Sexta-feira, 19 de Novembro de 2010
Um pouco do folclore poveiro.

A FARINHA E OS MORTOS

 
«A Tia Rosa Chanquinhas morava para os lados da Vila Velha. Numa madrugada de Inverno, levantou-se, pegou num saco de trigo, e disse ao seu homem que ía ao moinho do Caganito. Tinha acabado a farinha para o pão. Os ganhos do seu homem como sardinheiro eram parcos e era preciso matar a fome aos filhos. De saco à cabeça, ao passar pela Igreja da Misericórdia, viu que estava muita gente à porta. Julgando tratar-se da missa primeira, pousou o saco e entrou. Uma "missinha" pela manhã consola o espírito! - dizia ela. Os bancos da Igreja estavam cheios mas não aparecia o padre. Também ninguém falava, nem rezava. Silêncio absoluto. Cansada de esperar, saiu da Igreja. Como o saco de trigo era pesado pediu a um jovem que estava à porta que a ajudasse:
- Não posso, minha senhora. Morri o ano passado atropelado na estrada, perdi muito sangue e já não tenho forças...
Intrigada e assustada com a resposta, dirigiu-se a outro assistente, e fez-lhe o mesmo pedido.
- Não posso - responde o outro. Morri ontem afogadinho e ainda estou sufocado...
Foi aí que a tia Rosa percebeu que aquela gente era do outro mundo. Almas penadas a fazer penitência. Sem olhar para trás, largou o saco e desata a correr até casa para contar ao marido:
- Ó mulher acalma-te, tu não estás boa da cabeça. Foi um arzinho que te deu volta aos miolos. Bebe um copo de água e deita -te... amanhã vamos buscar o saco.
A Tia Rosa bem tentava explicar, mas o homem não acreditava. Estás com febre, deliras ou estás maluca! - dizia o Luís Cheio-de-Sono, um pescador fanfarrão que se gabava não ter medo de nada. Nem acreditava em almas do outro mundo...
Pouco depois da meia-noite bateram à porta. Três pancadas secas e uma voz fraquinha falando ao postigo: venho aqui trazer o saco de trigo que a sua mulher esqueceu na Misericórdia...
O Tio Luís foi abrir a porta e caiu pró lado. Um esqueleto segurava o saco de trigo...»


publicado por cachinare às 08:09
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1 comentário:
De jaime pontes a 19 de Novembro de 2010 às 18:21
Pois que ao ler esta história eu não aguentei de rir tanto ,mas enfim mais uma história que diz muito do que era o nosso povo antigamente ,pois que se acreditava nos contos e ditos e quem assim não era de vês em quando levava com uma pedrada , e o tio Luís levou bem forte ,mas como o teu Luís existe muitos fanfarrões que não acreditam em bruxas ,mas como dizem os nuestros hermanos ,que as hão hão !


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