Sábado, 14 de Abril de 2012
Ole Crumlin-Pedersen, 1935-2011.

 

«Ole Crumlin-Pedersen, fundador do Museu do Navio Viking, faleceu.

 

Na passada sexta-feira, 14 de Outubro de 2011, Ole Crumlin-Pedersen deixou-nos após um longo periodo de doença, com 76 anos. Ole Crumlin-Pedersen nascido a 24 de Fevereiro de 1935 em Hellerup, Dinamarca, dedicou a sua vida à herança cultural marítima, arqueologia marinha e navios antigos. Ele foi um pioneiro, que através da sua atitude profissional e quase inacreditável capacidade de trabalho, desenvolveu totalmente uma nova área de campo de trabalho na arqueologia. Ele mudou a nossa perspectiva do mundo passado, e deu-nos uns novos óculos para olhar para a história. O Museu do Navio Viking em Roskilde, impõe-se como a linha mais evidente daquilo que ele deixou para trás.

 

A notável carreira de Ole teve início com os cinco navios Viking do fjord de Roskilde, e a construção do museu em volta deles. Esta era uma obra pioneira, que requeria engenho, um pensar novo e cooperação através de fronteiras disciplinares. O resultado foi merecedor de admiração, e a metodologia passou a ser o modelo de trabalho em descobertas arqueológicas de navios por toda a Europa.

 

Ole fazia as coisas como se devia, respeitando o sistema. Ele não era conflituoso. Mas era, em todos os sentidos, pouco convencional e inovador. Com o seu ponto de partida na história dos navios, ele abordou áreas problemáticas como o sistema de impostos ou o culto e mitologia da Era Viking – inabalado pelos constrangimentos académicos que podem obstruir arqueologistas, historiadores e historiadores da religião. Isto deu à sua investigação uma leveza surpreendente. Ele ocupava-se com problemas e resultados, e na interpretação dos achados dos navios, ele passou para além das barreiras das fontes e disciplinas tradicionais, com mão certeira.

 

Ole era um estratega e tinha um sentido para as alianças que eram necessárias. Ele compreendia o significado de títulos e posições como ferramentas para que um trabalho fosse feito neste mundo. Mas não era presunçoso, o que é raro. Ele dirigia-se aos outros abertamente e esperançoso, e seleccionava-os baseando-se nos seus interesses, envolvimento, compromisso e capacidade de apresentar trabalho feito. Ele criou um ambiente vigoroso de gente capaz que trabalhava por uma causa – por vezes com um salário e na maioria delas sem nenhum. Ele aceditava na cooperação entre largamente diferentes pontos de vista e experiências no propósito em direcção a novos olhares, e era a inspiração, supervisor e mentor para muitas gerações de arqueólogos marinhos e outros com interesse no assunto.

 

Nós, que trabalhávamos de perto com o Ole, conhecíamo-lo como sendo um homem com uma missão. Profissional até ao tutano. Com um coração que batia ao ritmo das ondas a quebrar. Um homem que nunca se escusava ou que pedia muito aos outros. Orientado para uma meta e intransigente. Generoso e implacável. Sempre em movimento. Relações próximas não lhe eram coisa fácil. Mas significava para si imenso ver o que o seu trabalho significava para os outros – ainda mais para os jovens. E com o seu jeito brilhante para o que importava, ele era hábil a rodear-se de pessoas que preenchiam aquelas área nas quais não era bom.

 

A última vez que vimos o Ole no museu estava um belo dia de Agosto. O museu estava uma roda viva com funcionários, voluntários e visitantes, todos envolvidos no Festival do Vento e da Água. Barcos estavam a ser construídos, cordas a ser feitas, velas a ser cosidas. A doca estava cheia de barcos e alegria. No meio de tudo aquilo andava Ole com a sua filha. Com satisfação e orgulho, ele exclamara o que poderia ser dito sobre a sua vida de trabalho: “Imagina, nós criamos tudo isto!”»

 

 

Obituário por Tinna Damgård-Sørensen - Diretora do Museu do Navio Viking, Roskilde, Dinamarca.

foto e texto - Museu do Navio Viking, online.

tradução de António Fangueiro.

 

Ole Crumlin-Pedersen também trocou conhecimentos com o maior investigador no campo das embarcações tradicionais em Portugal do séc. XX, Octávio Lixa Filgueiras, nomeadamente na tentativa de decifração das origens do barco "tipo poveiro" e suas características norte europeias. O legado de ambos é porventura a principal base na qual assenta este blogue.



publicado por cachinare às 01:21
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1 comentário:
De JAIME PIÃO a 14 de Abril de 2012 às 11:58
Bom dia ,bom sábado e bom fim de semana para todos que passem por aqui por este inigualável blog .
Belo exemplo a deste Senhor que tem por nome Crumlin-Pedersen ,infelizmente já falecido ,mas para ele e outros como ele o nosso BEM-HAJA ,afinal são poucos mas em Portugal também os há ,Parabéns !


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