Domingo, 22 de Abril de 2012
Barcos tradicionais portugueses - Desde Inglaterra à Escócia.

 

«Outrora situado no canal e doca de Exeter, condado de Devon, em Inglaterra, o Museu Marítimo foi omitido por muitos como uma das principais atracções locais. Em 1969, uma colecção de 23 barcos e embarcações de vela pertencentes ao major David Goddard, foram exibidos, em conjunto com peças de diversas fontes, no novo Museu Marítimo de Exeter. O museu foi aberto por sir Alec Rose a 27 de Junho de 1969 e um grupo de escoteiros do mar transportaram sir Alec canal acima na réplica de uma barca real que fora usada no filme “Um Homem para todas as Estações”.

Na exibição, encontrava-se um dhow das pérolas, presenteado pelo regente do Bahrain, Shaikh isa Bin Sulman Al Khalifa, o governo do Koweit deu um dow de comércio de dois mastros e 120 toneladas, enquanto que um barco de junco do lago Titicaca e alguns coracles se encontravam também nas exibições iniciais. Havia vários barcos atracados no canal, como o rebocador a vapor “S. Canute”, construído em 1931 na Dinamarca.

Durante os anos 90, os armazéns que acolhiam o museu junto ao canal estavam a precisar de reparações, originando problemas financeiros e o museu viria a fechar em 1997.»

 

adaptado de: Museu Marítimo de Exeter, guias oficiais de 1969, jornais Express e Echo.

 

«O navio de 60 metros “The Shetland Trader” atracou na doca de Eyemouth, Escócia no passado domingo e na segunda-feira desembarcou a sua carga de 59 barcos de diferentes tamanhos e nacionalidades. Fazem parte da maior colecção de barcos tradicionais e clássicos da Grã-Bretanha (mais de 300) e foram trazidos para a sua nova residência em Eyemouth, desde a sua base temporária de Lowestoft, na costa de Suffolk, Inglaterra. A sua chegada é o primeiro passo para aquilo que poderá ser a maior atracção do Berwickshire de leste – um Museu Marítimo.»

 

adaptado de: Berwickshire News, 1-5-2002.

 

«Durante a última década, a Associação Internacional de Barcos à Vela de Eyemouth (EISCA) esteve a reunir o que será provavelmente a maior colecção do mundo de barcos, dentro de armazéns, a qual irá a 29 de Outubro próximo abrir portas ao público pela primeira vez. Alguns destes barcos têm séculos e cerca de 170 vieram da colecção do antigo Museu Marítimo de Exeter.»

 

adaptado de: Berwickshire News, 24-10-2011.

 

Este três pequenos textos resumidos servem para dar uma ideia geral das origens e quase colapso desta imensa colecção de barcos. No entanto, a principal razão deste artigo é o facto de entre esta colecção se encontrarem pelo menos 13 embarcações tradicionais portuguesas, algumas delas já nem existentes em qualquer museu em Portugal, o que os torna em peças extraordinárias. A página online da EISCA “O Mundo dos Barcos” (The World of Boats), indica terem ainda somente 187 barcos listados, dos cerca de 400 e outros tantos 300 modelos à escala. Abaixo deixo pois uma tabela com todos os elementos que encontrei nesta dita página, sobre os 13 portugueses que referi, não se sabendo se existem mais. De referir que os textos explicativos de cada embarcação são de boa qualidade, não obstante uma ou outra incorrecção natural, e parecem ter sido elaborados já em 1969. 

 

 

Tipo

Origem

Data

Nome

Dimensões (m)

 

 

Descrição

Bote Baleeiro

Ilha do Faial

1940

Eliza

C11,31-B1,95

Barco baleeiro de design americano, que durante a sua vida activa caçou 6 cachalotes. A caça ao arpão de cachalotes nos mares em redor dos Açores era a mais eficiente do mundo, embora pouco tenha mudado em 100 anos. Era também longínqua e a mais perigosa. Tal como nos dias do Capt. Ahab e a sua eterna besta Moby Dick, os Açoreanos ainda arpoavam a baleia à mão, ainda se debatiam contra ela pelo braço e ainda mudavam o arpoeiro pelo homem do leme para que este a matasse.

Barco da Xávega (de 4 remos)

Aveiro

-

São Paio

C15,88-B4,39

O barco da xávega é um tipo de barco de pesca lançado a partir da praia, com uma tripulação de 46 homens, 11 para cada remo. Outros 15 homens e 20 bois estavam encarregues no areal de puxar a rede. Já não existem barcos da xávega de 4 remos a operar em Portugal, embora os mais pequenos de 2 remos ainda se usem, com 8 homens por remo. Os arqueólogos consideram este barco ser descendente de embarcações fenícias que alcançaram Portugal desde o Mediterrâneo de leste cerca de 3000 anos atrás.

Dóri

-

-

-

-

Alguns dos homens mais rijos que o mundo conheceu, foram os pescadores-de-dóri, dos Grandes Bancos da Terranova e do Canal da Gronelândia. Embora pescassem durante o Verão, o clima nestas águas é sempre frígido e nunca ameno – e eles pescavam solitários nestes pequeninos botes, trazidos para estas inóspitas águas do ocidente europeu e América do Norte nos conveses dos seus navios-mãe.

Vinham em busca do bacalhau e todos os dias, quando o tempo o permitia, o navio-mãe largava os 30 a 50 dóris, cada um com um só homem, e já pela noite os içava para bordo de novo. Num só dia, um homem podia encher o seu bote duas ou três vezes, pescando com longas linhas com cerca de 500 anzóis, regressando ao navio à vela ou a remos, mas ao fim do dia o seu trabalho não estava terminado, pois era preciso limpar o peixe antes de o salgar no porão. Este método de pesca continuou até finais do séc. XX, desaparecendo em prol do arrasto.

Este dóri veio do lugre português de 4 mastros “Argus”, sobre o qual Alan Villiers escreveu o seu fascinante livro “A Campanha do Argus”. Agradecemos ao Sr. Albano Nogueira, que, como Embaixador de Portugal, abriu a Colecção Ellerman e nos presenteou com esta embarcação, trazida para Inglaterra pela Ellerman Container Line.

Valboeiro

Rio Douro

1977

-

C6,58-B1,83

O valboeiro era usado para a pesca ao sável e como barco de passagem entre comunidades das margens do rio Douro. Era mais fácil às gentes usar o barco do que trepar as margens do rio para alcançar as poucas pontes existentes na altura. Esta embarcação movia-se a remos por um remador de pé, de frente para a proa, de modo a poder ver os obstáculos na água rápida e ao longo das margens escarpadas e pequenas praias arenosas.

Enviada da Chávega

Lisboa

1927

-

C5,39-B2,16-P0,79

Sem descrição.

Meia-Lua

Costa da Caparica

1940

-

C8,23-B2,35

Os barcos denominados meia-lua eram usados para a pesca da sardinha e tinham uma tripulação de 8 homens. Tal como a maior parte dos barcos portugueses no museu, está extinto, e o seu actual substituto possúi proa e popa muito menos pronunciadas.

Bateira

Vila Nova de Gaia

1960

-

C8,20-B1,89

A bateira é provavelmente a forma de embarcação mais comum em Portugal, sendo encontrada ao longo de toda a costa desde Lisboa até ao norte do Porto. A espadela é segura ao mastro e mantida em posição do lado de sotavento, meramente com a pressão do barco.

Chata

Cascais

1973

-

C4,21-B1,71-P0,55

Estas coloridas embarcações eram usadas para pescar a partir da praia de Cascais, hoje uma cidade dormitório de Lisboa. Não havia dois barcos pintados da mesma maneira, e sendo leves, eram transportados acima e abaixo do areal por 6 homens, embora o fundo chato e a areia firme lhes permitisse deslizar sobre rolos de madeira. Neles se largavam potes e armadilhas ao marisco e peixe das áreas rochosas.

Varino

Rio Tejo

1970

Sotero

C19,57-B4,30

O varino e a fragata foram dos últimos tipos de barcos de transporte à vela a operar no rio Tejo e ambos deixaram de se usar por finais dos anos 70 do séc. XX. O “Sotero” foi trazido para Devonport de navio, na Ellerman Container Line.

Masseira

Viana do Castelo

-

-

C4,27-B1,71

Ao contrário da maior parte das embarcações portuguesas, a masseira não deve nada à beleza ou graciosidade, mas é sem dúvida muito prática. Curiosamente, é possível que seja, como um barco puramente português, mais antiga nas origens que qualquer um dos outros barcos. É tida como indígena do norte de Portugal e costa oeste de Espanha. A este respeito, são o equivalente aos Curraghs da Irlanda.

Netinha

Nazaré

1970

-

C4,82-B2,44

Este é um tipo de barco já extinto da Nazaré, a norte de Lisboa. Ao contrário de qualquer outro barco português, possivelmente é de origem francesa. A sua forma deve-se à necessidade de estabilidade, quando lançado contra o mar da praia. Tal como o meia-lua, a popa dos barcos mais recentes era menos lançada. Este barco passava a maior parte da sua vida na praia e era apenas lançado para transportar a rede para o mar, regressando de imediato para a praia.

Moliceiro

Aveiro

1974

-

C15,18-B2,80

A principal função deste barco era a recolha e transporte de algas, usadas como fertilizante, dentro da ria de Aveiro. No entanto era também usado para transportar palha e feno; por outras palavras, era um barco de lavrador. As algas (moliço) eram reunidas com ancinhos e acamadas dentro do barco, tarefa esta levada a cabo com a vela içada ou, à falta de vento, com uma vara até ao leito da ria.

Rabão

Rio Douro

-

-

C9,75-B2,07

Esta embarcação é uma versão mais pequena do barco rabelo e o seu leme é uma sofisticação local, necessária nas zonas rápidas do rio, pois ao contrário de um leme normal, este podia virar a direcção do barco apreciavelmente, quando este pouco avançava. É uma embarcação construída em trincado, mas apresenta diferenças significativas à forma de construção hoje encontrada no norte da Europa. Não possúi quilha ou sobrequilha; uma prancha central percorre todo o fundo e nas amuras, cada uma das pranchas se sobrepõe uma à outra e a última ao fundo.

Este barco foi adquirido pela EISCA em 1974, não se sabendo a data da sua construção.

 

De seguida ficam as imagens dos exemplares portugueses que consegui encontrar, sendo de referir que mesmo um dos crachás do museu original em Exeter ostentava o Barco de Mar português. As restantes fotografias abaixo são do Barco de Mar, Chata, Moliceiro, Rabão e Varino.

 

  
 

 

 



publicado por cachinare às 11:50
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1 comentário:
De barcos para venda a 24 de Fevereiro de 2014 às 21:59
grandes fotos


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