Quinta-feira, 20 de Março de 2008
A pesca num dóri, segundo o Capitão John Cary.
No que respeita a profissões difíceis, a pesca com dóris esteve entre as mais laboriosas, difíceis e arriscadas talvez de sempre. Longas horas, trabalho pesado, grande fadiga, espaço de trabalho apertado, extremos de tempo e mares em mudança repentina eram os aspectos mais previsíveis da arte. O que em terra seria uma falha sem problema, várias vezes era um erro fatal sob estas condições. Ocasiões fatais não eram limitadas ao erro humano, pois o alterar repentino dos mares e tempo podia trazer o desastre ao homem-dos-dóris mais diligente.
O Capitão John Cary de Essex, Massachusetts, que pescou em dóris e comandou as suas próprias escunas de pesca com dóris nos anos 30 e 40 a partir de Gloucester e Portland, recordou recentemente aqueles dias, quando sair em viagem numa escuna era “saber que podia-se não voltar”. Por outro lado, ele narrou o quão bonito podia ser pescar no Georges Bank com bom tempo, incluindo dias em que nevava. John Cary comandou entre outros, as escunas sem motor “Winifred M.” e “Dorothy and Kay”.
Embora o dóri tenha existido anteriormente, ganhou destaque quando as escunas começaram a levá-los para os Bancos à pesca de eglefim e bacalhau em meados do séc. XIX. De pranchas sobrepostas, pintado num laranja pálido com amuradas verde escuro e um grande número à proa, o dóri era inconfundível no seu tempo.
Os pescadores dos dóris trabalhavam em barcos de 5 metros e meio, por vezes a 120 milhas da costa. Medido pelo fundo, tinha pouco mais de 4 metros e de boca metro e meio. Desenhado para carregar peixe, eles eram ásperos, manobráveis, baratos e facilmente empilháveis no convés. O fundo chato ajudava na ondulação e extremidades altas tornavam-nos mais navegáveis e fáceis de manobrar quando carregados. Os dóris tinham duas extremidades, embora a popa tenha uma superfície à qual chamam de “lápide”. Através da popa havia um buraco, deixado aberto com os dóris empilhados pelo qual escorria a água. A tampa deste buraco também continha um orifício por onde passava um pedaço de corda atada em forma de laço por fora. Tal permitia ao pescador algo a que se agarrar em caso do dóri se virar.
Uma escuna de dóris típica de 37 metros levava cerca de 10 dóris. Eles iam empilhados e aninhados de ambos os lados do barco ao meio. Um dia de pesca iniciava quando o capitão anunciava a “hora d´iscar”. Os pescadores engoliam uma caneca de café, pegavam num pedaço de pão e começavam a cortar o isco. Iscar os anzóis era feito antes da alvorada à luz de velas ou candeeiros a óleo. No Inverno era feito no porão do peixe. No Verão, o corte do isco era também feito no topo da cabina e os homens cortavam o isco nos seus lados. Um aparelho normal para o dia era 3 ou 4 baldes de linha de trol. O balde, (um barril de madeira cortado ao meio) levava umas 10 linhas com 55 braças cada e cada linha levava 55 pedaços de linha mais fina com anzóis na ponta. Os anzóis eram iscados e bobinados dentro do balde. Dois bons pescadores podiam iscar 1500 em duas horas.
Os baldes preparados eram então levados para os dóris aninhados mal o dia começava a despontar a Leste. Os homens saltavam para o topo dos dóris de cima preparando-os colocando a tampa no orifício, carregando os remos, vela e aparelho. Baldes de trol, âncoras, linhas e bóias eram armazenados nas extremidades. Traziam também uma garrafa de água e uma caixa de madeira ou couro com bússola, nepas sobresselentes, um pedaço de carne seca ou pão duro e por vezes tabaco. O dóri levava uma buzina de nevoeiro em forma de cone e cada dóri tinha o seu sinal distinto, tal como a escuna. O truque para ser encontrado em nevoeiro cerrado era manter-se num sítio a mandar sinais à escuna.
Naquela altura vestiam-se da mesma forma, fosse Inverno ou Verão; roupa interior comprida, calças de lã e camisa de flanela debaixo doutra de lã. As mangas das camisas eram mais curtas, cortadas até meio do antebraço. Fazia-se isto para prevenir furúnculos ou feridas causadas pelo limo do peixe e areia nos punhos da camisa. Este limo e areia irritavam a pele, fechavam os poros e causavam infecção. Alguns homens-dos-dóris usavam duas ou três voltas de correntes de cobre à volta dos pulsos pois os sulfetos do metal funcionavam como antídoto às infecções do limo. Pedaços de tecido amarrados aos pulsos eram também usados. No Inverno usavam uma camisa de flanela extra, um par de meias extra e botas de pele de ovelha. As botas eram dois números acima de modo a que fossem rapidamente descalçadas em caso de um homem cair ao mar.
Provavelmente as peças de equipamento mais especializadas eram as bandas de linho tratadas com goma-laca e por vezes com óleo de peixe. Estas e os suestes eram usados para proteger o pescoço e a cabeça da água e tinham de ser re-tratados todos os dois meses.
Os dóris preparados eram içados e segurados por ganchos. A linha do fundo estava atada a uma âncora com uma bóia feita com um pequeno barril que tinha uma vara com uma bandeira numerada e balanceada para que se mantivesse ao alto. Quando o capitão apitasse, a bóia era lançada ao mar e à medida que a linha corria, lançava-se, a âncora e a primeira das linhas iscadas. Então baixava-se o dóri e a pesca tinha início. Com dois homens por dóri, enquanto o da proa remava a sotavento, o da ré largava o trol. Um pau de 50 cm era enfiado debaixo de uma ou duas bobines no balde, depois levantava-as e num movimento circular ia desbobinando-as, uma após outra. A última linha do balde era atada à primeira de outro balde. No fim do último balde, atava-se outra âncora, outra bóia de linha e outra vara numerada. As duas bóias com âncoras e linha de fundo entre elas era o trol.
Depois da largada, os dóris regressavam à escuna onde eram içados a bordo e empilhados no convés. Nesta altura, logo após o nascer do Sol, o cozinheiro gritava “pequeno-almoço” ou tocava um sino. O cozinheiro era um membro importante da tripulação. O pequeno-almoço eram ovos, batatas, peixe, carne, pão e bolo excedente. Eles comiam o mais que podiam e o mais depressa que conseguiam. Depois, lavavam o prato e a caneca e o próximo grupo da tripulação descia para comer na sua vez. A água para lavar não era muita e a maioria não se lavava até a viagem de regresso a casa. As condições de vida a borda da escuna podiam parecer rudes comparadas com o sabão antibacteriano e máquinas de lavar de alta potência dos nossos dias, mas germes não eram grande ameaça para estes tipos.
O capitão punha sempre a embarcação a correr com o tempo para baixar os dóris, para içar a primeira vez e para largar de novo. Os dóris eram largados contra o vento a 80 jardas da bóia de sotavento. De seguida ganchava-se a linha da bóia que era colocada na roldana do rolante do dóri. Esta roda de madeira dura encontrava-se do lado de estibordo numa amurada da proa. Os dois pescadores posicionavam-se, um à proa a alar o mais depressa que podia e o da ré a bobinar a linha. Umas tábuas específicas eram colocadas atravessadas entre o segundo homem e a popa do dóri, seguras nas cavernas com escoteiras. Estas tábuas continham o peixe apanhado encurralado na meia-nau e impediam que andasse à solta debaixo dos pés.
O homem da proa alava a linha, tirando a isca dos anzóis sem peixe. Por vezes usava nepas para fazer isto. Nepas eram pedaços de tecido à volta de corda dobrado em “V” por onde passava a linha ao alar, para proteger as mãos. Quando chegava a um pedaço de linha com peixe, agarrava no fundo da linha, sacudia-a e puxava-a à altura da anca direita, soltando o peixe nesse movimento.
Com bacalhau ou eglefim de tamanho médio procedia-se assim, mas com bacalhau maior ou em particular os alabotes cobertos de limo como eram e repentinos em movimentos, estes requeriam outros modos. O alabote de boca pequena gostava de bacalhau. Para contornar o problema do alabote John Cary dizia : “eles atiram-se para cima de um bacalhau e apertam-no no fundo até sufocar. Depois o alabote pode comer o bacalhau à vontade”. Um destes monstros de 90 quilos a brotar da água e a confrontar-se com dois homens num pequeno barco podia quebrar a rotina numa alada cedo pela manhã.
Alar era um trabalho desgastante, particularmente numa corrente forte ou mar vivo. Escunas de dóris também pescavam durante o mau tempo com ventos de 32 km/h e mar de 2-3 metros. Era trabalho exaustante em mau tempo e os homens nos dóris revezavam posições com frequência. O tempo podia tornar-se feio rapidamente e alguns dóris podiam estar a várias milhas da embarcação. A escuna estava por vezes no meio dos dóris com o capitão em vigia por sinais de mudança no tempo. Homens a limpar bacalhau podiam começar a ver pequenas pedras nas tripas e isto era tido como sinal de mau tempo a caminho para os pescadores. Quão mau ou próximo, não o sabiam, podia ser mais de um dia. O bacalhau engolia pedras para ganhar peso e se manter no fundo durante a passagem do temporal.
Naturalmente, “calma podre” e tempo limpo era o preferido, mas esta combinação raramente acontecia. John Cary dizia que “as suas condições de pesca preferidas eram durante a caida de neve. A água ficava calma e a atmosfera numa paz enebriante. Particularmente no Georges Bank, chuva também podia alisar o mar.”
Enquanto se largava ou alava o trol, os homens-dos-dóris iam de encontro a homens de outras escunas, trocavam novidades, rumores ou informações sobre quais as escunas onde podiam ir a bordo após a sua estar carregada. Um dóri podia carregar em mau tempo 450 quilos e com bom tempo 900. Uma embarcação de 10 dóris com dóris a pescar 800 quilos por largada, saindo para um segundo e um terceiro lanço, podia estar cheia em 3-4 dias. Quando um dóri estava cheio ou todo o trol alado, era remado ou vinha à vela até à escuna para descarga.
O peixe era garfado para dentro de quetes (caixas de madeira) no convés. Era depois cortado, limpado e lavado em baldes. Homens no porão armavam então calhas de madeira por onde o peixe limpo deslizava. O peixe era gelado e cuidadosamente arranjado em quetes, rabos com cabeças. Os homens que limpavam as entranhas, metiam-nas dentro de baldes cheios de água de onde retiravam depois os fígados que flutuavam. Estes eram metidos em barris, por vezes uma dúzia deles por viagem e vendidos a companhias que extraiam o óleo do fígado do bacalhau.
Às 5 da tarde tinha sido já um dia de 14 horas de trabalho. As escunas de dóris ficavam na pesca até estarem cheias ou se acabarem as provisões. No Verão havia sempre luz para uma terceira saída. No Inverno, uma lanterna de querosene era levada no dóri. Seriam 9 da noite quando regressavam do terceiro lanço. De seguida continuavam a preparar o peixe.
As viagens tinham uma média de 4-6 dias no Verão e 6-8 no Inverno. Os capitães variavam no seu saber e atitude. Os armadores variavam na pressão que punham em capitães e pescadores. Da viagem fazia parte a corrida para o porto. As velas eram içadas na esperança de ganhar a vantagem do mercado e de descarregarem o peixe no melhor estado possível. Esta parte da viagem, só por si, é uma outra história.
 
Texto baseado no artigo de Mike Crowe, Fisherman´s Voice, Junho de 1999.
Foto do dóri laranja da autoria de Paula Leslie.


publicado por cachinare às 10:33
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