Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2012
27 de Fevereiro de 1892 – Foi há 120 anos.

«Como se moureja, como se lucta, vive e como se morre! O mar com a magestade das suas ondas, offerecendo a opulência dos seus thesouros, convida e attrahe. O pobre pescador que teve um berço humilimo no palheiro da praia onde foi embalado pelo coro ingente e cadenciado das vagas, afaz-se a encarar aquelle espaço enorme que tem por linha extrema o anil de côo, e afoita-se a saltar para o batel donde lançará as redes e buscará na empresa de mil perigos um pouco de pão.

Triste destino! A vida que o ennamora e os lucros que às vezes o tentam, dão-lhe por prémio um horrivel dilemma. O mar o poupa, lá o espera a velhice com os horrores da fome, as inclemências da miséria, a areia por leito d´agonia, a rede por lençol, a vela por mortalha, os remos por esquife... a valla comum por monumento e o olvido por epitaphio!... Se affronta com mais audácia os perigos, a tormenta despedaça-lhe o barco e o oceano abre-lhe na cova d´uma vaga a irrecusável sepultura!
Tal é a existência e o destino do pescador!
Moureja, não de sol a sol, mas de perigo em perigo; lucta, não com os ardores do estio e os gelos do inverno, mas com o gigante que tem abysmos e eminência, baixios e resteas, pampeiros e tormentas; vive no desconforto e na anciedade; morre ao menor capricho da sorte!!!...
É verdade que tem a ameigar-lhe a existência o lar e a crença, a esposa e os filhos, tem a devoção pela imagem a quem dirije as prèces e o culto pela família para quem trabalha; mas da família está elle ausente por largos espaços, cheio de indecisões e de incertezas; da esposa e dos filhos está elle de contínuo a despedir-se sem saber se é por última vez que lhes diz o último Adeus; tem uma crença fervorosa na Virgem, mas como é incerto o futuro... as negras asas da tempestade toldam n´um instante o côo e o bramir da tormenta abafa a vos do mareante!
E porque elle vive assim, a sua história tem lances trágicos onde as dores e as lágrimas, a viuvez e a orphandade nos offerecem quadros tão desoladores como apresentam n´este momento a praia da Póvoa de Varzim e a da Afurada.
À vista d´isto, corações generosos onde irradia a centelha do Bem, transformae as lágrimas da vossa condolência em soccorro aos vivos e suffrágio aos mortos!
A horrorosíssima catástrophe de 27 de Fevereiro cobriu de negros tipos toda esta villa e repassou todo o país da mais viva e sentida dôr.
Ao relembrarmos essa tragédia pavorosíssima, que teve por epílogo a morte horrível de mais de uma centena de honrados e laboriosos pescadores, e d´aqui a miséria de innúmeras famílias, - a viuvez de muitas mulheres agora ao desamparo e a orphandade de muitas criancinhas que perderam quem, em duro labutar e em meio de perigos ingentes, lhes grangeava o magro sustento, - ao relembrarmos este horrível e tristíssimo acontecimento, marasma-se-nos a alma de fundo pesar e o coração repunge-se-nos de sustidíssima compensação.
É que nos parece ver ainda, logo ao princípio da tarde daquelle dia funesto, os bandos de mulheres que percorriam, umas loucas, em meio da mais alta afflição, as ruas da villa, - os cabellos em desalinho, as mãos erguidas ao céu, soltando gritos lancinantes, que commoviam até às lágrimas.
Na Lapa, a multidão enorme, que enchia o templo, supplicava, em altos brados e em choros convulsivos, a protecção do Altíssimo para os infelizes que luctavam desesperadamente com as vagas alterosíssimas. Que cena tão triste, tão pungente, presenciou então quem escreve estas linhas, que presidia alli a essas fervorosas preces! Que crenças tão vivas e tão edificantes!
Nas Cachinas então o espectáculo redobrava de horror. – Além, de pé sobre o resto da embarcação prestes a submergir-se, alguns (...)
 
Jornal “A Independencia”, 6 de Março de 1892 – Redactor e editor, Cândido A. Landolt
 
Fica em memória dessa catástrofe dos humildes hoje assinalada, a transcrição (no português da altura) desta 1ª página do jornal “A Independência”, 7 dias depois do sucedido. Espero poder de futuro ter acesso ao resto deste jornal, não só pelo resto do conteúdo, mas também porque interrompe precisamente nas “Cachinas”... .


publicado por cachinare às 10:39
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1 comentário:
De JAIME PIÃO a 27 de Fevereiro de 2012 às 18:15
Recordando esse dia nefasto do 27 de Fevereiro através das poucas leituras que nos chegam ,é por demais horroroso foram os nossos bisavós ,a 120 anos passados imagino a noite horrorosa que foi ,mas me parece que também aqui de Azurara ou Mindelo também aconteceu nesse nefasto dia ,li ou ouvi alguém contar algo sobre esse dia de naufrágio ,enfim tempos que o tempo não apaga !


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