Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2012
“Bluenose IV”.

A escuna “Bluenose”, sobre a qual já escrevi anteriormente, é o símbolo da herança marítima da Nova Escócia e orgulho do Canadá, representado na sua moeda corrente e talvez o mais famoso veleiro do mundo na sua classe. Há cerca de 80 anos, recebeu o título de “Rei do Atlântico Norte” como campeão invencível do Troféu Internacional de Pescadores, bem como uma das escunas de pesca de maior sucesso do seu tempo, sendo Lunenburg o seu porto de abrigo. Desde a sua criação pela mão do designer W.J. Roué, ao lançamento a 26 de Março de 1921 no estaleiro de Smith & Rhuland em Lunenburg, passando pelas ilustres carreiras de competição e pesca nos anos 20 e 30, pela tenacidade a representar o Canadá nos E.U.A. e Europa, o “Bluenose” firmou o seu lugar na história do Canadá, aclamado internacionalmente.

Com o fim da indústria de pesca à vela e a II Guerra Mundial a provocar o fim das competições e mostras, o “Bluenose” foi desprovido dos seus mastros e vendido a uma companhia dos E.U.A. para trabalhar em cabotagem nas Caraíbas, onde viria a conhecer o destino final ao embater num recife ao largo do Haiti a 29 de Janeiro de 1946. Durante mais de uma década, várias vozes se faziam ouvir para a construção de uma réplica que comemorasse o “Bluenose”, mas foi só quando uma corporação privada, a Oland & Son Brewery, assegurou os direitos a Roué que o “Bluenose II” se tornou uma realidade. O seu propósito primário seria a promoção da cerveja “Schooner” da Oland; passaria os invernos nas águas quentes das Caraíbas a servir de iate privado aos seus donos e anualmente participaria na Exibição das Pescas em Lunenburg.
O “Bluenose II” foi lançado a 24 de Julho de 1963 e serviu durante vários anos segundo os planos da Oland. Quando a Oland Brewery foi vendida à Labatt Breweries do Ontario em 1971, os seus novos donos doaram a embarcação à Província da Nova Escócia por um dólar. Nos 20 anos seguintes seria o veleiro embaixador da Nova Escócia, representando-a em portos da costa Leste e Oeste da América do Norte e nas Caraíbas. Em Março de 1994, o governo da Nova Escócia anunciou que o “Bluenose II” necessitava de um restauro que custaria mais de 1 milhão de dólares, algo que não estavam preparados para levar a cabo. Foi então decidido que a escuna passaria a atracção turística atracada entre Lunenburg e Halifax. Planos a longo termo eram de lhe retirar toda a aparelhagem e levá-lo para alto mar onde seria afundado.
A esta notícia reagiram 3 grupos privados em nome do “Bluenose” com dois propósitos: 2 grupos anunciaram iniciativas para um novo “Bluenose” e o terceiro formaria o “Salvem o Bluenose II”. O “Bluenose II Preservation Trust Society” seria fundado por membros do sector privado para salvar a escuna e durante o Inverno de 1994-95 com sucesso reuniram os fundos  e terminaram o restauro a tempo da Cimeira do G-7 de 1995 em Halifax. O restauro custaria cerca de $500.000 dólares. A escuna operaria até 2004, altura em que as suas operações passaram para a “Lunenburg Museum Society”. Em Agosto de 2006, após exaustiva investigação e conversações com detentores de direitos, nasceu o projecto para o lançamento de uma segunda réplica desta embarcação icónica de modo a mantê-la para as próximas gerações. Curiosamente e por motivos legais de detenção de direitos, não foi permitido o uso da designação “Bluenose III”, razão para a escolha de “Bluenose IV”.
Os preparativos para o início da construção começaram no Verão de 2006. Enquanto que os planos originais foram modificados para a construção do “Bluenose II”, o “Bluenose IV” seria esteticamente fiel como réplica do original, excepto em detalhes mínimos para corresponder aos códigos marítimos actuais. O primeiro verdadeiro passo foi determinar o construtor, não um qualquer estaleiro naval, mas sim um que pudesse construír uma embarcação com tamanha tradição e integridade como esta. Após extensiva procura, o escolhido foi o estaleiro Snyder, em Dayspring, Nova Escócia. Neste estaleiro trabalham actualmente descendentes dos homens que construíram os dois “Bluenose” anteriores. O lançamento à água estaria previsto para 24 de Julho de 2010, 47 anos exactos após o nascimento do “Bluenose II”. No entanto a falta de fundos, deitou por terra todo o projecto pouco depois de começar.
 
Os propósitos do “Bluenose IV” eram em muito semelhantes aos que o lugre bacalhoeiro “Santa Maria Manuela”, actualmente restaurado em Portugal e destinado a inúmeras funções de promoção da sua região, instrução naval, pesquisa científica, divulgação da sua história entre outros. No entanto o “Bluenose IV” tinha uma vantagem que é o facto de ser construído de raíz, réplica exacta do original e em madeira o que favorece vários outros planos de aprendizagem e instrução à construção naval em madeira, algo que com o “Santa Maria Manuela” não pode acontecer. Durante a construção do “Bluenose IV”, o público, incluindo grupos escolares poderia ver como os trabalhos decorreriam, com guias e todo o projecto estaria inserido numa vertente histórico-turística da região, algo que gostaria de ver no futuro a acontecer em Aveiro relativamente à pesca do bacalhau, uma das nossas grandes heranças marítimas.


publicado por cachinare às 20:08
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4 comentários:
De David Luna de Carvalho a 8 de Fevereiro de 2012 às 01:41
Olá,

Haverá possibilidade de ter acesso aos planos publicados num tamanho um pouco maior?

Obrigado


De cachinare a 8 de Fevereiro de 2012 às 23:26
Olá David.

Pode encontrar no link abaixo os desenhos um pouco maiores.

http://modelshipbuilder.com/page.php?26

Um abraço,
A. Fangueiro


De David Luna de Carvalho a 9 de Fevereiro de 2012 às 21:19
Obrigadíssimo e um abraço

David


De Anónimo a 9 de Fevereiro de 2012 às 17:58
Me desculpem, mas não vou falar do Bluonose, nem
tão pouco do texto anexo, que só amanhã irei ler.
Já que ainda ninguém o fez, quero aqui registar que faz agora 50 anos que vi chegar à Base Naval do Alfeite o navio escola Sagres, ex-libris da Armada (e de Portugal).
Igualmente faz 75 anos que este navio foi construído nos estaleiros alemães, sendo aprisionado pelos Aliados, quando da Grande Guerra de 1939/45.
Este navio, ex Guanabara, foi comprado ao Brasil, para substituir a então vélhinha Sagres, onde então tirei a especialidade de Manobra.

Para finalizar, acrescentarei que a «minha» vélhinha
já desarvorada, em Portugal, preparavam-na para ser
vendida a um qualquer desses famigerados sucateiros, até que felizmente acabaria por ser comprada pela Alemanha, que a transformou num magnífico Museu Marítimo, no porto de Hamburgo.

Albino Gomes

PS: Por favor alguém é capaz de nos informar,
Onde para o nosso caxineiro Museu do Mar?

Pobre António Vilacova.
Se soubesses, quantas voltas darias na cova . . .


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