Sexta-feira, 14 de Janeiro de 2011
A Estátua do Homem do Mar.

 

«Situada junto ao Museu Marítimo de Ílhavo, a Estátua do Homem do Mar, da autoria do escultor Celestino Alves André, é um grupo escultórico composto por um homem com uma figura feminina e uma criança, sobre uma embarcação denominada “dóri”, com 3,5 metros de altura, com base circular de cerca de 3,2 metros de diâmetro, fundido em bronze de lei de lingote.
Numa descrição sucinta da Estátua do Homem do Mar, vemos a figura do homem curvado com as mãos crispadas nas linhas das artes de pesca, com o seu sueste, o casaco de oleado e a nepa, dentro do dóri balouçando nas águas frias dos mares gelados do norte oceânico e lutando para retirar do mar o seu sustento, numa luta diária, de que não podia ficar dissociado da espera e angústia familiar causada pela sua ausência. É assim que surge o elemento feminino carregando uma criança nos braços, numa relação directa do pescador com a família e o ganho que servia de sustento subjacente à causa de profissão tão difícil e tão sofrida.
É com os olhos postos num pedaço de papel, a carta, que a figura feminina com a criança ao colo, recebe a notícia do que se passa a bordo, de recomendação de recato à esposa e a solicitar notícias da terra. A mulher une-se aqui à actividade do Homem do Mar, que ao segurar a criança, aparece como uma figura religiosa muito forte das gentes do nosso litoral.»
Texto publicado no boletim Viver em Ílhavo, Agosto de 2006
 
Vivemos hoje num tempo em que em média, quase cada habitante em Portugal possúi um telemóvel e meio. Nunca foi tão fácil comunicar à velocidade do “instantâneo”, seja com telefones ou internet. Por isso cada vez menos as pessoas têm presente o que significava escrever uma carta e ficar à espera de resposta durante dias, semanas ou meses, dependendo das situações, na ânsia do que virá do outro lado. No caso do tema desta bela estátua, significava meses e podia não haver resposta até à chegada do bacalhoeiro que muitas vezes trazia más notícias... e menos homens. Correio entre os pescadores e Portugal não existiu sempre e antes dele o rádio também só por volta dos anos 30 (salvo-erro) começou a ser instalado. Imagine-se pois antes disto, tempo de lugres à vela e campanhas de 6 meses de silêncio entre os dois lados do Atlântico, a agonia que para muitos não terá sido. É na minha opinião mais um factor de relevo à coragem destes homens e famílias.
Espero em breve ter oportunidade de visitar Ílhavo e o Museu Marítimo, sem perder a oportunidade de contemplar esta estátua, pois agrada-me muito. Em tempos de abstrações artísticas um pouco por todo o lado, que na verdade só o artista entende e custam os olhos da cara ao contribuinte, esta obra é das que eu gosto, de mensagem óbvia e clara, “sem espinhas” (com respeito ao bacalhau na linha do pescador!). Seja quem for que olhe para ela, percebe de imediato a que se refere. Julgo que o título da obra deveria mencionar em específico a pesca do bacalhau, pois “Homem do Mar” tem muitas variantes e não se pesca só à linha e em dóris. Há homens do mar que dormem todos os dias em casa, os que chegam ao fim-de-semana ou os que alam redes da praia. No contexto da antiguidade da pesca do bacalhau pelos Ilhavenses e restantes Portugueses, não será por certo o título a fazer destoar toda a obra. Como disse, o trabalho está excelente.
foto de Rui Jesus


publicado por cachinare às 08:08
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1 comentário:
De jaime pontes a 14 de Janeiro de 2011 às 12:36
Ver esta foto , é recordar os tempos dos bacalhoeiros ,desses homens que pelo menos em dois séculos , pescaram e carregaram Navios de bacalhau , antes os veleiros que imagino em que condições eles faziam as viagens para os mares dos nevoeiros das tempestades e dos gelos ,veleiros de três mastros e quatro que ao içarem velas e com ventos favoráveis eram autênticos corsários dos mares e assim andavam seis meses nessa pesca longínqua sem condições nenhumas de se dizer humanas ,mas andavam porque era preciso alimentar bocas em casa e um homem sente o quão dificil ver os filhos chorar por pão ,era assim ontem e continua hoje ,mas de outra maneira hoje as novas tecnologias ja empreende melhores condições de trabalho em tudo que é profição ,passam os anos, e felizmente ainda temos entre nós homens que deram as 30 viagens mais e menos ao bacalhau, e recordam com nostalgia uns ,outros com um encolher de ombros ,por isso esta foto diz muito aos homens que la andaram e aqueles que sabem bem o significado desta bela escultura embora não se me afigure bem de todo até porque o homem ao alar o tról está no lado contrário ,normalmente era do lado direito que se alava o tról a não ser que fosse destro ou esquerdo ,mas no total está mais ao menos e ainda bem que alguém se recordou de chamar atenção que existiram os bacalhoeiros que em duas centenas de anos alimentaram Portugal com o tal fiel amigo que a muitos custou a vida e não só ,um BEM -HAJA ao Museu de Ilhavo ... Jaime Pontes Pião !


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