentação. O barco é governado depois a remos e com o auxílio de dois outros remos a servir de leme à popa (foto 2) segue o seu rumo. Após o lançar contínuo da rede em círculo, regressam à praia com a outra ponta da mesma e inicia-se o alar das redes, todo esse trabalho manual.
 
 
Embora em Portugal se associe esta arte de pesca às juntas de bois que na praia puxavam as redes para terra, bem como os enormes barcos, essas mesmas juntas de bois foram uma “inovação” de finais do séc. XVIII, pois antes eram os homens que levavam a cabo todo o pesado trabalho do alar de rede e barco. Outro detalhe interessante na construção destes barcos indianos, é o facto das pranchas parecerem ser “cosidas” umas às outras para reforço, pois a estrutura do cavername não será suficiente. Um tipo de construção antiquíssimo.
Hoje em dia esta pesca tradicional está também ela em risco de desaparecer (ninguém escapa), devido a diversos factores. Um deles foi o tsunami que em Dezembro de 2004 devastou diversas regiões costeiras do oceano Índico e alterou por completo ecossistemas marinhos. O resultado hoje em dia é o muito pouco peixe que estes pescadores apanham nas suas redes. Para além disso, cada vez mais as autoridades locais e governamentais favorecem a pesca industrial, a qual cada vez mais (e rapidamente) aniquila os stocks de peixe, muito dele descartado por não ter valor comercial. O resultado, para estes pescadores e para muitos outros no mundo é a pobreza e respectivo abandono das suas artes tradicionais para sobreviver.

 

É sem dúvida peculiar a semelhança destes pescadores com os de Portugal, mais ainda pelo facto da presença portuguesa no passado da região levantar questões interessantes. Helena Afonso é uma portuguesa que trabalhando numa companhia aérea há 30 anos, sempre se interessou por outras culturas e abaixo deixo o link para uma colecção de fotos da sua autoria em 2007, onde se pode presenciar todo o processo da faina destes pescadores, tão longe de Portugal na distância, mas tão perto na sua arte e barcos... na Índia. Será coincidência? Eu não acredito em coincidências.
 
Arte xávega em Kerala, por Helena Afonso.
Foto 1 – Sarah Leen – National Geographic Society.
Foto 2 – Helena Afonso, 2007.
Foto 3 – Nick Melidonis.
Foto 4 – Philip Plisson.


publicado por cachinare às 08:07
link do post | comentar | favorito

1 comentário:
De isabel tiago a 17 de Novembro de 2010 às 06:33
Bom dia

Fico muito agradecida por ao ter descoberto as minhas fotos do Boa Viagem ter tido a gentileza de comentar.
Eu sou apenas uma curiosa, gosto de fotografar e o meu contacto com os barcos da Moita foi casual pois vivo em Lisboa.
Eu e o meu marido somos sócios de um clube de veículos antigos cuja sede é na Baixa da Baneira mas os encontros mensais são junto ao Pavilhão Municipal da Moita ao terceiro domingo de cada mês e por isso fui tendo oportunidade de conhecer este local, algumas pessoas ligadas ao Centro Náutico da Moita e os barcos própriamente ditos. Há uns dias fui convidade a dirigir-me ao estaleito de Sarilhos, pelo responsável do Boa Viagem e aproveitar para fotografar essas imagens.
Aproveito para lhe dizer que o seu blog é muito bonito e interessante e vou adicioná-lo.
Espero voltar a ter mais fotos do Boa Viagem mais lá para a Primavera pois fui informada que se prevê que ele volte ao Tejo para o próximo verão.
Tenha um bom dia.

P.S. àcerca do filme português já experimentou contactar os arquivos da RTP??? o ideal seria conhecer alguém que lá trabalhasse e tivesse mais facilidade de lhe dar essa informação.

Isabel Tiago



Comentar post

mais sobre mim
subscrever feeds
últ. comentários
Pois ,nesse estado bem bebido até a sua sombra ele...
Ver está foto, salta-me muitas saudades de ouvir m...
Pescador da Nazaré ,homem do antigamente ,com traj...
Uma das formidáveis pinturas de Almada Negreiros, ...
sou de Nazare gostava de saber o meu estorial de 1...
....................COMEMORAÇÕES DO DIA DA MARINHA...
Esta réplica do Vila do Conde, participou em vário...
Pois é exactamente tal como acima se diz.Depois de...
Boa tarde , com respeito a foto aqui presente eu j...
Salvo melhor opinião, julgo que esta imagem do gra...

culturmar

tags

a nova fanequeira de vila chã

ala-arriba

alan villiers

apresentação

aquele portugal

argus

arte marítima

bacalhoeiros canadianos-americanos

bacalhoeiros estrangeiros

bacalhoeiros portugueses

barcos tradicionais

caxinas

cultura costeira

diversos

fotos soltas

galiza

jornal mare - matosinhos

memórias

modelismo naval

multimédia

museus do mar

pesca portuguesa

póvoa de varzim

relatos da lancha poveira "fé em deus"

santa maria manuela

veleiros

vila do conde

todas as tags

Vídeos
links
arquivos