Segunda-feira, 13 de Junho de 2011
Orgulho de ser mestre da Lancha "Fé em Deus".

 

«Brilham-lhe os olhos mal começa a falar da Lancha Poveira do Alto. A “Fé em Deus” é o seu orgulho, uma parte da sua família, como fez questão de frisar. Aos 75 anos, Manuel Agonia, o mestre Nia Preu como é conhecido entre a classe piscatória, leva 20 anos ao leme da réplica da embarcação tradicional da Póvoa de Varzim, que este ano, em Setembro, completa duas décadas.

“Comecei ao mar muito novo. Tinha dez anos”, conta Nia Preu. Na escola não era mau aluno, mas o mar, em terra de pescador, falou sempre mais alto. Embarcou, primeiro a bordo do barco do pai, depois, foi para Lisboa para a escola de pesca e daí, com 16 anos, rumou à Terra Nova e à Gronelândia a bordo dos bacalhoeiros.

“A pesca do bacalhau não se descreve por palavras. Os barcos saíam em Março de Lisboa. Havia a bênção dos bacalhoeiros em frente ao Palácio de Belém. Depois, eram seis meses no mar Terra Nova e da Gronelândia. Era uma vida muito dura. Os dias eram pequenos e fazia muito frio. Trabalhávamos muito”, recorda. Lá andou oito anos, a que se somaram, depois, mais três em Moçambique. Regressou à Póvoa e comprou o “Mares do Senhor”. Continuou ao mar. Seguiu-se uma curta passagem pela marinha mercante, na Holanda, e uma pequena experiência como motorista particular, ainda antes do 25  de Abril.

No pós-revolução voltou ao mar, no “Mar da Restinga”, onde navegou até 1992. Ainda antes de se reformar da pesca, Manuel Lopes, o na altura director da Biblioteca da Póvoa de Varzim, decidia levar a cabo a titânica tarefa de construir uma réplica da Lancha Poveira, que pudesse fazer jus ao passado piscatório do concelho e ser o orgulho da cidade. Nia Preu acompanhou a construção, foi, desde o início, um dos tripulantes e, desde há 18 anos, o mestre. “Tinha andado em barcos à vela, aqui à pesca da sardinha e tinha muitos conhecimentos de mar”, explica, justificando a escolha de Manuel Lopes para que ingressasse a tripulação.

Agora, Manuel Lopes faleceu há cinco anos e ninguém ocupa o seu lugar à proa da Lancha, mas a embarcação continua a sair da barra e Nia Preu continua a comandar as cerca de duas dezenas de tripulantes necessários para levar para o mar a Lancha Poveira do Alto. Dos 20 anos a bordo do barco, recorda inúmeras histórias e outras tantas peripécias. “Quando fomos para a Expo 98, em 1998, partiu-nos a verga ali ao largo de Aveiro. Improvisei e ainda conseguimos chegar à Figueira da Foz e, depois a Peniche, onde nos foram levar uma verga nova. Foi uma viagem cheia de aventuras. Demoramos muito tempo”, recorda, acrescentando que, só para movimentar o mastro da lancha, são necessários sete a oito homens.»

 

artigo de Ana Trocado Marques - Jornal de Notícias, 8 de Junho 2011.

via Lancha Poveira do Alto.



publicado por cachinare às 19:36
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