Segunda-feira, 26 de Setembro de 2011
U-155 e o naufrágio do iate “Rio Ave” - 25/03/1917.

«Passaram-se os factos que vamos narrar no mês de Março de 1917.

O porto de Ponta Delgada tinha então, naqueles momentos trágicos da guerra, um movimento extraordinário. Aviões norte-americanos voavam sobre a cidade e vinham, até ao largo, reconhecer os navios e vapores que pretendiam demandar a barra. Um submarino da mesma nacionalidade estava de vigia à entrada do porto artificial e, encostada ao monitor “Tonopah” que içava o pavilhão do contra-almirante que ali tinha a sua base, encontrava-se a “Ibo”, a pequenina canhoneira portuguesa que orgulhosamente içava o pavilhão do almirante português, sob o peso do qual parecia ajoujada. Era a outro navio da esquadra portuguesa no mar dos Açores, ao velho “Vasco da Gama”, que pertencia o pavilhão de almirante, mas que ausente, em fabrico no porto da Horta, o cedera ao pequenino barco de guerra que sob o comando do então capitão de fragata Correia da Silva (Paço d´Arcos), tão importantes serviços prestou.
Todo este aspecto bélico era de molde a infundir confiança aos onze tripulantes do iate “Rio Ave” que logo ao dealbar começou a preparar para a largada, e ao princípio da tarde do dia 22 se fêz ao mar, com destino a Lisboa... ou onde a Deus aprouvesse que aportassem os seus tripulantes.
O Sol escondia-se no horizonte. O “Rio Ave” corria ligeiro impelido por vento de feição. A quietude a bordo era enorme, nada mais se ouvindo do que o assobiar do vento no cordeame e, de meia em meia hora, as pancadas metálicas da sineta, indicando tempo que passava. Era o único sinal da presença do homem na imensidade do mar. Com as velas todas em cima e um luar espelhado, que nas águas punha reflexos estranhos, aquele silêncio impressionava.
A bordo dum navio de vela e dum pequeno navio a que faltavam todos os confortos da navegação moderna – onde a vida é mais dura e a rota mais difícil – como em nenhuma outra parte, uma estreita solidariedade une os homens e, mais do que em qualquer outro lugar, eles se sentem irmãos.
O capitão, embuçado num velho capote, velava em silêncio, perscrutando o horizonte. O timoneiro, atento, não desprendia os olhos da agulha, enquanto à proa, o vigía, encadeado pela fosforência da vaga, procurava ver mais além. O restante da tripulação dormia. Tendo por únicos companheiros o céu imenso e o mar sem fim, aquelas noites a bordo convidavam a pensar na fragilidade das coisas humanas.
Passou a primeira noite da viagem e a aurora veio incutir novos ânimos. Assim, calmamente, decorreram três dias, até que dois tiros de canhão vieram interromper uma viagem iniciada sob tão bons auspícios.
Ao meio-dia as observações tinham indicado que 365 milhas já tinham sido percorridas, desde que o barco deixara Ponta Delgada. Entre os tripulantes reinava a melhor disposição; o navio não afrouxava na corrida e a tarefa de bordo seguia o seu curso normal. A sineta de bordo acabara de anunciar as três horas da tarde dum dia lindo.
Nesse instante o vigia assinalava a presença dum vulto estranho cujos contornos ainda se não definiam bem, visíveis por ante-a-ré da amura de estibordo. Alguns marinheiros precipitaram-se para a câmara em busca de binóculos – mas estes já não chegaram a prestar qualquer serviço. Dois tiros de peça disparados sobre o “Rio Ave”, anunciavam que se tratava dum submarino alemão.
A bordo do “Rio Ave” – acima de tudo, marinheiros portugueses de antes quebrar que torcer – pensou-se, ainda, em resistir, fugindo com o navio, mas em breve se verificou a inutilidade de tal esforço, pois o inimigo surgira por sotavento, anulando de ante-mão qualquer tentativa de resistência. Só restava um recurso: - abandonar o barco.
Mas a tentativa de fuga – e de tentativa não passou – demorou alguns minutos, embora poucos, e tanto bastou para que do submarino voltassem a alvejar o iate com mais nove tiros que quasi por completo o desmantelaram.
Já debaixo de fogo vivo, foi lançado ao mar um pequeno bote, pois que nem baleeira havia a bordo, e nele foram empilhados os onze homens da tripulação que imediatamente armou os remos. O comandante do submarino, falando com grande facilidade o português, intimou o comandante do “Rio Ave” a entregar-lhe a documentação de bordo, e depois fez à tripulação o costumado interrogatório a que esta respondeu como lhe convinha – subtraindo à curiosidade do interrogador a veracidade das informações.
Foi grande a admiração de todos os tripulantes quando um oficial alemão os informou de que seguiriam para a Alemanha, a bordo do submarino, como prisioneiros de guerra. Os tripulantes do minúsculo “Rio Ave” tornados prisioneiros de guerra quando é certo que entre todos se não encontrava uma só pistola por mais civil e apaisanada que fosse – era caso para causar surpresas.
Formulado o pedido do capitão português para que o deixassem seguir em busca de socorros ou da morte, consentiu o oficial inimigo em que partissem. Perguntou, ainda, se a bordo havia água ou mantimentos, e como a resposta fosse negativa deu as suas ordens e o submarino começou a navegar para o iate abandonado, levando o bote a reboque, com o nobre intuito de recolher alguns mantimentos para os náufragos. Apesar de inimigo – era marinheiro.
Com a grande agitação do mar, o submarino navegava com precaução, para evitar que o bote se enchesse de água. Mas como o iate já ia longe, levado pela corrente, tiveram que desistir do nobre intento, e então, do submarino, cortaram o cabo de reboque. Do barco de guerra alemão dispararam seguidamente 19 tiros de canhão sobre o “Rio Ave”, que começou a afundar-se lentamente.
Depois a noite começou a cair silenciosa, trágica, negra, enorme. Daqueles onze homens nem um só albergava esperanças de fazer as 360 milhas que os separava de terra, as quais tinham que percorrer sem água nem comida, sem forças para dar combate aos elementos, sem energia para remar, sequer.
Aqueles homens entenderam ser seu dever de marinheiros lutar até ao fim com a morte e vencê-la – se para isso não lhes faltasse as forças. Foi nesse momento que o comandante mostrou todo o seu valor, encontrando palavras de esperança e de alegria – de alegria!... – para dirigir aos seus subordinados. Deve ficar aqui arquivado o nome desse homem que tão duramente sentiu a guerra e tão heróicamente se comportou. Chamava-se ele, o comandante, Joaquim Manuel Machado e tinha como piloto Manuel Celestino da Maia, experimentado e culto marinheiro; o contra-mestre era Angelo dos Santos Paula e faziam ainda parte da tripulação João Labrincha, João Saramago, João Maria Almendral e mais quatro marinheiros cujo nome se perdeu na névoa do passado, além do cozinheiro José Marquês que, quando lhe recordavam essas horas de tragédia, tinha sempre o comentário seguinte:
 - “Perdi a única oportunidade de visitar a Alemanha com passagens e hotel pago...”.
O vento impelia o frágil batel para a costa, enquanto o capitão e o piloto, melhores técnicos de navegação, vacilavam entre a certeza duma morte inevitável e a esperança duma salvação possível. Assim se passaram três dias, e ao fim do último uma calamidade veio aumentar a tragédia: o vento acalmou completamente. Só o remo podia dar movimento ao bote de salvação – e a remos continuou daí para diante a viagem.
O silêncio que reinava a bordo era impressionante. Os náufragos tinham entrado no último dia duma vida infernal, e os seus semblantes marcavam bem o horror da tragédia que estavam vivendo, capítulo novo da lenda da “Nau Catrineta” – onde nem sola havia para deitar de molho. Dir-se-iam espectros vogando à mercê da fantasia caprichosa dum deus cruel e deshumano, e somente os remos, mergulhando na grande massa líquida com uma regularidade de autómatos, indicavam que a bordo a vida se não apagara de todo. Para aumentar a desdita que já era grande, o vento ameaçava rondar para SW e isso era a certeza de que seriam impelidos para mais longe de terra – morte certa e sem glória.
A situação era dolorosa, inconcebível, trágica. As forças totalmente esgotadas, os cérebros toldados pelo delírio da febre, natural em quem não comia havia sete dias, tornavam a vida daquelas vítimas da guerra  - pobres derrotados sem combate – num pavoroso e alucinante quadro de desespero.
Até que um grito a todos veio despertar daquele entorpecimento de espírito tão vizinho da morte, e que parecia ter tomado todos os tripulantes do frágil barquinho. Esse grito, que enche de júbilo todos os corações, que é uma alvorada de esperanças e promessas para os felizes viajantes duma cabina de luxo, era para aqueles onze homens, que tantas vezes tinham sentido a morte junto de si, como que uma benção de Deus enviada das alturas. – Terra”... Terra”... – palavra que em si encerrava a certeza da vida para quem dela há muito tempo descria. Aquela palavra nunca fora pronunciada com tanta alegria e emoção. Ela era, nesse momento, fiadora da salvação das onze vidas.
A embarcação era agora impelida por uma força mais vibrante, e naqueles semblantes cadavéricos, olhos em chama, brilhava uma alegria nova. Era domingo de Páscoa!
Às 18 horas os náufragos tocavam terra, onde galhardamente os recebeu a população. Tinham aportado na praia da Vila Baleeira, em Porto Santo, onde encontraram os náufragos da chalupa “Beira Alta” que, vítimas duma tragédia semelhante, ali tinham aportado também. Passados dias embarcaram no caça-minas “Augusto Castilho” já do comando do heróico Carvalho Araújo, que os conduziu ao continente.»
In “Ao Serviço da Pátria”, Costa Júnior.
 
O iate “Rio Ave” foi afundado pelo submarino Alemão U-155. Curiosamente com o nome do rio da cidade onde nasci, Vila do Conde, este iate foi construído nos estaleiros de Fão em 1904 para a Parceria de Pescas Portuense. Numa altura em que Portugal tentava fazer renascer a pesca do bacalhau, foram várias as pequenas escunas como o “Rio Ave” que iam para a Terra Nova. Começou as campanhas longínquas em 1910 e durante os meses de Outubro a Março trabalhava no comércio. Em tempo de pesca a tripulação rondava os 30 homens, enquanto que na cabotagem os 11, tal como se verificava na altura do afundamento.
A 1ª foto aqui mostrada não é o “Rio Ave” (que arvorava 2 mastros) mas sim o “Helvetia”, uma escuna Americana em patrulha em 1918 cuja função era atrair submarinos Alemães à superfície. A foto é tirada de um submarino Americano. Coloco-a aqui por mostrar a semelhança do que se terá passado com o “Rio Ave”.
A foto 2 mostra o tipo de submarino que afundou o “Rio Ave”, do tipo U-151 e a foto 3 é o próprio U-155 no rio Tamisa em Londres em 1919, pois fora capturado a 24.11.1918 e depois exibido em vários portos britânicos. Seria desmantelado em 1922 em Morecambe. Estava ao serviço há um mês quando afundou o “Rio Ave” e todo o episódio se assemelha muito ao de 1942, com o lugre “Maria da Glória” sobre o qual já escrevi.
Aconselho a visita ao blog http://naviosenavegadores.blogspot.com onde se pode ler o artigo na base deste, o qual contém também duas fotos do “Rio Ave”.


publicado por cachinare às 20:01
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4 comentários:
De Jaime pião a 29 de Setembro de 2011 às 09:10
Bom dia amigos leitores , depois de uns dias de férias voltei e aqui estou ,não deixaria de fazer a minha visita ao enorme blog que é o caxinas a freguesia ,pois que assim considero !
Esta história sobre o Lugre Rio Ave ,a mim me diz algo ,porque o meu Avô Fangueiro deu as primeiras viagens nele ao bacalhau ,depois do seu afundamento o meu Avô embarcou no Navio bacalhoeiro Lepoldina , assim eu me lembro do meu Avô contar esta e outras histórias doutros tempos da pesca do bacalhau ,e esta sobre o Rio Ave veleiro bacalhoeiro ,é de arrepiar ,que só por milagre na altura não se perderam 11 vidas ,ou não fosse dia de Pascoa o dia de Aleluia para esses bravos Homens ,assim se escreveu mais uma pequena página da nossa história sobre os nossos bravos homens dos mares os bravos marinheiros ,foram tempos que o tempo não apaga !


De Anónimo a 2 de Dezembro de 2011 às 18:47
Sr. Jaime, estive hoje nas Caxinas e gostei de o ouvir contar esta histório sobre o navio Rio Ave,por isso vim lê-la neste blog e adorei. Um grane abraço e até breve. Desejo-lhe um rápido restabelecimento dessa gripe


De liz a 19 de Outubro de 2011 às 20:18
my father in laws father is manuel celestion da maia. do you have any info on him


De Anónimo a 20 de Outubro de 2011 às 17:03
My father charles mauel da maia is the son of manuel celestion da maia, do you have any more info on him.


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