Domingo, 2 de Março de 2008
“Fairmorse”, o atribulado.
O “Fairmorse” era uma escuna do tipo do “Bluenose” de 39 metros de comprimento construído para a pesca nos Grandes Bancos com dóris em Lunenburg, Nova Escócia no Canadá. Foi construído pelos mesmos homens que construíram o “Bluenose” e era bastante conhecido pelos pescadores e entusiastas náuticos Canadianos.
Na verdade o “Fairmorse” nunca foi realmente considerado como uma embarcação dos Grandes Bancos como o “Bluenose”, pois era visto mais como um mestiço, construído no difícil periodo de transição entre a vela e o motor. Enquanto ainda operacional e quase como numa reflexão tardia, teve instalados dois enormes motores de cinco cilindros Fairbanks-Morse a diesel no que outrora fora o porão de carga do peixe. Nunca fora desenhado para ter motores. Os grandes propulsores de quatro pás giravam a angulos opostos de modo a libertarem o massivo leme de veleiro. Os construtores navais e pescadores locais abanavam a cabeça e resmungavam dizendo que o navio fora arruinado.
Mas os dias da vela estavam a acabar e o “Fairmorse” era um dos últimos do tipo “Bluenose” jamais construídos. Talvez como um sinal dos tempos, o seu nome não deriva da esposa do Capitão ou de algum cidadão importante da vila mas sim dos motores que agora possuía.
Somente durante alguns anos pescou nos Grandes Bancos e no Georges Bank, passando depois a navio de carga. O mastro de proa foi diminuido, tal como o pau de retranca que foi adaptado à carga. O mastro principal foi removido e uma enorme cabina de convés instalada, transformando-o de belo veleiro em estranho cargueiro, pois o seu casco alongado não comportava carga suficiente que desse lucro. Chegaram assim os seus piores dias e passou por várias mãos. Diz-se que transportara dinamite para os revolucionários na América do Sul e contrabandeava rum e armas para os gangsters Americanos durante a Proibição. Foi a Havana e regressou carregado de charutos de contrabando.
Durante as filmagens do filme “Captains Courageous” em 1937 foi usado nas cenas de interior da escuna “We´re Here” e nos anos 50 serviu de navio de investigação oceanográfica para o Ministério das Pescas. Por fim foi considerado demasiado velho, lento e difícil de operar e foi deixado ao abandono numa doca durante cinco anos até ser adquirido em 1971 no Norte da Nova Escócia por um grupo de entusiastas Americanos à caça de tesouros nas Caraíbas que trataram de o recuperar o melhor possível para as novas funções.
Depois de uma viagem com forte temporal rumo a Sul até Halifax na Nova Escócia, onde a embarcação foi notícia por toda a cidade uma vez que era semelhante ao “Bluenose II”, atracado a pouca distância, seguiu para Gloucester já nos E.U.A. De lá para Newport e de novo sob forte temporal, pois estava-se por alturas do Inverno, atracou durante um mês em Norfolk para reparações. Já no Golfo do México foi apanhado pelo furacão Agnes, ao qual sobreviveu, mas algum tempo mais tarde viria a naufragar na costa Leste de Cozumel no México. Parando repentinamente enquanto navegava, verificou-se que havia embatido num barco de pesca ao camarão afundado num baixio e que o casco tinha sido trespassado por um mastro de aço. Sem conseguir impedir a entrada da água, cortar o mastro ou inverter a marcha a tripulação meteu-se nos botes e dirigiu-se para a praia não muito distante. Terminava assim a história do “Fairmorse”, longe dos Grandes Bancos impalado no azul turquês do mar tropical. Comparado com outras escunas, o “Fairmorse” não teve uma vida fácil e as linhas com que foi construído cedo foram desrespeitadas nos usos que lhe deram.
 
A pintura acima é da autoria de Barbara Furhovde.
 
História completa (em Inglês) em crawford.b/Memoirs/Pirates, incluindo algumas fotos.


publicado por cachinare às 12:52
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