Segunda-feira, 21 de Fevereiro de 2011
A nova fanequeira de Vila Chã - Dia 1.

13 de Setembro de 2010, Segunda-feira

 

Diálogo em Vila Chã, entre dois construtores navais tradicionais – Os moldes

 

Este diálogo tem como objectivo a construção de uma cópia da embarcação S. Mateus tão próxima quanto o possível da embarcação original, construída em Vila Chã por Mestre Caseiro, tio-avô de Benjamim Moreira, em meados dos anos 40. Neste processo os dois construtores viverão experiências comuns ao mesmo tempo que a cópia do S. Mateus se transforma na documentação dessa embarcação. Gunnar Eldjarn aprenderá com o mestre português um pouco da tradição portuguesa e de como essa tradição é comunicada a outro carpinteiro. Isto permitir-lhe-á aprofundar a visão que já tem da tradição europeia ao mesmo tempo que experimenta um pouco do modo de vida desta costa portuguesa.

Benjamim Moreira nasceu em Vila Chã em 1949. Aí estudou e aos 13 anos começou a trabalhar na companha do pai. Aos 15 anos, o tio-avô, mestre Caseiro que aprendera arte com mestre Lourenço, pede à mãe que o deixe aprender a arte com ele. Oferta aceite o trabalho inicia-se imediatamente no estaleiro familiar até que as encomendas começam a escassear. Regressa à faina do mar, com o pai. Meses passados Mestre Conde (que também havia aprendido a arte com mestre Lourenço, bisavô de Benjamim Moreira) diz à mulher que vá à praia oferecer-lhe trabalho. Novo período no estaleiro até que, mais uma vez, o trabalho escasseia.
Cumpre o serviço militar na Guiné. Regressado emigra para a Alemanha onde permanece ano e meio. Regressa a Portugal por altura do 25 de Abril de 1974 retomando a actividade na construção naval, já como responsável do seu próprio estaleiro. Construiu mais de uma centena de barcos em madeira, incluindo o do Instituto de Socorros a Náufragos, nos anos 80. Miguel, o segundo filho nasce em 1975. A mulher Conceição ajuda-o pelas manhãs, transportando madeira e fazendo cheio nas cavernas (aguentar por dentro enquanto o mestre mete os pregos e repuxa). Pelas tardes vai trabalhar para a fábrica Texas Instruments (entre as 15h00 e as 24h00). Miguel, o filho de ambos, fica no estaleiro; aos 5 anos passa as ferramentas e aos 7 já ajuda. Em 1995, em representação dos pescadores de Matosinhos, participa numa reunião no parlamento Europeu sobre as pescas e os novos subsídios à construção em fibra. Regressado constrói o primeiro barco em fibra para o pescador Lero da praia de Angeiras. Em pouco tempo renova toda a frota das praias de Vila Chã e Angeiras.
Em 2008 encerrou a empresa depois de um período de estagnação da actividade.
É actualmente Presidente da Junta de Freguesia de Vila Chã.

Gunnar Eldjarn nasceu em Oslo em 1952, cidade onde fez os seus estudos. Em 1972 mudou-se para Tromsoe e em 1975 começou a trabalhar com um construtor naval. Entre 1976-1978 frequentou a Escola de Construção Naval perto de Bodo e desde então dedicou-se completamente à actividade de construção naval tendo aprofundado o seu conhecimento junto de vários construtores navais tradicionais entre Hardanger e Finmark. Em 1993 foi convidado pela Universidade de Tromsoe para preservar o saber fazer e o conhecimento desta tradição, por um período experimental de 3 anos. Em 1996 a Universidade confirma o interesse no seu trabalho e Gunnar Eldjarn passa a integrar permanentemente os quadros da Universidade. Viajou e conheceu muitos companheiros de profissão, sobretudo nos países nórdicos. Este workshop/diálogo em Vila Chã foi antecedido pela participação em outras actividades no âmbito do projecto Celebração da Cultura Costeira/EEagrants. (www.eldjarnbaat.no)

 

A embarcação S. Mateus L. 1122 C. propriedade da Associação Barcos do Norte já foi trazida para o estaleiro. Benjamim Moreira começou com os trabalhos e cortou alguns moldes no domingo, de modo que segunda-feira, o primeiro dia, é já continuação de um pensamento posto em marcha. Cada molde vai sendo, individualmente, afeiçoado à caverna e a manhã decorre nesses trabalhos.
No fim da manhã Benjamim Moreira propõe a visita a uma embarcação similar para estudar alguns pormenores e comparar. As embarcações foram reparadas de modo diferente e são um testemunho precioso de como cada barco é um caso.
O S. Mateus levou uma quilha e roda de proa nova. Duas cintas novas de que resultou mais 4 cm de altura na embarcação. E ainda vários enchimentos da proa, bancos e gatos assim como verdugos, talabordas, remadouras, boçarda e gaiva da proa.
Durante esta visita iniciou-se a discussão acerca de pormenores da cópia em execução.
Pela tarde, já com o barco no estaleiro, os moldes foram acabados e aperfeiçoados. Usaram-se serras eléctricas e manuais. Mestre Benjamim Moreira demonstrou como faria moldes sem um barco modelo.

 

Durante o dia recolhemos as seguintes expressões:

 

Respeitar a linha – Deixar o risco bem visível no molde (e na peça) depois de serrados.

A linha é testemunha – Ao ficar visível a linha serve para verificação por terceiros da exactidão do trabalho. No estaleiro do tio-avô Caseiro era assim que se verificava o trabalho do empregado.

Riscar de princípio – "Riscar o liame usando as formas de risco que os mestres antepassados ensinaram a partir das quais se pode fazer mais qualidades de embarcações" [quer tamanho quer formas diferentes].

 

 

texto e imagens – Projecto CCC – Celebração da Cultura Costeira.

 



publicado por cachinare às 08:13
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