Terça-feira, 11 de Janeiro de 2011
Pelas palavras de Raúl Brandão.

«Do outro lado do Cávado é Fão, onde surpreendo de passagem uma linha alameada de árvores, e logo a seguir a estrada que se deita a caminho entre os campos para a Póvoa de Varzim. Nestas terras rasteiras sente-se sempre a atmosfera marítima. O milho é anaínho e as árvores agacham-se para suportar o vento. Além, pelo areal, fica a Apúlia; mais longe, através dos eternos pinheirais, a Aguçadoura, por fim Aver-o-mar.

Em todo o longo percurso da estrada só encontro poveiras que acarretam sardinha. A Póvoa fornece e alimenta todas estas povoações. Descalças, de saia arregaçada, correm num passo miudínho, ajoujadas sob o peso... . Já me aproximo outra vez do mar. Sinto-o, vejo-o. Um rasgão no panorama e lá está o azul vivo, o azul esplêndido. Respiro-o. Atravessando Aver-o-mar, estou na Póvoa de Varzim.»
 
Raúl Brandão, 1921 – “Os Pescadores”.
 
Uma destas muitas poveiras que acarretavam a sardinha e a vendiam pelas aldeias do interior, era a minha avó materna. Esta imagem mostra quase na exactidão as primeiras memórias que tenho dela, cerca de 1980, nas vestes, na gamela à cabeça e no detalhe da algibeira à cintura. Nessa altura ainda ia para as aldeias com uma gamela em madeira, ligeiramente maior que a da imagem, mas o percurso já era feito por autocarro. Antigamente era feito a pé e era imenso o número de quilómetros percorridos por estas mulheres diariamente.
Cristelo e Barqueiros, no concelho de Barcelos, eram dois dos locais habituais de venda do peixe e ao fim do dia chegava a casa com a gamela cheia de batatas, feijão, etc. Jamais me esqueço do pão de milho que trazia, pão por vezes já com vários dias e com gosto já ázimo, mas que os netos adoravam. Aos netos cabia a tarefa de por exemplo apartar o grande monte de feijão no chão, por côres, pois na aldeia vinha em tipos diferentes das várias casas. De notar que embora algum peixe fosse vendido, muito era “trocado” por bens agrícolas.
Até cerca de 1986, pelo Natal todos os anos, a minha avó pedia à minha mãe para ir com ela às aldeias buscar a “consoada”. Eu, com 7, 10 anos, de imediato saltava da cama às 5 da manhã, preparava as botas de borracha todo contente e lá íamos no autocarro. Já na aldeia, no silêncio e cheiro característico das terras longe do mar, ia-se a uma casa pedir um carro de mão emprestado e lá se ia depois de casa em casa. Quem levava o carro o dia todo era o puto, eu, pois não me ficava por menos. Adorava “guiá-lo” nas ruelas de aldeia, nos caminhos cheios de lama até não ter mais força para ele, já carregado de muitas coisas pelo final da tarde.
Para um miúdo a crescer à beira-mar, um dia destes pelas casas de aldeia era fantástico. Parecia um mundo diferente, campos, animais, as grandes cozinhas de algumas casas, onde nos davam a “corpulenta” sopa pelo almoço, os grandes portões que escondiam tractores, utensílios agrícolas, etc., a maneira de falar daquelas pessoas.
O dia terminava já com o Sol a pôr-se e um tio vinha de carro buscar-nos, carregando a mala com a “colheita”. Depois na noite de Ceia de Natal, com toda a família sentada no chão (a nossa tradição piscatória é consoar a noite toda no chão), ainda andava com a aventura anual pela aldeia na cabeça, e queria contá-la a toda a gente.

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publicado por cachinare às 08:11
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